3.4.20

De Adeje a Chamorga, ou Tenerife de lés a lés

Sideritis infernalis Bolle
Totalizam 24 as espécies endémicas de Sideritis nas ilhas Canárias. A maioria delas está restrita a uma ilha só, e nessa ilha ocupa amiúde uma área limitada. Há espécies de montanha, outras de falésias costeiras, umas que se expõem à inclemência do sol, outras que preferem lugares resguardados, umas que vivem na laurissilva, outras em pinhais, outras ainda misturando-se com a vegetação xerófila de tabaibas e cardónes. Só em Tenerife, a ilha onde o género é mais diverso, são 13 as espécies de Sideritis assinaladas. Esta prodigalidade da natureza ensina-nos que há ilhas dentro da ilha. As distâncias em Tenerife são consideráveis, medindo a ilha 85 km de uma ponta à outra, mas o relevo, além de criar distintos nichos ecológicos, potenciou os efeitos da distância, acentuando o isolamento que permitiu a evolução de muitas linhagens distintas a partir, possivelmente, de um mesmo antepassado ancestral.

Essa profusão de espécies traduz-se, por vezes, numa clara diferenciação morfológica, como podemos ajuizar pelas duas endémicas tenerifenhas que aqui trazemos. Mostra-nos o mapa que elas não podiam estar mais afastadas uma da outra: a Sideritis infernalis, acima ilustrada, vive no sudoeste da ilha, no árido barranco sobranceiro à vila de Adeje a que chamam do Inferno; a Sideritis macrostachys, em baixo, refugia-se na laurissilva de Anaga, e é possível encontrá-la ainda para lá de Chamorga, que é a povoação mais nordestina de Tenerife. A separação geográfica e a diferenciação ecológica foram usadas com bom proveito: as duas plantas têm um aspecto de tal modo contrastante que não há confusão possível entre elas.

A Sideritis infernalis, planta que não costuma ultrapassar os 70 cm de altura, tem as flores dispostas em verticilos amplamente espaçados ao longo da haste. Cada verticilo é composto por meia dúzia de flores que se sobrepõem a duas brácteas lanceoladas, opostas uma à outra. A corola, branca e com bordo castanho, apresenta lábios pouco desenvolvidos. Pela arquitectura geral, a planta faz lembrar as suas congéneres em Portugal continental -- as quais, contudo, dão flores bastante diferentes.

A Sideritis macrostachys, embora de dimensões semelhantes, tem um aspecto muito mais lanudo e fofo. A inflorescência é agora densa e compacta, a ponto de, quando as corolas caem, a geometria do conjunto fazer lembrar um favo de mel. Um favo da cor errada, é certo, branco e verde em vez de amarelo, enfeitado por estranhas línguas verdes que na verdade são brácteas. As flores, ainda que um pouco menores do que as da S. infernalis, têm os lábios mais salientes e mais bem formados, pintados do mesmo tom de castanho.

Com vantagem óbvia para a Sideritis macrostachys, ambas as espécies têm indiscutível valor ornamental. Quem sabe se pela dificuldade em se adaptarem a outros climas, não parece, contudo, que sejam muito usadas em jardinagem. Agora que as fronteiras se vão de novo fechando, e palavras como longínquo e inacessível ganham outra ressonância, talvez os jardins recuperem a vocação de nos dar a ver o mundo inteiro através das plantas.


Sideritis macrostachys Poir.



27.3.20

Margarida do rio seco

Andar num vale seco e silencioso onde antes fluiu um rio causa alguma estranheza. O chão, de rocha bem polida, é ondulado, e o percurso ao longo do barranco encaixado é sinuoso, alimentando a cada dúzia de passadas a euforia, ou o receio, da surpresa ao virar da esquina. A impressão inicial é a de estarmos num lugar hostil que, por constantemente nos recordar o caudal de outrora, tem um carácter indeciso, como se a qualquer momento a água pudesse voltar a jorrar, submergindo-nos. Mas basta olhar para as paredes do barranco para se ter a certeza de que esse não é risco que corramos: são inúmeras as plantas que exigem solo enxuto que, uma vez desaparecido o rio, ousaram colonizar esses taludes, e nos vão tranquilizando com a sua presença.

