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15/01/2020

Águas salobras


Paul da Praia da Vitória, ilha Terceira
Que têm em comum a Praia da Vitória, na ilha Terceira, e a Fajã dos Cubres, em São Jorge, além de ambas se situarem em zonas costeiras do grupo central dos Açores? A primeira é uma cidadezinha aprumada, com ruas pedonais em calçada portuguesa preenchidas com lojas, cafetarias, bancos, restaurantes, pequenos hotéis, igrejas, jardins e um mercado, rematada por um passeio à beira-mar decorado com azulejos poéticos e com vista para um movimentado porto de recreio. A segunda, servida por uma única loja polivalente que faz de café-restaurante-mercearia, resume-se a uma dúzia de casas térreas ocupadas sazonalmente, de onde apenas sobressai a torre da igreja. Mesmo que tenhamos descido à fajã de automóvel e várias dezenas de turistas tenham feito igual, as impressionantes falésias revestidas de verde e a escala diminuta da presença humana dão uma medida da nossa fragilidade e induzem uma sensação de aventura e isolamento. A Praia da Vitória, por contraste, sugere uma vida de conforto burguês isenta de inquietações.


Lagoa da Fajã dos Cubres, ilha de São Jorge
Acontece que nas duas localidades existem lagoas de águas salobras, um tipo de habitat que de resto está quase ausente dos Açores e que serve de abrigo a uma interessante vida aquática. O Paul da Praia da Vitória, apesar de aparentemente separado do mar por extensos aterros, uma estrada e várias estruturas portuárias, ainda mistura água doce com salgada, pois a água das marés chega-lhe pelos fundos aproveitando a porosidade do terreno. Já a lagoa das Fajã dos Cubres está apenas a 50 metros do mar, sendo essa a largura, no ponto mais estreito, da língua de terra e detritos rochosos que lhe define o contorno. Embora o Paul da Praia esteja muito artificializado, nas suas margens ocorre uma das espécies nativas mais raras dos Açores, a ciperácea Bolboschoenus maritimus, que em todo o arquipélago só existe na Terceira e, nessa ilha, só na Praia da Vitória. E há no Paul pelo menos duas espécies vegetais em comum com a Fajã dos Cubres: o Juncus acutus, que forma grandes tufos de folhas agressivamente pontiagudas; e a Ruppia maritima, uma planta submersa de distribuição cosmopolita, semelhante a uma gramínea, que nos Açores só existe na Terceira e em São Jorge, precisamente nestes locais.


Ruppia maritima L.


Ao contrário do que pode sugerir o epíteto maritima, esta Ruppia não vive no mar, mas apenas em zonas costeiras tais como estuários, lagoas e salinas. É um habitat por natureza descontínuo e daí que a planta tenha uma distribuição muito fragmentada. No entanto, ela está espalhada por todos os continentes habitados, desde regiões de clima fresco até zonas tropicais, conjecturando-se que tenham sido as aves migratórias, ao comerem os peixes que engolem os frutos da planta, o principal veículo da sua disseminação. Planta de ciclo anual mas florescendo e frutificando ao longo de praticamente todo o ano, não parece ter dificuldade em manter largos contigentes nos locais onde está instalada. Na lagoa da Fajã dos Cubres forma extensas pradarias submersas, e de facto ela é aí a única planta que vive inteiramente na água. Uma observação atenta permite detectar os típicos caules articulados, mas para inspeccionar inflorescências e frutos é indispensável pescar algum exemplar (que depois deverá ser devolvido à água). Os frutos são pequenas drupas dotadas de pedúnculos muito longos (as fotos em baixo mostram uma inflorescência); noutras espécies do género como a Ruppia cirrhosa, mas não na R. maritima, esses pedúnculos costumam contorcer-se em espiral.

Os mamíferos que vivem no mar têm de vir à tona para respirar. Não é esse exactamente o caso da Ruppia, mas esta planta só consegue reproduzir-se porque literalmente cria bolhas de ar. Tais bolhas envolvem as anteras, transportando o pólen para a superfície. Em seguida o pedúnculo cresce, e com isso os estigmas assomam também à superfície para receberem o pólen. Noutros casos, em que a autogamia é prática corrente, a inflorescência prescinde da ascensão à superfície e tudo se passa na intimidade de uma bolha de ar que envolve anteras e estigma de uma mesma flor.

P.S. Para algumas importantes correcções a este texto, leia-se o comentário aqui deixado por Duarte Frade.


Ruppia maritima L.

18/10/2013

Musgo desdentado



Huperzia suberecta (Lowe) Tardieu

Os ingleses chamam fir clubmoss a esta planta, ou a outra com ela aparentada. É um nome que se presta a certos equívocos, como muitas vezes sucede com as designações vernáculas. Assim, clubmoss, que se aplica indistintamente a todas as licopodiáceas, sugere que estas plantas, cujas hastes erectas lembram vagamente um bastão (club), pertencem à classe dos musgos (moss). Na verdade, embora haja musgos (como o Polytrichum commune, vulgar em habitats encharcados) que com elas têm alguma semelhança, as licopodiáceas, ao contrário dos musgos, são plantas vasculares, representando por isso um estádio evolutivo mais avançado. São, ainda assim, dos mais primitivos organismos vegetais à face da Terra, anteriores aos fetos (com os quais costumavam ser emparelhados) e a todas as plantas que produzem flor.

