15/07/2026

De Cádiz a Málaga, à boleia das boninas

Los Alcornocales, Algeciras
Tratadas com desdém e perseguidas com afinco: essa é a vida das boninas (Bellis perennis) nos relvados dos nossos jardins públicos ou privados. Acreditam elas, as ingénuas, que a visão de um relvado pontilhado por malmequeres só nos pode alegrar. Bom, talvez alegre certas boas almas, mas não aquelas que supervisionam, com rigidez burocrática e sentido estético embotado, os chamados espaços verdes — espaços onde o verde é apenas contingente e as plantas formam uma massa indiferenciada cujo crescimento é preciso combater. Ainda assim, as boninas nunca desistem, assim como nunca desistem outras flores de surgimento efémero que aproveitam as curtas semanas de intervalo entre dois cortes rasos.

Da cidade para o campo, as boninas não deixam de nos acompanhar. Contudo, a B. perennis, de apetências mais urbanas, é em geral substituída por uma espécie mais vocacionada para espaços naturais, justamente chamada B. sylvestris. A mesma arquitectura básica — uma roseta compacta de folhas de onde saem escapos rematados por um único capítulo — é partilhada pelas duas espécies, mas a B. sylvestris costuma ter capítulos maiores e folhas mais alongadas e estreitas. Como tira-teimas, podemos desenterrar a planta: a B. perennis, ao contrário da B. sylvestris, é estolhosa, com várias rosetas unidas por caules subterrâneos. E as duas espécies também se diferenciam pelos aquénios: os da B. sylvestris (pelos menos os da subespécie pappulosa. prevalecente em Portugal) são encimados por um penacho, que está ausente na B. perennis.

Bellis cordifolia (Kunze) Willk.


E sobre boninas estaríamos conversados. Conhecíamos, claro está, outras espécies de Bellis em nada confundíveis com estas duas espécies irmãs, como a açoriana B. azorica e a sulista (e minúscula) B. annua. Mas a nossa visita a Algeciras em Abril deste ano ensinou-nos que as boninas são assunto mais vasto e intricado do que julgávamos; e, de surpresa, elas ganharam a nossos olhos um interesse renovado. O primeiro episódio foi termos deparado, num dos extensíssimos sobreirais que formam o Parque Natural Los Alcornocales, com umas boninas de folhas grandes e arredondadas, distintamente cordiformes. Eram boninas indiscutíveis, mas as folhas destoavam. Convocada a prestar esclarecimentos, a Flora Iberica não se vez rogada, e de pronto identificou a descoberta como sendo a Bellis cordifolia (acima ilustrada), endémica dessa região da província de Cádiz.

Encantados por uma planta que nos era familiar se ter transmudado em raridade de distribuição restrita, passámos a olhar as boninas com mais atenção. A dada altura já não diríamos que a Bellis cordifolia fosse assim tão rara, pois na Sierra Bermeja, já na província de Málaga, ela parecia surgir com regularidade. Ter-se-ia a Flora Iberica equivocado? Observando com atenção as folhas das plantas de Málaga (fotos em baixo), constatamos que elas, apesar de muito largas, não são de facto cordiformes, ou são-no em grau muito menor que as de Algeciras. A Flora Iberica é da opinião que plantas como esta da Sierra Bermeja, apesar de poderem confundir-se com a B. cordifolia, se situam num extremo de variação da B. sylvestris subsp. pappulosa.

Talvez a história não se fique por aqui. Mesmo com os estudos moleculares, a taxonomia não é ainda uma ciência exacta, e entre os botânicos há, como sempre houve, opiniões divergentes sobre como valorizar certas discrepâncias morfológicas. A verdade é que custa a crer que as plantas de Málaga, de folhas tão diferentes, encaixem na mesma espécie e subespécie que a vulgar B. sylvestris dos nossos montes.

Bellis sylvestris subsp pappulosa (DC.) Coste

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