Visitámos o Barranco del Agua, em Anaga, numa tarde quente com céu encoberto. No início da caminhada uns magros pingos de chuva salpicaram-nos, prometendo uma frescura que afinal não se concretizou. Mas na vertente sombreada do barranco notava-se o efeito dessa rara humidade, pois empoleirados em patamares onde o sol não incide e a temperatura é mais amena notavam-se uns poucos exemplares de Ranunculus cortusifolius em flor, o mesmo que encontramos abundantemente nas ilhas chuvosas dos Açores. Algures a meio do passeio vimos esta margarida de folhas carnudas e um verde inesperado num local tão árido, com grandes capítulos dispostos em corimbo.


Gonospermum revolutum (C. Sm.) Sch. Bip.



O género Gonospermum é endémico das Canárias e é quase verdade que a cada ilha coube a sua espécie, diferindo sobretudo no tamanho das inflorescências e na maior ou menor segmentação das folhas. O Gonospermum canariense é endémico das ilhas ocidentais do arquipélago (El Hierro e La Palma) e é um arbusto que pode ultrapassar 2 metros de altura; do G. ferulaceum, famoso pelos corimbos densos de flores, há registo apenas na Gran Canaria; o G. fruticosum, conhecido como corona de la reina, é a espécie mais frequente (dispersão talvez ajudada pela jardinagem), e pode ver-se em Tenerife, La Gomera, El Hierro e La Palma. Temos ainda o G. gomerae, endemismo de La Gomera, e o G. revolutum, com inflorescências menos densas, que só existe no norte de Tenerife, desde Roque Bermejo até Punta del Hidalgo.

O G. revolutum já se chamou Lugoa revoluta mas, depois de alguma controvérsia e estudos de genética molecular, o género Gonospermum passou a abrigar, desde 2001, algumas espécies antes incluídas em Lugoa e Tanacetum. Trata-se de uma herbácea perene, de base lenhosa, com cerca de meio metro de altura e cujas folhas, dispostas em vistosa roseta basal e ao longo da haste floral, exibem margens curvadas para a face inferior. É uma espécie legalmente protegida, classificada como vulnerável na lista vermelha da flora vascular espanhola.

20.3.20

Vulnerária brigantina



Anthyllis vulneraria subsp. sampaioana (Rothm.) Vasc.



Do centro de Bragança à aldeia de Alimonde são 12 quilómetros por uma estrada com curvas moderadas que, contornando a vertente norte da serra da Nogueira, nos permite um vislumbre de alguns bonitos carvalhais de Quercus pyrenaica. Ainda mal saímos da cidade, já uma placa na estrada nos convida a exprimir, algo prematuramente, o nosso deleite com a paisagem observada: Gostei, proclama a tabuleta. Embora evitando a estridência das maiúsculas e do ponto de exclamação, quem colocou a tabuleta teve a arrogância de dar voz ao que presume serem os nossos sentimentos. Ou afinal não é bem assim, pois várias fontes asseguram que o Gostei da placa é mesmo o nome de uma povoação. Comemorará tão singular topónimo algum remoto visitante ilustre que, no final da estadia, terá proclamado, qual César em tempos de paz, vim, vi e gostei?

Deixemos o mistério para ser deslindado por algum historiador local em opúsculo editado pela junta de freguesia, e avancemos até Alimonde. No início de Junho já a Primavera vai dando sinais de cansaço, mas nos taludes florescem ainda algumas orquídeas tardias. Em vários pontos, o amarelo sulfuroso do Alyssum serpyllifolium denuncia a presença de rochas ultrabásicas. Já perto de Alimonde, em local onde os desbastes frequentes depauperaram a vegetação arbustiva, um amarelo mais vivo cobre centenas de metros quadrados de uma ladeira, penetrando no interior de um pinhal. Trata-se da versão para substratos ultrabásicos da vulnerária (Anthyllis vulneraria), uma leguminosa rasteira, com folhas pinadas e flores de cálices insuflados agrupadas em glomérulos terminais, que encontramos, sob múltiplos disfarces, em ecologias muito diversas, incluindo terrenos calcários, rochas costeiras e dunas.

Um olho não treinado em subtilezas botânicas satisfaz-se com esta diferença óbvia: no nosso país, a vulnerária brigantina é a única com flores amarelas; as outras (as das praias do noroeste ou as dos calcários do centro, por exemplo) têm-nas geralmente vermelhas ou rosadas, havendo ainda, em Trás-os-Montes, uma vulnerária anual de aspecto débil, A. vulneraria subsp. lusitanica, que dá, frequentemente, flores de cor creme. Por essa Europa fora, contudo, ou mesmo apenas na Península Ibérica, a cor das flores é fraco critério para distinguir as dezenas de subespécies de A. vulneraria. A subespécie nominal, que não ocorre nos países ibéricos mas é a mais abundante nas zonas costeiras dos países do norte da Europa, dá normalmente flores amarelas (veja-se esta foto tirada na Cornualha, em Inglaterra). Nos Pirenéus há plantas de flores amarelas que são diferentes das de Bragança, embora as opiniões a esse respeito sejam desencontradas. E ao longo da Cordilheira Cantábrica, em substratos calcários, encontra-se a subsp. alpestris, igualmente de flores amarelas.

