05/07/2020

Correjola imperial

Reconhecer um objecto, ou uma imagem dele, é uma virtude que aprendemos cedo a dominar. Em criança, não hesitamos entre um gato ou um cão, ainda que ambos se possam inicialmente confundir na mente infantil com um triciclo. À medida que o mundo se agiganta e o cérebro de aprimora, a lista de objectos desconhecidos vai-se reduzindo. Conseguimos identificar a maioria instantaneamente, e até os substituimos por entradas num catálogo abstracto, um vocabulário, o que facilita o armazenamento na memória de toda essa informação. Descrito assim, parece fácil criar um algoritmo computacional que permita a uma máquina bem informada repetir este procedimento, segmentando a imagem para destacar elementos do fundo e reconhecer automaticamente o que nela é essencial. Mas não. Na busca de imagens nos motores de pesquisa da internet, o que em regra se procura é uma palavra, ou várias, no texto de apoio às imagens. O que parece batota. Ainda que alguns destes mecanismos consigam seleccionar imagens parecidas com outras, comparando por exemplo a gama de cores que exibem, decerto tais tentativas podem ingenuamente reunir aviões e pássaros numa mesma classe.



Este arrazoado vem a propósito do trabalho de investigação muito interessante que se tem vindo a desenvolver em matemática sobre reconhecimento de imagens, seja para conseguir ler pautas de música antigas e quase ilegíveis, seja para aperfeiçoar a focagem automática nas máquinas fotográficas, ou ainda para se identificarem plantas numa saída de campo. Não temos notícia de que um algoritmo de reconhecimento de plantas por imagens digitais esteja já em uso, mas seria realmente muito conveniente poder fotografar num prado uma planta em flor, e surgir de imediato no écran o nome científico dela. Na falta dessa ajuda, o que fazer? Vejamos um exemplo.



Telephium imperati L.


Nestas fotos estão imagens de uma planta que vimos em rochas calcárias na Cantábria. As flores redondas em cimeiras densas e a folhagem glauca e glabra, com talos de couve e hábito rastejante, lembram, em tamanho grande, as das espécies do género Corrigiola, não? Com este palpite, vamos a alguma Flora consultar a família deste género, que é a Caryophyllaceae, verificar se há alguma espécie parecida. Esta é uma tarefa de comparação que o cérebro humano faz em geral perfeitamente, e que em poucos minutos nos fornece o bilhete de identidade da planta fotografada:

Família: Caryophyllaceae
Subfamília: Paronychioideae
Tribo: Corrigioleae
Género: Telephium L.
Espécie: T. imperati L.

E ficamos a saber, através de um motor de pesquisa da internet buscando pela palavra Telephium, que é um género monoespecífico, e que a sua única espécie ocorre na região mediterrânica, na metade este da Península Ibérica e um pouco mais a leste. Uma nota adicional dá conta de que o nome actualmente aceite, proposto por Lineu em 1753, alude ao deus Telephus da mitologia grega, de quem se diz ter sido ferido por Aquiles na trágica história de Helena de Tróia, e depois curado por uma destas plantas.

27/06/2020

Muros de Villaescusa



Villaescusa de las Torres é uma aldeia de 22 habitantes, uma igreja e uma trintena de casas, situada na província de Palência, em Espanha, a três quilómetros da vila de Aguilar de Campoo. O rio Pisuerga, apesar do compasso de espera a que o obriga a albufeira de Aguilar, tem um caudal generoso à passagem pela vila e pela aldeia, criando uma serpenteante fita azul e verde que une a paisagem edificada às amplas extensões de campos cultivados. A uma altitude rondando os 900 metros, onde a neve cai quase todos os anos, não é lugar para refúgio do hipotético crocodilo que terá sido avistado, no início de Junho, uns 150 km a sul, na foz do Pisuerga em Valladolid. Por altura da nossa visita, há dois anos, ninguém suporia que este rio de margens tranquilas pudesse abrigar tão agressiva fauna exótica.

