11/08/2025
27/06/2023
Açoriano tropical

Entre 1998 e 2001, o botânico Hanno Schaefer levou a cabo, no Faial, nas Flores e em Santa Maria, um exaustivo trabalho de campo que lhe permitiu o mapeamento praticamente completo da vegetação vascular dessas ilhas. Entre as novidades então aportadas à flora açoriana sobressaem o trovisco-macho de Santa Maria e, no extremo oposto da escala de tamanhos, um feto epífito diminuto, de poucos centímetros de comprimento, morador dos hiper-húmidos bosques de juníperos com turfeira que preenchem as cotas elevadas da ilha das Flores. Ainda que estreitamente aparentado com Grammitis marginella, feto tropical cuja área de distribuição abrange Jamaica, Costa Rica e partes do Brasil, o feto descoberto nas Flores singulariza-se pela menor pubescência das folhas, pela presença de pêlos glandulosos ao longo das margens, e pelas frondes de menor tamanho e de ápice obtuso. Estas características diferenciadoras bastaram para que o novo feto fosse oficialmente reconhecido como endémico do arquipélago, primeiro como subespécie de Grammitis marginella, mais tarde como espécie autónoma sob o nome de Grammitis azorica. Embora houvesse suspeitas da sua ocorrência noutras ilhas, até 2013 só havia a certeza da sua presença nas Flores. Nesse ano, Rui Bento Elias e Fernando Pereira encontraram dois exemplares na Terceira, ambos epífitos de Juniperus brefivolia mas em dois lugares afastados; e em 2021 os mesmos botânicos da Universidade dos Açores descobriram no Pico dois exemplares de G. azorica, também em lugares distintos. Assim, apesar de haver apenas quatro exemplares adicionais a atestá-lo, sabe-se hoje que a G. azorica vive em pelo menos três ilhas dos Açores: Flores, Terceira e Pico — as mesmas onde está assinalado o único outro feto da família Grammitidaceae na flora açoriana, Ceradenia jungermanioides (foto em baixo).
Estes dois fetos açorianos de ascendência caribenha são fáceis de distinguir mesmo a olho nu: a Ceradenia jungermanioides tem as frondes mais estreitas, compridas e hirsutas, enquanto que as da Grammitis azorica apresentam margens conspicuamente debruadas a negro. Esse é aliás um carácter distintivo do género Grammitis, que já abrangeu centenas de espécies mas foi em anos recentes drasticamente reduzido, cifrando-se em pouco mais de 20 espécies: a maioria das que se mantiveram exibe folhas com margens sublinhadas a traço preto, como se vê nestes exemplos.
As latitudes a que estão situadas as ilhas, e as temperaturas moderadas que nelas se sentem, não autorizam que se chame tropical à floresta húmida açoriana. No entanto, a humidade exacerbada, a abundância de epífitos (não só fetos e musgos, mas também plantas com flor), o solo encharcado e movediço, a profusão de grandes fetos no sub-bosque — tudo isso cria uma ambiência que talvez só encontre paralelo nas florestas tropicais do Novo Mundo. Não será apenas a menor distância para o continente americano a explicar que estes fetos da familia Grammitidaceae tenham colonizado os Açores mas não a Madeira nem as Canárias. É que são muito poucas as afinidades entre a laurissilva da Madeira (e das Canárias) e a floresta endémica dos Açores — à qual, e também pela circunstância de a árvore dominante ser uma conífera, é por isso inapropriado chamar laurissilva, como muitos autores fazem.
Na 3.ª edição (de 2021) do seu livro Flora of the Azores — A Field Guide, H. Schaefer diz da Grammitis azorica ser provável que ela venha a extinguir-se nos próximos anos. Os escassíssimos exemplares que têm sido encontrados reforçam a ideia de que a planta tem grande dificuldade em reproduzir-se, e é também sabido que o desenvolvimento de um único indivíduo maduro, com produção regular de frondes, é um processo que demora anos, e que só pode desenrolar-se em habitats isentos de perturbações. No artigo de 2001 em que reportava a descoberta da planta nas Flores, Schaefer informava ter apenas encontrado 22 exemplares em toda a ilha. É provável que a maioria deles já não exista: à acção dos colectores sem escrúpulos, que nunca hesitam em colher os últimos exemplares de uma espécie ameaçada (sobretudo em locais onde a fiscalização é inexistente ou ineficaz), junta-se a destruição e degradação dos habitats provocadas pela abertura e alargamento de estradas nas zonas ambientalmente mais valiosas da ilha.
