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13/03/2018

Goivo cantábrico


Matthiola perennis Conti


As línguas vernáculas, por serem incapazes de abarcar a riqueza do mundo natural, chamam pelo mesmo nome coisas que são marcadamente diferentes. Essa simplificação é também um empobrecimento: sob a imprecisa designação de "mosca" ou "malmequer" escondem-se diversíssimos insectos e flores que se calhar mereciam o benefício da nossa curiosidade. Em menor escala, passa-se o mesmo com "goivo", nome que pode ser dado a umas tantas crucíferas de flores vistosas dos géneros Erysimum, Matthiola ou Malcolmia. O goivo mais famoso, Erysimum cheiri, é de origem hortícola e teve grande voga (mesmo em Portugal) no tempo em que havia flores nos jardins. Em quase todo o nosso litoral aparece o goivo-das-areias ou goiveiro-da-praia (Malcolmia littorea), que floresce alegremente de Janeiro a Dezembro. Os goivos mais felpudos, como aquele que está hoje no escaparate, pertencem ao género Matthiola, que inclui plantas bem nossas conhecidas: a Matthiola sinuata, a que com justiça chamaríamos também goivo-da-praia; a Matthiola maderensis ou goivo-da-rocha, vistoso endemismo do arquipélago da Madeira; e a Matthiola incana, um goivo de jardim com cultivares de muitas cores que está naturalizado em várias ilhas açorianas.

A Matthiola perennis, planta cespitosa com hastes até 30 cm de altura, é um endemismo da cordilheira cantábrica que vive em rochas calcárias e floresce entre Maio e Agosto. As pétalas cor-de-rosa, compridas e retorcidas fazem lembrar as da Matthiola fruticulosa que conhecemos do Douro internacional e de outros raros lugares em Trás-os-Montes. Mas há diferenças entre as duas que se detectam a olho nu: a Matthiola perennis tem hastes simples e desprovidas de folhas; a Matthiola fruticulosa tem-nas ramificadas e com folhas, dando à planta o aspecto de um mini-arbusto (é esse o significado do epíteto fruticulosa). Há ainda diferenças menos óbvias nas folhas, nos frutos e até no tamanho das sementes, com as da Matthiola perennis a terem o dobro do comprimento e da largura.

07/02/2018

Erva de quebrar castelos



Petrocoptis pyrenaica subsp. glaucifolia (Lag.) P. Monts. & Fern. Casas


Arrumaríamos esta planta na prateleira do género Silene, como fez Mariano Lagasca que, em 1805, a designou Silene glaucifolia, se tivéssemos acesso apenas a fotos, sem poder notar como a planta é bastante mais pequena do que as silenes que conhecemos (não vai além dos 30 cm de altura) e como são igualmente diminutas as folhas glaucas e as flores, ainda que estas se reúnam em cimeiras muito vistosas. Se atendêssemos ao significado do nome do género onde ela se acolheu em 1988, por proposta de Pedro Montserrat e Fernández Casas, a estranheza não seria menor. É que Petrocoptis significa, em grego, o mesmo que Saxifraga em latim, resultando da junção de pedra (petro, saxi) e fissura (coptis, fraga). Mas a taxonomia não dá licença para estas traduções, e é certo que a planta das fotos, ainda que muito distinta das saxífragas, aprecia como estas as fendas de rochas, que preenche dando a impressão de ter sido capaz de abrir caminho na pedra. Apesar do aspecto frágil, é perene, com as plantas mais antigas formando uma base lenhosa. Gosta de penumbra e de substrato calcário seco, e a floração resiste até meio do Verão.

