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20/11/2019

Segredos do poço da Alagoinha



O ponto mais elevado da ilha das Flores, apropriadamente chamado Morro Alto, fica-se por uns escassos 911 metros de altitude. Quem a ele ascende, porém, vê-se rodeado, mesmo no Verão, por um nevoeiro frio e cortante, quase sempre reforçado por vento e chuva. Apesar do fácil acesso por um estradão de terra, a vista que poderia atrair excursões de mirones ávidos de fotografar raramente se deixa ver. Esse nevoeiro persistente, que nos encharca a roupa mesmo quando parece que não chove, alimenta a grande esponja que é a zona central da ilha. O material que absorve e armazena a água é o Sphagnum, popularmente chamado musgão, capaz de formar almofadas gigantes que nesta ilha cobrem por completo grandes extensões de terreno. Na prática, o musgão funciona como substituto do solo, já que as demais plantas, desde o cedro-do-mato às pequenas herbáceas, são obrigadas a crescer sobre ele.

Por grande que seja a capacidade de armazenamento que a natureza fez instalar na ilha, o excesso de água tem que ser continuamente libertado, e daí as muitas ribeiras que fazem um curto mas tumultuoso trajecto desde os cumes até ao mar. Seria esse o destino dos caudais que, atirando-se de um precipício de 250 metros, formam o poço da Alagoinha, também conhecido como lagoa dos Patos. Mas a geografia trocou-lhes os planos, e antes de se acolherem ao mar, estas águas, obrigadas a um compasso de espera, juntam-se numa lagoa que é uma das imagens mais fortes da ilha.

Partindo da estrada da Fajã Grande, chega-se ao poço da Alagoinha por um caminho íngreme e escorregadio, de uns 600 metros de extensão, por entre arvoredo cerrado. Não é subida que exija grande esforço, mas por cautela deve usar-se calçado imperméavel e com boa aderência. Muitos dos visitantes que percorrem esta vereda imaginam-se envolvidos pela mais pura natureza, pouco ou nada modificada pela acção humana. Que vantagem haveria em desenganá-los? Em explicar-lhes que as criptomérias foram plantadas, que incensos e conteiras são invasores temíveis, e que da vegetação original da ilha restam neste lugar apenas fetos e algumas herbáceas? Em revelar-lhes que o anfiteatro verde rasgado por cascatas é afinal um paraíso falsificado?



Potamogeton pusillus L.


A água da lagoa dos Patos, permanentemente renovada e sem focos de poluição que a afectem, é por certo de óptima qualidade, mas as margens paludosas desaconselham os banhos. (O mesmo sucede em quase todas as lagoas da ilha das Flores; a única excepção é o poço do Bacalhau, na Fajã Grande, onde é seguro mergulhar na piscina que a cascata escavou na rocha.) Além do cenário portentoso, outros motivos há, até botânicos, para visitar este lugar. Aqui se refugia o Potamogeton pusillus, planta aquática que, numa ilha com tanta água, só existe em três ou quatro pontos, estando ausente das lagoas de maior altitude. Por não gostar de águas profundas, a planta (um emaranhado submerso de caules longos e finos, com folhas compridas e lineares, de veios centrais bem marcados) tende a concentrar-se nas margens, o que é um alívio para o observador-fotógrafo. Como é tipico do género Potamogeton, as flores estão agrupados em cachos na extremidade de hastes emersas. Fazendo jus ao epíteto pusillus, os cachos florais desta espécie são minúsculos, com 3 a 7 mm de comprimento e 3 a 5 mm de espessura, e exigem ser observados de perto. A floração, pelo menos nos Açores, parece ser estival, com o auge ocorrendo no mês de Julho. À semelhança de outras espécies aquáticas, a planta goza de uma distribuição muito ampla, ocorrendo em quase todo o hemisfério norte: Europa, Ásia, norte de África, América do Norte e América Central.

Por regra uma planta perene, o Potamogeton pusillus pode adoptar um ciclo de vida anual, o que lhe permite sobreviver em valas e charcos temporários. Assim se explica que, por contraponto à sua presença na mais pluviosa das ilhas açorianas, se tenha também instalado na Graciosa, que é a mais seca de todas. Mais normal é ter sido assinalada em São Jorge, São Miguel e Santa Maria: ao contrário do que se possa pensar, Santa Maria tem bastante água, e até conta com um número apreciável de ribeiras permanentes (coisa que não existe no Pico e no Faial, por exemplo). É indubitável que se trata de uma espécie muito rara nos Açores, embora, dada as dificuldades de prospecção, não seja de excluir que ocorra noutras ilhas além das cinco mencionadas.

25/08/2015

Juncos & sapos


Juncus bufonius L.
Chamar "bom tempo" ao sol impiedoso que nos estraga a pele e ao calor tórrido que alimenta os incêndios de Verão é uma manifestação de masoquismo e de inconsciência. O genuíno bom tempo é esta inesperada chuva de Agosto que promete reverdecer os campos. Sendo cada vez mais as férias um tempo passado à beira da água - seja a água salgada do mar, a água doce dos rios ou a água clorada das piscinas -, é paradoxal a aversão quase generalizada, no mesmo período, à água que cai do céu.

