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01/04/2026

À janela

Barlia robertiana (Loisel.) Greuter
As metrópoles são, no fundo, casas grandes
em que as janelas servem para insultar
os outros — a amizade é impossível
em grandes aglomerações.
Até entre animais mínimos como moscas
ou formigas não é fácil detectar, na cidade,
um comportamento com o selo do companheirismo.

(As formigas, por exemplo,
sendo animais surdo-mudos
têm as patinhas da frente disponíveis
para o diálogo, mas tal facto impede-as
de conversar enquanto caminham
— prazer específico da espécie humana.)
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia - Canto III (Editorial Caminho, 2010)

01/08/2021

Orquídeas da serra e da rocha

Acontece-nos com a flora da ilha da Madeira o que por vezes sucede ao reencontrarmos uma pessoa que conhecemos noutras circunstâncias: temos uma vaga lembrança da cara, hesitamos no nome, e a ajuda para nos poupar o embaraço só chega, por vezes tarde de mais, quando a memória nos revela de onde a conhecemos. Na flora madeirense, alguns arbustos lenhosos têm uma tal semelhança com plantas continentais que juraríamos serem com elas aparentadas. E são, embora as primas continentais, postas em contraponto, não passem de herbáceas frágeis e mirradas. Na ilha, resultado de um processo muito bem sucedido de adaptação a um novo habitat, as espécies que julgamos idênticas às continentais produzem indivíduos vigorosos, com flores grandes ou inflorescências vistosas, frequentemente com a folhagem densa e acumulada na ponta dos galhos para se elevarem na floresta.

A ilha da Madeira é sem dúvida um dos refúgios de flora mais notáveis e bem conservados. Para além do que resta das lauráceas que (antes de nascerem o mar Mediterrâneo e o deserto do Saara, e de várias crises climáticas assolarem o planeta) também existiram no que é hoje o sul da Europa e o norte de África, há na ilha da Madeira inúmeras espécies endémicas de géneros que ainda ocorrem no continente. É o caso de duas orquídeas que começam a florir no fim da Primavera.

Orchis scopulorum Summerh. (com Ranunculus cortusifolius)
Orchis scopulorum


A primeira é rara e vive, em regra, acima dos 1100 metros, em escarpas rochosas (daí o epíteto scopulorum) expostas aos ventos alíseos de nordeste e aos andares de nuvens, que arrefecem a encosta norte e a zona montanhosa central da ilha da Madeira. Estes ingredientes atmosféricos provocam uma «chuva horizontal» quase permanente, responsável pela manutenção do extraordinário coberto vegetal desta região da ilha. Do género Orchis, que em Portugal abriga onze espécies, esta orquídea pode chegar aos 65 cm de altura e exibir uma espiga com duas dezenas de flores. O labelo é mais pálido do que os outros segmentos da flor, criando um contraste de cor que decerto não passa despercebido aos polinizadores. As primeiras fotos são do Pico do Areeiro, num momento raro em que uma das nuvens se rompeu e destapou o sol; as duas últimas são de plantas junto à levada do Caldeirão Verde (a uma altitude anormal para a espécie), onde, no início de Maio, a floração já ía mais avançada.

Pico do Areeiro
Levada do Caldeirão Verde
A segunda orquídea endémica da Madeira é do género Dactylorhiza, de que se conhecem 4 ou 5 espécies em Portugal continental. Pode atingir 80 cm de altura, e nota-se bem nos bordos dos caminhos da floresta pelas folhas basais longas (cerca de 35 cm), lustrosas e em tom verde escuro. A inflorescência é cónica ou cilíndrica, composta às vezes por umas 50 flores de cerca de 3 cm de diâmetro, cujo labelo é marcado por um padrão de pintas que traz à memória o das espécies continentais do mesmo género. Dizem que é comum na laurissilva, entre os 500 e os 1500 metros de altitude, e na nossa visita encontrámos muitos exemplares na floresta temperada do til (Ocotea foetens), mas não vimos nenhum florido. [Julgámos que sim, mas o João Farminhão detectou de imediato que as flores que lá fotografámos eram de Orchis scopulorum.]