A espécie P. pyrenaica admite três variantes que foram promovidas a subespécies, distinguindo-se a P. pyrenaica subsp. glaucifolia, que é endémica da cordilheira cantábrica, das outras duas por não ter uma roseta basal de folhas. A distribuição em altitude é outro pormenor curioso desta subespécie. Há registos da presença dela entre 0 e 2000 metros de altitude, afirmando a Flora Ibérica que, em geral, as pétalas nos exemplares que ocorrem em regiões mais altas são esbranquiçadas, sendo cor-de-rosa ou mesmo púrpura nas mais baixas. O nosso passeio nas Astúrias para observar estas plantas fez-se entre os 600 metros (pela estrada muito arborizada que circunda a barragem de La Malva) e os 900 metros da Senda del Oso. Uns 80 km a sul, já na província de Léon, um desvio no percurso de regresso levou-nos ao castelo de Cornatel, em cujas muralhas vive uma outra versão da planta, a P. pyrenaica subsp. viscosa.


Castelo de Cornatel & Petrocoptis pyrenaica subsp. viscosa (Rothm.) P. Monts. & Fern. Casas

02/01/2018

Na senda do urso



"Trilho do urso" seria a tradução correcta de "senda del oso". Como fazem todos aqueles com uma relação difícil com línguas estrangeiras, fiamo-nos nos falsos amigos e optamos pela tradução fonética. Dizendo que estivemos "na senda do urso", damo-nos ares de intrépidos exploradores da vida selvagem, sugerindo que andámos deliberadamente no rasto do bicho.

Na verdade não foi bem assim. A "senda del oso", nas Astúrias, é um percurso ciclável, recomendado para toda a família (humana, não ursina), que decorre em grande parte numa antiga linha férrea mineira. Tal como quem visita as Terras do Lince não espera dar de caras com o felino, pois ele já lá não está e se estivesse não era para se mostrar, também quem percorre o "trilho do urso" sabe que, havendo embora ursos nas Astúrias, eles preferem trilhos mais recatados, longe da nossa vista. É pois esse o percurso ideal para quem, visitando as Astúrias, queira ter a garantia de que para ele os ursos continuarão a ser apenas aquelas criaturas fofas dos programas de David Attenborough.

Se não foi para ver ursos, ou se foi até, usando de maior franqueza, para não ver ursos, que temos nós para contar ao internauta apaixonado pela natureza à distância de um clique? Ouvimos um restolhar na folhagem que bem poderia ser um esquilo, mas deve ter trepado ligeiro por alguma árvore (uma faia, pois só havia faias) e não chegámos a vê-lo. As faias e as plantas em geral não são esquivas como os animais, nem enganadoras como as paisagens (que nos puxam adiante mas nunca conseguimos alcançar, como a linha do horizonte ou o lado de lá do arco-íris.) Falemos então de uma das plantas que vimos nos mil metros da "senda del oso" que percorremos desde o desfiladeiro de Teverga.

Phyteuma spicatum L.



Aquando de uma anterior visita ao norte de Espanha, apresentámos aqui uma espécie de Phyteuma, género da família das campânulas que tem zero representantes na flora portuguesa, cinco na peninsular e mais de vinte na europeia. As flores, agrupadas em espigas ou capítulos, têm uma forma muito característica, com as pétalas soldadas na ponta formando um tubo alongado; quando ainda fechadas, fazem lembrar um cacho de bananas. Phyteuma hemisphaericum, que vimos antes, é uma planta alpina, de estatura baixa e folhas lineares, que espera pelo degelo para surgir em fissuras de rochas e em prados. Phyteuma spicatum, por contraste, é uma planta alta (até 1 m de altura), com folhas basais largas, que vive a altitudes moderadas na orla de bosques caducifólios húmidos. Tanto no trilho do urso como nos vários pontos na berma da estrada onde depois a encontrámos, só a vimos de flores azuis, mas ela também dá flores brancas, que aliás são preponderantes nas populações extra-peninsulares. É estimada como ornamental, e são poucos os países da Europa onde ela não ocorre: Portugal, Irlanda, Grécia e (só para confundir o retrato) Bélgica.