Em doses variáveis, todas as plantas precisam de água. Há aquelas que vivem em ambientes quase desérticos, armazenando com a avareza dos sobreviventes toda a água que conseguem milagrosamente captar. Habituaram-se de tal forma à aridez que uma fartura inesperada de água lhes é quase sempre mortal. No outro extremo, há as plantas que flutuam nas águas de lagos ou de rios e que desaparecem ou entram em repouso vegetativo nos períodos de seca. O junco que apresentamos hoje, sendo claramente hidrófilo, não exige grandes profundezas de água para se instalar: bastam-lhe a borda de um charco ou uma poça num caminho. Tratando-se de uma planta anual, aproveita a estação favorável para tratar da vida, e quando chega a estiagem já produziu sementes para garantir a geração seguinte.

O Juncus bufonius, cujo nome alude aos sapos ou aos lugares paludosos por eles frequentados, é uma planta de poucos centímetros de altura que forma tufos densos e se distingue das suas congéneres pelas flores quase sempre solitárias (foto 3), dotadas de sépalas e pétalas muito pontiagudas (foto 2). Convém aqui ressalvar que, embora tal uso seja correcto, os especialistas não gostam de empregar os termos "sépala" e "pétala" para descrever as peças florais de um junco, preferindo falar dos "segmentos do perianto": há assim três segmentos externos (as sépalas que envolvem a flor antes de ela abrir) e três internos (as pétalas). Quando a flor está aberta, os dois tipos de segmento não são muito diferentes, ao contrário do que sucede com as flores mais "clássicas", onde é clara a distinção entre cálice (formado pelas sépalas) e corola (formada pelas pétalas). Os juncos não são as únicas plantas em que é pequena a diferença entre pétalas e sépalas: as tulipas (e, de um modo geral, todas as liliáceas) sofrem da mesma indiferenciação. As flores dos juncos e das tulipas têm de facto estrutura quase idêntica: seis segmentos do perianto (três externos e três internos, mas de resto pouco diferenciados tanto na forma como na cor), seis estames, ovário súpero equipado com três estigmas. Os juncos, que são polinizados pelo vento, ficaram-se por essa arquitectura básica, despojada de enfeites e atractivos e reduzida ao tamanho mínimo; as tulipas, obrigadas a atrair insectos, engrandeceram as flores, pintaram-nas de cores vistosas e rechearam-nas de néctar.

Talvez não houvesse necessidade de escolher as Flores (Açores) para fotografar esta espécie tão comum em todo o território nacional. Mas foi isso mesmo que fizemos, aproveitando o facto de o Juncus bufonius, em Junho, graças ao clima hiper-húmido da ilha, se apresentar exuberante, com as flores todas abertas criando a ilusão de que ele até se esforça por ser bonito.


Flores: ribeira da Badanela

04/08/2015

O charco na pedra


Isolepis setacea (L.) R.Br.



As ciperáceas, como as gramíneas, são feitas para não serem notadas. Mesmo quando cobrem vastas superfícies, a nossa ignorância e desatenção fazem delas uma esbatida imagem de fundo que designamos por nomes imprecisos como "ervas", "juncos" ou "canas". Além de serem pouco chamativas, algumas destas plantas anónimas, em especial os "juncos" (verdadeiros ou falsos), ocupam habitats aquáticos ou paludosos nos quais só com dificuldade conseguimos mover-nos. A planta de hoje até vegeta em lugares acessíveis, mas, pelo seu tamanho diminuto, faz da discrição um ponto de honra. As espiguetas florais, solitárias ou aglomeradas em grupos de duas ou três, têm uns 5 mm de comprimento, e surgem em hastes finas, não ramificadas, de 5 a 20 cm de altura; as folhas, que parecem ausentes, estão reduzidas a bainhas na base dos caules. De entre as três espécies do género que ocorrem nos Açores (todas de ampla distribuição europeia ou até mundial), a Isolepis setacea singulariza-se por as espiguetas parecerem emergir da parte lateral da haste em vez de saírem da extremidade. Contudo, aquilo que parece ser o prolongamento da haste é na verdade uma bráctea, que nesta espécie é muito comprida (pode chegar aos 3 cm) e, quando a planta já está bem desenvolvida (não é esse o caso dos exemplares fotografados), ultrapassa claramente as espiguetas.