Pela sua inacessibilidade e por se situarem em zonas protegidas, os lugares do Pico e da Terceira onde a espécie foi descoberta têm ficado a salvo de agressões, e não há razões para supor que a alta qualidade desses habitats esteja ameaçada. Há assim uma esperança razoável de que a Grammitis azorica sobreviva nessas ilhas, mesmo quando já tiver desaparecido das Flores.
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09/08/2022
15/01/2020
Águas salobras



Ao contrário do que pode sugerir o epíteto maritima, esta Ruppia não vive no mar, mas apenas em zonas costeiras tais como estuários, lagoas e salinas. É um habitat por natureza descontínuo e daí que a planta tenha uma distribuição muito fragmentada. No entanto, ela está espalhada por todos os continentes habitados, desde regiões de clima fresco até zonas tropicais, conjecturando-se que tenham sido as aves migratórias, ao comerem os peixes que engolem os frutos da planta, o principal veículo da sua disseminação. Planta de ciclo anual mas florescendo e frutificando ao longo de praticamente todo o ano, não parece ter dificuldade em manter largos contigentes nos locais onde está instalada. Na lagoa da Fajã dos Cubres forma extensas pradarias submersas, e de facto ela é aí a única planta que vive inteiramente na água. Uma observação atenta permite detectar os típicos caules articulados, mas para inspeccionar inflorescências e frutos é indispensável pescar algum exemplar (que depois deverá ser devolvido à água). Os frutos são pequenas drupas dotadas de pedúnculos muito longos (as fotos em baixo mostram uma inflorescência); noutras espécies do género como a Ruppia cirrhosa, mas não na R. maritima, esses pedúnculos costumam contorcer-se em espiral.
Os mamíferos que vivem no mar têm de vir à tona para respirar. Não é esse exactamente o caso da Ruppia, mas esta planta só consegue reproduzir-se porque literalmente cria bolhas de ar. Tais bolhas envolvem as anteras, transportando o pólen para a superfície. Em seguida o pedúnculo cresce, e com isso os estigmas assomam também à superfície para receberem o pólen. Noutros casos, em que a autogamia é prática corrente, a inflorescência prescinde da ascensão à superfície e tudo se passa na intimidade de uma bolha de ar que envolve anteras e estigma de uma mesma flor.
P.S. Para algumas importantes correcções a este texto, leia-se o comentário aqui deixado por Duarte Frade.



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18/10/2013
Musgo desdentado


Os ingleses chamam fir clubmoss a esta planta, ou a outra com ela aparentada. É um nome que se presta a certos equívocos, como muitas vezes sucede com as designações vernáculas. Assim, clubmoss, que se aplica indistintamente a todas as licopodiáceas, sugere que estas plantas, cujas hastes erectas lembram vagamente um bastão (club), pertencem à classe dos musgos (moss). Na verdade, embora haja musgos (como o Polytrichum commune, vulgar em habitats encharcados) que com elas têm alguma semelhança, as licopodiáceas, ao contrário dos musgos, são plantas vasculares, representando por isso um estádio evolutivo mais avançado. São, ainda assim, dos mais primitivos organismos vegetais à face da Terra, anteriores aos fetos (com os quais costumavam ser emparelhados) e a todas as plantas que produzem flor.
O bastão-de-musgo não é pois um musgo, mas o nome fir clubmoss, que preferimos não tentar verter na íntegra para português, é bem apropriado ao evocar o abeto (fir). A Huperzia e a sua prima Lycopodiella cernua, ambas comuns em proporções variáveis nas sobras de floresta nativa que pontuam o arquipélago açoriano, fazem de facto lembrar coníferas em miniatura, e é fácil confundi-las com rebentos de criptoméria, espécie florestal dominante nas ilhas.
