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16/12/2014

Rosa rasteira & amarela pernalta



Centaurea luisieri Samp., Sabugal


De acordo com as regras da taxonomia, o nome desta asterácea rara deve ser Centaurea amblensis Graells, descrita em 1859 pelo naturalista espanhol Mariano de la Paz Graëlls y de la Aguera (1809-1898) nas Memórias da Real Academia de Ciencias Exactas, Físicas y Naturales de Madrid. O epíteto refere-se ao Valle de Amblés, na zona central da província de Ávila, vizinho da serra de Gredos onde esta planta também ocorre. Algumas Floras mantêm, contudo, a designação que Sampaio lhe atribuiu em 1916, a partir de exemplares portugueses que talvez tenha visto a sul do rio Douro, perto de Tabuaço. Sampaio escolheu o epíteto luisieri em homenagem a Alphonse Luisier (1872-1957), um jesuíta suiço que estudou os musgos da Madeira e da Península Ibérica.

A população das fotos, que só encontrámos porque o Miguel Porto e a Ana Júlia Pereira nos indicaram a localização, mora numa berma de estrada perto do Sabugal, na orla de terrenos cultivados que pareciam estar em pousio. Trata-se de um habitat de risco, em especial (e como já assinalou Franciso Clamote) pela "limpeza" regular dos taludes feita por entidades que não conhecem as plantas nem são informadas da sua importância ou raridade.

Esta herbácea é perene, de porte baixo, com uma roseta basal de folhas peludinhas, pinatífidas e de tom verde acinzentado; exibe no Verão, pelo que é então mais fácil de avistar, capítulos, grandes e redondos como pompons, de flores cor-de-rosa ou púrpura. É um endemismo ibérico, do noroeste da Península; as poucas populações conhecidas em Portugal são as registadas aqui.


Centaurea melitensis L.


A Centaurea melitensis, que é uma planta anual, é mais cosmopolita e fácil de encontrar. Não parece ser exigente quanto ao solo e aprecia bosques baixos e clareiras de matos. O epíteto também se refere a uma região, desta vez a ilha de Malta, que em latim se denominava Melita. As folhas são crespas, lanceoladas ou liradas, sésseis e de margens ásperas. O caule pode atingir os 80cm de altura e ao longo dele desabotoam inflorescências em geral solitárias, com espinhos longos a proteger flores pequeninas e amarelas. Vimo-la pela primeira vez na serra de Sicó mas também ocorre na Madeira e em algumas ilhas açorianas, onde é conhecida por cardo-beija-mão.

08/11/2014

Ficaram as vacas


Vaccaria hispanica (Mill.) Rauschert
Esta planta, única espécie do género Vaccaria, lembra-nos um Dianthus ou uma Saponaria pelo porte alto (até um metro de altura), as flores cor-de-rosa de pétalas ovadas e o tom verde-azulado das folhas sésseis e opostas; contudo, o cálice anguloso, feito de sépalas rijas, não deixa dúvidas. A inflorescência, em geral primaveril, é notável: é formada por pedicelos erectos tendo na base duas brácteas que parecem folhas anãs e suportando duas a cinco dezenas de flores, em arranjos triplos onde uma flor um pouco mais alta que as companheiras ocupa a posição central. Pena é que a planta esteja a desaparecer: é que ela é anual e aprecia o campo, sejam searas, terrenos cultivados ou pousios, e o nosso está em grande parte envenenado por herbicidas. Com tais práticas, matam-se as pragas mas também os polinizadores, e nem todas as ervas aguentam tais quantidades de peçonha. Há umas décadas a distribuição global da planta no hemisfério norte era a que consta deste mapa; mas, pelo menos no que se refere a Portugal continental, a situação piorou bastante. Vimos este exemplar no Sabugal há uns cinco anos, mas a população era diminuta, e em visitas posteriores não a reencontrámos. Teremos de a procurar em Trás-os-Montes e no Minho porque na base de dados Anthos há registo de populações espanholas perto destas províncias.

Os nomes comuns desta herbácea (hierba de vaca, cow basil) aludem às vacas que, diz-se, as ingeriam; pela parecença com os cravos, há também quem lhe chame prairie carnation; em português não há nome registado. Lineu designou-a Saponaria vaccaria em 1753, referindo-se o epíteto latino vaccaria também aos ditos ruminantes. Em 1768, Philip Miller entendeu que seria mais apropriado identificá-la como uma espécie do género Saponaria, S. hispanica. Sete ou oito nomes depois, em 1965, ganhou o actual, resultado de um compromisso que reúne o vaccaria de Lineu com o hispanica de Miller.