O bastão-de-musgo não é pois um musgo, mas o nome fir clubmoss, que preferimos não tentar verter na íntegra para português, é bem apropriado ao evocar o abeto (fir). A Huperzia e a sua prima Lycopodiella cernua, ambas comuns em proporções variáveis nas sobras de floresta nativa que pontuam o arquipélago açoriano, fazem de facto lembrar coníferas em miniatura, e é fácil confundi-las com rebentos de criptoméria, espécie florestal dominante nas ilhas.

A Huperzia selago, que existe no norte da Península Ibérica mas não chega a Portugal, é a única representante europeia de um género que globalmente inclui mais de 300 espécies sobretudo tropicais. Tão semelhante ela é às plantas açorianas (e madeirenses) que vários foram os autores a defender que nas ilhas atlânticas ocorriam simples variedades da planta continental. Contudo, a espécie mais comum nos Açores, H. dentata, que também ocorre, embora raramente, na Madeira, apresenta um detalhe morfológico que a diferencia facilmente da H. selago: as suas folhas têm numerosos pequenos "dentes" ao longo das margens. A segunda espécie insular, H. suberecta, que hoje exibimos no escaparate, inverte papéis com a sua congénere quando muda de arquipélago, pois é rara nos Açores e comum na Madeira. As folhas desdentadas (confira nas fotos acima) e a presença ocasional de bulbilhos asseguram que o observador atento (e munido de lupa) não confundirá a H. suberecta com a H. dentata. Mais difícil é explicar, se descontarmos os mais de mil quilómetros de oceano, o que separa a H. suberecta da H. selago. Dizem os peritos que é o tamanho das hastes - as da primeira podem chegar aos 40 cm, as da segunda ficam aquém dos 25 cm - e a ornamentação dos esporos, pormenor apenas visível ao microscópio.

Ainda que as duas espécies açorianas coexistam na serra de Santa Bárbara, na ilha Terceira, a H. suberecta é aquela que tem maiores exigências de humidade, surgindo apenas nas zonas mais altas e enevoadas das ilhas, em geral bem acima dos 500 m. A H. dentata, por seu turno, desce até aos 300 m, e na ilha das Flores é comum mesmo em bermas de estrada.

11/10/2013

Chão que foge




Sagittaria subulata (L.) Buchen.

As flores no bordo da lagoa funcionam como isca - não para os peixes, mas para os humanos interessados em plantas. O objectivo é que eles se aproximem confiantes na solidez do chão que pisam, até que o que era consistente deixe repentinamente de o ser, e botas e calças se afundem até aos joelhos numa sopa de lama. Não é uma armadilha perigosa, apenas ridícula e incómoda. As plantas que preparam tal engodo só querem rir-se do rei da criação, outrora assim chamado por inspiração bíblica. Pena não o poderem ver mais tarde, numa estação de serviço, de mangueira em punho, a regar-se a si próprio com um jato de água, fazendo alastrar em seu redor uma mancha cor de terra.

A burlesca cena teve lugar na Terceira, perto da gruta do Natal, o segundo buraco vulcânico que, com o Algar do Carvão, constitui o pacote dois-pelo-preço-de-um que os turistas avisados não deixam de experimentar. Optámos por não visitar a gruta, porque o tempo era curto e o nosso interesse é por aquilo que vive à luz do sol. E a lagoa do Negro, a 50 m da casa de acesso à gruta, merecia uma inspecção atenta, que a presença das florinhas brancas amplamente justificou.

A Sagittaria subulata, que talvez não se chame assim, é uma planta aquática originária da costa oeste dos EUA. É muito cultivada em aquários, dando-se bem mesmo quando completamente submersa, e propagando-se rapidamente através de rizomas. As folhas podem atingir os 60 cm, às vezes com extremidades flutuantes, mas em geral ficam-se pelos 5 a 10 cm. As flores aparecem em hastes que emergem da água. O nome científico levanta dúvidas, pois parece haver duas espécies distintas às quais ele vem sendo aplicado, e é a outra espécie que tem prioridade para reter a designação (mais detalhes aqui).

Exótica nos Açores, até hoje, no arquipélago, a planta só foi assinalada na ilha Terceira, e talvez só na lagoa do Negro. Como o primeiro registo data de 1993, e desde então ela pouco ou nada se terá disseminado, não parece haver risco de se tornar invasora na ilha, pecado de que não está isenta noutras paragens. É provável que a sua chegada à Terceira se deva à presença americana nas Lajes, pois entre os militares estacionados na base aérea haverá certamente quem tenha o hobby da aquariofilia. Conjectura-se, aliás, ser essa mesma a razão para o aparecimento da Marsilea hirsuta (ex-M. azorica) no pico da Bagacina.

28/09/2013

Jardim vertical



Asplenium monanthes L.

A flora das ilhas açorianas, especialmente rica em fetos e aparentados, conta no seu elenco com algumas variações muito interessantes do avencão (Asplenium trichomanes), planta que no continente é muito comum em fendas de rochas e muros com alguma humidade. Nos Açores, o avencão não é nada comum e terá mesmo desaparecido de algumas ilhas; segundo Schäfer (Flora of the Azores - a field Guide, 2.ª edição, 2005), a sua presença no arquipélago quase se restringe a habitats construídos pelo homem. Daí que quem julgar vê-lo por lá deverá inspeccionar o achado com alguma cautela, pois poderá tratar-se do A. azoricum, do raríssimo A. anceps (só no Pico) ou do não assim tão raro feto-de-escoumas, assunto do texto de hoje.