O planalto palentino, que faz a transição entre a monótona planura de Castela e a acidentada cordilheira cantábrica, é rasgado aqui e ali por afloramentos calcários de grandes dimensões. O próprio Pisuerga corre, em certos troços, apertado entre escarpadas paredes de rocha branca. Muros e casas de Villaescusa são feitos da mesma pedra, deixada ao natural ou caiada de branco ou bege. O calcário é a escolha de eleição para muitas plantas, garantindo uma diversidade florística muito superior à que é de regra noutros substratos. E, apesar de não faltarem em redor da aldeia habitats naturais em quantidade e qualidade, não são poucas as plantas que colonizam muros e telhados. Para aquelas que vivem nas bolsas de solo que se acumulam em fissuras de rochas, os muros tradicionais de pedra solta são até um habitat preferencial, por reproduzirem em versão concentrada as condições do habitat natural.



Saxifraga cuneata Willd.


Mais do que a Arenaria e o Alyssum, que só timidamente se aventuram em muros, é a Saxifraga cuneata que entre Maio e Junho enfeita com empenho as três ou quatro ruas de Villaescusa. Como o nome indica (Saxifraga significa partir pedra), estas plantas, de que há umas sessenta espécies só na Península Ibérica, sentem-se em casa em habitats pedregosos, algumas preferindo o calcário e outras o granito ou o xisto. Esta S. cuneata é irrepreensivelmente decorativa tanto nas folhas como na floração exuberante, mas talvez ao vê-la nos acometa uma impressão de déjà-vu. De facto, ela é quase igual à Saxifraga trifurcata, endémica das montanhas do norte de Espanha e também de peferências calcícolas. Não que seja problemático distingui-las: as folhas são claramente diferentes, mais recortadas as da S. trifurcata, que além do mais, ao contrário da S. cuneata, costuma apresentar hastes avermelhadas. Mas há um ar de família indisfarçável, e as duas saxífragas, juntamente com a S. portosanctana, formam uma tríade muito homogénea.

A Saxifraga cuneata vive na metade norte da Península Ibérica, com uma localização adicional em França perto da fronteira com Espanha. É especialmente frequente em Palência nos afloramentos calcários ao longo do curso superior do rio Pisuerga. Este ano o desconfinamento já vem tarde para quem queira admirar-lhe a floração.

20/06/2020

Ensaiões


Aeonium aureum (Hornem.) T. H. M. Mes [= Greenovia aurea (Hornem.) Webb & Berthel.]


It is a law of nature we overlook, that intellectual versatility is the compensation for change, danger and trouble. An animal perfectly in harmony with its environment is a perfect mechanism. Nature never appeals to intelligence until habit and instinct are useless. There is no intelligence where there is no change and no need of change.

H. G. Wells, The Time Machine, 1895


Aeonium spathulatum (Hornem.) Praeger

14/06/2020

Trevo do inferno



Lotus eriophthalmus Webb [= Dorycnium eriophthalmum (Webb) Webb & Berthel.]


Esbarrar na parede é muitas vezes a sina de quem procura explicação para os nomes das plantas. Vejamos o Dorycnium: ensina a Flora Iberica que o nome vem, por via latina, do grego Dorýknion, e terá sido dado na antiguidade a um pequeno arbusto de folhas prateadas a que hoje chamamos Convolvulus cneorum, e também, sem qualquer semelhança ou relação com este, à peçonhenta figueira-do-inferno (Datura stramonium). Estes dois exemplos bastam para comprovar que o termo em si é desprovido de significado, podendo ajustar-se, como um pronto-a-vestir versátil, a qualquer planta que careça de nome. O francês Tournefort (1656–1708), antecessor de Lineu, chamou Dorycnium a um género de plantas leguminosas, e o inglês Philip Miller (1691-1771), outro dos pioneiros da moderna taxonomia, acolheu a sugestão, umas décadas mais tarde, no seu The Gardeners Dictionary. Curiosamente, o nome foi também usado por Lineu, mas como epíteto específico: Lotus dorycnium foi como ele chamou ao Dorycnium pentaphyllum. De facto, muitas das espécies posteriormente conhecidas como Dorycnium (incluindo as três que são espontâneas em Portugal) foram por Lineu incluídas no género Lotus.

