3.7.09

Falso pau-Brasil


Caesalpinia spinosa (Mol.) Kuntze

Caro leitor,

Como vai? Já em férias? Nós andamos enredados em caesalpinias, assunto espinhoso - e olhe que não é apenas porque algumas destas espécies têm tronco aculeado. As fotos que aqui lhe mandamos, e que fará o favor de analisar quando lhe sobrar tempo dos seus preciosos afazeres, são de mais um arbusto deste género que mora no Jardim Botânico do Porto e que, quem diria, conseguimos identificar correctamente.

Estará o leitor já de semblante desconfiado, mas, descanse, desta vez não há placa no Jardim a etiquetar a planta, não há risco de tombo. Observámos demoradamente o tronco (rugoso, cinzento, com espinhos de barriga gordinha), as folhas (alternas e bipinadas, como é característico no género Caesalpinia), os folíolos (sendo os secundários opostos, glabros e com base assimétrica), as inflorescências espiciformes, as flores a abotoar e as já abertas (com a sépala maior, canoa com um bordo de dentinhos-de-crocodilo, a envolver completamente os estames), os frutos do ano passado (vagens de cor de tijolo, já maduras) e até, pasme amável leitor, vimos as sementes à lupa, uns berlindes achatados de casca enrugada e cor castanho-cinza. Depois compulsámos bibliografia fiável e concluimos: trata-se de um exemplar de Caesalpinia spinosa. Assim, munidos de ciência e olho vivo, não há erro que nos deslustre.

O falso pau-Brasil, ou tara, é originário do Peru, mas vegeta com agrado noutros países da América Central e do Sul. É planta produtora de taninos e, diz-se, a infusão dos frutos é aconselhada em casos de amigdalite e excesso de mau colestrol.

Leitor atento, ainda aí está? Já não demoramos. Queremos deixar-lhe o desafio de identificar a outra espécie de Caesalpinia que julgámos, por aceitar ingenuamente como indubitável tudo o que os jardins botânicos nos contam, ser o pau-Brasil. É exercício meramente académico porque os «jardineiros» do Jardim Botânico do Porto reduziram, com uma poda histórica, um arbusto de 2m de altura e cerca de 3 de diâmetro de copa a um toco esquálido de 20cm que uma folhagem rala tenta a custo recobrir. Tão cedo não produzirá sementes que nos permitam decifrar o nome e a origem desta planta. Naturalmente, a placa que a identifica foi zelosamente renovada, mantendo-se contudo bem visível, talvez por apego à história ou o usual desvelo pela ignorância atrevida, a inscrição errada.

Conhece o viajado leitor outro jardim botânico que assim (des)cuide do seu acervo? Que detore as plantas para melhor as armazenar, e saiba tão pouco de taxinomia? Nós também não.

Com os melhores cumprimentos para si e para a família,

(assinatura ilegível)

2 comentários :

Miguel disse...

Confesso, incauto leitor que sou, a surpresa por ler uma carta no Verão de 2009. Não fico, infelizmente, surpreso pelo que denuncia...
Não seria bonito se os jardineiros gostassem dos jardins que lhes confiam?
Imagine...

Maurício Paniza disse...

Olá!

Parabéns pelo Dias com árvore... muito bacanas os posts...

Eu trabalho numa ONG que tem um programa de doação de mudas nativas para proprietários rurais. Ele se chama Plante Árvore. Acesse o nosso site... www.plantearvore.com.br.

Um abraço!