Muros de Gibraltar
Gibraltar é um promontório britânico situado na ponta sudeste da Península Ibérica. Pode dizer-se sem melindre que se resume a uma cidade com um porto, um pequeno aeroporto e um gigantesco rochedo calcário com cerca de 420 metros de altura, encimado por uma crista de declive acentuado. Em frente, estão Marrocos e Ceuta (que já foi portuguesa, mas é enclave espanhol em África desde 1668), com o Mediterrâneo de um lado e o Atlântico do outro a trocarem águas, sal e vento através de um estreito com cerca de 15 quilómetros de largura no ponto mais afunilado.
Durante a nossa viagem a Algeciras em Abril, guardámos um dia para conhecer a vegetação de Gibraltar. O rochedo abriga uma reserva natural com vários endemismos botânicos que justificam plenamente uma visita, apesar do incómodo da fronteira (agora finalmente aberta), da multidão de turistas e dos preços exorbitantes. Estacionado o carro num vasto parque (pago) à entrada de Gibraltar, ainda do lado espanhol, o resto do caminho é feito em parte pela pista do aeroporto e depois por uma escadaria íngreme, que se juraria ser interminável, até ao posto que controla o acesso (pago) ao rochedo. À entrada da reserva está um muro muito fotografado por ali se recostarem alguns macaquinhos, uma pequena população, introduzida em Gibraltar há muitos séculos, de Macaca sylvanus, espécie nativa de Marrocos, Argélia e Tunísia. Nota-se também o desenho de uma planta, Silene gibraltarica, endemismo de Gibraltar, resgatado da quase-extinção há uns 30 anos, que não estava ainda em flor. Os percursos permitidos no rochedo são sobretudo a pé por estrada, mas um ou outro segue junto aos penhascos. E, nas fendas das rochas, nas cascalheiras e nas escarpas havia numerosas plantas floridas.

Esta herbácea perene tem uma inflorescência em corimbo grande (uns 6 cm de diâmetro), com flores de pétalas desiguais rosadas ou violáceas. Não é muito diferente das espécies de Iberis que vemos por cá, mas é maior e tem um contorno mais vincado de almofada. Ocorre também em Marrocos.

É curiosa a aparência glandulosa muito frágil desta planta, com folhas que parecem garfinhos, talos de cerca de 20 cm tingidos de púrpura e flores minúsculas brancas com um anel de anteras amarelas ao centro. Este é, porém, um formato frequente no género Saxifraga. Aprecia recantos soalheiros na rocha calcária, e é nativa do norte de África e do sul de Espanha.
Esta é uma planta subarbustiva de hábito rasteiro, com folhas densamente cobertas de pêlos finos e hastes de flores erectas. Como outros tomilhos, é aromática, libertando uma fragância agradável quando as folhas se esmagam. A sua distribuição inclui também Marrocos, Argélia e o sul de Espanha.

As folhas em forma de coração pequenino cobertas de lanugem ajustam-se perfeitamente ao epíteto desta herbácea cespitosa. A Flora Ibérica distingue duas subespécies de acordo com a cor, branca ou amarela, do indumento. Pode também ver-se no norte de África e noutros locais do sul da Península Ibérica, quase sempre em substrato margoso.

Esta é outra herbácea perene dos muros do rochedo de Gibraltar. É uma planta grande, cujos talos ascendentes podem chegar aos 50cm de altura, e muito vistosa quando está em flor. As folhas são elípticas, ligeiramente curvadas; as corolas medem cerca de 3cm e hesitam entre várias tonalidades, entre o branco, amarelo, violeta e púrpura. O epíteto parece contradizer a exuberância desta espécie, que é um endemismo do sul da Península Ibérica.
Surgiram ainda nas escarpas de Gibraltar duas plantas em flor cuja presença frequente foi uma surpresa: a Succowia balearica, que ocorre também nas ilhas Baleares e, embora raramente, no Barlavento Algarvio; e a bela Scilla peruviana.
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