09/08/2014

Bicho com raízes


Doronicum plantagineum L.


Asseguram certas fontes, entre elas o portal espanhol Anthos, que em português este malmequer se chama raiz-de-bicho, numa provável ainda que misteriosa alusão ao seu carácter estolonífero. Essa informação não é corroborada por nenhum dos livros ou portais portugueses que pudemos consultar. É de facto estranho que uma planta rara e sem usos culinários ou medicinais conhecidos tenha merecido do nosso povo a graça de um baptismo. Que seja há muito usada como ornamental em países de onde não é originária (como a Inglaterra, onde está naturalizada desde o final do século XVIII) não é argumento pertinente, pois a beleza não enche a barriga nem serve para curar maleitas, e aqueles dos nossos antepassados que tiveram posses e vagar para manter jardins preferiram recheá-los com plantas importadas.

Se o alegado nome comum em português é uma invenção bem intencionada de quem nos quer enriquecer a língua, e certamente não é usado por ninguém, já o enigmático nome em inglês, leopard's bane, é de uso corrente para as várias espécies de Doronicum com firme reputação em jardinagem. São plantas vivazes com grandes capítulos solitários a rematar compridas hastes, que florescem no início da Primavera e se recolhem ao solo quando a estiagem aperta, e são adeptas da meia sombra proporcionada por bosques de folhosas. O Doronicum plantagineum, nativo de Portugal e da metade oeste da bacia mediterrânica (Espanha, França, Itália, Tunísia, Algéria e Marrocos), é, com os seus 60 a 80 cm de altura, dos mais elegantes do género, distinguindo-se pelas folhas ovaladas maioritariamente basais, com as escassas folhas caulinares quase abraçando o caule.

Já Abril tinha ficado para trás, e com ele o pico da floração, quando encontrámos, não sem ajuda, estes poucos exemplares de D. plantagineum na margem direita do rio Côa. A pesca da truta já foi uma actividade popular no troço do Côa em Sabugal antes de as barragens e a poluição desfalcarem a vida aquática. Como compensação, existe agora um viveiro de trutas onde se pode pescar, com sucesso garantido, mediante pagamento de bilhete. Nem tudo são perdas, pois talvez a vegetação ribeirinha beneficie por não haver tanta gente a pisoteá-la. E o Doronicum plantagineum, presente embora de norte a sul do país, é tão esporádico e escasso (ver aqui um mapa de distribuição) que qualquer local de ocorrência deveria ser salvaguardado.


amieiros (Alnus glutinosa) nas margens do Côa, em Vale de Espinho

24/03/2010

Nacionalismo vegetal

Carduus platypus Lange


Será que as plantas reconhecem as fronteiras entre estados? Para os botânicos amadores incapazes de interpretar com acerto uma chave de identificação inçada de termos abstrusos, era bom que a resposta fosse sim. Tomemos o exemplo deste cardo, fotografado no concelho raiano do Sabugal. Como foi encontrado em território português, deverá tratar-se do Carduus platypus, uma planta que ocorre nos dois países ibéricos. Se tivéssemos deparado com ele em Ciudad Rodrigo, que em linha recta fica a menos de 60 km do Sabugal, já haveria dúvidas acerca da sua identidade. Nesse caso poderia ser antes o Carduus granatensis, o qual, sendo praticamente igual ao outro, é um exclusivo do país vizinho. Mas a pergunta impõe-se: estarão as plantas impedidas de cruzar fronteiras? Fica a dúvida a roer-nos nesta era em que, mesmo para os humanos, as fronteiras intra-europeias (tirando as dos aeroportos) passaram a ser uma abstracção: edifícios alfandegários abandonados, sem filas de quilómetros nem guardas fiscais a vasculharem bagageiras. Ainda há poucas semanas, numa visita à Portela do Homem, no Gerês, pusemos o pé do outro lado e não notámos qualquer diferença. Por que haveria então uma planta de respeitar essa linha arbitrária que já nenhuma força policial controla?

Mas voltemos ao cardo e tratemos de o situar entre os seus semelhantes. O nome genérico Carduus não engana, mas há muitos cardos que não são Carduus. Alguns até são muito parecidos, como os que foram arrumados nos géneros Cirsium e Onopordum. De Carduus legítimos há cerca de 90 espécies na Europa, Ásia e África; umas 45 são europeias, e 10 delas ocorrem em Portugal.