Os Lotus costumam ser herbáceas mais ou menos rasteiras, enquanto que os Dorycnium atingem porte arbustivo e têm geralmente caules lenhosos. Mas a flora da Madeira e das Canárias ensina-nos que bastam uns poucos milénios de evolução para que se dê o salto entre o pequeno e o grande, e entre o herbáceo e o lenhoso. Se ignorarmos o tamanho e atendermos à morfologia das folhas e das flores, a diferença entre Dorycnium e Lotus não é muito convincente. Pior ainda: a variação dentro do género Dorycnium é de tal ordem que certas espécies assemelham-se mais a alguns Lotus do que às suas supostas congéneres.

Chegados ao século XXI, os estudos moleculares vieram dar razão a Lineu, com vários artigos a sustentar que o género Dorycnium deveria ser absorvido pelo género Lotus. A maioria das espécies transferidas foi integrar uma mesma secção do género Lotus, apropriadamente chamada Dorycnium, mas entre as que ficaram noutras secções estão as três que são endémicas das ilhas Canárias. Isso significa que essas espécies (incluindo a das fotos) estão evolutivamente mais próximas de alguns Lotus convencionais (como o L. creticus e o L. azoricus) do que das suas ex-congéneres europeias (como o D. pentaphyllum). Assim, mesmo que houvesse razões para manter Dorycnium como género indpendente, as espécies das Canárias teriam que ser arrumadas noutra gaveta.

Os três “Dorycnium” canários são arbustos que podem alcançar os dois metros de altura, todos muito semelhantes, distinguindo-se pela coloração das flores e pela pilosidade (ou ausência dela) nos cálices. O “Dorycniumeriophthalmum, que ocorre em cinco ilhas (El Hierro, La Palma, Grã-Canária, Tenerife e La Gomera), é, ainda que escasso, o mais comum dos três; fotografámo-lo no Barranco do Inferno, em Tenerife. Os outros são Dorycniumspectabile, de flores rosadas, endémico de Tenerife, e Dorycniumbroussonetii, com flores de cor creme como as do D. eriophthalmum mas de cálice hirsuto, que é endémico de Tenerife e da Grã-Canária; ambos estão em perigo de extinção.

07/06/2020

Abertura de fronteiras

Resguardado pelo confinamento, atento apenas às notícias sobre a evolução da pandemia e porventura zangado com a natureza, o leitor talvez não se tenha apercebido de que, no final de Abril, foi descoberta mais uma espécie para a flora portuguesa. A proeza é de António Flor, vigilante da natureza ao serviço do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que a encontrou durante a prospecção de uma zona menos explorada do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (notícia aqui).



Arenaria grandiflora L.


A novidade é do género Arenaria, e esta nova espécie portuguesa é fácil de avistar em fendas de rochas calcárias no norte de Espanha, mas talvez o nosso clima mais cálido não lhe agrade tanto. Estando o país em estado de emergência durante o mês de Abril, obrigado ao teletrabalho e a restrições de circulação de vária ordem, saúda-se que os membros do ICNF não tenham adiado esta iniciativa, decerto sorrindo dos alertas pela presença da notável colónia de morcegos que mora no PNSAC. É que, se essa saída de campo tivesse sido feita apenas agora, com a Primavera a terminar, talvez já não houvesse flores nas plantas avistadas e seria mais problemático identificá-las.

As flores desta espécie, com sépalas glandulosas e pétalas recurvadas, são, como o epíteto indica, especialmente grandes para o género, e as cimeiras de flores podem chegar aos 20 cm de altura. A planta é perene, cespitosa e ocorre nas montanhas do norte de África e do Centro e Sul da Europa. As fotos são da Cantábria e dos muros de Vilaescusa de las Torres, já em Palência; as flores amarelas que surgem de permeio são do Alyssum montanum, outra espécie com preferências calcárias, de que (ainda) não há registo no maciço calcário estremenho. Aqui vai um retrato mais de perto para o caso de alguma vez ser vista deste lado da fronteira.


Alyssum montanum L.