O Asplenium monanthes, que ostenta a distinção de ter sido nomeado por Lineu em 1767 e não ter mudado de nome desde essa data, não é um endemismo açoriano; sem deixar de ser nativo do arquipélago, é das plantas mais viajadas que lá se encontram. Já Lineu, na descrição original, dava conta do seu vasto território de ocorrência: América desde o estado do Arizona até ao Chile; ilhas do Havai; África meridional incluindo ilhas atlânticas (Tristão da Cunha, Ilha Inacessível). A que se pode acrescentar Açores, Madeira, Madagáscar e a ilha da Reunião. Este pequeno feto, com folhas de uns 20 cm de comprimento, é um bilhete para a nossa imaginação discorrer por lugares que nunca visitaremos.

O formato peculiar das pinas (confira na segunda e terceira fotos) garante que o observador atento não irá confundir o Asplenium monanthes com algum dos seus primos. O epíteto monanthes, que significa "uma só flor", explica-se por cada pina ter em regra um único soro (agrupamento de esporângios) na página inferior. Enigmático é o nome vernáculo feto-de-escoumas, usado tanto na Madeira como nos Açores.


Terceira: estrada Angra-Biscoitos junto ao Pico da Bagacina

Na Terceira, o A. monanthes encontra-se esporadicamente sob coberto de urze e outros matos, em muros húmidos e bem assombrados, por vezes mesmo em taludes de estradas. O talude com maior biodiversidade em toda a ilha é por certo este junto ao Pico da Bagacina: um jardim autóctone mortalmente perigoso para quem o contemple sem prestar atenção aos bólides que correm disparados pela estrada. Os altos paredões, rasgados para fazer passar a via, são refúgio para plantas que já não existem nos montes adjacentes, convertidos em pastagens. Uma lista incompleta inclui, além do A. monanthes, da urze e da torga, as seguintes especialidades: Huperzia dentata, Platanthera micrantha, Vaccinium cylindraceum, Leontodon filii, Lysimachia azorica, Asplenium scolopendrium, Centaurium scilloides, Hypericum foliosum, Polypodium azoricum, Myrsine retusa, Laurus azorica e Woodwardia radicans.

23/09/2013

Chambre das pombas





Ammi trifoliatum Trel.

As pombas sempre voltam a casa, o que serve de desculpa para regressarmos, um mês depois, ao assunto dos pés-de-pomba açorianos. Pé-de-pomba é o nome que, seguindo a sugestão do Portal da Biodiversidade dos Açores, damos às umbelíferas açorianas do género Ammi. Curiosamente, esse mesmo portal apenas atribui tal designação vernácula à espécie Ammi huntii, de paradeiro desconhecido e existência incerta. As duas espécies que realmente existem, A. seubertianum e A. trifoliatum, não teriam recebido a graça de um baptismo popular. A imaginação do povo pode às vezes ser perversa, mas é inusitado que atinja tal requinte de abstracção.

Para tirar melhor proveito desta lição, o leitor terá a paciência de recapitular a lição anterior sobre o Ammi seubertianum. Observe atentamente as fotos e compare-as com as do A. trifoliatum que hoje ocupam a montra. Há-de notar que as folhas do A. seubertianum são mais largas e lustrosas, com um serrilhado mais regular nas margens; e, embora as fotos não o mostrem, são duras, algo suculentas, enquanto que as do A. trifoliatum são finas e maleáveis. O A. seubertianum é robusto e compacto, o A. trifoliatum é desgrenhado. De facto, as duas plantas nem são muito parecidas, e ao vivo certamente não se confundem. Também a ecologia e a distribuição as separam: o A. seubertianum distribui-se predominantemente por falésias costeiras, ao passo que o A. trifoliatum vive afastada do mar em crateras e ravinas a altitudes elevadas. De todas as ilhas do arquipélago, só numa delas, o Pico, é que as duas espécies coexistem.

Acontece que aquilo que salta à vista quando observamos as plantas no seu habitat pode não ser evidente em material seco de herbário. Há 40 anos, apesar de já então haver ligações aéreas regulares, não seria tão fácil como hoje dar um salto às ilhas para esclarecer dúvidas taxonómicas. Tudo isso, somado à confusa história que rodeia o género Ammi nos Açores, ajudará a explicar por que decidiu Franco, na sua Nova Flora de Portugal (vol. 1, 1971), decretar que nos Açores existia apenas uma espécie endémica de Ammi, a que chamou A. huntii. Eric Sjögren, no seu Plantas e Flores dos Açores (Os Montanheiros, 2001, edição trilingue), parece ter adoptado idêntica opinião, embora chame A. trifoliatum a essa hipotética espécie única. Não é pois de estranhar que sobre ela diga que "a distribuição em altitude e as preferências ambientais ainda são pouco conhecidas".