Como se explica tal variabilidade dentro de uma só espécie? Sabe-se que a Anthyllis vulneraria tem uma forte tendência para a autogamia. Com isso, as diversas populações ficam reprodutivamente isoladas, acabando por desenvolver peculiaridades morfológicas que podem justificar algum reconhecimento taxonómico. Nem todos os autores valorizam por igual essas variações: as subespécies reconhecidas por uns podem não o ser por outros, e o âmbito geográfico de certa subespécie pode ser mais ou menos amplo de acordo com a interpretação que dela se faz. O exemplo da A. vulneraria subsp. sampaioana é esclarecedor: para alguns, trata-se de um endemismo das rochas ultrabásicas do nordeste português; para o revisor do género na Flora Iberica, exactamente a mesma subespécie ocorre nos Pirenéus e nos Alpes.

13.3.20

Uma espécie de justiça

Na obra Species Plantarum (1753), de Lineu, pode ler-se na página 15 a primeira descrição da Justicia hyssopifolia, endemismo das ilhas de Tenerife e La Gomera. O texto, em latim como era obrigatório e é ainda hoje recomendado (embora se permita o inglês), informa que se trata de uma espécie com folhas linear-lanceoladas e flores bilabiadas axilares, solitárias e de cor esbranquiçada -- contrastando com a maioria das espécies de Justicia, que se prezam pelas flores garridas em arranjos muito vistosos. Quanto ao habitat, fica precisamente in insulis Fortunatis, designação feliz e realmente apropriada para as ilhas Canárias.


Justicia hyssopifolia L.


Ironicamente, foi no Barranco do Inferno, em Tenerife, que vimos estes exemplares de Justicia hyssopifolia. A visita a este barranco, com muitas rochas em tons claros a encandear os passeantes incautos sem óculos escuros, e um micro-clima escaldante e quase desértico, é paga. Cada visitante recebe então um mapa com a duração máxima permitida em cada troço do percurso e um capacete devidamente desinfectado que deverá usar para se proteger de possíveis derrocadas de pedras. A duração da visita é controlada por olheiros que, ao longo do barranco, evitam que os visitantes saiam dos trilhos, colham plantas e flores ou façam demasiado ruído, se concentrem, estragando, em locais de maior biodiversidade, ou nadem nas piscinas na base da cachoeira que é servida como troféu no fim do passeio -- magrinha mas muito apreciada dada a sua raridade nesta ilha sem rios. Com a demora para observar as inúmeras plantas em detalhe, e o respeito devido pela fotografia perfeita, ultrapassámos em muito o tempo recomendado de permanência no barranco. Valeu-nos um grupo grande de alemães idosos cujo avanço no caminho foi frequentemente nulo ou mesmo negativo, e que devolveram os capacetes muito depois de nós.

Justicia é dos géneros mais populosos da família Acanthaceae, com cerca de 900 espécies conhecidas. Crê-se que tenha origem nas regiões de clima quente temperado, alimentando na América, África e Índia várias espécies de borboletas (como a Anartia fatima). Apesar de tão disseminada, e de o arquipélago da Madeira estar próximo, não há registo de endemismos conhecidos da família Acanthaceae nessas ilhas.