31/05/2020

Bombardeira ou maçã-de-Sodoma


Calotropis procera (Aiton) W. T. Aiton


Por qualquer bitola que se use, a Calotropis procera é uma planta bem sucedida: as flores, que surgem durante quase todo o ano, parecem de cera e têm uma coloração atraente, convencendo não poucos admiradores a cultivá-la nos seus jardins; os frutos estão recheados de uma fibra plumosa que, à semelhança da sumaúma, pode usar-se para encher almofadas; em tempo de guerra, o látex exumado pelo caule fornece veneno para derrotar inimigos. A somar a estas qualidades, é uma planta que sabe cuidar de si, tendo feito a melhor aposta para acautelar o futuro: própria de zonas áridas ou semi-áridas, com exigências ecológicas mínimas, não são a falta de chuva ou a expansão dos desertos que poderão apoquentá-la. A sua área de distribuição, que já era vasta, estendendo-se da África tropical à Índia, tem-se alargado exponencialmente com a sua chegada à América e à Austrália.

Organismos com essa capacidade para ampliar o seu território, sejam eles plantas ou bichos, não costumam ser bem vistos. São invasores que tiram espaço às espécies nativas, alterando os habitats de forma às vezes irreversível. É esse o efeito da bombardeira (nome para a Calotropis procera no Brasil) na caatinga do Nordeste brasileiro, um ecossistema já muito diminuído e adulterado por desmatações, queimadas e, mais recentemente, por grandes obras públicas como a construção dos canais de transvase do rio São Francisco. A capacidade de que a planta dá provas para colonizar áreas degradadas é assombrosa: numa faixa de desmatação de dezenas de quilómetros de comprimento por cem a duzentos metros de largura, aberta para fazer passar um dos canais de transvase e depois abandonada, estimou-se, em artigo datado de 2013, uma média de 12 exemplares da planta por cada quadrado de 5 metros de lado, incluindo 8 já adultas (produzindo flores e frutos). No mínimo, isso dá um milhão de exemplares. E o domínio da bombardeira era absoluto: nas parcelas de amostragem só foram detectadas três outras espécies de plantas, cada uma delas com apenas um exemplar. De facto, a bombardeira possui mecanismos eficazes para inibir o crescimento de outras plantas e assim formar povoamentos mono-específicos. Essa mesma capacidade (a que os biólogos chamam alelopatia) é exuberantemente demonstrada em Portugal pela mimosa (Acacia dealbata) nos terrenos por ela invadidos.

Esclareça-se que as nossas fotos foram tiradas na Grã-Canária, onde a Calotropis procera, talvez por aí se encontrar tão perto da sua área de distribuição natural (que inclui Marrocos, Argélia e Egipto), tem um comportamento incomparavelmente mais comedido, que de modo nenhum se pode qualificar de invasor (é possível que em Fuertventura, a mais árida das ilhas Canárias, a história seja outra). Só encontrámos exemplares isolados, e apenas em dois ou três locais. Devemos até reconhecer que ficámos contentes com o encontro, porque a achámos bonita e nunca a tínhamos visto. Francisco Clamote, que a viu e fotografou na Índia, fala-nos aqui sobre ela.

26/05/2020

Sinos da neve

Numa visita à estância de esqui de Lunada, na Cantábria, no fim de Maio de 2018, tivemos oportunidade de ver plantas que se apressam a florir logo que a neve começa a derreter. São, em geral, herbáceas perenes, de pequeno porte, com folhas espessas de formato arredondado para captarem toda a luz disponível, e com pé longo para não ficarem rentes ao solo onde correriam o risco de se estragarem com o excesso de humidade. Esperam ter as flores fáceis de localizar, no que ajuda ter uma haste floral erecta e alta, e estar prontas para atrair a também recém-nascida, e decerto esfomeada, geração de polinizadores que ainda aprende a interpretar o mundo. Apesar de os dias já serem um pouco mais quentes no fim da Primavera, nesse ano havia ainda muita neve a uns 1350 m de altitude, e eram poucas as horas do dia sem nuvens a ensombrá-las. É talvez difícil detectar flores nestas condições, sobretudo se elas forem minúsculas e pouco coloridas. Mas as da Soldanella (cujas hastes não excedem os 12 cm de altura) jogam pelo seguro: são vistosas pela cor e pelo formato das pétalas.