Para ajudar a deslindar o mistério dos Ammi nos Açores, três botânicos espanhóis, Esther Bueno, Ana Juan e Manuel B. Crespo, publicaram em 2009, nos Anales del Jardín Botánico de Madrid, o artigo Lectotypification of three endemic taxa of Ammi L.(Apiaceae) from the archipelago of the Azores. Os autores notaram que para nenhuma das descrições publicadas das três espécies tinha sido designado um espécime tipo - ou seja, um espécime guardado em herbário que servisse como padrão (ou tipo nomenclatural) para aferir se uma dada planta pertencia ou não à espécie descrita. Nos primórdios da taxonomia botânica sucedia por vezes elegerem-se vários espécimes para, no seu conjunto, funcionarem como tipo nomenclatural, o que era causa de confusão se posteriormente se verificasse que esses espécimes não pertenciam todos à mesma espécie. Seria como descrever um certo mamífero tomando simultaneamente como modelos um chimpanzé e um gorila. Para as três espécies A. huntii, A. trifoliatum e A. seubertianum, os autores escolheram como tipo nomenclatural (diz-se neste caso lectótipo) plantas depositadas no herbário dos Kew Gardens. Para o A. huntii havia um só exemplar em relativas boas condições, e pela descrição que dele é feita tem mais semelhanças com o A. trifoliatum do que com o A. seubertianum. Mas há importantes diferenças com ambos, por exemplo no facto de ter brácteas trífidas, o que o aproxima mais da espécie continental A. majus (naturalizada nos Açores). Embora os autores do artigo não tirem qualquer conclusão, não é improvável que aquilo a que H. C. Watson chamou Ammi huntii fosse afinal um exemplar atípico de A. majus. Daí que há mais de um século ninguém tenha avistado, colectado ou fotografado a planta em nenhuma das ilhas do arquipélago.

Das outras duas espécies de Ammi açorianas completamos hoje no blogue a prova fotográfica da sua existência. Com o detalhe de, no caso no Ammi trifoliatum, o termos feito do modo mais difícil, escolhendo para a sessão fotográfica uma das ilhas onde a planta é mais escassa. De facto, de todo o rectângulo da Terceira, é só na maravilhosa Rocha do Chambre, onde faz companhia à Lactuca e à Pericallis, que esta pomba parece pôr o pé.


Rocha do Chambre, ilha Terceira

20/09/2013

Gaspar & os patalugos




Leontodon filii (Hochst. ex Seub.) Paiva & Ormonde

Há um ano, demos notícias sobre o patalugo-menor (Leontodon rigens), uma espécie de Leontodon endémica dos Açores, de porte grande e corimbos densos de inflorescências amarelas vistosas. É uma planta rara nas cinco ilhas em que ocorre, com excepção das Flores onde se pode encontrar até em bermas de estrada e penhascos costeiros. Faltou então mostrar o irmão, o patalugo-maior, de que há registos em São Miguel, Terceira, São Jorge, Pico e Faial e que, de mais avantajado, só tem os capítulos florais (com muito mais florículos) que são, todavia, solitários e portanto de efeito mais modesto.

Crê-se que as duas espécies descendem de um Leontodon europeu ou da Macaronésia, chamemos-lhe Leontodon-mater. Contudo, o parentesco real entre os dois endemismos açorianos, o Leontodon rigens e o Leontodon filii, que admitimos terem o mesmo ascendente, está ainda por esclarecer. A interrogação justifica-se porque, nas ilhas em que as duas espécies coexistem (Pico, São Jorge e São Miguel), elas competem pelo mesmo nicho, com uma floração quase simultânea (com o L. filii ligeiramente atrasado) e, por isso, podendo até beneficiar dos mesmos polinizadores. Estranha-se esta concorrência em família, e desconfia-se que a razão dela pode ser complexa e difícil de provar.

Alguns botânicos conjecturam que, depois de aportar às ilhas mais orientais, o Leontodon-mater chegou às Flores ou ao Corvo e, por isolamento geográfico num novo ambiente, criou no grupo ocidental do arquipélago uma espécie nova, o Leontodon rigens. Como em alguns mitos gregos, do Leontodon-mater não houve mais notícia, a selecção natural terá agido em conformidade. Entretanto, nas ilhas do grupo central, o Leontodon-mater também se adaptava ao novo habitat e fazia aí aparecer outro endemismo, o Leontodon filii, com idêntico desaparecimento da planta-mãe. Ninguém esperaria, claro, que os dois endemismos, nados em ilhas distintas, fossem idênticos. Não são, de facto: há diferenças notórias na morfologia das inflorescências e alguns marcadores genéticos confirmam a separação das espécies. Mas, admitindo que evoluíram longe um do outro, não é estranho que tenham tantos traços em comum? Que ambos sejam lenhosos na base, tomentosos, com látex branco, só com folhas basais, aceita-se, devem ser feições herdadas da mãe, que desconhecemos, a que não puderam escapar. Mas por que têm ambos, por exemplo, folhas com margens dentadas exactamente com o mesmo perfil, se as muitas espécies de Leontodon no continente variam bastante de forma neste pormenor?