Til monumental [Ocotea foetens (Aiton) Baill.] & folhas de Dactylorhiza foliosa (Rchb. f.) Soó
Fajã da Nogueira — laurissilva do til

29/04/2021

Aprumo militar


Orchis militaris L.


Ninguém mata de tão longe como um homem,
e poderás dizer que esse facto prova
apenas a sua melhor pontaria ou tecnologia,
mas prova também a estratégia de uma espécie.
Não se ama de tão longe, por exemplo.
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia (Editorial Caminho, 2010)

23/06/2019

Souto com orquídeas

Em Junho de 2016, o país recebeu uma excelente notícia: tinha sido descoberto num souto do nordeste transmontano, por Américo e Conceição Pereira, um núcleo com bastantes indivíduos de uma das orquídeas mais bonitas e raras entre nós. Infelizmente, os nossos jornais não se interessam por tais assuntos a menos que eles sejam reportados por agências de notícias estrangeiras, e o leitor não terá dado por nada no Facebook. Estamos aqui hoje para remediar essa omissão.


Cephalanthera rubra (L.) Rich.


Desta planta, a Associação de Orquídeas Silvestres — Portugal tinha registo até então de meia dúzia de exemplares perto de Vinhais, receando pela sua sobrevivência. É que estes soutos antigos, com castanheiros de copas monumentais que no Outono servem generosas quantidades das melhores castanhas portuguesas e em cuja sombra algumas orquídeas se regalam, são privados. E, frequentemente, os proprietários desses bosques não gostam que nas suas terras se descubram plantas que sejam alvo de planos de conservação ou de directivas europeias de protecção. Está-se mesmo a ver o prejuízo: torrão onde se encontre uma planta exclusiva não mais (julgam eles) poderá ser lavrado como o dono bem entender. Daí que, sem apelo nem demora, o solo seja revolvido até não restar memória das herbáceas preciosas que ali se nutriam e da biodiversidade que enriquecia aquele habitat. Por isso, os autores da ficha da espécie na Lista Vermelha da Flora de Portugal entenderam que, apesar de se conhecerem agora mais núcleos desta orquídea, ela continua em perigo.

Do género Cephalanthera ocorre em Portugal outra espécie, a C. longifolia, que tem uma distribuição muito mais ampla (surge de Trás-os-Montes ao Algarve) e é, portanto, bem mais fácil de avistar. É parecida com a C. rubra, mas de flores brancas. Falta encontrar a espécie C. damasonium, frequente na metade oriental de Espanha, que prefere solos calcários em bosques com muita sombra e humidade. Conhecem-se núcleos desta espécie não muito longe do extremo nordeste do país; com sorte, daqui a alguns anos ela seguirá o exemplo do urso pardo e virá fazer-nos uma visita.

09/12/2018

Salepeira-não-tão-grande

Por esta altura do ano já se podem observar, na região calcária do centro do país, rosetas de folhas e até um tímido início da haste floral da Barlia robertiana. Entre Janeiro e Fevereiro, a floração desta orquídea robusta e muito vistosa estará no auge. Quase simultaneamente, uma espécie de orquídea muito parecida com a B. robertiana interrompe o seu período de hibernação nas ilhas Canárias. O que nos leva a desconfiar que esse momento para iniciar a floração é uma informação genética herdada de um progenitor comum.


Himantoglossum metlesicsianum (W. P. Teschner) P. Delforge [sinónimo: Barlia metlesicsiana W. P. Teschner]


A Barlia metlesicsiana é endémica de Tenerife e vive em zonas pedregosas onde os escombros de lava foram suficientemente erodidos para daí resultar um solo macio, firme embora seco, que consegue sustentar alguma vegetação. Apesar de ter um substrato ácido, é talvez o habitat mais parecido com os matos rasteiros, mas soalheiros e abrigados de intempéries, que estas orquídeas preferem na região mediterrânea. Os poucos exemplares que vimos desta orquídea muito rara estavam perto de Santiago del Teide, numa zona protegida onde vários avisos requerem dos visitantes o respeito escrupuloso pelas normas de conservação.