Soldanella alpina L.
Todos nós conhecemos outras espécies com pétalas fimbriadas, ou corolas com franja,  embora só recentemente nos tenhamos questionado sobre o eventual benefício de florir com tais enfeites. Não demorámos, porém, a descobrir que já houve botânicos a investigarem esta questão. Num estudo a propósito das flores do género Trichosanthes (da mesma família que produz as abóboras, as melancias, os melões ou os pepinos), os autores propõem algumas respostas. Conjecturaram que este formato das flores estaria relacionado com a acção dos polinizadores, embora a origem e função da subdivisão das pétalas pudesse variar com as espécies. Compararam então espécies do mesmo género, umas com flores fimbriadas e outras não, de várias regiões com habitats distintos, e concluíram que os polinizadores noctívagos são especialmente atraídos para flores com orlas franjadas. O recorte das pétalas decerto aumenta o contraste entre as suas margens e a escuridão envolvente, e a área (ou a impressão dela) exposta ao polinizador. Quando este perfil se combina com uma tonalidade adequada, um aroma sedutor e o ondear das tirinhas ao vento, a visibilidade da flor e o sucesso da polinização estão garantidos. Talvez a confirmar a conjectura, a adaptação a polinizadores diurnos em algumas espécies levou à perda do carácter fimbriado das corolas.

O género Soldanella abriga umas 10 espécies cuja distribuição se restringe às montanhas da Europa. Em todas elas, as flores têm um hábito pendente, mais ainda se chove, protegendo desse modo o interior da flor. Pode ver aqui os frutos da S. alpina, e ainda imagens de mais três espécies.

16/05/2020

Tomateiro nocturno


Solanum vespertilio subsp. doramae Marrero Rodr. & Gonzalez-Martin



Os frutos deste arbusto espinhento, que terá cerca de dois metros de altura, são pequenos tomates lustrosos, com uns dois centímetros de diâmetro, que, quando maduros, ganharão uma cor entre o vermelho e o laranja. Embora tais frutos não sejam verdadeiros tomates, e até é provável que sejam tóxicos e impróprios para consumo humano, a semelhança é indesmentível. Além do mais, o tomateiro genuíno pertence ao mesmo género botânico, Solanum, em que este endemismo das ilhas Canárias se inclui. Para lembrar que também no reino vegetal há famílias e relações de parentesco, não fica mal chamar tomateiro a todas as plantas do género Solanum, desde que não interpretemos tal liberdade como um convite para levar tudo à boca. À família Solanaceae, convém recordá-lo, pertencem algumas das plantas mais venenosas do planeta, como a Atropa belladona. E mesmo a erva-moira ou tomateiro-negro (Solanum nigrum), herbácea ruderal muito comum no nosso país, é capaz de provocar fortes dores de barriga a quem lhe comer os frutos.

O carácter nocturno do Solanum vespertilio é atestado pelo epíteto, que significa morcego em latim. Se nos valermos do cliché poético que associa a noite à morte, este tomateiro é também nocturno no sentido de ter estado no limiar da extinção. Ocorrendo apenas em Tenerife e na Grã-Canária, e extremamente raro em ambas, pequenas diferenças morfológicas levaram a que se distinguissem duas subespécies, cada qual em sua ilha. A subespécie doramae, da Grã-Canária (nas fotos), estava reduzida, em 2009, a uma única população natural, composta por apenas três exemplares adultos e sem sinais de estabelecimento de plantas jovens. Confinada a um pequeno nicho no barranco de Azuaje, no norte da ilha, a quase extinção da planta ter-se-á devido à herbivoria, hoje controlada, e à expansão da vegetação exótica. Embora este tomateiro floresça e frutifique normalmente, produzindo sementes viáveis, o habitat em que se havia refugiado apresentava-se degradado e era-lhe pouco favorável.

Em 2009, o Governo das Canárias deu início a um programa de recuperação da espécie que envolveu restauração do habitat, que agora é área de protecção total com acesso condicionado, e reprodução por sementes, em viveiro, para posterior reintrodução na natureza. Este socorro in extremis terá dado bons resultados, pois uma das novas populações então criadas, na reserva natural de Los Tilos de Moya, está hoje firmemente estabelecida. A reserva, de acesso livro para visitantes, alberga uma das últimas amostras de laurissilva da ilha, e num curto percurso circular pode apreciar-se, à sombra dos "tilos" (= Ocotea foetens; em português til, plural tiles), uma boa amostra da flora das Canárias, incluindo as orquídeas Gennaria diphylla e Habenaria tridactylites. O Solanum vespertillo aparece na encosta mais soalheira, quando as lauráceas dão lugar a um mato xerófilo de urzes e tabaibas, entremeadas com muitas serralhas gigantes (Sonchus sp.), romaninhos (Lavandula sp.) e suculentas arbustivas do género Aeonium. Proliferam também, infelizmente, invasoras como Oxalis pes-caprae e Ageratina adenophora.