19/12/2017

A prímula mais alta


Primula elatior (L.) Hill


As convulsões que têm afligido Espanha, ameaçando a sua integridade, são o resultado inevitável das más partilhas feitas pelos primeiros reis ibéricos. Na senda da deriva independentista da Catalunha, veio há semanas a público uma proposta do parlamento andaluz de se criar uma Grande Andaluzia, agregando-se à província com esse nome os demais «países andaluzes»: Múrcia, Algarve e Alentejo. Portugal não deve ficar mudo e quedo face a estas pulsões expansionistas que ameaçam reduzi-lo e retalhá-lo. Sim, deve afirmar desde já a vontade firme de anexar a Andaluzia -- ou, em versão diplomática, a calorosa disposição de acolher a Andaluzia e as suas gentes, se elas enveradarem por uma trajectória secessionista face a Madrid. Mas não deve ficar por aqui. Que a Galiza não faça parte de Portugal é um erro crasso denunciado há muitos séculos por patriotas portugueses e galegos. Este é o momento de agir: Portugal cumpre o seu destino histórico e, ao mesmo tempo, remedeia a sua vergonhosa penúria em espécies do género Primula.

Os números são de uma triste eloquência: temos uma única espécie, Primula acaulis, quando, sem contar híbridos nem subespécies, em Espanha há oito, na Europa 33, e na China e Himalaias mais de 300. Unindo-nos à Galiza passaríamos a ter três. Sem ser bom, ajudaria a atenuar a injustiça. A mais alta das prímulas (é isso que garante, com algum exagero, o epíteto específico), Primula elatior, faria parte do enxoval, acompanhada pela Primula veris (se o seu latim anda tremido, saiba que aquele veris não significa que esta prímula seja mais verdadeira que as outras, mas sim que floresce na Primavera, como aliás fazem quase todas). Ficaríamos ainda privados desta jóia, mas ganharíamos alento para novas conquistas.

A P. elatior, que encontrámos nas Astúrias e na Cantábria, é mais frequente no norte de Espanha, ao longo dos Pirenéus e da cordilheira cantábrica; no resto da Península, só aparece na serra Nevada e, muito esporadicamente, em algumas serras do Sistema Central ibérico (Gredos e Guadarrama). As suas flores são pálidas como as da P. acaulis e surgem agrupadas na extremidade de hastes erectas como na P. veris; as suas folhas muito rugosas, reunidas em roseta basal, são também uma média entre as folhas das duas outras espécies. É natural que se levante a suspeita: será a P. elatior, não uma verdadeira espécie, mas um híbrido da P. verna com a P. acaulis? A resposta é negativa, pois o híbrido entre as duas ocorre naturalmente, acompanhado pelos seus progenitores, em grande parte da Europa; e, como podemos confirmar nesta página, não tem a cara da P. elatior, embora faça lembrar. As flores são mais pequenas, exibem manchas escuras na base das pétalas, e não estão todas viradas para o mesmo lado como sucede na P. elatior; além disso, os cálices são claramente diferentes (compare com a 3.ª foto acima) e as hastes florais mais curtas.

05/09/2017

Pensamentos roxos



Viola bubanii Timb.-Lagr.


Tal como o sedentarismo provoca a obesidade, também a domesticação fez inchar as violetas de forma doentia, a ponto de elas renegarem as origens e passarem a chamar-se amores-perfeitos. Houve um tempo em que essas flores, banalizadas em canteiros geométricos e arrumadinhos, eram o epítome do kitsch, do colorido extravagante, do gosto preguiçoso e padronizado. O que ofendia não era cada amor-perfeito em si (embora alguns exagerassem nas cores e no tamanho) mas o uso desregrado dessas flores e a ausência de quase tudo o resto. Porém essa fase, que durou décadas, pretence ao passado, e hoje em dia já compensa gastar tempo a admirar amores-perfeitos nos poucos locais onde ele resiste. Não passou a haver maior variedade de flores em espaços públicos, muito pelo contrário, mas agora o que se vê são petúnias. Petúnias de todas as cores e só petúnias, em jardins públicos, em floreiras à porta dos restaurantes, em rotundas pequenas e grandes, em tristes varandas suburbanas.