E, voltando à questão que aqui nos trouxe, como é que os dois endemismos surgiram juntos nas três maiores ilhas do arquipélago? Talvez o filho das Flores e Corvo tenha colonizado estas três ilhas, numa viagem de retorno uma geração depois, e o confronto com o irmão não tenha sido prejudicial a nenhum deles. Não há, de momento, indícios de que esta convivência venha a ter como desenlace o fim de um deles - até porque correm boatos de que este patalugo-menor nas ilhas centrais é na verdade um patalugo-médio, o terceiro endemismo açoriano deste género, distinto do L. rigens inicial. Enfim, teremos de reavaliar a situação e voltar ao assunto daqui a, digamos, um milhão de anos.


Interior do Pico Gaspar com Euphorbia stygiana, Leontodon filii, Blechnum spicant, Myrsine retusa e Juniperus brevifolia

O exemplar das fotos pertence a uma população do Pico Gaspar, uma caldeira vulcânica pequena de paredes íngremes e vários narizes, que guarda uma flora notável. Revimos a planta na caldeira de Santa Bárbara, na Rocha de Chambre e até num talude de estrada que parecia um alforje de endemismos.

17/09/2013

Rara alface

As ilhas dos Açores são território recente, tendo a mais nova (Corvo) cerca de 0.7 milhões de anos e a mais idosa (Santa Maria) um pouco mais de 8. Tempo suficiente para lá se instalar flora continental variada. Mas como chegaram as plantas às ilhas? O arquipélago dista hoje do continente europeu cerca de 1300 quilómetros, um pouco mais da América e um pouco menos da Madeira. Parecem distâncias excessivas para que as aves transportassem sementes até lá, ou para estas se manterem viáveis depois de uma longa travessia a flutuar no mar ou levadas pelo vento. O mais certo, porém, é que tenham sido precisamente esses os mecanismos que povoaram as ilhas de vegetação, algumas há menos de um milhão de anos e através de múltiplos eventos de (re)colonização. Crê-se que, nessas épocas, os ventos e as correntes marítimas seriam mais favoráveis a essa migração de plantas para a vizinhança dos Açores, sobretudo as de origem europeia, macaronésia ou africana, e que o oceano Atlântico seria um pouco mais estreito. Certo é que, apesar dos episódios vulcânicos muitas vezes violentos, os indivíduos que ali aportaram tiveram oportunidade de, sossegadamente e em condições climáticas relativamente estáveis, se adaptarem ao novo habitat e a novos polinizadores, se disseminarem para ecologias distintas da mesma ilha gerando novas linhagens, colonizarem ilhas próximas, hibridarem ou isolarem-se, criando-se assim os endemismos açorianos que hoje se conhecem.


Terra Brava - Terceira

A posição geográfica das ilhas não parece favorecer a dispersão e o cruzamento de espécies entre ilhas - a distância entre os sub-arquipélagos central e ocidental é de 218 quilómetros, e de 139 entre o grupo central e o oriental - mas também não deve ter exigido muitos esforços de adaptação da flora, graças a um clima oceânico húmido e a uma história de relativa tranquilidade climática. Porém, talvez estas sejam igualmente razões para o reduzido número de espécies endémicas por cada género e a aparente semelhança florística entre as ilhas, sobretudo quando se compara a flora açoriana com a de Cabo Verde, Madeira ou Canárias. Segundo M. Carine e H. Schäfer (Journal of Biogeography 37, 2010), oitenta por cento dos géneros com espécies endémicas nos Açores abrigam um único táxon e, embora as ilhas se espalhem por uns 600 quilómetros de oceano, contêm apenas quatro endemismos cuja distribuição está confinada a uma única ilha. Por exemplo, e ao contrário do que poderíamos prever, nas Flores, muito mais antiga do que o Pico e tão distante dos outros grupos de ilhas, ocorrem apenas três endemismos (quase) só seus (existem também no Corvo, que dista dela uns 19 quilómetros). Este é um assunto fascinante, que mantém ocupadas equipas de biólogos e geógrafos, confrontados com muitas dúvidas que os fósseis e a flora actual, parte dela em mau estado de conservação, não clarificam. A excepção a este cenário de interrogações é a ilha Graciosa, despojada da sua vegetação espontânea após o seu povoamento e com a percentagem mais elevada de flora introduzida em todo o arquipélago (~70%); é um exemplo paradigmático da nossa capacidade de destruição de ecossistemas. O estudo da flora açoriana é, todavia, recente, e quem sabe se não se descobrirão em breve mais endemismos, ou traços de adaptação ecológica, avisando-nos que afinal a especiação nas ilhas é assunto mais complexo do que parece.




Lactuca watsoniana Trel.

A Lactuca watsoniana, primeiro descrita por Trelease em 1897, é um dos endemismos dos Açores de aspecto mais surpreendente. Tem laços genéticos com a alface das nossas saladas (Lactuca sativa L.), mas a base é lenhosa, pode atingir dois metros de altura e tem folhas de tamanho invulgarmente grande. O nome alfacinha que nas ilhas lhe atribuem é certamente uma amostra do bom humor açoriano. Estas e outras diferenças morfológicas levam a crer que a sua inclusão no género Lactuca deveria ser revista, embora se conheçam espécies americanas deste género de porte igualmente desmesurado. As folhas são cordiformes, carnudas, glabras, as basais com um longo pecíolo, as caulinares a abraçar o caule. As inflorescências lembram as da chicória, mas com florículos brancos-de-neve, 8 a 15 por cada capítulo. Há registo de populações nas ilhas Terceira, São Miguel, São Jorge, Pico e Faial, mas todas com poucas plantas (o total não parece exceder os mil indivíduos) e numa área de distribuição muito restrita (sobretudo em crateras vulcânicas, ravinas e florestas de cedro-do-mato, em geral a altitudes elevadas e em lugares com muita água), onde compete com plantas exóticas, sofre a voracidade dos coelhos e não consegue superar a redução, ou indiferença, dos polinizadores. Por isso está na lista vermelha da IUCN de espécies em risco de extinção.