Da evolução isolada na ilha de Tenerife, resultaram algumas pequenas diferenças entre a B. robertiana e a B. metlesicsiana, sendo a espécie tenerifenha em geral mais baixa e de aspecto mais frágil, com uma roseta basal de folhas menos robusta, uma haste floral com duas a quatro folhas caulinares que parecem brácteas, e uma inflorescência menos densa. O epíteto específico metlesicsiana é uma homenagem de Walter Paul Teschner, que descreveu esta espécie em 1982, ao botânico austríaco Hans Metlesics (1900-1985).

A designação mais antiga para o género a que estas orquídeas pertencem é Himantoglossum. Por causa disso, e apesar de o basiónimo ser Barlia metlesicsiana, Pierre Delforge propôs em 1999 que esta espécie se designasse Himantoglossum metlesicsianum, e que a sua irmã continental passasse a ser Himantoglossum robertianum. A mudança foi aceite pelo portal Euro+Med PlantBase mas não (ainda?) pela Flora Ibérica ou pela Flora-On.

20/10/2018

Orquídea dos três dedos


Habenaria tridactylites Lindl.


À medida que nos aproximamos dos trópicos, esbatem-se as diferenças entre as estações do ano. É verdade que, com as alterações climáticas, também nos climas temperados se assiste à descaracterização das estações intermédias — um exemplo eloquente é este Outono de 2018 que tarda em descolar do Verão. No entanto, as plantas que durante muitos milhares de anos evoluíram num certo clima continuam para já a comportar-se como se nada tivesse mudado. Mesmo com o tempo meteorológico às avessas, elas obedecem ao calendário para que foram programadas: há muitas mais flores na Primavera do que no Outono, e é na Primavera que as árvores ganham folhas novas, deixando-as cair no Outono. É assim na Europa continental, mas não nos arquipélagos da Macaronésia — onde, só para começo de conversa, não há árvores nativas caducifólias. Na Madeira são várias as plantas endémicas que florescem no Inverno, e nas Canárias ainda é maior o desrespeito pela convenção eurocêntrica que proíbe um Inverno florido. Em rigor, Inverno e Outono são, nessas ilhas, conceitos postiços.

Esta orquídea é uma das plantas que, nas Canárias, florescem nos meses que para nós são de Inverno; a semana entre o Natal e o Ano Novo é uma boa altura para a observar. Com duas únicas folhas basais, largas e achatadas, e uma haste esguia de 10 a 40 cm de altura sustentando umas tantas pequenas flores esverdeadas, não é das orquídeas mais vistosas, nem de cor mais apelativa. Pelas suas flores discretas e pelo aspecto geral, esta Habenaria tridactylites canarina faz aliás lembrar as orquídeas açorianas do género Platanthera. Tanto assim é que estas últimas foram inicialmente incluídas (em 1844, por Maurice Seubert, na sua Flora Azorica) no género Habenaria, erro que só seria corrigido em 1920 por Schlechter. Se atendermos aos detalhes, contudo, a orquídea das Canárias é bem diferente das açorianas: não possui folhas caulinares, e as flores, que estão dispostas de forma menos densa, têm o labelo dividido em três segmentos lineares que se assemelham a dedos longos e finos (daí o epíteto tridactylites), além de apresentarem um esporão muito mais comprido.