Os amores-perfeitos pertencem ao género Viola, e foram criados ao longo dos séculos XIX e XX, por hibridação e selecção, a partir de espécies como a Viola tricolor, Viola lutea e Viola altaica. O nome violeta, usado para designar as pequenas flores silvestres, pareceu aos horticultores insuficiente para abarcar as novas e avantajadas flores de jardim. Daí que cada língua tenha inventado para elas um termo novo mais ou menos evocativo: em português amores-perfeitos, em francês pensées, em castelhano pensamientos, em inglês pansies. Tirando o nome português, os outros têm a mesma raiz, e derivam todos do nome francês: "pansy" resulta da tentativa (falhada) dos ingleses de dizer "pensée", e até nestas coisas de flores foram os franceses, e não os espanhóis, que estiveram na raiz do pensamento.

O pensamento, na acepção castelhana do termo, deveria pois referir-se apenas às violetas cultivadas. No entanto, a crer no portal Anthos, há quem assim designe também as violetas silvestres. Ainda que seja educativo lembrar que essas velhas aristocratas descendem de floritas plebeias, é pena que se perca, na linguagem corrente, a diferenciação entre as duas linhagens. Mas esse é um problema dos espanhóis, não nosso.

Problema nosso é que esta violeta ou pensamiento de flores tão distintivas, de seu nome Viola bubanii, que acenando-nos numa berma de estrada nas Astúrias nos obrigou a uma paragem de emergência, também deveria existir em Portugal, no Parque de Montesinho, e nos últimos anos ninguém tem dado por ela. Será que apenas por cá esteve em visita efémera, na década de 1980, para que Carlos Aguiar pudesse então assinalá-la [PDF - ver pág. 133] como novidade para a flora portuguesa? Também em Espanha ela não é abundante, distribuindo-se muito esporadicamente pelas montanhas de Orense, Léon e cordilheira cantábrica, e atravessando com dificuldade a fronteira francesa.

Para uma violeta silvestre, a V. bubanii tem flores grandes, de 2 a 3 cm de diâmetro, que se apresentam com um ar muito vertical e empertigado, rematadas por um esporão cónico bem afiado. É uma planta perene, de solos ácidos, que vive em prados de montanha ou, a altitudes mais baixas, sob abrigo de matos em sítios com alguma humidade.

29/08/2017

Samba a duas cores

Muitas sociedades, embora lamentavelmente não todas, asseguram hoje a cada indivíduo o privilégio de poder ter, durante quase duas décadas, uma única obrigação: a de se instruir. Nesse longo período escolar não precisa de produzir nada, nem de pagar o que consome; basta que seja curioso, que adquira conhecimentos, que aprenda a usar o seu talento. Para contrariar alguma tentação familiar de fazer render os filhos em trabalho precoce que impeça a escolarização mínima, esta é obrigatória. O sucesso deste esforço colectivo da civilização depende, claro, da qualidade dos professores e alunos, e exige uma hierarquia criteriosa nos temas a ensinar. Há que começar pelo mais simples, conteúdo que é por vezes difícil de estabelecer e nem sempre consensual. Por exemplo, em matemática, pode iniciar-se com várias instâncias em que surgem números naturais e fracções, com a comparação de formas, com a detecção de simetrias. Pouco depois, espera-se que utilizem a linguagem e as operações da aritmética com alguma desenvoltura. Só mais tarde se lhes pede que treinem o pensamento geométrico, que entendam o que é uma demonstração matemática ou que apliquem o que sabem. Uma aprendizagem mínima deve garantir que os jovens prossigam a sua vida com autonomia e êxito; frequentemente, os contributos que daí surgem, em ciência ou noutros domínios, retribuem em excesso o investimento educativo feito pela comunidade.

