11/08/2025
30/08/2024
São Jorge das fajãs
Estamos algures em São Jorge, num dia quente de Agosto, a olhar uma fajã bem lá no fundo. A descida nem se afigura complicada, mas cada passo adicional pelo trilho abaixo seria cobrado com altíssimos juros na subida. Os que fazem o caminho todo é porque tencionam pelo menos pernoitar. Espera-os um quintal para amanhar e levam consigo o suficiente para ficarem dois ou três dias. Vistas a esta distância as casas parecem de brinquedo, e de perto também não são para levar muito a sério: são no máximo compostas por duas divisões e não é certo que disponham de água canalizada, saneamento ou electricidade.
Há fajãs mais acessíveis, servidas por ziguezagueantes estradas asfaltadas ou de terra batida transitáveis por veículos motorizados. Contudo, as fajãs a que só se chega a pé por caminhos esconsos são um estímulo para a imaginação e um atavismo desafiante neste século de turismo de massas. As vidas intermitentes que lá decorrem só podem ser vagarosas, formatadas pela lonjura e pela privação ainda que voluntária. Para melhor as respeitarmos, preferimos efabulá-las em vez de tentar conhecê-las de perto.
A Fajã do Nortezinho fica quase no extremo oriental de São Jorge, também na costa norte. É uma fajã elevada, quase cem metros acima do nível do mar, mas o único modo de lá chegarmos, por um caminho largo e sem obstáculos, é a pé, com o desnível do percurso excedendo os 450 metros. Na fajã só existe uma casa, que, a julgar pelas imagens de satélite, terá sido construída há uns quinze anos. Da próxima vez que formos a São Jorge reservaremos tempo e fôlego para não nos quedarmos, como desta vez, a meio da descida. Aquela casa esconde um mistério que, na verdade, pouco nos interessa desvendar. Atraem-nos mais as grandes urzes recortadas contra o azul do mar, acompanhadas por paus-brancos, folhados e faias, e por um elenco de herbáceas (como o Ammi trifoliatum e a Scabiosa nitens) que só existem nos Açores e que, para nós, já são parte da família.
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07/08/2024
Férias
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15/08/2021
Férias
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15/01/2020
Águas salobras



Ao contrário do que pode sugerir o epíteto maritima, esta Ruppia não vive no mar, mas apenas em zonas costeiras tais como estuários, lagoas e salinas. É um habitat por natureza descontínuo e daí que a planta tenha uma distribuição muito fragmentada. No entanto, ela está espalhada por todos os continentes habitados, desde regiões de clima fresco até zonas tropicais, conjecturando-se que tenham sido as aves migratórias, ao comerem os peixes que engolem os frutos da planta, o principal veículo da sua disseminação. Planta de ciclo anual mas florescendo e frutificando ao longo de praticamente todo o ano, não parece ter dificuldade em manter largos contigentes nos locais onde está instalada. Na lagoa da Fajã dos Cubres forma extensas pradarias submersas, e de facto ela é aí a única planta que vive inteiramente na água. Uma observação atenta permite detectar os típicos caules articulados, mas para inspeccionar inflorescências e frutos é indispensável pescar algum exemplar (que depois deverá ser devolvido à água). Os frutos são pequenas drupas dotadas de pedúnculos muito longos (as fotos em baixo mostram uma inflorescência); noutras espécies do género como a Ruppia cirrhosa, mas não na R. maritima, esses pedúnculos costumam contorcer-se em espiral.
Os mamíferos que vivem no mar têm de vir à tona para respirar. Não é esse exactamente o caso da Ruppia, mas esta planta só consegue reproduzir-se porque literalmente cria bolhas de ar. Tais bolhas envolvem as anteras, transportando o pólen para a superfície. Em seguida o pedúnculo cresce, e com isso os estigmas assomam também à superfície para receberem o pólen. Noutros casos, em que a autogamia é prática corrente, a inflorescência prescinde da ascensão à superfície e tudo se passa na intimidade de uma bolha de ar que envolve anteras e estigma de uma mesma flor.
P.S. Para algumas importantes correcções a este texto, leia-se o comentário aqui deixado por Duarte Frade.