Contando com sete orquídeas nativas, das quais apenas três são endémicas, as Canárias não são um destino prioritário para os orquidófilos: tanto em quantidade como em diversidade, qualquer ilha do Mediterrâneo, por pequena que seja, é incomparavelmente mais rica em orquídeas do que Tenerife — que é a maior das ilhas Canárias, nela ocorrendo todas as espécies de orquídeas presentes no arquipélago. Mas em Dezembro ou Janeiro não há, no Mediterrâneo ou na Europa continental, orquídeas silvestres para admirar, e um saltinho às Canárias para ver a Habenaria tridactylites é um modo de amenizar a espera. Acresce que o género Habenaria não está representado na flora europeia, o que significa que a orquídea-dos-três-dedos é totalmente diferente de qualquer orquídea que possamos encontrar na Europa. (Nisto a Europa faz figura triste, pois calcula-se que haja umas 840 espécies de Habenaria distribuídas por zonas tropicais e subtropicais de todo o mundo, 240 delas só em África.)

Foi à vista dos ilhéus de Anaga, na ponta nordeste de Tenerife, que encontrámos pela primeira vez esta orquídea. Mas vimo-la depois, às vezes em grupos de largas dezenas, em muitos outros lugares da ilha, sobretudo em clareiras de matos em zonas de média ou baixa altitude.

21/03/2018

O capuchinho púrpura


Orchis purpurea Huds.


Lady orchid é a designação inglesa para a orquídea acima ilustrada. O nome alude ao formato de cada flor, a lembrar uma figura humana em miniatura, com um capuz de cor púrpura que contrasta com o tom esbranquiçado pintalgado de rosa do labelo; este divide-se em vários lóbulos para formar os braços e a saia da lady, com um subtil rebordo violeta. Desta espécie não há registo em Portugal, mas estes detalhes morfológicos são comuns a outras espécies que por cá existem, com destaque para a Man orchid (Aceras anthropophorum; em português chamamos-lhe rapazinhos), a Naked man orchid (a flor-dos-macaquinhos, de nome científico Orchis italica) e a Burnt orchid (Orchis ustulata), as duas primeiras frequentes no nosso país e a terceira (fotos em baixo) muito rara.


Orchis ustulata L. [sinónimo: Neotinea ustulata R. M. Bateman, Pridgeon & M. W. Chase]
A Lady é escultural e alta (pode atingir 1 metro de altura), com uma inflorescência fácil de detectar por causa do tom vermelho-arroxeado dos botões por abrir no topo, das dezenas de flores na haste e do aroma a baunilha ou amêndoa. Trata-se de uma planta de bosque que pede solo calcário bem drenado. É usual encontrá-la refastelada nos tapetes de folhas de árvores caducas, até empoleirada em raízes mais grossas destas árvores. Não recusa margens soalheiras de floresta se protegidas do vento, mas, não surpreendentemente, as flores de plantas em zonas mais sujeitas a sol intenso ou a intempéries tendem a ser mais pequenas, mais escuras e com os labelos pintalgados de castanho.

A distribuição da O. purpurea causa-nos alguma inveja. Ocorre em boa parte da Europa, com algumas populações no norte de África e Ásia, e em Espanha é comum no nordeste, sendo rara no centro e sul. Entre a germinação e a primeira floração de cada uma destas plantas podem passar  8 a 10 anos, vivendo ela depois mais uns 10, tendo florido apenas uma meia dúzia de vezes neste período. O declínio desta espécie em alguns habitats é preocupante, seja pela destruição dos bosques, pela má gestão da floresta, ou pelo repasto de coelhos, cervos e javalis que, entre Janeiro e Fevereiro não resistem às folhas muito verdes e longas desta orquídea, entre Abril e Junho se banqueteiam com as flores e, porque o Inverno está a chegar, ainda reservam barriga para os suculentos tubérculos.