Do mesmo modo, para muitos amadores de botânica, a atenção às plantas silvestres começa com um capítulo fácil: as orquídeas. São de uma família evolutivamente muito avançada, que exibe estratégias de disseminação fascinantes e fáceis de observar. Além disso, têm flores sofisticadas que se avistam sem dificuldade, entre Janeiro e Agosto, nos afloramentos calcários do país. Havendo tantas espécies de orquídeas no mundo (umas vinte mil espécies distribuídas por cerca de oitocentos géneros), quem quiser pode gastar nelas todo o seu interesse pela botânica. Outros haverá que virão a apreciar fetos e gramíneas com idêntica paixão. Nenhum deles, contudo, ficará indiferente a uma orquídea que vê pela primeira vez.


Dactylorhiza sambucina (L.) Soó


Na nossa visita à Cantábria e às Astúrias, em Maio, foram tantas as novidades florísticas de que ainda nem vos demos notícia que estas orquídeas, abundantes nos prados de montanha em Somiedo e parecidas com a Dactylorhiza insularis, têm estado à espera de vez. Há um pormenor curioso nesta espécie de Dactylorhiza que nunca tínhamos observado. Em populações grandes de orquídeas é frequente surgirem umas poucas plantas com flores hipocromáticas (brancas ou em tons muito mais claros do que o usual). Na espécie das fotos, a variação relativamente à norma (flores amarelas com o labelo pintalgado de vermelho) é feita por flores vermelhas cujo desabotoar se adianta ligeiramente em relação ao das flores amarelas. Tudo indica que a cor rubra, mais vistosa, ajuda a atrair os polinizadores para um manto de flores que, se fosse todo igualmente amarelo-esbranquiçado, talvez passasse despercebido. Como estas flores não oferecem nenhuma recompensa às abelhas, seja em néctar ou em agasalho, as flores de cores diferentes permitem também distrair os insectos do logro em que vão caindo ao visitá-las.

O epíteto sambucina remete para um arbusto que decerto o leitor conhece. Lineu, em 1755, descreveu esta orquídea a partir de exemplares da Suécia, e pareceu-lhe que a inflorescência recendia a sabugueiro (Sambucus nigra). Pena que, ao contrário da tabuada que aprendemos na escola primária, não tenhamos boa memória para cheiros, menos ainda para o do sabugueiro.

28/06/2017

Globos de ouro

As sépalas, quando existem, são a parte mais externa da flor, que a agasalha, protege dos predadores e até pode servir de pires para que o pólen não se desperdice. São componentes estéreis, que nascem antes dos outros orgãos da flor, num arranjo em que, sobrepondo-se, cobrem completamente o botão que se está a gerar. Como as pétalas, são folhas modificadas, e não são raras as que contêm espinhos, penugem irritante ou glândulas com produtos tóxicos para desencorajar quem queira estragar a flor em formação. Unidas, criam um cálice que torna mais robusta e estável a ponta da haste onde a flor aberta se apoia. Depois de as flores serem fecundadas, as sépalas costumam secar e cair; todavia, se necessário, endurecem e mantêm-se vigilantes, agora em defesa do fruto e das sementes. São em geral verdes como as folhas, mas tal como acontece com a nossa roupa, podem ficar maiores do que o resto da flor, ou até serem a parte da flor que tem a cor mais vistosa e, por isso, recebe a função adicional de atrair os polinizadores. É o que se passa, por exemplo, com as tulipas, os malmequeres-dos-brejos e as flores globosas, a lembrar tangerinas, que hoje vos mostramos.


Trollius europaeus L.


Têm cerca de 5 cm de diâmetro e são solitárias, nascendo entre Maio e Julho no topo de um talo erecto que pode chegar aos 70 cm. Na base, as folhas redondas mas muito divididas ajudam a identificar a família (Ranunculaceae) desta planta. Cada flor exibe uma dezena de sépalas amarelas que se curvam para esconder um feixe de outras tantas pétalas fininhas, sem graça mas com nectários apetitosos, e numerosos estames. Há decerto um momento em que estão ligeiramente abertas, mas não tivemos sorte em presenciá-lo; contudo, pode ver mais pormenores aqui, ou nesta ilustração da espécie T. chinensis. O nome do género, Trollius, que Lineu adoptou quando o descreveu em 1753, deriva da designação suíça trollblume (flor redonda) para esta planta.