A Huperzia selago, que existe no norte da Península Ibérica mas não chega a Portugal, é a única representante europeia de um género que globalmente inclui mais de 300 espécies sobretudo tropicais. Tão semelhante ela é às plantas açorianas (e madeirenses) que vários foram os autores a defender que nas ilhas atlânticas ocorriam simples variedades da planta continental. Contudo, a espécie mais comum nos Açores, H. dentata, que também ocorre, embora raramente, na Madeira, apresenta um detalhe morfológico que a diferencia facilmente da H. selago: as suas folhas têm numerosos pequenos "dentes" ao longo das margens. A segunda espécie insular, H. suberecta, que hoje exibimos no escaparate, inverte papéis com a sua congénere quando muda de arquipélago, pois é rara nos Açores e comum na Madeira. As folhas desdentadas (confira nas fotos acima) e a presença ocasional de bulbilhos asseguram que o observador atento (e munido de lupa) não confundirá a H. suberecta com a H. dentata. Mais difícil é explicar, se descontarmos os mais de mil quilómetros de oceano, o que separa a H. suberecta da H. selago. Dizem os peritos que é o tamanho das hastes — as da primeira podem chegar aos 40 cm, as da segunda ficam aquém dos 25 cm — e a ornamentação dos esporos, pormenor apenas visível ao microscópio.
Ainda que as duas espécies açorianas coexistam na serra de Santa Bárbara, na ilha Terceira, a H. suberecta é aquela que tem maiores exigências de humidade, surgindo apenas nas zonas mais altas e enevoadas das ilhas, em geral bem acima dos 500 m. A H. dentata, por seu turno, desce até aos 300 m, e na ilha das Flores é comum mesmo em bermas de estrada.
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11/10/2013
Chão que foge


As flores no bordo da lagoa funcionam como isca — não para os peixes, mas para os humanos interessados em plantas. O objectivo é que eles se aproximem confiantes na solidez do chão que pisam, até que o que era consistente deixe repentinamente de o ser, e botas e calças se afundem até aos joelhos numa sopa de lama. Não é uma armadilha perigosa, apenas ridícula e incómoda. As plantas que preparam tal engodo só querem rir-se do rei da criação, outrora assim chamado por inspiração bíblica. Pena não o poderem ver mais tarde, numa estação de serviço, de mangueira em punho, a regar-se a si próprio com um jato de água, fazendo alastrar em seu redor uma mancha cor de terra.
A burlesca cena teve lugar na Terceira, perto da gruta do Natal, o segundo buraco vulcânico que, com o Algar do Carvão, constitui o pacote dois-pelo-preço-de-um que os turistas avisados não deixam de experimentar. Optámos por não visitar a gruta, porque o tempo era curto e o nosso interesse é por aquilo que vive à luz do sol. E a lagoa do Negro, a 50 m da casa de acesso à gruta, merecia uma inspecção atenta, que a presença das florinhas brancas amplamente justificou.
A Sagittaria subulata, que talvez não se chame assim, é uma planta aquática originária da costa oeste dos EUA. É muito cultivada em aquários, dando-se bem mesmo quando completamente submersa, e propagando-se rapidamente através de rizomas. As folhas podem atingir os 60 cm, às vezes com extremidades flutuantes, mas em geral ficam-se pelos 5 a 10 cm. As flores aparecem em hastes que emergem da água. O nome científico levanta dúvidas, pois parece haver duas espécies distintas às quais ele vem sendo aplicado, e é a outra espécie que tem prioridade para reter a designação (mais detalhes aqui).
Exótica nos Açores, até hoje, no arquipélago, a planta só foi assinalada na ilha Terceira, e talvez só na lagoa do Negro. Como o primeiro registo data de 1993, e desde então ela pouco ou nada se terá disseminado, não parece haver risco de se tornar invasora na ilha, pecado de que não está isenta noutras paragens. É provável que a sua chegada à Terceira se deva à presença americana nas Lajes, pois entre os militares estacionados na base aérea haverá certamente quem tenha o hobby da aquariofilia. Conjectura-se, aliás, ser essa mesma a razão para o aparecimento da Marsilea hirsuta (ex-M. azorica) no pico da Bagacina.