Encontrámos as primeiras plantas das fotos numa ravina da Rocha do Chambre, na freguesia de Biscoitos, que fica no interior da ilha Terceira. Depois vimos mais exemplares no bordo da caldeira de Santa Bárbara, num recanto sombrio e muito húmido, a uns 920 metros de altitude, pontuado por vários pés da orquídea Platanthera micrantha.

13/09/2013

Santa Bárbara quando não troveja



Serra de Santa Bárbara, ilha Terceira

A minha primeira visita à Terceira foi em Outubro de 2001, para assistir ao concerto de Tommy Flanagan no AngraJazz. Já era tarde para cancelar a viagem quando, a bordo do avião de Lisboa para as Lajes, li no Público (então distribuído gratuitamente a todos os passageiros, e não apenas aos de classe executiva) que razões de saúde tinham forçado uma alteração de programa: em vez de Tommy Flanagan, pianista dos dedos mágicos, teríamos Cedar Walton, músico com longo e estimável currículo. Iria até ao fim do mundo para ouvir Flanagan, mas dificilmente iria à Terceira só para ouvir Walton. As razões de saúde eram graves: Flanagan morreu seis semanas depois, em 16 de Novembro de 2001. Em outubros de anos sucessivos, voltei muitas vezes à Terceira e ao AngraJazz, mesmo sabendo que Tommy Flanagan nunca lá iria tocar, mesmo quando o cartaz não era dos mais promissores. O festival de Jazz era tão só o pretexto para regressar às ruas de Angra, ao jardim Duque de Terceira, à visão da baía do alto do Monte Brasil, ao sossego da Praia da Vitória. Sim, comprava bilhete para todos os concertos, então realizados nos claustros do museu e com os espectadores sentados em esplanada que fingia ser o Village Vanguard, mas com maior tinir de copos, mais conversa e menos atenção aos artistas em palco (sobretudo quando algum infeliz contrabaixista se lançava num solo). A amplificação era ensurdecedora, e esgotante o formato de concertos duplos com arrastados intervalos: o entusiasmo pela música nem sempre me segurava até ao final do segundo concerto, para lá da uma da manhã.

Depois o AngraJazz transferiu-se para o novíssimo Centro Cultural e de Congressos. Melhorou o som, havia mesas mas também lugares nas bancadas para quem preferisse a música à conversa. Até que compreendi, sem menosprezar o festival, que a ilha me bastava como motivo para a viagem, e que, interessando-me por plantas, era estúpido visitá-la apenas no mês de Outubro. É verdade que é nessa altura que a paineira (Chorisia speciosa) do jardim dos Capitães Generais começa a florir, mas também no Porto há uma paineira, embora mais rala de flores. Angra sem Jazz, ou a Terceira sem música, é diurna e sem dores de cabeça, mais apropriada à meia idade que vai chegando.




Este ano, em Agosto, eu e a Maria visitámos a Terceira juntos pela primeira vez. Das minhas visitas anteriores, em grande parte confinadas à cidade de Angra, tinham sobrado pedaços substanciais da ilha por desbravar, e muito do que vimos agora era de igual modo novidade para ambos. Uma ilha tão pequena alberga mundos muito diversos: a faixa litoral, onde as povoações se alongam num casario baixo, quase contínuo; um segundo anel formado por pastagens e plantações de criptomérias; e o núcleo central de montes vulcânicos com um revestimento cerrado de floresta nativa. O visitante de hábitos mais sedentários raramente tem um vislumbre desse terceiro estrato da paisagem insular, e mesmo a maioria dos autóctones parece ignorá-lo. De todas as ilhas açorianas, é a Terceira que guarda a maior e mais bem preservada extensão da floresta de louro e cedro que existia antes da chegada dos portugueses ao arquipélago. A conversa enganadora da "natureza em estado puro" com que se vende o "destino Açores" aos turistas, ilustrada com fotos de hortênsias e lagoas de um azul Photoshop, poderia ter nesta ilha, muito mais do que em São Miguel, um significado genuíno. Mas nem a criação do Parque Natural da Terceira, agregando as mais valiosas áreas naturais da ilha, convence os operadores turísticos a renovarem o discurso.

Não que fosse desejável ter essas áreas invadidas por multidões. A quase inacessibilidade de algumas delas é que garantiu a sua preservação; o silêncio e o isolamento seriam feridos de morte com o rodopio contínuo de turistas. Haveria que restringir os percursos e condicionar a carga de visitantes - coisas que, em parte, já foram feitas, mas não suficientemente divulgadas. A floresta de nuvens da Terceira é tão emocionante e labiríntica como uma floresta tropical. Deveria ser cartaz da ilha, tanto como Angra-património-mundial, o Algar do Carvão e as marradas dos touros.