Trata-se de uma herbácea perene de prados permanentemente húmidos e bosques frescos, margens de riachos e zonas turfosas de montanha. É venenosa para o gado que, meticulosamente, a ignora. Há populações magníficas de T. europaeus na Europa mais fria, mas na Pensínsula Ibérica só há registos dela na metade norte. Estes exemplares são da orla de um riacho em Somiedo, algures a caminho da reserva dos ursos pardos.

31/05/2017

Orquídea pálida

Os jornais anunciaram há dias a descoberta, em local longínquo do universo, de planetas talvez parecidos com a Terra, mas que têm órbitas muito mais demoradas em torno dos respectivos sóis. O movimento de translação desses planetas à volta das suas estrelas leva centenas de anos terrestres a completar-se. Se nos tivesse calhado uma dessas Terras, poderíamos viver toda a vida na Primavera. Claro que também haveria o risco de só conhecermos o Inverno; ou de termos de suportar o imortal cansaço de Verão. Imaginemos, porém, um cenário eternamente florido. Um regalo, sim, mas teríamos de abrir mão da alternância de estações e de paisagens, das migrações dos bandos de pássaros, do ritual de hibernação dos ursos, da luz do Outono, da folhagem nova dos carvalhos, do assombro num campo amarelo de narcisos, de muita arte e ciência. E também não existiriam as plantas que, no rigor do Inverno, se recolhem ao subsolo reduzidas a um bolbo -- uma cebolinha que, misteriosamente, guarda intacto o programa para gerar sem erro novas folhas e flores meses depois.

Felizmente, vivemos numa Terra caprichosa e apressada, onde inúmeras espécies se adaptaram às mudanças tornando-se perenes, embora dependentes do ninho onde se resguardam quando a neve e a penumbra lhes cobrem o torrão. Como esta orquídea de prados alpinos e bosques de montanha que vimos em Fontibre, na Cantábria, e reencontrámos em Somiedo, nas Astúrias, e que, ao primeiro olhar, quase confundimos com a Dactylorhiza sulphurea.


Orchis pallens L.


Desconfiámos da identificação pelo porte bem mais robusto (cerca de 50 cm de altura) da orquídea do norte de Espanha, pelas 4 a 6 folhas grandes, brilhantes e não maculadas, como as das Barlias, pela ausência de brácteas que entremeiam a inflorescência e por as flores terem o capuz pálido, quase branco. Na verdade, pertence até a outro género, Orchis, mas o engano é desculpável: descrita em 1771 por Lineu com o epíteto pallens, foi rebaptizada em 1825 por John Sims como Orchis sulphurea. Há, porém, outro equívoco, desta vez benéfico, associado a esta orquídea: apesar de não ter néctar para oferecer, é polinizada por abelhas que, atraídas pelo perfume e coloração das flores, julgam que estão a visitar outras plantas com floração semelhante e que são nectaríferas. O mais curioso é que o logro continua a funcionar mesmo quando as plantas que esta orquídea imita não estão presentes. Naturalmente, um tal estratagema exige astúcia e impõe alguns constrangimentos: a orquídea tem de conviver no mesmo habitat do modelo, com necessidades climáticas e ecológicas idênticas; precisa de começar a florir mais cedo para conseguir ludibriar mais polinizadores antes de eles encherem a barriga nas plantas com néctar; e tem de se manter em flor por um período mais longo para poder beneficiar de mais instâncias em que o logro resulte. O ardil é um achado pois, apesar de localmente a Orchis pallens ser rara, a sua distribuição inclui quase todas as grandes cordilheiras montanhosas da Europa.