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28/09/2013
Jardim vertical


A flora das ilhas açorianas, especialmente rica em fetos e aparentados, conta no seu elenco com algumas variações muito interessantes do avencão (Asplenium trichomanes), planta que no continente é muito comum em fendas de rochas e muros com alguma humidade. Nos Açores, o avencão não é nada comum e terá mesmo desaparecido de algumas ilhas; segundo Schäfer (Flora of the Azores — a field Guide, 2.ª edição, 2005), a sua presença no arquipélago quase se restringe a habitats construídos pelo homem. Daí que quem julgar vê-lo por lá deverá inspeccionar o achado com alguma cautela, pois poderá tratar-se do A. azoricum, do raríssimo A. anceps (só no Pico) ou do não assim tão raro feto-de-escoumas, assunto do texto de hoje.
O Asplenium monanthes, que ostenta a distinção de ter sido nomeado por Lineu em 1767 e não ter mudado de nome desde essa data, não é um endemismo açoriano; sem deixar de ser nativo do arquipélago, é das plantas mais viajadas que lá se encontram. Já Lineu, na descrição original, dava conta do seu vasto território de ocorrência: América desde o estado do Arizona até ao Chile; ilhas do Havai; África meridional incluindo ilhas atlânticas (Tristão da Cunha, Ilha Inacessível). A que se pode acrescentar Açores, Madeira, Madagáscar e a ilha da Reunião. Este pequeno feto, com folhas de uns 20 cm de comprimento, é um bilhete para a nossa imaginação discorrer por lugares que nunca visitaremos.
O formato peculiar das pinas (confira na segunda e terceira fotos) garante que o observador atento não irá confundir o Asplenium monanthes com algum dos seus primos. O epíteto monanthes, que significa "uma só flor", explica-se por cada pina ter em regra um único soro (agrupamento de esporângios) na página inferior. Enigmático é o nome vernáculo feto-de-escoumas, usado tanto na Madeira como nos Açores.

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23/09/2013
Chambre das pombas




As pombas sempre voltam a casa, o que serve de desculpa para regressarmos, um mês depois, ao assunto dos pés-de-pomba açorianos. Pé-de-pomba é o nome que, seguindo a sugestão do Portal da Biodiversidade dos Açores, damos às umbelíferas açorianas do género Ammi. Curiosamente, esse mesmo portal apenas atribui tal designação vernácula à espécie Ammi huntii, de paradeiro desconhecido e existência incerta. As duas espécies que realmente existem, A. seubertianum e A. trifoliatum, não teriam recebido a graça de um baptismo popular. A imaginação do povo pode às vezes ser perversa, mas é inusitado que atinja tal requinte de abstracção.
Para tirar melhor proveito desta lição, o leitor terá a paciência de recapitular a lição anterior sobre o Ammi seubertianum. Observe atentamente as fotos e compare-as com as do A. trifoliatum que hoje ocupam a montra. Há-de notar que as folhas do A. seubertianum são mais largas e lustrosas, com um serrilhado mais regular nas margens; e, embora as fotos não o mostrem, são duras, algo suculentas, enquanto que as do A. trifoliatum são finas e maleáveis. O A. seubertianum é robusto e compacto, o A. trifoliatum é desgrenhado. De facto, as duas plantas nem são muito parecidas, e ao vivo certamente não se confundem. Também a ecologia e a distribuição as separam: o A. seubertianum distribui-se predominantemente por falésias costeiras, ao passo que o A. trifoliatum vive afastada do mar em crateras e ravinas a altitudes elevadas. De todas as ilhas do arquipélago, só numa delas, o Pico, é que as duas espécies coexistem.
Acontece que aquilo que salta à vista quando observamos as plantas no seu habitat pode não ser evidente em material seco de herbário. Há 40 anos, apesar de já então haver ligações aéreas regulares, não seria tão fácil como hoje dar um salto às ilhas para esclarecer dúvidas taxonómicas. Tudo isso, somado à confusa história que rodeia o género Ammi nos Açores, ajudará a explicar por que decidiu Franco, na sua Nova Flora de Portugal (vol. 1, 1971), decretar que nos Açores existia apenas uma espécie endémica de Ammi, a que chamou A. huntii. Eric Sjögren, no seu Plantas e Flores dos Açores (Os Montanheiros, 2001, edição trilingue), parece ter adoptado idêntica opinião, embora chame A. trifoliatum a essa hipotética espécie única. Não é pois de estranhar que sobre ela diga que "a distribuição em altitude e as preferências ambientais ainda são pouco conhecidas".