O C. platypus, robusta herbácea bienal que pode atingir um metro de altura, destaca-se entre os seus congéneres portugueses por exibir as maiores inflorescências, com cerca de 5 cm de diâmetro. Além disso, as suas brácteas são recurvadas e muito longas, quase lineares, com as pontas aguçadas tingidas de roxo. As suas hastes, e também as suas folhas jovens, surgem recobertas por uma penugem esbranquiçada, mas as folhas ficam glabras ao envelhecer. Frequenta terrenos cultivados ou ruderais, sobretudo aqueles que foram sujeitos a perturbações recentes. No Sabugal vicejava alegremente num bosque recém-ardido, e é bem conhecida a predilecção dos Carduus pelos entulhos de fresca data.

29/07/2009

Gigantes da Beira



É o rio Côa que se vislumbra entre as ramagens deste cedro. Mais acima, na mesma ladeira, ficam o Museu e o Auditório municipais da cidade do Sabugal. Foi lá que decorreu, a 25 de Junho, a primeira parte do seminário Árvores monumentais - importância e conservação, de que o Pedro Santos publicou há dias na Sombra Verde uma reportagem em três partes (confira aqui, aqui e aqui).

A mascote não oficial do encontro foi a sequóia-gigante centenária que arrebita a sua elegante flecha no jardim contíguo ao auditório. Trata-se de uma árvore admirável, e foi graças às diligências do Pedro que esse carácter de excepção lhe foi reconhecido em Agosto de 2008, quando a Autoridade Florestal Nacional a declarou árvore de interesse público. É a segunda árvore do concelho do Sabugal que ostenta esse galardão; antes dela, em 2004, tinha sido classificado um dos veneráveis castanheiros que visitámos no passeio de 26 de Junho.


Sequoiadendron giganteum (Lindl) J. Buchholz

Já antes explicámos ao leitor as razões para nos sentirmos pequeninos face a estas sequóias, que são, no seu habitat natural (Sierra Nevada, na Califórnia), as mais volumosas árvores do mundo, e também das mais longevas. Em lugar de nos repetirmos, convidamo-lo a recapitular aqui a matéria dada. A sequóia do Sabugal, ainda longe de atingir o porte das suas irmãs mais velhas, vale como promessa. E é à conta dessa promessa (que a seu tempo cumprirá, se a tratarem bem) que vai tendo o ego bem afagado, como presença já habitual na blogosfera lusa.


Sequoiadendron giganteum - Parque do Hospital da Guarda

Há uma segunda espécie de sequóia (Sequoia sempervirens), também nativa da Califórnia, que, por se ter adaptado melhor ao nosso clima, se encontra em parques e jardins um pouco por todo o país. A Sequoiadendron giganteum, porém, originária de uma zona de montanha (entre os 1500 e os 2000 metros de altitude), prefere climas mais secos e frios. Em Portugal, as condições ideiais para o seu desenvolvimento parecem concentrar-se na Beira Interior, num triângulo com vértices na Guarda, no Trancoso e no Sabugal. Na cerca do Hospital da Guarda, antigo sanatório, há um conjunto de mais de cinquenta sequóias-gigantes plantadas na primeira década do século XX, num parque inaugurado pelo rei D. Carlos em 1907; a mais alta supera actualmente os 47 metros de altura. O parque será uma miniatura quase infantil das famosas florestas de sequóias na Califórnia; mas, por muito pequenas e poucas que sejam essas árvores na Guarda quando medidas por tão exigente bitola, são senhoras bem capazes de nos suscitar respeito e admiração.

11/07/2009

Sanganho


Cistus psilosepalus Sweet

Os arbustos do género Cistus deveriam ser obrigatórios em qualquer jardim no continente português: sendo plantas nativas, estão perfeitamente adaptadas ao nosso clima, não exigindo cuidados especiais e aguentando-se bem com pouca rega; além do mais, são bonitos e têm floração vistosa. Enquanto não for promulgada a lei que consagre essa obrigatoriedade e proíba os relvados-com-palmeiras característicos das «vivendas» dos subúrbios (já se fizeram leis mais descabidas), o modo de encontrar os Cistus é passear por aqueles pedaços de território ainda livres de construções. São plantas tenazes, que persistem mesmo em lugares onde a natureza foi reduzida à caricatura, como os eucaliptais. Não surpreende, por isso, que sejam abundantes na Serra de Valongo.