As Flores, que são uma esponja em forma de ilha, proporcionam inúmeros recantos favoráveis à instalação da Isolepis setacea. Além do mais, o tamanho exíguo da planta permite-lhe vegetar onde quer que a água se acumule, nem que seja uma poça numa cavidade da rocha. Foi numa pia escavada na pedra, visível na 1.ª foto mas impossível de adivinhar para quem contempla da estrada o maciço erecto da rocha dos Frades, que tivemos ocasião de a observar. Por perto, e aproveitando o abrigo das escarpas para fugir à voracidade de vacas e cabras, havia algumas das especialidades da flora endémica açoriana: Cardamine caldeirarum, Centaurium scilloides, Leontodon hochstetteri, Platanthera micrantha, Ranunculus cortusifolius, Scabiosa nitens. Por muito gratificante que seja encontrar reunidas tantas preciosidades, a sua presença era perfeitamente normal. O que surpreende é o modo como as plantas certas conseguem colonizar micro-habitats isolados como este de dois ou três metros quadrados, em que a acumulação fortuita de água cria uma descontinuidade absoluta com o habitat envolvente. Quem lhes deu (às plantas) notícia de que o lugar lhes convinha, e como chegaram elas até lá?



FÉRIAS

Regessamos na última semana de Agosto. Até lá, sugerimos a quem habitualmente nos visita que vá espreitar o recente Wild Iberia.

28/07/2015

Creme de cenoura



Daucus carota L. subsp. azoricus Franco



Com a globalização galopante, vão-se perdendo as marcas da identidade nacional. Qualquer dia os restaurantes portugueses só se distinguirão dos espanhóis por terem o menu traduzido em mau inglês e por os garçons se exprimirem, perante os estrangeiros, numa língua de circo a que caridosamente chamaríamos portunhol. Move-os (aos garçons) a ideia de que, seja qual for a nacionalidade dos clientes, eles os entenderão melhor se disserem pêzzcáda ou criémê de zênôra (palavras que não existem em língua nenhuma) em vez de pronunciarem correctamente pescada e creme de cenoura. O dito creme de cenoura, porém, configura um abastardamento dos costumes em comparação com o qual a questão linguística não passa de um fait divers. A tragédia é que os portugueses estão a deixar de comer sopa. Quando se senta à mesa em clima de festa uma família numerosa, a sopa é um castigo reservado às crianças. Talvez se julgue que ela faz bem até certa idade (13 ou 14 anos) mas para um adulto é sinal de fraqueza ingerir um caldo de legumes. E a sopa-enquanto-alimento-infantil deve previamente ser convertida em creme, não vá a dentição frágil quebrar-se ao mastigar um talo de couve mal cozida. Constatando que a sopa não tem saída ou, quando tem, só é servida depois de "passada", os restaurantes que ainda a incluem na ementa ficam-se pela versão "creme de legumes". E se é para desfazer os legumes, misturando-os indistintamente, escusado será usar uma grande variedade deles. Com isto chegamos ao malfadado creme de cenoura, que é a sopa à beira da extinção.

Cumprido o desabafo, aqui vai a primeira informação paracientífica do dia: o que há de mais estranho no creme de cenoura é a cor. É natural que o creme assuma a cor do ingrediente (neste caso a cenoura) que foi triturado para o produzir, mas o que já não é natural é que a cenoura tenha a cor que tem. Aquilo que consumimos sob o nome de cenoura é a raiz intumescida de uma umbelífera, Daucus carota subsp. sativus. Acontece que os antepassados silvestres dessa planta têm raízes brancas ou amareladas, e a versão cor-de-laranja a que estamos habituados só surgiu no século XVII, provavelmente na Holanda. Nos países com um mercado gourmet mais diversificado, encontram-se ainda à venda essas cenouras pálidas que, parecendo curiosidades, são afinal menos artificiais do que as cenouras comuns. Creme de cenoura branco? Seria uma novidade, mesmo que não fosse menos insípido.

A versão silvestre da cenoura tem em geral raízes minguadas e pouco comestíveis (são-no apenas quando muito tenras) - caso contrário, sendo ela tão abundante por toda a Europa e também na Ásia, nunca teria havido necessidade de a domesticar. Para os botânicos, a variabilidade da espécie Daucus carota é motivo de estudo, discussão e controvérsia. A Flora Ibérica considera existirem na Península oito subespécies de cenoura silvestre, mas o critério usado nessa divisão não é universalmente aceite e, ao desvalorizar como subespécie um endemismo lusitano distintivo como o Daucus halophilus, não parece isento de pendor nacionalista. Não menos discutível será a subordinação da subespécie maritimus, formada por plantas quase glabras, débeis, de umbelas pequenas, à subespécie carota, que integra plantas mais hirsutas e espigadas, de umbelas maiores. A única vantagem da simplificação proposta pela Flora Ibérica é que a cenoura que vemos em quase em todo o continente pertence à subespécie carota, tendo as outras três subespécies por cá assinaladas uma presença muito pontual. Mas se dermos dois passos do lado de lá da fronteira já tudo se complica.