Para ajudar a deslindar o mistério dos Ammi nos Açores, três botânicos espanhóis, Esther Bueno, Ana Juan e Manuel B. Crespo, publicaram em 2009, nos Anales del Jardín Botánico de Madrid, o artigo Lectotypification of three endemic taxa of Ammi L.(Apiaceae) from the archipelago of the Azores. Os autores notaram que para nenhuma das descrições publicadas das três espécies tinha sido designado um espécime tipo — ou seja, um espécime guardado em herbário que servisse como padrão (ou tipo nomenclatural) para aferir se uma dada planta pertencia ou não à espécie descrita. Nos primórdios da taxonomia botânica sucedia por vezes elegerem-se vários espécimes para, no seu conjunto, funcionarem como tipo nomenclatural, o que era causa de confusão se posteriormente se verificasse que esses espécimes não pertenciam todos à mesma espécie. Seria como descrever um certo mamífero tomando simultaneamente como modelos um chimpanzé e um gorila. Para as três espécies A. huntii, A. trifoliatum e A. seubertianum, os autores escolheram como tipo nomenclatural (diz-se neste caso lectótipo) plantas depositadas no herbário dos Kew Gardens. Para o A. huntii havia um só exemplar em relativas boas condições, e pela descrição que dele é feita tem mais semelhanças com o A. trifoliatum do que com o A. seubertianum. Mas há importantes diferenças com ambos, por exemplo no facto de ter brácteas trífidas, o que o aproxima mais da espécie continental A. majus (naturalizada nos Açores). Embora os autores do artigo não tirem qualquer conclusão, não é improvável que aquilo a que H. C. Watson chamou Ammi huntii fosse afinal um exemplar atípico de A. majus. Daí que há mais de um século ninguém tenha avistado, colectado ou fotografado a planta em nenhuma das ilhas do arquipélago.
Das outras duas espécies de Ammi açorianas completamos hoje no blogue a prova fotográfica da sua existência. Com o detalhe de, no caso no Ammi trifoliatum, o termos feito do modo mais difícil, escolhendo para a sessão fotográfica uma das ilhas onde a planta é mais escassa. De facto, de todo o rectângulo da Terceira, é só na maravilhosa Rocha do Chambre, onde faz companhia à Lactuca e à Pericallis, que esta pomba parece pôr o pé.

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Paulo Araújo
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20/09/2013
Gaspar & os patalugos


Há um ano, demos notícias sobre o patalugo-menor (Leontodon rigens), uma espécie de Leontodon endémica dos Açores, de porte grande e corimbos densos de inflorescências amarelas vistosas. É uma planta rara nas cinco ilhas em que ocorre, com excepção das Flores onde se pode encontrar até em bermas de estrada e penhascos costeiros. Faltou então mostrar o irmão, o patalugo-maior, de que há registos em São Miguel, Terceira, São Jorge, Pico e Faial e que, de mais avantajado, só tem os capítulos florais (com muito mais florículos) que são, todavia, solitários e portanto de efeito mais modesto.
Crê-se que as duas espécies descendem de um Leontodon europeu ou da Macaronésia, chamemos-lhe Leontodon-mater. Contudo, o parentesco real entre os dois endemismos açorianos, o Leontodon rigens e o Leontodon filii, que admitimos terem o mesmo ascendente, está ainda por esclarecer. A interrogação justifica-se porque, nas ilhas em que as duas espécies coexistem (Pico, São Jorge e São Miguel), elas competem pelo mesmo nicho, com uma floração quase simultânea (com o L. filii ligeiramente atrasado) e, por isso, podendo até beneficiar dos mesmos polinizadores. Estranha-se esta concorrência em família, e desconfia-se que a razão dela pode ser complexa e difícil de provar.