As duas espécies de Cistus dominantes na Serra de Valongo são o sanganho (C. psilosepalus), de que acima exibimos fotos, e o sanganho-manso (C. salviifolius), duas plantas que facilmente se confundem, e que aliás costumam hibridar entre si. Ambas atingem uma altura máxima de um metro, e dão flores brancas com um diâmetro de 3 a 5 cm. Ao contrário de outras congéneres suas também de flores brancas (como o C. ladanifer e o C. monspeliensis), estas duas plantas não são pegajosas. As épocas de floração do C. psilosepalus e do C. salviifolius coincidem em parte, mas a do primeiro prolonga-se até mais tarde: quando tirei as fotos, no final de Junho, já o segundo perdera todas as flores. A distinção entre as duas espécies faz-se mais facilmente pelas folhas: as do sanganho são sésseis (ou seja, não têm pecíolo, agarrando-se directamente aos ramos) e alongadas (o termo técnico é oblongas); as do sanganho-manso dispõem já de um curto pecíolo e têm uma forma mais arredondada (dita ovada). [Estas características da folhagem do C. salviifolius podem ser conferidas nesta página.]

Ambas as espécies têm ampla distribuição nacional, mas o C. psilosepalus, a acreditar na Flora Digital de Portugal, está ausente do Algarve e do interior alentejano. Encontrei-o também no Sabugal, ainda em flor, atapetando o terreno à volta dos veneráveis castanheiros. Globalmente, o C. psilosepalus é um exclusivo ibérico; o C. salviifolius, mais viajado, está presente em toda a bacia mediterrânica, da França à Turquia e de Marrocos a Israel.

04/07/2009

Carqueja


Pterospartum tridentatum (L.) Willk.

A maioria das plantas que, chegando a Primavera, forram de amarelo as nossas serras são leguminosas (família Fabaceae) pertencentes à subfamília Papilionoideae: tojos, giestas, pascoinhas, carqueja. O que unifica esta diversidade botânica, além da afinidade cromática, é o formato característico da flor, com uma pétala superior destacada, chamada estandarte, que exibe um vinco central por vezes bem marcado, e duas pétalas adjacentes a essa (as asas) abraçando as duas pétalas inferiores - as quais, fundidas, formam a quilha.

(Nada como passar da teoria à prática. Se o leitor clicar na etiqueta Fabaceae mais abaixo, encontra muitas flores, nem todas amarelas, que obedecem a esta descrição - trevos, favas, tremoceiros, etc -, mas também encontra algumas que dela divergem. Acontece que as outras subfamílias das leguminosas - Mimosoideae, que inclui as temíveis acácias, e Caesalpinioideae, que engloba, por exemplo, os géneros Ceratonia (alfarrobeira), Caesalpinia e Bauhinia - dão flores de morfologia bem distinta. Tirando a alfarrobeira, essas duas subfamílias não têm, suponho, representantes na flora espontânea portuguesa.)

Embora, visto ao longe, o tapete amarelo da carqueja (Pterospartum tridentatum) se possa confundir com o do tojo (género Ulex), as duas plantas são de facto muito diferentes. A carqueja não tem espinhos, e os seus ramos encontram-se envolvidos por duas membranas verdes e paralelas, que se substituem às folhas na função fotossintética; as folhas propriamente ditas são insignificantes e por vezes estão mesmo ausentes.

Garantem os livros que a carqueja (que é uma espécie essencialmente ibérica, embora haja notícia dela também em Marrocos) é uma planta útil na nossa culinária tradicional: os ramos floridos seriam usados em pratos de arroz e de caça, e as flores secas serviriam para infusões. Isto, suponho, no tempo em que o povo ia à serra e conhecia as plantas. Duvido que em Valongo, onde tirei as fotos, haja muita gente que reconheça a carqueja ou saiba os seus usos. É por isso reconfortante saber que se celebra uma Festa da Carqueja na freguesia da Malcata, no Sabugal. Quando a serra por lá foi florestada com pinheiros, e perdeu uso agrícola e pastoril, as pessoas deixaram de a frequentar. Tempos depois, alguém alvitrou que seria bom, nem que fosse uma só vez em cada ano, por altura da carqueja em flor, regressar à serra para retomar o convívio interrompido. De companheira diária, a serra passou a ser uma amiga distante que se visita de tempos a tempos com grande cerimónia. Mas pelo menos nem ela nem a carqueja ficaram esquecidas.