6.3.20

Salada de estrelas

São duas as estrelas, ambas de Lanzarote, que hoje disputam a nossa atenção. A referência aos corpos celestes não está apenas em Asteriscus, nome do género a que as plantas pertencem e que significa pequena estrela, mas também na própria família, Asteraceae, em que elas estão filiadas. É curioso assinalar que as estrelas não seriam para aqui chamadas se há dez ou vinte anos falássemos das mesmas plantas: em vez de Asteriscus, elas integravam então o género Nauplius; e a família Asteraceae era designada por Compositae. Dessas mudanças, a segunda reflecte apenas uma actualização da nomenclatura, em obediência à regra de que o nome de cada família botânica deve derivar do género que a tipifica e não de alguma característica morfológica das plantas da família (assim, tal como Compositae passou a Asteraceae, que vem de Aster, também Leguminosae passou a Fabaceae, que vem de Faba, e Palmae passou a Arecaceae, que vem de Areca). Quanto à substituição de Nauplius por Asteriscus, isso não corresponde a uma mudança de género, mas sim a uma absorção de um género por outro. Entendeu-se que não havia diferença relevante entre Nauplius e Asteriscus, passando os dois géneros a ser um só; e, para o género resultante da unificação, as regras da nomenclatura botânica impuseram o uso do nome mais antigo, que é Asteriscus. Ao mesmo tempo que era reforçado com novas aquisições, o género Asteriscus via-se despojado de algumas das suas espécies emblemáticas, entre elas uma das plantas mais bonitas da Costa Vicentina, que mudou de Asteriscus maritimus para Pallenis maritima. O resultado da dança de nomes é que nove das dez espécies actuais de Asteriscus eram antes Nauplius. E quatro delas são endémicas (ou quase endémicas) das ilhas Canárias.


Asteriscus intermedius (DC.) Pit. & Proust [= Nauplius intermedius (DC.) Webb]


À excepção de uma herbácea anual (A. aquaticus), os Asteriscus são plantas de caules lenhosos que formam pequenos e intrincados arbustos, com folhas sésseis, mais ou menos espatuladas, dispostas em espiral. As brácteas involucrais são longas e verdes, semelhantes às folhas, e os capítulos de centro amarelo exibem numerosas lígulas também amarelas – brancas apenas no caso do A. schultzii.

O Asteriscus intermedius (em cima) é muito frequente em Lanzarote, e é provável que seja endémico dessa ilha, sendo dúbia a sua presença em Fuerteventura. Tem uma atraente folhagem acetinada e floresce mais intensamente entre Janeiro e Junho. Os seus abundantes capítulos amarelos têm de 2,5 a 3,5 cm de diâmetro. Em Fuerteventura existe uma espécie endémica semelhante, A. sericeus, de capítulos maiores e folhas mais largas.

O Asteriscus schultzii (em baixo) compensa o porte rasteiro pela beleza da floração. Tem uma distribuição mais ampla do que o seu congénere – ocorre em Lanzarote, Fuerteventura e no sudoeste de Marrocos – mas é raro e com populações muito esparsas, e à escassez populacional junta-se a ameaça da colheita para fins ornamentais. Em Lanzarote está apenas presente na zona de Famara, tanto sobre areias como entre os matos ralos que revestem a base das falésias.


Asteriscus schultzii (Bolle) Pit. & Proust [= Nauplius schultzii (Bolle) Wiklund]

1.3.20

Namorando a avenca



Vista de cima, a ilha Gran Canaria parece uma concha redonda largada no oceano, com um pico vulcânico (las Nieves) com cerca de 2000 metros de altura situado mais ou menos ao centro. Dada a proximidade da costa norte de África (a apenas 150 quilómetros), não surpreende que seja mais verde a norte; a sul, há uma extensão impressionante de dunas (de Maspalomas) que lembram as do deserto do Sahara. Como as outras ilhas do arquipélago, esta é uma terra de barrancos pedregosos, quentes e secos, onde decerto noutras eras correram rios fartos. A Gran Canaria é, porém, uma das ilhas das Canárias com mais espaços naturais protegidos e um maior número de reservas ambientais classificadas pela biodiversidade que ainda conservam. E a lista de endemismos desta ilha é invejável, incluindo vários géneros que não ocorrem nas demais ilhas, como o desta planta que encontrámos, acompanhada por avenca, numa escarpa ressumante na Degollada de Tasartico, no sudoeste da ilha.


Camptoloma canariense & Adiantum capillus-veneris


Camptoloma canariense (Webb & Berthel.) Hilliard [= Sutera canariensis Sunding & G. Kunkel]


Do género Camptoloma, conhecem-se apenas duas espécies além da da Gran Canaria, uma de África e outra com uma região de distribuição mais a leste. Mas este género está ainda em arrumação, e até o nome actualmente aceite para a espécie canariense é recente, de 1991. Estas são plantas de folhagem quebradiça e muito penugenta, de base algo lenhosa, cujas folhas ovadas com margens crenadas formam tapetes, como acontece com alguns fetos em taludes húmidos. A floração da Camptoloma da Gran Canaria decorre oficialmente entre Setembro e Novembro mas, por sorte, havia ainda algumas flores para vermos em Dezembro. São solitárias e de pé longo, com corola tubular enfeitada por uma venação violeta que encontramos com frequência nos géneros Linaria e Antirrhinum, antes incluídos na mesma família Scrophulariaceae.