Alguns botânicos conjecturam que, depois de aportar às ilhas mais orientais, o Leontodon-mater chegou às Flores ou ao Corvo e, por isolamento geográfico num novo ambiente, criou no grupo ocidental do arquipélago uma espécie nova, o Leontodon rigens. Como em alguns mitos gregos, do Leontodon-mater não houve mais notícia, a selecção natural terá agido em conformidade. Entretanto, nas ilhas do grupo central, o Leontodon-mater também se adaptava ao novo habitat e fazia aí aparecer outro endemismo, o Leontodon filii, com idêntico desaparecimento da planta-mãe. Ninguém esperaria, claro, que os dois endemismos, nados em ilhas distintas, fossem idênticos. Não são, de facto: há diferenças notórias na morfologia das inflorescências e alguns marcadores genéticos confirmam a separação das espécies. Mas, admitindo que evoluíram longe um do outro, não é estranho que tenham tantos traços em comum? Que ambos sejam lenhosos na base, tomentosos, com látex branco, só com folhas basais, aceita-se, devem ser feições herdadas da mãe, que desconhecemos, a que não puderam escapar. Mas por que têm ambos, por exemplo, folhas com margens dentadas exactamente com o mesmo perfil, se as muitas espécies de Leontodon no continente variam bastante de forma neste pormenor?
E, voltando à questão que aqui nos trouxe, como é que os dois endemismos surgiram juntos nas três maiores ilhas do arquipélago? Talvez o filho das Flores e Corvo tenha colonizado estas três ilhas, numa viagem de retorno uma geração depois, e o confronto com o irmão não tenha sido prejudicial a nenhum deles. Não há, de momento, indícios de que esta convivência venha a ter como desenlace o fim de um deles — até porque correm boatos de que este patalugo-menor nas ilhas centrais é na verdade um patalugo-médio, o terceiro endemismo açoriano deste género, distinto do L. rigens inicial. Enfim, teremos de reavaliar a situação e voltar ao assunto daqui a, digamos, um milhão de anos.
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Maria Carvalho
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17/09/2013
Rara alface
As ilhas dos Açores são território recente, tendo a mais nova (Corvo) cerca de 0.7 milhões de anos e a mais idosa (Santa Maria) um pouco mais de 8. Tempo suficiente para lá se instalar flora continental variada. Mas como chegaram as plantas às ilhas? O arquipélago dista hoje do continente europeu cerca de 1300 quilómetros, um pouco mais da América e um pouco menos da Madeira. Parecem distâncias excessivas para que as aves transportassem sementes até lá, ou para estas se manterem viáveis depois de uma longa travessia a flutuar no mar ou levadas pelo vento. O mais certo, porém, é que tenham sido precisamente esses os mecanismos que povoaram as ilhas de vegetação, algumas há menos de um milhão de anos e através de múltiplos eventos de (re)colonização. Crê-se que, nessas épocas, os ventos e as correntes marítimas seriam mais favoráveis a essa migração de plantas para a vizinhança dos Açores, sobretudo as de origem europeia, macaronésia ou africana, e que o oceano Atlântico seria um pouco mais estreito. Certo é que, apesar dos episódios vulcânicos muitas vezes violentos, os indivíduos que ali aportaram tiveram oportunidade de, sossegadamente e em condições climáticas relativamente estáveis, se adaptarem ao novo habitat e a novos polinizadores, se disseminarem para ecologias distintas da mesma ilha gerando novas linhagens, colonizarem ilhas próximas, hibridarem ou isolarem-se, criando-se assim os endemismos açorianos que hoje se conhecem.