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12/09/2015
Em São Jorge, com um brilho nos olhos
O género Euphrasia, da família Orobanchaceae, abriga cerca de três centenas de espécies de plantas hemiparasitas, algumas minúsculas, outras com porte arbustivo, e outras ainda podendo não depender de um hospedeiro para sobreviver. Na Península Ibérica, conhecem-se nove espécies e mais uns poucos híbridos. A Flora Ibérica aponta consolo-da-vista como nome comum em português para as plantas do género Euphrasia, alegando o seu uso tradicional para alívio de males dos olhos. Custa a crer, porém, que por cá (no continente) haja alguma designação vernácula para elas, pois só há registo de duas espécies, a E. hirtella e a E. minima, ambas com presença muito escassa e apenas na região de Trás-dos-Montes.
A destrinça entre as muitas espécies de Euphrasia nem sempre é fácil porque a hibridação é frequente neste género que, além de exibir esquemas bastante eficientes de adaptação a novos habitats, parecendo mesmo beneficiar de algum isolamento geográfico, sabe activar, se necessário, mecanismos de transição para uma auto-polinização dominante. São mais frequentes em regiões de clima temperado, notando-se que as de montanha são, em geral, anuais e pequeninas, como as três ou quatro espécies que vimos em flor na Cantábria em Julho, e que não ultrapassavam os 5 centímetros de altura.






Neste contexto, os dois endemismos açorianos, a E. grandiflora e a E. azorica, ocupam um nicho muito especial: no hemisfério norte, só as Euphrasias açorianas são plantas perenes. São espécies muito raras e receia-se que estejam em declínio, apesar de ambas constarem da Convenção de Berna e da Directiva Habitats como muito vulneráveis, a exigir medidas de conservação imediatas.
Sendo ambas herbáceas erectas e altas (quase meio metro de altura), é fácil distingui-las pelas folhas (opostas, obcordiformes, de pecíolo curto e nervuras em leque, mas na E. azorica parecem romboidais por causa do ápice aguçado), através da arquitectura da folhagem (na E. grandiflora a ramificação nos talos parece começar mais perto da base das plantas) e pelo tamanho das flores (apesar do nome, os cálices da E. grandiflora são menores). Mas ainda que estivéssemos desatentos a estes pormenores morfológicos, a confusão não seria possível: a E. azorica só ocorre nas ilhas das Flores e Corvo, onde habita sítios húmidos de ravinas, crateras e rochedos de lava entre os 100 e os 500 metros de altitude, enquanto que a E. grandiflora é herbácea de montanha, acima dos 750 metros, e só existe no grupo central do arquipélago. Aparece em clareiras de matos de Erica azorica e Juniperus brevifolia, ou em prados naturais de zonas declivosas junto a escoadas lávicas ou bordos de crateras. Julga-se que parasita gramíneas endémicas (Festuca francoi, Deschampsia foliosa ou Holcus rigidus) ou asteráceas também endémicas (Tolpis azorica, Lactuca watsoniana, Leontodon filii).
Na ilha do Pico (onde foi recolhido o holótipo com que Watson descreveu a E. grandiflora em 1844) resta uma população pequena; na Terceira só se conhece um número reduzido de indivíduos na serra de Santa Bárbara; há registos antigos da sua presença no Faial, mas julga-se que ali está agora extinta; e na Graciosa nunca foi avistada.
É na ilha de São Jorge que moram as populações mais abundantes. E foi no Pico da Esperança e em pastagens do Planalto Central que a vimos no ano passado (em Junho, só as folhas) e a revimos este ano, em Agosto, já em flor.

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26/07/2014
Breve tratado das fajãs
Na costa norte de São Jorge há talvez duas dezenas de fajãs com campos cultivados; dessas, cerca de metade têm casas de habitação, mas só em três delas (Fajã do Ouvidor, Fajã dos Cubres e Fajã de Santo Cristo) parece viver gente. A razão do fenómeno não está tanto na dificuldade dos acessos, embora à Fajã de Santo Cristo, a mais famosa da ilha, não seja possível chegar de automóvel. Explicação mais plausível talvez seja a oposta: uma vez que com uma robusta carrinha de caixa aberta os donos das fajãs se põem lá em baixo em três tempos, é com igual facilidade que fazem o caminho inverso uma vez cumpridas as tarefas do dia; não precisam de pernoitar numa aldeia fantasma que, apesar de arrumadinha, não terá as comodidades (electricidade, etc.) a que a civilização nos habituou.