E nos Açores? Graças à circunstância de a Flora Ibérica não se ter ocupado das ilhas, ainda hoje ocorrem oficialmente duas subespécies de Daucus carota no arquipélago. A mais comum das duas, ilustrada nas fotos, é tida como endemismo açoriano, ocupando em todas as ilhas habitats muito diversos desde falésias costeiras até terrenos baldios, pastagens e bermas de estrada. A segunda, presente apenas em quatro ilhas (São Miguel, Graciosa, São Jorge e Faial), é a subespécie maritimus. Há uma clara diferença de tamanho entre as duas subespécies, com a subespécie azoricus a vencer por larga margem, e há diferenças também na pilosidade e no formato das folhas: na subespécie azoricus os segmentos de última ordem das folhas são curtos e arredondados (4.ª foto), enquanto que na subespécie maritimus são longos e estreitos, quase lineares. Talvez estas diferenças não passassem no crivo de quem gosta de amalgamar coisas díspares, mas enquanto isso não sucede este Daucus carota subsp. azoricus vai segurando o seu incerto galardão de endemismo açoriano.

21/07/2015

Falésia dourada



Festuca petraea Seub.



Nos Açores, é em Junho que nas falésias brilha o amarelo do bracel contra o fundo negro das rochas, o azul do mar e a espuma branca das ondas. Nos outros meses estão lá os mesmos ingredientes, mas o dourado converteu-se em verde ou degenerou num castanho de palha ressequida. Não são só o negrume e a porosidade das rochas vulcânicas que diferenciam as escarpas insulares das do continente: esta gramínea sacudida pelos ventos salgados, tão comum nos Açores, é destas ilhas e de mais sítio nenhum no mundo. Mesmo que os visitantes que se passeiam à beira-mar não se apercebam disso, têm ali o que tantas vezes não têm nos lugares que são cartaz turístico do arquipélago: uma amostra genuína do antigo coberto vegetal das ilhas, anterior à ocupação humana. Com jeito, podem enquadrar nas suas fotos imagens que os primeiros povoadores facilmente reconheceriam.

As gramíneas, pese embora a sua importância crucial na nossa alimentação, não são plantas que entusiasmem muito o comum botânico amador. É verdade que têm flores, mas elas, não tendo a função de atrair polinizadores, são em geral pouco vistosas. Para aprender a distinguir gramíneas, há que estudar chaves de identificação repletas de termos especializados e estar atento a pormenores subtis como o número de estrias em cada folha, o seu ponto de inserção no caule, as glumas que protegem os florículos, a forma e o comprimento das anteras. O género Festuca é dos mais complexos da família, com mais de 400 espécies distribuídas por todos os continentes à excepção da Antárctida. As festucas são plantas perenes que formam tufos de folhas finas, muitas vezes azuladas; várias delas (com destaque para a europeia Festuca glauca) são usadas em jardinagem para fornecer contraste com plantas mais coloridas ou como alternativa aos tristonhos relvados. Esta Festuca petraea açoriana, ou bracel-da-rocha, parece fácil de reconhecer pelo habitat e pelo aspecto geral, mas há que ter cautela. O habitat costeiro é um dado importante, pois há nos Açores outra Festuca endémica (F. francoi, conhecida como bracel-do-mato), que prefere rochas e taludes enevoados no interior das ilhas. Nas Flores, onde o excesso de pluviosidade faz com que os dois habitats tenham uma extensa sobreposição, acaba por ser incerto, em muitos lugares situados a altitudes intermédias (entre os 100 e os 300 m), qual das duas espécies estamos a observar, a menos que tenhamos a lição bem estudada.

A Festuca petraea foi uma das espécies descritas por Moritz August Seubert na sua pioneira Flora Azorica (1844). Por contraste, a Festuca francoi teve que esperar até 2008 para ser reconhecida como endemismo açoriano: foi nesse ano que, em artigo publicado no Botanical Journal of the Linnean Society, os botânicos J. A. Fernández Prieto, Carlos Aguiar, Eduardo Dias e M. Isabel Gutiérrez Villarías mostraram que a espécie açoriana era diferente, em especial na morfologia foliar (caráctar decisivo para destrinçar as espécies do género), da madeirense F. jubata, com a qual até então tinha sido confundida. Porque a flora madeirense sempre foi a mais bem conhecida das duas, outros casos houve (Angelica lignescens, Lotus azoricus, etc.) em que as espécies açorianas foram erradamente assimiladas a espécies madeirenses. Ainda hoje há equívocos semelhantes por desfazer: é duvidoso que os Ranunculus cortusifolius açorianos e madeirenses pertençam à mesma espécie (os dos Açores são bem mais robustos), e acumulam-se indícios de que o nome Tolpis succulenta designa indevidamente duas espécies distintas, uma endémica dos Açores e outra da Madeira.

14/07/2015

Línguas viperinas nos Açores

Ophioglossum azoricum C. Presl

Pela sua raridade e dificuldade de detecção, as línguas-de-cobra - ou, se quisermos, os fetos do género Ophioglossum - são dos melhores pretextos botânicos para brincar à caça ao tesouro. Talvez os cépticos considerem exagerado chamar tesouro a uma planta tão discreta e de tão escasso efeito ornamental, mas a beleza não é uma condição objectiva: é a soma do que vemos com o que sabemos, e depende do valor de mercado atribuído pela comunidade de apreciadores. Mesmo que uma busca bem sucedida não se traduza na posse efectiva da raridade (colher uma planta como esta seria um acto gratuito de destruição), mas apenas em meia dúzia de imagens comprovativas do achado, devemos admitir que não somos imunes à cobiça do coleccionador nem ao espírito de competição.