29/08/2017

Samba a duas cores

Muitas sociedades, embora lamentavelmente não todas, asseguram hoje a cada indivíduo o privilégio de poder ter, durante quase duas décadas, uma única obrigação: a de se instruir. Nesse longo período escolar não precisa de produzir nada, nem de pagar o que consome; basta que seja curioso, que adquira conhecimentos, que aprenda a usar o seu talento. Para contrariar alguma tentação familiar de fazer render os filhos em trabalho precoce que impeça a escolarização mínima, esta é obrigatória. O sucesso deste esforço colectivo da civilização depende, claro, da qualidade dos professores e alunos, e exige uma hierarquia criteriosa nos temas a ensinar. Há que começar pelo mais simples, conteúdo que é por vezes difícil de estabelecer e nem sempre consensual. Por exemplo, em matemática, pode iniciar-se com várias instâncias em que surgem números naturais e fracções, com a comparação de formas, com a detecção de simetrias. Pouco depois, espera-se que utilizem a linguagem e as operações da aritmética com alguma desenvoltura. Só mais tarde se lhes pede que treinem o pensamento geométrico, que entendam o que é uma demonstração matemática ou que apliquem o que sabem. Uma aprendizagem mínima deve garantir que os jovens prossigam a sua vida com autonomia e êxito; frequentemente, os contributos que daí surgem, em ciência ou noutros domínios, retribuem em excesso o investimento educativo feito pela comunidade.

Do mesmo modo, para muitos amadores de botânica, a atenção às plantas silvestres começa com um capítulo fácil: as orquídeas. São de uma família evolutivamente muito avançada, que exibe estratégias de disseminação fascinantes e fáceis de observar. Além disso, têm flores sofisticadas que se avistam sem dificuldade, entre Janeiro e Agosto, nos afloramentos calcários do país. Havendo tantas espécies de orquídeas no mundo (umas vinte mil espécies distribuídas por cerca de oitocentos géneros), quem quiser pode gastar nelas todo o seu interesse pela botânica. Outros haverá que virão a apreciar fetos e gramíneas com idêntica paixão. Nenhum deles, contudo, ficará indiferente a uma orquídea que vê pela primeira vez.


Dactylorhiza sambucina (L.) Soó


Na nossa visita à Cantábria e às Astúrias, em Maio, foram tantas as novidades florísticas de que ainda nem vos demos notícia que estas orquídeas, abundantes nos prados de montanha em Somiedo e parecidas com a Dactylorhiza insularis, têm estado à espera de vez. Há um pormenor curioso nesta espécie de Dactylorhiza que nunca tínhamos observado. Em populações grandes de orquídeas é frequente surgirem umas poucas plantas com flores hipocromáticas (brancas ou em tons muito mais claros do que o usual). Na espécie das fotos, a variação relativamente à norma (flores amarelas com o labelo pintalgado de vermelho) é feita por flores vermelhas cujo desabotoar se adianta ligeiramente em relação ao das flores amarelas. Tudo indica que a cor rubra, mais vistosa, ajuda a atrair os polinizadores para um manto de flores que, se fosse todo igualmente amarelo-esbranquiçado, talvez passasse despercebido. Como estas flores não oferecem nenhuma recompensa às abelhas, seja em néctar ou em agasalho, as flores de cores diferentes permitem também distrair os insectos do logro em que vão caindo ao visitá-las.

O epíteto sambucina remete para um arbusto que decerto o leitor conhece. Lineu, em 1755, descreveu esta orquídea a partir de exemplares da Suécia, e pareceu-lhe que a inflorescência recendia a sabugueiro (Sambucus nigra). Pena que, ao contrário da tabuada que aprendemos na escola primária, não tenhamos boa memória para cheiros, menos ainda para o do sabugueiro.