Não menos do que Portugal continental, as ilhas atlânticas já suportam uma dose mortífera de invasoras vegetais australianas, e por isso a ocorrência de mais uma espécie exótica com essa origem não é motivo para festejos. Acontece, contudo, que a Doodia caudata está assinalada nos Açores desde os anos 50 do séc. XX, e tem-se mantido bastante rara no arquipélago. Em São Jorge vimo-la apenas em dois pequeníssimos núcleos. Talvez ela — que, devemos admitir, até é bonita — não tenha a índole agressiva que é indispensável para uma invasão bem sucedida.
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Paulo Araújo
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22/07/2014
Queiró insular


A distribuição do género Daboecia, que alberga apenas duas espécies, subordina-se à exigência de uma elevada acidez do solo, mas ainda assim é curiosa: estas plantas são espontâneas apenas no sudoeste de França, norte de Espanha, noroeste de Portugal, ponta sudoeste da Irlanda, e Açores. A espécie das ilhas açorianas dá flores mais pequenas, com corolas glabras, mas igualmente caducas, num tom de carmim quase púrpura, que se dispõem em cachos de 3 a 7 flores e se detectam facilmente em matos ralos no fim da Primavera (a D. cantabrica floresce mais tarde, de Junho a Outubro). Há registos da presença deste queiró em quatro das nove ilhas, mas parece ser frequente apenas no Faial e na montanha do Pico. Tal como a versão europeia, de que por certo descende, é um arbusto baixo, perene, de base lenhosa e caules decumbentes; as duas apreciam urzais (embora nos Açores a urze em causa seja a endémica Erica azorica), mas a açoriana adaptou-se à intensa humidade atmosférica das ilhas e aparece também em encostas vulcânicas cascalhentas (geralmente acima dos 500 metros).
Há mais diferenças que justifiquem a independência da D. azorica como espécie? Os descritores desta planta, os britânicos Thomas Gaskell Tutin (1908-1987) e Edmund Frederic Warburg (1908-1966), co-autores da Flora of the British Isles e da Flora Europaea, assim o entenderam depois de uma visita de exploração botânica às ilhas do Faial e do Pico em 1929. Anunciaram a descoberta três anos depois, no Journal of Botany, British and Foreign. Publicaram dois artigos com o que viram nos Açores, e tempos depois receberam mais financiamento para novas expedições, algumas delas notáveis pelo contributo que trouxeram à salvaguarda da biodiversidade no mundo.
O estudo da flora açoriana, desde o século XIX até meados do século XX, deve-se sobretudo a cientistas estrangeiros. Na verdade, naquela época não havia universidade ou centros de investigação nos Açores, e no continente os botânicos (os que não andavam entretidos nas colónias) cuidavam de recuperar o atraso na descrição da flora local, para logo depois se começarem a preocupar com a dimensão das ameaças à natureza e com a necessidade de medidas de protecção. Além disso, desde a época dos descobrimentos que o apoio à pesquisa científica, sobretudo àquela que exige demorados trabalhos de campo, tecnologia avançada e redes alargadas de cooperação, tem o tamanho da pobreza do país. Que continua a ignorar para que serve a investigação em ciências naturais, ou não quer dar-lhe uso porque são outros os interesses que nos governam. É decerto por isso que ainda hoje são os cientistas estrangeiros que nos avaliam, que decidem qual o conhecimento que o país deve incentivar, que ditam o futuro da nossa ciência e, portanto, do nosso território.
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Maria Carvalho
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15/07/2014
Ponta das labaças



Popularmente conhecidas como azedas, vinagreiras ou labaças, as plantas do género Rumex compensam o seu défice de formosura com uma abnegada dedicação ao bem-estar humano. Assim, as folhas comestíveis acrescentam um travo ácido às saladas, e podem ser usadas como purgativo; se aplicadas externamente, são úteis contra queimaduras e picadas de urtiga; e, à falta de melhor, servem até para embrulhar manteiga. Já quanto à formosura, é mais avisado não sermos tão taxativos ao atribuir-lhes nota negativa. O que estas plantas não possuem é flores chamativas, pois o vento, único polinizador de cujas boas graças dependem, não precisa de engodos ou cantos de sereia para se apresentar ao serviço. Contudo, o R. bucephalophorus, uma espécie de pequeno porte, prova que a união também faz a beleza ao formar, nos areais, vistosos aglomerados com as cores da bandeira nacional. E do mesmo princípio da beleza das multidões se servem espécies de maior envergadura para construir inflorescências vistosas, agrupando milhares de flores que, individualmente, são insignificantes. É o caso deste gigantesco R. azoricus, cujas inflorescências parecem nuvens douradas.
Talvez seja bom quantificar o adjectivo gigantesco quando aplicado a esta labaça-das-ilhas, sabendo-se que labaça, de um modo geral, é nome reservado aos Rumex de tamanho respeitável dotados de uma haste principal bem definida (contrastando, por exemplo, com o R. induratus, vulgarmente conhecido como azedão, que forma uma moita muito confusa). O R. azoricus ultrapassa facilmente os 1,5 m de altura, no que se compara a algumas espécies continentais, mas singulariza-se pelas folhas que podem medir um metro de comprimento, com pecíolos longos e grossos, e pela espaventosa inflorescência, pontuada por longas brácteas que, distribuídas de modo tão irregular (ver foto 2), parecem facas lançadas de longe por artista pouco habilidoso.
A labaça-das-ilhas não é a labaça que mais facilmente se encontra nos Açores: muito mais comuns do que o R. azoricus em campos e bermas de estradas são espécies ruderais como o R. obtusifolius e o R. crispus. E é a essas mesmas labaças sem eira nem beira que o leitor açoriano deverá deitar a mão se quiser experimentar-lhes os usos culinários ou medicinais. Não porque a labaça-das-ilhas seja desprovida de tais qualidades (talvez seja, não sabemos), mas porque é planta rara, um dos endemismos do arquipélago que mais carecem de protecção. Tem uma distribuição de todo peculiar: ocorre em São Miguel, mas não em Santa Maria; existe em São Jorge, Terceira e Faial, mas não nas restantes ilhas do grupo central; e, tendo-se instalado no Corvo, recusou a vizinha (e bem mais ampla) ilha das Flores. Não há nada nas suas preferências de habitat (caldeiras, margens de cursos de água, prados naturais) que explique tais caprichos, pois o Pico e as Flores, duas das ilhas onde ela não quis morar, albergam das mais bem conservadas áreas naturais dos Açores.