Ainda que a sua silhueta não seja um modelo de elegância, o Solanum vespertilio dá flores de fazer inveja às mais finas plantas de jardim. São flores grandes, de um bonito contraste entre o amarelo dos estames e o lilás das pétalas, sendo estas bordejadas por um friso ondulado que se diria cerzido por mão de costureira, coisa que não se vê em nenhuma outra espécie do género.

10/05/2020

Dama fina & companhia

Crê-se que o povoamento vegetal das ilhas Canárias seja quase tão antigo quanto a sua formação geológica. As plantas mais exigentes tardaram a instalar-se por não haver, de início, solo estável e propício. No decurso de centenas de milhares de anos, porém, grande parte da flora continental passou a ter representantes insulares. As espécies recém-chegadas encontraram nas ilhas um habitat sem competição, embora inóspito, e um clima ameno e sem grandes variações que lhes permitiu crescer ao longo de todo o ano e ter períodos de floração alongados. Talvez por isso, são várias as espécies herbáceas do continente que têm versões arbustivas nas Canárias. Além disso, a diversidade ecológica, sobretudo nas ilhas com estratos de maior altitude, permitiu que muitas plantas, de espécies entretanto extintas noutras regiões do norte de África, da região mediterrânica e do centro da Europa, ali se mantivessem, em zonas áridas, em matos ou em bosques de laurissilva.



Algumas das espécies pouco variaram desde a sua chegada às Canárias. Colonizaram locais vastos, isolados e livres de concorrência, e actualmente os géneros correspondentes contam com um número reduzido de espécies -- como aconteceu com o género Ceropegia. Outros, porém, evoluiram para se adaptarem aos nichos disponíveis, e a selecção natural induziu a criação de variantes cada vez mais diferenciadas e eficazes a sobreviver. É o caso das dezenas de espécies endémicas nas Canárias dos géneros Aeonium, Echium e Sideritis.

O leitor atento decerto associará estes meios de disseminação de plantas a outros seres vivos do planeta, incluindo vírus. Estes, enquanto conseguem propagar-se sem esforço, mantêm o essencial das suas características genéticas pois não há razão para mudar o que é bem sucedido. Mas quando os hospedeiros rareiam, a forte pressão selectiva dá vantagem a estirpes mais agressivas, ou então o vírus desaparece. É neste cenário de incerteza que assenta a estratégia de confinamento que nos tem sido imposta.


Parolinia filifolia G. Kunkel


As plantas que hoje vos mostramos, ambas de um género endémico das Canárias de que apenas se conhecem sete espécies, têm uma morfologia invulgar na família Brassicaceae, a que pertencem couves, nabos e goivos, mas que em Portugal só contém herbáceas. As duas espécies de Parolinia, uma (em cima) que vimos no Barranco de Siberio, na metade oeste da Grã-Canaria, e outra (em baixo) no Barranco de Guaydeque, a leste, são arbustos ramificados, lenhosos, de talos acinzentados por causa do revestimento com pêlos estrelados, folhas carnudas mas estreitas, e flores de pétalas com margens onduladas. Distinguem-se bem pelos frutos, que em Dezembro ainda não se viam -- umas vagens longas com meia dúzia de sementes e enfeitadas por dois apêndices terminais. Na Grã-Canaria há mais duas espécies endémicas do género Parolinia, a P. ornata no sudoeste da ilha, e a P. glabriuscula, que é glabra e de que só há registo no noroeste da ilha. Este género abriga ainda a P. intermedia, endemismo do sudoeste de Tenerife; a P. schizogynoides, endemismo de La Gomera; e a raríssima P. aridanae, de matos xerófilos de suculentas em La Palma, que planeávamos conhecer este ano em Maio.


Parolinia platypetala G. Kunkel