Depois de termos mostrado as línguas-de-cobra maior e menor, faltava-nos a lingua-de-cobra intermédia. Terceira espécie de Ophioglossum presente em território português, o Ophioglossum azoricum configura, pelas suas dimensões, uma média aritmética quase perfeita dos seus congéneres. Ou talvez seja mais apropriado falar de média geométrica: a sua folha (ou fronde estéril, se quisermos ser pedantes), que terá uns 4 cm de comprimento (às vezes bastante menos, outras vezes mais), é pelo menos duas vezes maior do que a do O. lusitanicum, mas tem por seu turno cerca de metade do tamanho da do O. vulgatum. E, nesta sequência crescente de línguas-de-cobra, as folhas não vão apenas ficando mais compridas mas também proporcionalmente mais largas. Igualmente se registam diferenças na temporada em que cada uma delas escolhe ficar visível. O O. lusitanicum prefere o Inverno, surgindo com as primeiras chuvas de Outono; raramente se deixa ver depois de Fevereiro ou Março. Já o O. azoricum e o O. vulgatum optam por esperar pela Primavera, podendo persistir até Junho ou Julho. Quanto à ecologia, os três Ophioglossum preferem sítios mais ou menos húmidos, mas o tamanho impõe as suas exigências: o O. vulgatum dá-se bem em prados altos ou até lameiros, no meio de outras plantas amigas da frescura; para o O. lusitanicum, mais versátil, basta-lhe uma rala cobertura de musgo sobre uma rocha para se sentir em casa.

Dizem os entendidos que O. azoricum é uma espécie poliplóide gerada pelo cruzamento do O. vulgatum com o O. lusitanicum, e na verdade todos os indícios visíveis são a favor de uma origem híbrida. Herdou portanto de cada um dos seus progenitores um completo conjunto de cromossomas. O género Ophioglossum detém o recorde conhecido do ser vivo à face da Terra com maior número cromossómico, cabendo o título ao tropical O. reticulatum, com 1260 cromossomas. As fontes consultadas não são unânimes, mas o O. azoricum ostenta um honroso número de cromossomas, algures entre os 480 e os 720. Por comparação, a espécie humana tem apenas 46.

O número cromossómico não é uma medida fiável da complexidade de um organismo nem do seu grau de inteligência, caso contrário os Ophioglossum estariam a caminho de dominar o mundo. Muito pelo contrário, em Portugal parecem em vias de desaparecer. A excepção é o O. lusitanicum: pelo seu porte diminuto deveria ser o mais difícil de encontrar, mas vai aparecendo aqui e ali de norte a sul do país e também nas ilhas. Por contraste, as observações dos outros dois registadas no portal Flora On contam-se pelos dedos de uma só mão. Já que, apesar das ajudas, não conseguimos observar o O. azoricum em Portugal continental, pareceu-nos adequado procurá-lo nos Açores. O epíteto não significa que ele só se encontre nessas ilhas ou nelas seja especialmente abundante, e de facto nem uma coisa nem outra são verdadeiras: está distribuído por grande parte do centro e oeste da Europa, e nos Açores só existe, que se saiba, em cinco ilhas (Santa Maria, Terceira, Faial, Flores e Corvo). Acontece apenas que os exemplares que serviram de base à descrição original da espécie (pelo botânico checo Carl B. Presl, na sua obra Supplementum Tentaminis Pteridographiae, datada de Dezembro de 1844) foram colhidos nos Açores, e mais exactamente na Terceira, pelo nosso bem conhecido Karl Hochstetter.

Foi nas Flores que concentrámos as nossas buscas, e foi sobre uma falésia debruçada sobre a costa ocidental da ilha mais ocidental da Europa que finalmente vimos o O. azoricum, já com as hastes dos esporângios (as tais línguas viperinas) amadurecidas e tingidas de amarelo. Morava num rego entre duas pastagens, porventura a salvo da voracidade das muitas vacas, ovelhas e cabras que são as verdadeiras donas da ilha. O leitor com visão mais apurada pode tentar descobri-lo na foto em baixo.

11/07/2015

Feto orelhudo

Asplenium auritum Sw.