A Lactuca watsoniana, primeiro descrita por Trelease em 1897, é um dos endemismos dos Açores de aspecto mais surpreendente. Tem laços genéticos com a alface das nossas saladas (Lactuca sativa L.), mas a base é lenhosa, pode atingir dois metros de altura e tem folhas de tamanho invulgarmente grande. O nome alfacinha que nas ilhas lhe atribuem é certamente uma amostra do bom humor açoriano. Estas e outras diferenças morfológicas levam a crer que a sua inclusão no género Lactuca deveria ser revista, embora se conheçam espécies americanas deste género de porte igualmente desmesurado. As folhas são cordiformes, carnudas, glabras, as basais com um longo pecíolo, as caulinares a abraçar o caule. As inflorescências lembram as da chicória, mas com florículos brancos-de-neve, 8 a 15 por cada capítulo. Há registo de populações nas ilhas Terceira, São Miguel, São Jorge, Pico e Faial, mas todas com poucas plantas (o total não parece exceder os mil indivíduos) e numa área de distribuição muito restrita (sobretudo em crateras vulcânicas, ravinas e florestas de cedro-do-mato, em geral a altitudes elevadas e em lugares com muita água), onde compete com plantas exóticas, sofre a voracidade dos coelhos e não consegue superar a redução, ou indiferença, dos polinizadores. Por isso está na lista vermelha da IUCN de espécies em risco de extinção.
Encontrámos as primeiras plantas das fotos numa ravina da Rocha do Chambre, na freguesia de Biscoitos, que fica no interior da ilha Terceira. Depois vimos mais exemplares no bordo da caldeira de Santa Bárbara, num recanto sombrio e muito húmido, a uns 920 metros de altitude, pontuado por vários pés da orquídea Platanthera micrantha.
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Maria Carvalho
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13/09/2013
Santa Bárbara quando não troveja
A minha primeira visita à Terceira foi em Outubro de 2001, para assistir ao concerto de Tommy Flanagan no AngraJazz. Já era tarde para cancelar a viagem quando, a bordo do avião de Lisboa para as Lajes, li no Público (então distribuído gratuitamente a todos os passageiros, e não apenas aos de classe executiva) que razões de saúde tinham forçado uma alteração de programa: em vez de Tommy Flanagan, pianista dos dedos mágicos, teríamos Cedar Walton, músico com longo e estimável currículo. Iria até ao fim do mundo para ouvir Flanagan, mas dificilmente iria à Terceira só para ouvir Walton. As razões de saúde eram graves: Flanagan morreu seis semanas depois, em 16 de Novembro de 2001. Em outubros de anos sucessivos, voltei muitas vezes à Terceira e ao AngraJazz, mesmo sabendo que Tommy Flanagan nunca lá iria tocar, mesmo quando o cartaz não era dos mais promissores. O festival de Jazz era tão só o pretexto para regressar às ruas de Angra, ao jardim Duque de Terceira, à visão da baía do alto do Monte Brasil, ao sossego da Praia da Vitória. Sim, comprava bilhete para todos os concertos, então realizados nos claustros do museu e com os espectadores sentados em esplanada que fingia ser o Village Vanguard, mas com maior tinir de copos, mais conversa e menos atenção aos artistas em palco (sobretudo quando algum infeliz contrabaixista se lançava num solo). A amplificação era ensurdecedora, e esgotante o formato de concertos duplos com arrastados intervalos: o entusiasmo pela música nem sempre me segurava até ao final do segundo concerto, para lá da uma da manhã.
Depois o AngraJazz transferiu-se para o novíssimo Centro Cultural e de Congressos. Melhorou o som, havia mesas mas também lugares nas bancadas para quem preferisse a música à conversa. Até que compreendi, sem menosprezar o festival, que a ilha me bastava como motivo para a viagem, e que, interessando-me por plantas, era estúpido visitá-la apenas no mês de Outubro. É verdade que é nessa altura que a paineira (Chorisia speciosa) do jardim dos Capitães Generais começa a florir, mas também no Porto há uma paineira, embora mais rala de flores. Angra sem Jazz, ou a Terceira sem música, é diurna e sem dores de cabeça, mais apropriada à meia idade que vai chegando.