31/05/2017

Orquídea pálida

Os jornais anunciaram há dias a descoberta, em local longínquo do universo, de planetas talvez parecidos com a Terra, mas que têm órbitas muito mais demoradas em torno dos respectivos sóis. O movimento de translação desses planetas à volta das suas estrelas leva centenas de anos terrestres a completar-se. Se nos tivesse calhado uma dessas Terras, poderíamos viver toda a vida na Primavera. Claro que também haveria o risco de só conhecermos o Inverno; ou de termos de suportar o imortal cansaço de Verão. Imaginemos, porém, um cenário eternamente florido. Um regalo, sim, mas teríamos de abrir mão da alternância de estações e de paisagens, das migrações dos bandos de pássaros, do ritual de hibernação dos ursos, da luz do Outono, da folhagem nova dos carvalhos, do assombro num campo amarelo de narcisos, de muita arte e ciência. E também não existiriam as plantas que, no rigor do Inverno, se recolhem ao subsolo reduzidas a um bolbo — uma cebolinha que, misteriosamente, guarda intacto o programa para gerar sem erro novas folhas e flores meses depois.

Felizmente, vivemos numa Terra caprichosa e apressada, onde inúmeras espécies se adaptaram às mudanças tornando-se perenes, embora dependentes do ninho onde se resguardam quando a neve e a penumbra lhes cobrem o torrão. Como esta orquídea de prados alpinos e bosques de montanha que vimos em Fontibre, na Cantábria, e reencontrámos em Somiedo, nas Astúrias, e que, ao primeiro olhar, quase confundimos com a Dactylorhiza sulphurea.


Orchis pallens L.


Desconfiámos da identificação pelo porte bem mais robusto (cerca de 50 cm de altura) da orquídea do norte de Espanha, pelas 4 a 6 folhas grandes, brilhantes e não maculadas, como as das Barlias, pela ausência de brácteas que entremeiam a inflorescência e por as flores terem o capuz pálido, quase branco. Na verdade, pertence até a outro género, Orchis, mas o engano é desculpável: descrita em 1771 por Lineu com o epíteto pallens, foi rebaptizada em 1825 por John Sims como Orchis sulphurea. Há, porém, outro equívoco, desta vez benéfico, associado a esta orquídea: apesar de não ter néctar para oferecer, é polinizada por abelhas que, atraídas pelo perfume e coloração das flores, julgam que estão a visitar outras plantas com floração semelhante e que são nectaríferas. O mais curioso é que o logro continua a funcionar mesmo quando as plantas que esta orquídea imita não estão presentes. Naturalmente, um tal estratagema exige astúcia e impõe alguns constrangimentos: a orquídea tem de conviver no mesmo habitat do modelo, com necessidades climáticas e ecológicas idênticas; precisa de começar a florir mais cedo para conseguir ludibriar mais polinizadores antes de eles encherem a barriga nas plantas com néctar; e tem de se manter em flor por um período mais longo para poder beneficiar de mais instâncias em que o logro resulte. O ardil é um achado pois, apesar de localmente a Orchis pallens ser rara, a sua distribuição inclui quase todas as grandes cordilheiras montanhosas da Europa.

30/04/2016

Orquídeas portuguesas


Em 2008, José Monteiro publicou um livrinho de 80 páginas sobre as orquídeas silvestres da Beira Litoral. Para muita gente (e para nós também) foi o primeiro contacto com essas flores misteriosas e efémeras que crescem, ignoradas por muitos, um pouco por todo o país. Embora a província sobre a qual Monteiro então se debruçou seja aquela que em Portugal apresenta maior abundância e diversidade de orquídeas, a verdade é que as há desde Trás-os-Montes ao Algarve, sem esquecer os arquipélagos atlânticos; e, ainda que se dêem melhor em substratos calcários, elas não são exclusivas desses habitats.

Faltava pois alargar o âmbito do estudo, estendendo-o ao país inteiro, e é isso que José Monteiro faz neste seu livro acabado de publicar, intitulado, com justeza, Orquídeas Silvestres de Portugal. Não é preciso ressalvas, pois é de Portugal inteiro que se trata: continente, Madeira e Açores (uma das orquídeas que aparece na capa é mesmo endémica deste arquipélago). O autor visitou e fotografou in loco todas as espécies de orquídeas alguma vez assinaladas no nosso país, incluindo algumas de que ele próprio foi o descobridor, e não deixou de fora os raríssimos híbridos que só gente como ele parece ser capaz de detectar. As fotos são excelentes, as descrições são sucintas mas úteis, e a informação adicional (ecologia, época de floração, distribuição) é tão completa quanto se pode desejar.