O estudo da flora açoriana atravessa um período de grande animação: há endemismos que deixam de o ser (um exemplo é a "Marsilea azorica" - que, sabe-se hoje, é na verdade a M. hirsuta e tem origem australiana), outros que não o eram mas passam a sê-lo (como o Centaurium scilloides e o Solidago azorica, antes chamado Solidago sempervirens), e outros ainda que, mantendo-se como endemismos do arquipélago, vêem a sua posição taxonómica alterada (como o Polypodium azoricum, cujo nome correcto é agora P. macaronesicum subsp. azoricum). Das recentes novidades taxonómicas, a que mais nos entusiasmou é a que vem proposta no artigo A revision of the genus Leontodon (Asteraceae) in the Azores based on morphological and molecular evidence, da autoria, entre outros, de Mónica Moura & Luís Silva, publicado em Maio de 2015 na revista Phytotaxa. Concluem os autores que são três e não duas as espécies de patalugo (como são popularmente conhecidos os Leontodon açorianos) endémicas dos Açores, e que elas se distribuem com uma lógica inatacável pelos três grupos do arquipélago: o patalugo-maior (Leontodon filii) é exclusivo do grupo central, mas o patalugo-menor, que se diferencia por ter uma inflorescência em umbela com um número muito grande de capítulos, teve de ser desdobrado em duas espécies, já que as plantas de São Miguel são morfológica e geneticamente distintas das do grupo ocidental (Flores & Corvo). Estas últimas pertencem agora à espécie Leontodon hochstetteri M. Moura & L. Silva, ficando o Leontodon rigens a constituir um endemismo de uma única ilha, a de São Miguel.

Os fetos, que são parte tão importante da flora açoriana, trazem-nos aquela que é de todas a melhor notícia, ilustrada pelas fotos que encabeçam o texto. Não se trata de uma mudança de estatuto ou de dar novo nome a algo já conhecido, mas sim de uma descoberta genuína. O Asplenium auritum existe numa única localidade da ilha das Flores e, assim o defendem os autores do artigo em que a novidade é reportada [Asplenium auritum Sw. sensu lato (Aspleniaceae: Pteridophyta) - an overlooked neotropical fern native to the Azores, F.J. Rumsey, H. Schaefer & M. Carine, Fern Gazette 19(7), 2014], é nativo do arquipélago. Ainda que até 2008 ninguém tenha dado por ele ou notado a sua peculiaridade, o herbário do Museu de História Natural, em Londres, guarda exemplares deste feto colhidos nas Flores em duas ocasiões (em 1857 por Henri Drouet, e em 1967 por C. M. Ward) mas erradamente identificados. A parte menos boa da história é que a população do Asplenium auritum nas Flores é muito reduzida, não excedendo os 50 indivíduos. Vive sobre velhos muros ladeando caminhos rurais por entre antigos campos de cultivo, hoje em dia completamente invadidos pela árvore-do-incenso (Pittosporum undulatum). Não o incomoda a densíssima sombra fornecida por esse bosque adulterado, mas a sua condenação parece certa se alguém se lembrar de recuperar os caminhos ou de desbastar a vegetação.

Para quem se habituou a observar fetos, o Asplenium auritum é bastante distintivo, embora seja inegável a sua semelhança geral com o A. bilottii e o A. onopteris, ambos presentes e relativamente comuns no arquipélago. No entanto, as frondes do Asplenium auritum são menos divididas e, ao contrário das do A. bilottii, têm um formato distintamente triangular; além disso, as pinas inferiores exibem aurículas que estão ausentes nas outras duas espécies.

O Asplenium auritum apresenta duas grandes áreas de distribuição: a América tropical (incluindo Caraíbas) e parte da costa leste do continente africano (incluindo Zimbabwe, Moçambique, Congo e Madagáscar). Contudo, a sua variabilidade é muito grande e a taxonomia está mal resolvida: é provável que várias espécies diferentes tenham sido agrupadas sob esse nome, com as plantas açorianas a assemelharem-se mais às americanas do que às africanas. Não é porém de descartar, segundo os autores do artigo, que o (chamemos-lhe assim à falta de melhor nome) Asplenium auritum dos Açores seja uma espécie nova, resultando então num novo acrescento à cada vez mais numerosa lista de endemismos insulares. Em todo o caso, e isso reforça a importância da descoberta, é a primeira vez que o Asplenium auritum ou um seu parente próximo são detectados nos Açores, na Macaronésia ou até na Europa.


Fajã Grande, ilha das Flores

07/07/2015

Costa do dragão

Uma espécie diz-se um endemismo quando só há populações silvestres dela num local restrito do planeta. Se a área onde ocorre a planta não é assim tão diminuta, diz-se que é nativa dessa região (é inapropriado falar de "endemismos europeus" ou, pior ainda, de "endemismos euro-asiáticos"). Na prática, como se atestam estas propriedades? Actualmente, com os meios tecnológicos ao dispor da genética, é mais simples destrinçar espécies; além disso, reconhece-se que a criação de endemismos é favorecida por habitats biologicamente isolados, pela radiação adaptativa, pela hibridação ou pela poliploidia. E, portanto, os botânicos sabem onde procurar endemismos. Mas há um problema intrínseco à definição anterior: ser ou não endémico é um estado que evolui com o tempo. A análise de fósseis tem revelado que algumas plantas, hoje consideradas endemismos de ilhas ou desertos, tiveram em outras eras uma distribuição muito mais ampla, foram quase cosmopolitas. Porém, com as alterações geológicas e do clima, ou por outras causas desconhecidas, extinguiram-se em quase todos os habitats, e as parcas sobras recolheram-se aos seus nichos de conforto.