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Paulo Araújo
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12/07/2014
A borboleta de Hochstetter
2013 foi um ano de novidades para a flora açoriana, que tem desde então um capítulo mais bem arrumado. Recapitulemos. No início de Dezembro do ano passado ficámos a saber que uma equipa de botânicos encontrou, num único local do Pico da Esperança, na ilha de São Jorge, uma nova orquídea do género Platanthera que é endémica do território. Ao procurarem uma designação apropriada para esta nova planta, consultaram os exemplares de Platanthera colhidos em 1838 por Karl Hochstetter e depositados no herbário da Universidade de Tubinga. Nesse ano, inicialmente com o pai e depois sozinho, Karl percorreu algumas ilhas do arquipélago (não se sabe exacatamente quais) em visita de exploração botânica. No herbário havia afinal material recolhido de três espécies de orquídeas, distintas sobretudo no tamanho e morfologia das flores, mas na Flora Azorica, de 1844, Seubert só havia nomeado duas delas. Mas quais? Excelente pergunta cuja resposta pôs fim a um erro com quase dois séculos: Seubert havia nomeado as menos frequentes, faltando uma designação válida para a mais comum, que existe em todas as ilhas e em populações numerosas.
Resolvido o imbróglio, eis as três espécies de Platanthera endémicas dos Açores que agora se conhecem:
* Platanthera pollostantha, a que tem as flores menores e é a mais abundante, pontuando todas as ilhas açorianas.
* Platanthera micrantha, de flores um pouco maiores, com o labelo revirado para cima a tapar o centro da flor. Há registo da sua presença em seis das nove ilhas (Corvo, Flores, Faial, Pico, São Jorge e Terceira).
* Platanthera azorica, de flores grandes, com o labelo vertical e igualando em tamanho as sépalas laterais. Só são conhecidas populações na zona central de São Jorge. É essa a espécie recém-(re)descoberta.




Para ver esta "nova" orquídea, estivemos em São Jorge no início de Junho. No dia seguinte à chegada, preparámo-nos para a subida ao Pico da Esperança, um monte de respeito que se ergue a uns mil metros de altitude, mas o nevoeiro espesso, a chuva miudinha e o vento forte (que, em 1999, terão contribuído para um acidente com um avião da Sata, que colidiu com a montanha) fizeram-nos desistir da ideia. Sem preocupações, afinal tínhamos mais seis dias para repetir a tentativa. No retorno à parte mais baixa da ilha, com sol e gado a passearem animados pelos prados, fomos parando para ver de perto os taludes elevados de beira de estrada, lugares muitas vezes favorecidos por flora admirável. Num deles, a cerca de 650 metros de altitude, detectámos uma planta que procurávamos: a salsa-das-nuvens. E, a meio do talude, eis outra surpresa: vários pés de P. azorica. O que nos leva a ter esperança de que a famosa orquídea talvez esteja mais disseminada pela ilha do que os registos actuais fazem crer.
A lista de polinizadores destas orquídeas é mal conhecida. Mas, sendo adeptas obstinadas da auto-fecundação, não é de admirar que haja poucos híbridos entre elas. É quase certo, porém, que há insectos a visitá-las: algumas fotos mostram pólen disperso, como se espalhado por algum insecto a bater asas; além disso, a P. micrantha é bastante perfumada. E as fotos seguintes mostram um exemplar de P. azorica (ou coisa parecida) bastante robusto e em que as pétalas superiores das flores não formam o tradicional capuz, variações morfológicas que sugerem estarmos em presença de um híbrido ou então de uma planta com desenvolvimento anómalo.