02/07/2009

Há vida depois do fogo


Carvalhos-negrais (Quercus pyrenaica) mas também, à esquerda, um jovem castanheiro

A excursão de sexta-feira aos castanheiros monumentais do Sabugal permitiu-nos ter uma ideia, necessariamente incompleta, da paisagem do concelho. O percurso foi em grande parte por estradões de terra batida que nem devem constar dos mapas; e, como não anotei os lugares por onde passámos, dificilmente conseguirei reencontrá-los quando lá regressar. E trata-se de um concelho vasto: 827 km^2 - vinte vezes maior do que o Porto.

Este território da Beira raiana, que visitei agora pela primeira vez, é completamente diferente daquela outra Beira que se estende entre Viseu, Guarda e Coimbra. Os eucaliptos estão ausentes, as acácias pouco se vêem e, embora haja alguns pinhais, eles estão longe de ser dominantes. A ausência desta competição (que em geral é avassaladora) permite a existência de algo que julgava já extinto em Portugal: extensas matas de carvalhos surgidas por regeneração natural. Não se trata do carvalho-alvarinho (Quercus robur) com que estamos familiarizados na faixa noroeste do país, mas sim do carvalho-negral (Quercus pyrenaica), que se distingue facilmente pelas suas folhas penugentas, aveludadas ao tacto. Nenhum dos carvalhais de Q. robur que conheço em Portugal tem um futuro tão promissor como estas matas de carvalho-negral no território raiano. Matas tão exuberantes que permitiriam, sem o menor risco de esgotamento, a exploração florestal para produção de madeira.



Que não haja eucaliptos e sejam poucos os pinheiros não garante que os incêndios não aconteçam, embora lhes modere a intensidade. Pelo contrário, eles devem até ser frequentes, pois a maioria das matas que avistámos era formada por árvores muito jovens. Visitámos uma área recém-ardida (foto acima, mostrando um carvalho que sobreviveu ao fogo) onde se viam rebentos de carvalho a despontar da terra enegrecida. Quase não há barreiras para o fogo: em vez de campos de cultivo ou pastagens a separar as matas, predominam os giestais, também eles facilmente combustíveis. Como em quase todo o país rural, são estas as marcas deixadas no território pela depauperação populacional, pelo abandono dos campos e pela diminuição da pastorícia.

Nem o fogo nem os carvalhos vão desaparecer da região. O problema é que o ciclo de vida dos carvalhais parece ser muito curto (talvez uns 10 ou 20 anos), o que, além de trazer evidentes prejuízos ambientais, significa um grande desperdício económico. Há vida no Sabugal, mas tudo pode arder de um momento para o outro. A boa notícia é que a vida não acaba aí.

30/06/2009

A culpa é das ovelhas

O momento mais pungente - ou pelo menos aquele que mais fundo me tocou - do seminário Árvores Monumentais: Importância e Conservação, que decorreu no Sabugal na quinta e sexta passadas (25 e 26 de Junho), aconteceu exactamente no final da palestra de Ted Green. Foi quando...

(Eis que a voz da consciência me interrompe em tom alarmado: «O quê?! Não me digas que vais falar daquilo! Francamente, não esperava isso de ti!»)

(Ignoro tanto quanto possível a interrupção e prossigo o meu relato.)

... foi quando o orador perguntou se alguém da audiência podia emprestar dois casacos, um para ele e outro para Jill Butler. É que já há dias que os dois, desprovidos de agasalhos eficazes, rapavam em Portugal um frio para o qual ninguém os tinha alertado. Na manhã seguinte, durante a excursão aos castanheiros monumentais, continuavam ambos de manga curta. O dia esteve sempre prazenteiro, o sol nunca se fez rogado, e os casacos não fizeram falta nenhuma, mas será que alguém lhos chegou a emprestar? Prefiro não saber. Seria terrível que ruíssem na mesma altura duas das certezas que mais arreigadas tinha: a primeira, que os povos do norte da Europa (e em particular os britânicos) são imunes ao frio; a segunda, que ninguém excede os portugueses em hospitalidade.



Castanheiro (Castanea sativa) - Sabugal

São às centenas os anos que os velhos castanheiros do Sabugal transportam às costas. Alguns soçobram a tamanho peso e acabam por secar; outros há que suportam copas mais ou menos frondosas; e há ainda aqueles que, como quem usa peruca, disfarçam a decrepitude com cabeleiras de folhagem que afinal não lhes pertencem. É o caso do castanheiro acima: o tronco principal está morto, e dele não brota sequer uma folha; no entanto, os rebentos emitidos pelas raízes (chamados pôlas ou ladrões) conseguiram formar troncos secundários que agora prolongam a vida da árvore, fornecendo-lhe a copa verde que ela de outro modo não teria.