O nome Camptoloma, proposto pelo botânico inglês George Bentham em 1846, talvez aluda ao bordo (loma) curvado (kamptos) das flores. Como se faltassem nomes para distinguir os inúmeros seres do planeta, é também, desde 1874, a designação dada a um género de lindas traças de asas tigradas.

20.2.20

Parasita graciosa

Orobanche gratiosa (Webb) Linding. [= Phelipanche gratiosa (Webb) Carlón & al.]
Para quem vive de rendimentos bem ou mal adquiridos, uma vida de sol e praia nas Canárias parece a materialização de um sonho. A chuva é um fenómeno quase desconhecido, a temperatura amena nunca exige um agasalho extra, e os dias, mesmo quando são curtos, nunca são demasiado curtos. É nestas ilhas que entendemos que uma vida sem horários nem compromissos é que é a verdadeira vida, e como é violenta e contranatura a simples ideia de trabalhar.

Há só a chatice de o mundo deixar de funcionar se o ócio passar a ser o modo de vida de toda a gente. Mesmo numa ilha vocacionada para o veraneio a tempo inteiro é preciso que alguém limpe o quarto, ponha o pequeno-almoço na mesa, mantenha restaurantes e supermercados abertos e, de um modo geral, torne possível a existência civilizada e higiénica a que julgamos ter direito. Para cada cigarra ociosa, quantas infatigáveis formigas cirandam à sua volta?

Fica assim estabelecido que as Canárias são ilhas ideais para o dolce far niente, desde que tal ocupação seja apenas o privilégio de poucos. Se procurarmos um paralelo no mundo vegetal, encontramos, nas mesmas ilhas, certas plantas que nada fazem pelo seu próprio sustento, preferindo alimentar-se à custa de outras. Chamam-se elas plantas parasitas - um adjectivo que, pela sua rudeza, evitamos aplicar às relações humanas. Dentro dessa categoria, o género Orobanche é o mais populoso do arquipélago, contando com doze espécies, três das quais endémicas. À mesma família pertence a formosa parasita amarela que encontrámos nas dunas de Lanzarote.

Uma das espécies endémicas é a Orobanche gratiosa. Adaptando o nome vernáculo que por cá costumamos dar às espécies do género, poderíamos talvez chamar-lhe erva-toira-graciosa. Contudo, isso seria um erro: o epíteto gratiosa não se refere à presumível beleza da planta mas sim à sua ocorrência na Graciosa, a mais pequena ilha habitada do arquipélago canário. O nome correcto da planta (que ocorre também em Lanzarote, Fuerteventura e Grã-Canária) seria pois erva-toira-da-Graciosa.

A Orobanche gratiosa vive em solos arenosos costeiros, aparecendo também em locais pedregosos a baixa altitude. Apresenta hastes ramificadas, de 15 a 30 cm de altura (por vezes mais), e as flores são de um tom lilás muito pálido (a O. ramosa, espécie aparentada que tembém ocorre nas Canárias, tem flores mais escuras). A sua época de floração oficial estende-se de Dezembro a Março, mas por altura da nossa visita, no final de Dezembro, ela permanecia invisível no seu habitat dunar usual. O único exemplar que avistámos morava, talvez por engano, no Barranco de Tenegüime, a uns 4 km da linha de costa e à vertiginosa altitude de 150 metros, o que é de todo desaconselhável para a saúde da planta.

15.2.20

Flores de madeira


Ceropegia fusca Bolle


Há pouco mais de dois anos, uma revisão do género Ceropegia, nomeado por Lineu em 1753 e que abrigava cerca de 220 espécies, reuniu sob essa designação mais de 700 espécies, nativas da África, Ásia, Austrália e Canárias. Uma arrumação na mesma gaveta em tão grande escala soa-nos inusitada numa época em que os estudos genéticos apontam mais frequentemente para a independência, e decerto muitos descritores de taxónes não apreciaram o almagamento. Para os que se apegam aos detalhes, como coleccionadores ávidos, algumas destas espécies não parecem sequer próximas, quanto mais primas. Ora veja o leitor estas imagens para formar a sua opinião: F1, F2, F3, F4, F5, F6, F7, F8, F9, F10. Vasta informação sobre a morfologia destas plantas é aduzida pelos autores da proposta de unificação num só género, embora dividido em várias secções, e pode ser lida aqui.