A caldeira de Santa Bárbara, uma imensa cratera com 13 Km de diâmetro, recheada, qual matriosca, com mini-crateras no seu interior, é talvez o mais valioso pedaço de natureza em todo o arquipélago açoriano, visitável só com autorização do Parque Natural da Terceira. Embora não existam barreiras intransponíveis para quem, clandestinamente, queira descer à caldeira, a verdade é que os trilhos se vêem mal, são cheios de bifurcações enganadoras, e há muitos buracos, ocultos pela vegetação ou por almofadões de Sphagnum (musgão), em que nos podemos magoar seriamente. O nevoeiro pode baixar sem aviso de um momento para o outro, confundindo qualquer senso de orientação. Tudo para concluir que o forasteiro, além de se munir da necessária autorização, deve ter a previdência e a humildade de recorrer aos serviços de um guia.

Foi o que fizemos: a guia por quem tivemos o privilégio de ser acompanhados não poderia ser mais conhecedora nem mais atenciosa. Mas na data aprazada, se não trovejou, o dia amanheceu chuvoso e nublado como nenhum outro durante a semana em que permanecemos na ilha. O estado de encharcamento geral, com as botas convertidas em esponjas, ditou que o passeio fosse algo abreviado. A maior parte da água que se nos agarrou ao corpo provinha não da chuva mas daquela que o nevoeiro fazia condensar nas árvores e arbustos pelos quais rompíamos. Toda a serra funciona como uma grande máquina de captação e armazenamento de água. O interior da caldeira é uma turfeira quase contínua, pontuada por lagoas de margens traiçoeiras. Os cedros-do-mato (Juniperus brevifolia), reduzidos a arbustos ou árvores-anãs, têm os troncos mergulhados no mesmo Sphagnum que cobre as ravinas. Os musgos e os fetos epífitos (Hymenophyllum, Elaphoglossum semicylindricum) formam nas árvores um rendilhado profuso que não deixa sequer adivinhar a cor dos troncos. Tapetes amarelos de Tolpis azorica e de Leontodon filii proclamam, por entre a névoa, que nos Açores a Primavera acontece em Agosto. Três raridades botânicas fazem uma breve aparição: a Scabiosa nitens, a Pericallis malvifolia e o Ranunculus cortusifolius.



Angelica lignescens Reduron & Danton

E a Poderosa Angélica, magnífica como nunca a vimos nas outras ilhas, num contingente de várias centenas de exemplares, tem aqui finalmente o cenário que condiz com o seu porte. Foi para se debruçar vertiginosamente no bordo da caldeira que ela ergueu a descomunal cabeçorra, onde o adiantado da estação fizera já substituir as flores por frutos.

26/08/2013

Folhado nas nuvens



Viburnum treleasei Gand.

Se a névoa se tivesse arredado por uns momentos, exibir-se-ia na primeira foto, tirada no interior da ilha Terceira, uma montra perfeita da floresta endémica dos Açores. Mas chamam-lhe floresta das nuvens; e, se tudo o mais pode faltar ou ser adulterado, já as nuvens não abdicam do seu direito de comparecer, fazendo as fotos perder em nitidez o que ganham em realismo. Com maior ou menor dificuldade, nessa foto distinguem-se (clique para aumentar) o cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), a urze (Erica azorica), o loureiro (Laurus azorica) e o folhado (Viburnum treleasei). Apesar de os nomes comuns poderem amalgamar espécies diferentes e por vezes sem qualquer parentesco, nas ilhas açorianas estas quatro designações são inequívocas e têm a vantagem de, ao contrário dos nomes científicos, não estarem sujeitas a mudanças abruptas ou a variações de gosto. O folhado, que nos Açores é um pequeno arbusto de não mais que 4 metros de altura, dá-nos um exemplo dessa instabilidade: há quem o subordine como subespécie ao folhado europeu, chamando-lhe Viburnum tinus subsp. subcordatum, ou quem prefira autonomizá-lo como espécie, e o trate por Viburnum treleasei.

Que o folhado açoriano tem, tanto no porte geral como no aspecto das inflorescências, uma grande afinidade com o V. tinus europeu é indubitável, e leva a suspeitar que os dois partilhem um antepassado próximo, ou que o primeiro seja descendente do segundo. As diferenças entre eles não são porém menos evidentes: as folhas do V. treleasei são arredondadas, brilhantes, com as margens ligeiramente reviradas para baixo; as do V. tinus são mais estreitas, de um verde mais baço, apresentando margens não recurvadas e um ápice bem definido. Quer seja considerado espécie ou subespécie, o V. treleasei tem bem seguro o seu estatuto como endemismo açoriano.

Enquanto não descemos do patamar das nuvens, algures entre os 400 e os 800 m de altitude, aproveitamos para reflectir sobre a ditadura que o latim exerceu durante séculos sobre a taxonomia botânica, e que só em 1 de Janeiro de 2012, por decisão do XVIII Congresso Internacional de Botânica, foi oficialmente abolida. Não se trata, como alguns jornalistas então disparatadamente escreveram, de fazer com que os nomes em latim (ou em algum arremedo dessa língua) deixem de ser obrigatórios, mas sim de permitir que a descrição acompanhando uma espécie acabada de baptizar (e sem a qual o nome proposto não é aceite pela comunidade científica) venha noutra língua que não o latim. Essa outra língua por enquanto é o inglês, mas talvez em menos de um século ela seja substituída pelo espanhol ou pelo chinês.