Em suma, uma obra obrigatória para quem já descobriu ou está em vias de descobrir os encantos da nossa flora silvestre. O livro, que é prefaciado pelo Prof. Jorge Paiva, custa 15€ e pode ser encomendado ao autor pelo endereço jbritesmonteiro@gmail.com

29/07/2014

O regresso da orquídea fragrante

Há uns anos, os dados oficiais indicavam que a orquídea Gymnadenia conopsea estava extinta em Portugal. Foi essa a categoria que lhe atribuiu o Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês de 1995. E, em 2003, Amaral Franco, na Nova Flora de Portugal, regista-a apenas no Borrageiro e em tão pequeno número que a considera quase extinta. Para esta avaliação decerto contribuiu o facto de o Verão ser impiedoso na serra do Gerês, de esta orquídea florescer no fim de Junho e de o seu habitat natural se situar nas zonas mais altas e remotas da montanha, de acesso difícil mesmo para os técnicos do Instituto da Conservação da Natureza e para os vigilantes do Parque.


Gerês: Borrageiro e Fichinhas
A boa notícia é que a extinção desta orquídea foi apenas burocrática, e aliás o lapso já foi corrigido no actual plano de ordenamento do PNPG. Em 2009, Ana Júlia Pereira e Miguel Porto encontraram-na num prado a cerca de 1200 metros de altitude; e, desde então, alguns membros da AOSP descobriram mais cinco núcleos, vários com dezenas de plantas em flor. Mantém, porém, o seu estatuto de orquídea rara, refugiada em urzais montanhosos a mais de vinte quilómetros da vila do Gerês, a justificar plenamente um programa de conservação em que os pastores aceitem colaborar. Tais medidas de protecção beneficiariam também outras preciosidades que a serra guarda, e o atraso em implementá-las deveria ser punido como negligência grave. Sendo uma planta de prados, a Gymnadenia requer uma gestão eficiente do desbaste natural das herbáceas rasteiras de altitude que o gado efectua: se for desmazelado, os matos invadem os pastos e sufocam as orquídeas; se exagerado, ou feito na época da floração das orquídeas, elas desaparecem. A juntar a esta ameaça, há ainda as queimadas mal vigiadas, o abandono do uso tradicional dos lameiros, o pisoteio que o pastoreio intensivo provoca em habitats frágeis, o impacto na composição dos solos que a presença maciça de gado comporta, e (talvez em menor grau) a colheita ilegal de plantas.


Gymnadenia conopsea (L.) R. Br.


Guiados por quem conhece bem a serra e as orquídeas, avistámos no início de Julho três populações desta planta. É fácil de reconhecer: exibe inflorescências cilíndricas elegantes, flores magenta muito aromáticas com esporões de cor púrpura, longos, finos e tão transparentes que (pelo menos na flor albina da foto) conseguimos ver o néctar que contêm. Reparámos que havia um número maior de plantas nos solos mais húmidos ou perto de córregos, frequentemente rodeadas de Narthecium ossifragum e Dactylorhiza maculata. Curiosamente, os dois géneros de orquídea Gymnadenia e Dactylorhiza podem hibridar, e a última foto mostra um dos vários híbridos que vimos neste passeio.


Dactylorhiza maculata, Gymnadenia conopsea e um híbrido das duas
Como sabemos que é um híbrido? Porque parece uma Dactylorhiza, pela pigmentação no labelo, o esporão curto e o arranjo denso das flores, mas estas têm as sépalas laterais largas, estendidas e quase horizontais, tal como as da Gymandenia, e rescendem a baunilha, sendo a Dactylorhiza praticamente inodora.