Este ano, em Agosto, eu e a Maria visitámos a Terceira juntos pela primeira vez. Das minhas visitas anteriores, em grande parte confinadas à cidade de Angra, tinham sobrado pedaços substanciais da ilha por desbravar, e muito do que vimos agora era de igual modo novidade para ambos. Uma ilha tão pequena alberga mundos muito diversos: a faixa litoral, onde as povoações se alongam num casario baixo, quase contínuo; um segundo anel formado por pastagens e plantações de criptomérias; e o núcleo central de montes vulcânicos com um revestimento cerrado de floresta nativa. O visitante de hábitos mais sedentários raramente tem um vislumbre desse terceiro estrato da paisagem insular, e mesmo a maioria dos autóctones parece ignorá-lo. De todas as ilhas açorianas, é a Terceira que guarda a maior e mais bem preservada extensão da floresta de louro e cedro que existia antes da chegada dos portugueses ao arquipélago. A conversa enganadora da "natureza em estado puro" com que se vende o "destino Açores" aos turistas, ilustrada com fotos de hortênsias e lagoas de um azul Photoshop, poderia ter nesta ilha, muito mais do que em São Miguel, um significado genuíno. Mas nem a criação do Parque Natural da Terceira, agregando as mais valiosas áreas naturais da ilha, convence os operadores turísticos a renovarem o discurso.
Não que fosse desejável ter essas áreas invadidas por multidões. A quase inacessibilidade de algumas delas é que garantiu a sua preservação; o silêncio e o isolamento seriam feridos de morte com o rodopio contínuo de turistas. Haveria que restringir os percursos e condicionar a carga de visitantes — coisas que, em parte, já foram feitas, mas não suficientemente divulgadas. A floresta de nuvens da Terceira é tão emocionante e labiríntica como uma floresta tropical. Deveria ser cartaz da ilha, tanto como Angra-património-mundial, o Algar do Carvão e as marradas dos touros.
A caldeira de Santa Bárbara, uma imensa cratera com 13 Km de diâmetro, recheada, qual matriosca, com mini-crateras no seu interior, é talvez o mais valioso pedaço de natureza em todo o arquipélago açoriano, visitável só com autorização do Parque Natural da Terceira. Embora não existam barreiras intransponíveis para quem, clandestinamente, queira descer à caldeira, a verdade é que os trilhos se vêem mal, são cheios de bifurcações enganadoras, e há muitos buracos, ocultos pela vegetação ou por almofadões de Sphagnum (musgão), em que nos podemos magoar seriamente. O nevoeiro pode baixar sem aviso de um momento para o outro, confundindo qualquer senso de orientação. Tudo para concluir que o forasteiro, além de se munir da necessária autorização, deve ter a previdência e a humildade de recorrer aos serviços de um guia.
Foi o que fizemos: a guia por quem tivemos o privilégio de ser acompanhados não poderia ser mais conhecedora nem mais atenciosa. Mas na data aprazada, se não trovejou, o dia amanheceu chuvoso e nublado como nenhum outro durante a semana em que permanecemos na ilha. O estado de encharcamento geral, com as botas convertidas em esponjas, ditou que o passeio fosse algo abreviado. A maior parte da água que se nos agarrou ao corpo provinha não da chuva mas daquela que o nevoeiro fazia condensar nas árvores e arbustos pelos quais rompíamos. Toda a serra funciona como uma grande máquina de captação e armazenamento de água. O interior da caldeira é uma turfeira quase contínua, pontuada por lagoas de margens traiçoeiras. Os cedros-do-mato (Juniperus brevifolia), reduzidos a arbustos ou árvores-anãs, têm os troncos mergulhados no mesmo Sphagnum que cobre as ravinas. Os musgos e os fetos epífitos (Hymenophyllum, Elaphoglossum semicylindricum) formam nas árvores um rendilhado profuso que não deixa sequer adivinhar a cor dos troncos. Tapetes amarelos de Tolpis azorica e de Leontodon filii proclamam, por entre a névoa, que nos Açores a Primavera acontece em Agosto. Três raridades botânicas fazem uma breve aparição: a Scabiosa nitens, a Pericallis malvifolia e o Ranunculus cortusifolius.

E a Poderosa Angélica, magnífica como nunca a vimos nas outras ilhas, num contingente de várias centenas de exemplares, tem aqui finalmente o cenário que condiz com o seu porte. Foi para se debruçar vertiginosamente no bordo da caldeira que ela ergueu a descomunal cabeçorra, onde o adiantado da estação fizera já substituir as flores por frutos.
Publicada por
Paulo Araújo
em
13.9.13
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