O padre e botânico francês Michel Gandoger (1850-1926) foi o primeiro a publicar o latinório de lei sobre o folhado açoriano, no artigo Plantes nouvelles pour les îles Açores (Bull. Soc. Bot. France, vol. 46, 1899). Eis uma amostra do que ele escreveu: «(...) foliis obtuse ovato-suborbiculatis, cordatis, margine revolutis, crassi, minoribus, prominule et ad angulos lanatos nervosis (...)». Não é fornecida qualquer tradução em vernáculo, por ela ser desnecessária aos leitores habituais da revista. Mas a dificuldade, para um leitor actual, leigo no assunto, que tenha o português ou qualquer outra língua românica como idioma materno, e que nunca tenha estudado latim, não é tanto o de decifrar o texto (a tradução fonética funciona sem grande dificuldade) mas o de saber o que significam os termos técnicos. A dificuldade pode não desaparecer, ou talvez até se agrave, quando o latim é vertido para inglês. Acabar com o latim é vantajoso sobretudo para os taxonomistas actuais, sem formação em línguas clássicas. Quantas vezes alguém que só deu uma ajuda no latim não terá, por essa via, conseguido fazer-se co-autor de uma nova espécie botânica?

Já em 1897 William Trelease (1857-1945) dera à estampa, no seu Botanical Observations on the Azores, uma descrição daquilo a que chamou Viburnum tinus var. subcordatum: «Characterized by its round-ovate obtuse subcordate leaves, often densely hairy in the axils beneath.» Pôr a coisa em vernáculo foi-lhe fatal: Gandoger, que escreveu a mesma coisa, mas em latim, dois anos mais tarde, ganhou-lhe prioridade - embora tenha tido a cortesia de dar à planta o nome do seu colega americano. Pois era essa a força de uma língua morta.

20/11/2012

Lagoa dos fetos



Dryopteris azorica (Christ) Alston

É perfeitamente possível, e é mesmo a experiência mais comum do forasteiro, visitar os Açores sem nunca pôr os olhos em plantas açorianas. A paisagem dominante das ilhas, aquela que é reproduzida em cartazes e publicações turísticas, compõe-se de um mosaico de pastagens delimitadas por sebes de hortênsias (Hydrangea macrophylla) e por matas de criptomérias. Tanto o arbusto como a árvore, ambos tão marcantes na iconografia açoriana, foram importados do Japão. E da Austrália veio a soberba araucária erguida como um mastro em jardins de vilas e cidades. O verde dos Açores parece natural, e é certamente repousante, mas quase todo ele é postiço, por ter sido moldado por mão humana. O verde original das ilhas, banhado em nevoeiro, acantonou-se em montes e ravinas inacessíveis e sem préstimo agrícola.

Desvalorizar por completo a vegetação introduzida é, contudo, uma atitude maniqueísta que convém rejeitar. O exótico e o autóctone interpenetram-se, e numa mata de criptomérias podem surgir boas amostras de plantas nativas ou mesmo endémicas. Há anos, escrevendo sobre a lagoa das Patas, na Terceira, disse que a única coisa que lá havia eram criptómerias, e que da vegetação própria da ilha só sobravam fetos. Regressando, anos depois, com um olhar mais educado, encontrei, nas margens do ribeiro, pequenas populações da Tolpis azorica, Sanicula azorica e Myrsine retusa. E os fetos, que me envergonho de ter desdenhado e não são menos valiosos que as demais plantas, faziam-se representar pelo feto-pente (Blechnum spicant), pelo feto-do-botão (Woodwardia radicans), pelo feto-do-cabelinho (Culcita macrocarpa) e pelo feto endémico que é hoje cabeça de cartaz, Dryopteris azorica. Este último era mesmo o mais abundante, vicejando à sombra das criptomérias e formando um bonito sub-bosque numa inesperada plantação de bétulas.


Dryopteris azorica (Christ) Alston

Se o tufo de grandes folhas arqueadas e o formato das pínulas não deixam dúvidas sobre a inclusão deste feto no género Dryopteris, já apontar-lhe a espécie requer alguns cuidados. Ajuda saber que o único outro feto existente na Terceira que se pode confundir com o D. azorica é o D. aemula, que é mais pequeno (frondes até 60 cm, contra 1,5 m ou mais do D. azorica) e exibe, no pecíolo das folhas, escamas de um castanho claro uniforme, quando as da D. azorica costumam ter o centro escurecido. Com a escolha assim reduzida a dois candidatos, a identificação é segura. Mas ver-nos-íamos atrapalhados, mesmo com o manual à mão e a lupa encaixada no olho, se tivéssemos, por exemplo, de distinguir o D. azorica do D. dilatata.

A principal razão para a complexidade do género Dryopteris, com miríades de espécies que são pequenas variações de outras, é a facilidade com que elas se combinam para produzir novas espécies por poliploidia. O Dryopteris azorica, que ocorre em todas as ilhas do arquipélago, também interveio nesse jogo, cruzando-se com o D. aemula para dar origem a um outro endemismo açoriano, D. crispifolia.