Dracaena draco (L.) L.
Vem este arrazoado a propósito do dragoeiro (Dracaena draco). Recordemos que é uma árvore perenifólia (e muito longeva: há referências - talvez exageradas - a dragoeiros com seis mil anos) que se reconhece facilmente pelas folhas cinza-verde-azuladas, embora avermelhadas na base, com formato de espada; ou pela ramagem que se arranja numa coroa de cabelinho espetado; ou ainda pelo um tronco peculiar, cilíndrico, rugoso e dividido em muitos caules, que se dispõem como varetas de um guarda-chuva. (Com estes dados, consegue o leitor detectá-lo nas próximas fotos?) As inflorescências são terminais e paniculadas, com flores verdes ou brancas que só surgem quando a planta tem 10 a 15 anos, e que regressam periodicamente com intervalos de igual duração - curiosamente, o tronco ramifica-se só quando se dá uma floração, o que permite estimar a idade dos espécimes com alguma fiabilidade. O fruto é uma baga pequenina, comestível e doce, da cor da toranja. Entre os séculos XV e XIX, os portugueses extraíram da resina do dragoeiro uma substância vermelha corante, de preço elevado, usada em tintas, vernizes e produtos farmacêuticos.



Em estado silvestre, o dragoeiro é, hoje, uma planta muito rara. Embora se cultive em jardins de Portugal continental há vários séculos (diz-se que foi de um jardim de Lisboa que Lineu obteve, pela mão do botânico Domenico Vandelli, o material que lhe permitiu descrever a espécie), e se tenha naturalizado rapidamente em muitos outros locais de clima quente (porque as suas bagas são alimento preferido de vários pássaros), o habitat natural do dragoeiro restringe-se a escarpas rochosas à beira-mar, frequentemente inacessíveis, e a algumas florestas de Pittosporum. Pois bem: vimos os dragoeiros das fotos na ilha das Flores, e sabe-se que ele ocupa lugares semelhantes no Faial, mas há dúvidas de que o dragoeiro seja nativo destas ilhas. Por exemplo, Amaral Franco não o inclui na sua Nova Flora de Portugal, que decerto pretendeu completa sobre a vegetação do continente e dos Açores.

Mas, afinal, o dragoeiro é um endemismo de que locais? Segundo G. Lopez González, em Los árboles y arbustos de la Península Ibérica e Islas Baleares, o fruto do dragoeiro terá chegado a uma das ilhas Canárias vindo de África (Marrocos ou Cabo Verde), transportado por aves. Ter-se-á daí disseminado para as demais ilhas das Canárias e para os outros arquipélagos da Macaronésia, ou seja, Açores e Madeira. E Carlos Aguiar revela aqui que a intersecção dos conjuntos de plantas com flor nativas dos arquipélagos de Cabo Verde, Canárias, Madeira e Açores se reduz a uma espécie, precisamente a Dracaena draco. Tendo em conta estas informações, e os testemunhos do médico alemão H. Muntzer (que, em 1494, reportou a existência de florestas de dragoeiros na costa do Faial) e do navegador italiano A. Cadamosto (que, em 1455, o descobriu na ilha de Porto Santo, onde hoje está extinto), é talvez de aceitar uma destas alternativas:

1. O dragoeiro é um endemismo do norte de África e da Macaronésia (onde se confinou depois de ter uma distribuição vasta na Europa e na região mediterrânica, por estas ilhas beneficiarem de um clima ameno que não sofreu variações drásticas ao longo das eras).

2. O dragoeiro é nativo de África, tendo-se naturalizado nas ilhas atlânticas da Macaronésia.

O que parece certo é não termos razões científicas para acreditar na seguinte versão defendida por várias Floras:

3. O dragoeiro é um endemismo das Canárias, Madeira, Cabo Verde e Marrocos.

Seria bem-vinda uma comparação genética dos dragoeiros açorianos (que vivem em ambiente muito chuvoso) com os dos outros habitats (alguns quase desérticos), para se esclarecerem estas dúvidas e se formar um juízo convincente. Antes disso, porém, precisamos de formar botânicos alpinistas.

18/02/2014

Esplendor púrpura


Luzula purpureo-splendens Seub.


Quem no início de Junho visitar a zona central da ilha das Flores, não deixará de notar, assomando entre os almafadões de Sphagnum um pouco acima da altura do joelho, uma profusão de inflorescências vermelhas encimando esguias hastes. Se a névoa for tão espessa que não deixe sequer adivinhar as lagoas, a impressão é de estarmos mergulhados numa grande taça de morangos com chantilly. Bom, talvez essa imagem só ocorra a quem seja dotado da visão privilegiada dos míopes, e em todo o caso é uma absurda quantidade de chantilly para tão diminutos "morangos". Se alguém tiver uma comparação mais sugestiva para essa substância envolvente, leitosa, semi-opaca, esparsamente pontilhada de vermelho, então esteja à vontade para reescrever o texto.