Que lhe parece? Notou concerteza semelhanças: as flores tubulares ciliadas de pé curto, com um topo formando um chapéu de bispo, um guarda-chuva, uma lanterna ou uma gaiola; os talos suculentos, enroscados em jeito de trepadeira; e as folhas grandes e verdinhas, nascendo em pares opostos. Mas há também muitos pormenores diferentes nas flores, sejam cores ou penachos que, dizem os estudiosos, são consequência de ajustes com os polinizadores -- em geral uma grande diversidade de moscas que, atraídas por aromas e tons, ficam momentaneamente enjauladas nas flores e as polinizam enquanto buscam uma saída (como descrito aqui).

Contudo, as espécies de Ceropegia endémicas das Canárias (a Ceropegia dichotoma em Tenerife, La Palma, El Hierro e La Gomera; e a Ceropegia fusca, acima ilustrada, em Tenerife e Grã-Canária) não encaixam bem neste formato. Não são trepadeiras e investiram mais nos talos cilíndricos, engrossando-os em rolos erectos e fazendo-os nascer directamente do solo até cerca de 1 metro de altura; e reduziram as folhas a apêndices sésseis, finos, caducos, de 2-5 cm de comprimento e margens revolutas, que surgem no inverno. Supõe-se que sejam o resultado da adaptação ao habitat que colonizaram nessas ilhas: seco, rochoso, de solo ralo, e com exposição prolongada ao sol e ao calor.

5.2.20

Giroflando por Lanzarote


Matthiola bolleana Webb ex Christ


Entre as lengalengas ou cantigas infantis que todos os portugueses de tenra idade foram ensinados a trautear avulta o Jardim da Celeste. Que nos conste, é só aí que aparecem giroflé e a sua variante giroflá, palavras que não têm qualquer uso ou significado em português corrente, embora alguns dicionários apontem girofle (sem acento) como sinónimo de cravo-da-Índia. Não seria inadequado que numa cantiga sobre um jardim as palavras desconhecidas designassem plantas, mas é só num idioma que agora as crianças não aprendem, o francês, que se revela toda a verdade sobre o giroflé. Envolve prévia operação de mudança de género, o que daria ao assunto sobeja relevância em contexto educativo. Transmudado para giroflée, palavra feminina que deve pronunciar-se carregando bem no erre, é nome de umas tantas plantas crucíferas de flores cor-de-rosa, amarelas, brancas ou vermelhas, plantas essas que por cá conhecemos como goivos. O verbo giroflar, neologismo que faz aqui a sua estreia pública, descreve pois o acto de observar goivos, por nós praticado com regularidade durante uma visita a Lanzarote.

A Matthiola bolleana, ou goivo-das-Canárias, é frequente em Lanzarote (também em La Graciosa) e, mais ainda, no sul de Fuerteventura, em dunas ou zonas pedregosas a baixa altitude. É rara nas restantes ilhas do arquipélago, e está ausente de El Hierro e de La Gomera. Trata-se de uma pequena planta perene, de 10 a 30 cm de altura, ramificada desde a base, com folhas geralmente inteiras, lineares e obtusas. As flores perfumadas, dispostas em hastes que pouco excedem o comprimento das folhas, são quase sésseis, com pétalas de uns 15 mm de comprimento, onduladas, de cor rosa-violeta mas brancas na base. Tem evidentes semelhanças com a espécie mediterrânica Matthiola fruticulosa, mas as diferenças (na forma das folhas, na coloração das pétalas, no porte geral) não são menos óbvias, e por isso é algo exagerado despromover a M. bolleana, como fazem certos autores, a simples variedade da M. fruticulosa.

À Matthiola bolleana estão associados importantes pioneiros novecentistas no estudo da flora canarina. Quem a baptizou foi o inglês Philip Barker-Webb (1793-1854), autor, com o francês Sabino Berthelot (1794-1880), de uma monumental L'Histoire Naturelle des Îles Canaries, publicada em nove volumes entre 1836 e 1844. Em nenhum desses volumes, porém, se menciona a M. bolleana, cuja primeira descrição só veria o prelo em 1887 por mão do suíço Konrad H. Christ (1833–1933), que realizou um estudo dos escritos não publicados de Webb. O epíteto refere-se ao naturalista alemão Carl August Bolle (1821-1909), que colheu a planta na península de Jandía, em Fuerteventura, aquando da sua primeira visita às Canárias, em 1852. Ao mesmo Carl Bolle se devem dezenas de descrições de novas espécies da flora do arquipélago, em especial das ilhas menos estudadas até então: Lanzarote, Fuerteventura, El Hierro e La Gomera.