Por isso, como explica Ted Green, devem manter-se as ovelhas e outros animais de pastagem afastados destas árvores: as pôlas são um seguro de vida destes monumentos vegetais, e não são para cortar nem para comer. (É só por isso que as ovelhas são más. De resto, Ted Green é um ardente defensor de uma agricultura que combine, no mesmo espaço, a presença das árvores com o cultivo dos campos e o pastoreio.)

(Aqui chegado, é melhor o leitor ir espreitar à Quinta do Sargaçal para um relato mais circunstanciado do seminário e do passeio. O castanheiro-que-por-pôlas-valerosas-se-vai-da-lei-da-morte-libertando também lá aparece, mas a verdade é que, apesar de termos visto muitos castanheiros, poucos como este tinham tanto que contar e se puseram tão a jeito para a foto.)



(Para mostrar alguma coisa que o José Rui Fernandes não tenha ainda mostrado, termino com uma foto do rio que atravessa a cidade do Sabugal: o Côa, aqui marginado por amieiros e choupos.)

15/06/2009

É no Sabugal que os amigos se encontram


Carvalho (Quercus robur) em Golders Hill Park, Hampstead Heath, Londres

Falo naturalmente dos amigos das árvores; mas, mesmo para os que nunca antes se falaram, o encontro no Sabugal com essas amigas comuns, a 25 e 26 de Junho (já para a semana!), é o mais auspicioso prólogo para uma amizade a sério.

Melhor será contar a história desde o início, tentando dar-lhe forma intelígivel. Talvez no final se entenda por que está este carvalho britânico, enjaulado em benefício de uma velhice tranquila, encabeçando uma notícia sobre árvores em Portugal. Da terra anfitriã do anunciado evento e das árvores que lá vegetam ainda não tenho fotos; terei depois, mas já seria tarde para a notícia.

Desde 2007 que Miguel Rodrigues e Pedro Nuno Teixeira Santos (autor de A sombra verde) têm compilado um metódico registo das árvores monumentais do extremo sul do país, que vêm vertendo no blogue Árvores Monumentais do Algarve e Baixo Alentejo. Um trabalho dessa índole nunca está concluído, mas o Miguel e o Pedro quiseram alargá-lo a todo o país, tomando a iniciativa de fundar, com outros amigos, a associação Árvores de Portugal. Associação essa que, ressalve-se, tem objectivos mais gerais, como o de intervir na defesa e promoção da árvore, numa altura em que a Sociedade Portuguesa de Arboricultura, que teria naturalmente essa função, se encontra paralisada.

Mas é o amor pela árvore multissecular que motiva a primeira iniciativa pública da nova associação: justamente o seminário sobre «Árvores Monumentais - Importância e Conservação», a decorrer no Sabugal em 25 e 26 de Junho. O programa completo do evento pode ser aqui consultado, mas há que ressaltar as presenças do Professor Jorge Paiva, do Eng.º Campos Andrada (da Autoridade Florestal Nacional, que mantém o registo português das árvores de interesse público), de Ted Green (o maior activista na defesa das árvores históricas da Grã-Bretanha) e de Susana Domínguez Lerena (co-autora do notável livro Árboles, Leyendas Vivas). (Admito que também lá farei uma mini-apresentação deste livro.) A coroar o programa, na manhã do dia 26, há uma visita aos castanheiros notáveis do concelho do Sabugal; os mesmos que irão ilustrar a reportagem do evento quando aqui a publicarmos.

Acredito que os amigos das árvores, se puderem fazê-lo, não deixarão de ir ao Sabugal. É no interior, é longe, a viagem é demorada... Há tudo isso, mas falemos com franqueza: que piada teria um evento destes em Lisboa ou no Porto? Quantas árvores conhecemos nessas cidades comparáveis ao carvalho de sua majestade aí em cima? Confiemos no Sabugal para mostrar aos ilustres visitantes estrangeiros, com uma pitada de imerecido orgulho, que em Portugal também há árvores realmente monumentais.

P.S. Carregue aqui para fazer a sua inscrição. Para mais informações contacte:

Nélia Vasco, tel.: 271 75 10 42
Laura Alves, tel.: 96 10 13 552
Fax: 271 753 408