O vermelho-púrpura da Luzula purpureo-splendens vem não só das tépalas das flores mas também das brácteas na base das inflorescências. À medida que as flores se desenvolvem, as tépalas abrem e deixam ver o branco luminoso dos estigmas e das anteras. Quando os frutos estão formados, o vermelho converte-se em castanho. Chegando Agosto, já as sementes foram disseminadas e não sobram vestígios da haste floral. A parte visível da planta reduz-se agora a um tufo de folhas compridas e brilhantes, com margens ciliadas.

O saragasso, nome pelo qual é conhecido no arquipélago, é um endemismo açoriano que só não ocorre nas duas ilhas menos húmidas, Graciosa e Santa Maria. Dá provas, apesar disso, de alguma versatilidade ecológica, pois nas Flores está presente desde os sítios mais encharcados da parte alta da ilha até às pastagens comparativamente secas próximas do litoral. Quando, porém, nessa ilha tão vertiginosamente escarpada, temos o mar quase debaixo dos pés, a queda ainda pode ser superior a 300 metros. Como nesta imagem da descida para a Fajã Grande, em que um velho cedro-do-mato (Juniperus brevifolia) tem a rodeá-lo à direita um molho de saragassos, e à esquerda um tufo de fetos-pente (Blechnum spicant).

30/10/2012

Pau enegrecido



Picconia azorica (Tutin) Knobl.

Que a ilha das Flores é um rectângulo com 17 Km de comprimento e 12 Km de largura é um dado objectivo, do qual somos tentados a deduzir que todas as distâncias na ilha são insignificantes, e que só por comodismo habitantes e turistas se deslocam de carro e não a pé. O pedestrianismo é, além do mais, um modo de combater a claustrofobia, fazendo com que um espaço confinado se alargue em lonjuras insuspeitadas. Na realidade, para quem não é adepto de desportos suicidas, as distâncias que os mapas mostram pouca relação têm com aquelas que somos obrigados a percorrer. Subindo à costa oeste da ilha contemplamos lá em baixo, assim o nevoeiro o permita, os campos delimitados a pedra de lava, verdíssimos e geométricos, que anunciam o casario da Fajã Grande. Um pássaro pôr-se-ia lá num breve bater de asas, mas as centenas de metros da falésia quase vertical obrigam-nos, pobres bípedes, a tomar uma estrada que se enrola e desenrola preguiçosamente por uma dezena de quilómetros.

Aproximarmo-nos gradualmente daquilo que começámos por ver ao longe é pretexto para um jogo de adivinhação com regras flexíveis, em que o apostador pode ir corrigindo a aposta e no final ganha sempre. Que árvores são aquelas derramadas pela encosta como um reposteiro espesso? Criptomérias, sem dúvida. Mais adiante uma mata cerrada de incensos. Um ou outro plátano esquecido à beira da estrada. Não haverá, em toda esta exuberância de arvoredo exótico, uma amostra da vegetação autóctone? Sim, há os fetos, alguns deles raros noutras paragens mas aqui improvavelmente comuns, como o feto-do-botão (Woodwardia radicans) e o feto-frisado (Trichomanes speciosum). E há arbustos que gostariam de ser árvores e lutam por um réstia de espaço numa ilha que já foi sua, como a faia-da-terra (Myrica faya) e o pau-branco (Picconia azorica).

Já quase a altitude zero, com uma pastagem e uma estrada a separá-lo do mar, um bosquete de pequenas árvores com folhagem luzidia e copa de muitos e emaranhados ramos atrai-nos a atenção. Não fossem os troncos quase negros e diríamos tratar-se do pau-branco. Há que saltar um muro para confirmar de perto a identificação. Sim, as flores (poucas, porque tardias) não mentem, e os ramos mais recentes exibem a palidez e lisura que caracterizam a espécie. O pau-branco enegreceu e enrugou com a idade, mas não deixou de ser quem era.

Arbusto ou árvore perenifólia com não mais que 8 metros de altura, a Picconia azorica é endémica dos Açores, onde só não ocorre na Graciosa. Uma segunda espécie, Picconia excelsa, da Madeira e das Canárias, partilha o nome pau-branco e completa um género que é exclusivo das ilhas atlânticas. Ambas têm fama de fornecer boa matéria-prima para a marcenaria, o que, nos Açores, terá contribuído para o desaparecimento de povoamentos antigos. Nas Flores, onde são comuns os indivíduos jovens de Picconia azorica, a espécie não está tão ameaçada como poderá estar noutras ilhas; mas árvores com muitas décadas de vida, como estas na Fajã Grande, parecem ser raras.


Ilha das Flores: Fajã Grande com Picconia azorica em primeiro plano