Quando, dias depois, o tempo amainou (enfim, o verbo talvez seja excessivo; digamos que o nevoeiro e o vento ainda por lá se mantinham, mas já não chovia) e pudemos subir ao Pico da Esperança, já conhecíamos a orquídea, mas ali o núcleo delas que se deixa adivinhar entre a névoa é muito maior. Vimos umas duzentas plantas, em plena floração, rodeadas de centenas de exemplares de P. pollostantha e uma dúzia de pés de Euphrasia grandiflora. Esta Euphrasia, de flores maiores do que as da ilha das Flores, ainda só exibia folhas. Um bom motivo para voltarmos a São Jorge.
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Maria Carvalho
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08/07/2014
Serapião queimou o bico


Quem visita o arquipélago açoriano na Primavera ou no Verão não demora a reparar que, embora seja invulgar o dia em que não chove, as temperaturas máxima e mínima diferem pouco e são amenas, rondando frequentemente os 21ºC. É o clima ideal para quem aprecia passeios pelo campo ou pela praia, embora nos primeiros se deva acautelar contra nevoeiros densos e repentinos, e, optando pela beira-mar, tenha de se resignar a uma areia escura feita dos grãos grossos em que o mar vai desfazendo a pedra vulcânica. Nestas ilhas de paisagem paradisíaca, a estabilidade do clima parece ser um traço distintivo na sua curta história geológica: ao contrário de outras ilhas da Macaronésia, os Açores não parecem ter sofrido transições climáticas abruptas, nem períodos de aridez a entremear outros de dilúvio que, noutras paragens, são responsáveis pela diversificação da flora. As plantas que lá se instalaram tiveram apenas de fazer um esforço inicial de adaptação aos novos polinizadores, ao novo solo e à nova ecologia. Se os endemismos açorianos são escassos, isso talvez se deva em parte às extinções locais que a intervenção humana tem vindo a provocar.
No que respeita à flora, as ilhas são (estranhamente, aliás) muito semelhantes. As excepções são poucas, e algumas em vias de desaparecer, seja pela voracidade dos inúmeros coelhos, seja pela agilidade das cabras ou pelo incentivo mal gerido dado à pastorícia. Mas os relógios das ilhas não são idênticos. Na ilha de Santa Maria, mais seca e mais próxima do continente, o início de Junho é já tarde para ver orquídeas, e nesse mês do ano passado não conseguimos ver nenhuma Serapias em flor. Pelo contrário, no grupo central do arquipélago, é em Junho que elas estão no auge da floração; e é em São Jorge que é mais fácil fotografá-las. Não temos dúvidas em reconhecer nas flores das fotos, pelo labelo vermelho escuro e grande, o parentesco desta Serapias com a europeia Serapias cordigera. Contudo (e parecendo desse modo seguir uma regra a que as outras orquídeas açorianas também obedecem), as flores desta Serapias são muito menores do que as da prima continental; e, na ilha do Pico, as flores tendem a surgir, com elevada percentagem, em versões rosadas ou brancas. Por isso, alguns botânicos propõem que se autonomize como espécie (sugerindo o nome Serapias atlantica), enquanto outros optam cautelosamente por uma diferenciação ao nível de subespécie (adoptando a designação Serapias cordigera subsp. azorica).
Não é surpresa que nos Açores haja poucas espécies de orquídeas e cada vez menos efectivos de algumas delas. Afinal, a grande maioria destas plantas prefere solos calcários, e esse tipo de substrato não existe nos Açores. Além disso, as ilhas estão bastante longe do continente europeu ou do americano, e a colonização das ilhas por plantas e animais não terá sido aventura fácil. Ainda assim, das cinco orquídeas conhecidas nas ilhas açorianas, quatro são consideradas endémicas. A mais frequente é, sem dúvida, a Platanthera pollosthanta, talvez por ser menos exigente quanto a fungos e microrrizas. A das fotos, pelo contrário, que ocorre em todas as ilhas com excepção das do grupo oriental, está ameaçada em todas elas pelo uso intensivo dos prados pelo gado, e talvez à beira da extinção em São Jorge. Nesta ilha, resta-lhe o bordo magro dos matos, uns pastos minguados sem acesso fácil para vacas e alguns taludes elevados de estrada.


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Maria Carvalho
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