11/08/2026
28/08/2018
Canarina
Apesar de persistir alguma controvérsia, os estudos geológicos parecem confirmar que algumas das ilhas Canárias se originaram em vulcões no Atlântico, não tendo sido nunca parte do continente africano. Mas Lanzarote e Fuerteventura, pelo menos, terão sido território do norte de África. Certo é que são todas ilhas muito antigas, onde se refugiaram espécies que foram frequentes há milhões de anos na região que hoje margina o mar Mediterrâneo ou no norte de África, e que actualmente só se encontram nos bosques de laurissilva dos arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias. Nestas ilhas, ficaram a salvo dos períodos glaciares e outras mudanças climáticas drásticas a norte, e da secura e aridez que se foi instalando a sul. Segundo David e Zoe Bramwell, autores da obra Flores Silvestres de las Islas Canarias, algumas das espécies endémicas destas ilhas têm actualmente os seus parentes mais próximos no sul de Espanha e em Portugal (entre eles contam-se Laurus nobilis, Prunus lusitanica e Convolvulus fernandesii) ou, não sendo endémicas, têm populações residuais na Península Ibérica (exemplos: Myrica faia e Woodwardia radicans); e outras endémicas insulares pouco diferem de espécies que ocorrem em florestas e montanhas africanas. Talvez a planta que agora vos mostramos seja uma dessas relíquias da flora que outrora verdejaram na região hoje ocupada pelo deserto do Sáara.
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Tal como acontece com a Azorina vidalii, espécie única do género Azorina e que só ocorre nos Açores, e do género Musschia, que existe somente na Madeira e Desertas e de que há registo de três espécies, também as ilhas Canárias têm a sua quota de campanuláceas endémicas. A Canarina canariensis é uma trepadeira glabra da floresta laurissilva, relativamente comum nos bosques frescos (mas raramente frios), húmidos e quase sempre enublados das partes altas destas ilhas. As flores, raiadas de vermelho e polinizadas por pássaros, têm cerca de 7 cm de comprimento. Os parentes em África apresentam semelhanças notórias: veja, por exemplo, aqui imagens da Canarina eminii, que se distingue essencialmente pela cor das flores da também africana Canarina abyssinica.
Como se tivesse memória dessa conexão africana, a C. canariensis floresce entre Novembro e Janeiro, enquanto na África meridional é Primavera ou se inicia o Verão. Hiberna entre Maio e Setembro, sobrevivendo das reservas de nutrientes que guardou em vigorosos tubérculos nas raízes, lançando anualmente um novo talo que pode atingir os 3 metros. O fruto é uma baga carnuda, escura quando madura, que é comestível e, asseguram, doce.
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Maria Carvalho
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11/07/2018
Altas campainhas


Campânula é um nome de origem latina para um sino (campa) pequeno, a que alude a designação das herbáceas do género Campanula, tendo elas flores com pétalas mais ou menos reviradas e unidas pela base em tubo, o que dá à corola a forma de uma... campânula. As flores da C. herminii, endemismo ibérico de que por cá só há registos na serra da Estrela, são talvez a versão campaniforme mais perfeita. O nome vernáculo destas plantas, de flores roxas, cor-de-rosa ou brancas, adopta para algumas espécies o diminutivo campa + inha, ou sininho, ainda que tal denominação também se use, sob risco de confusão, para outros géneros. Na obra De historia stirpium commentarii insignes (1542), o botânico alemão Leonhart Fuchs terá registado oficialmente, talvez pela primeira vez, o termo campanula para designar precisamente uma planta (que Fuchs desenha com muito rigor, algo inusitado para a época) das que Lineu, em 1753, viria a incluir no género a que chamou Campanula.
Mas por que razão a forma destas flores se designa campânula? O dicionário Houaiss não arrisca mais do que uma menção à palavra latina campaña, explicando que era usada nos anos 560-600 para designar uma balança romana; algum tempo depois este vocábulo já soava a campanula, e ainda no século VI passou a designar também um sino (com ou sem badalo). A utilização em botânica, segundo Houaiss, data do século VIII. Voltemos, porém, à Flora Ibérica, que oferece uma explicação mais detalhada: um vaso Campana seria um tipo de recipiente em forma de cone invertido e oco, feito em bronze de grande qualidade na região (italiana, supomos) de Campania.
Curiosamente, o termo sino (do latim signum), referindo-se aos instrumentos em geral feitos em bronze que davam o sinal da hora de oração, de escalas de serviço a bordo de navios, de fecho de tabernas e de recolha a casa, apropriou-se no século passado do papel atribuído à palavra campânula para designar uma certa forma. Referimo-nos à moda das calças boca-de-sino, ponto alto do vestuário dos anos 70 e ícone do estilo «hippie». Deveriam afinal ter-se chamado calças boca-de-campânula.
A campânula hoje na montra é uma versão alta da C. lusitanica, de flores tão patentes e vistosas que Lineu lhe chamou patula.
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Maria Carvalho
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02/01/2018
Na senda do urso

"Trilho do urso" seria a tradução correcta de "senda del oso". Como fazem todos aqueles com uma relação difícil com línguas estrangeiras, fiamo-nos nos falsos amigos e optamos pela tradução fonética. Dizendo que estivemos "na senda do urso", damo-nos ares de intrépidos exploradores da vida selvagem, sugerindo que andámos deliberadamente no rasto do bicho.
Na verdade não foi bem assim. A "senda del oso", nas Astúrias, é um percurso ciclável, recomendado para toda a família (humana, não ursina), que decorre em grande parte numa antiga linha férrea mineira. Tal como quem visita as Terras do Lince não espera dar de caras com o felino, pois ele já lá não está e se estivesse não era para se mostrar, também quem percorre o "trilho do urso" sabe que, havendo embora ursos nas Astúrias, eles preferem trilhos mais recatados, longe da nossa vista. É pois esse o percurso ideal para quem, visitando as Astúrias, queira ter a garantia de que para ele os ursos continuarão a ser apenas aquelas criaturas fofas dos programas de David Attenborough.
Se não foi para ver ursos, ou se foi até, usando de maior franqueza, para não ver ursos, que temos nós para contar ao internauta apaixonado pela natureza à distância de um clique? Ouvimos um restolhar na folhagem que bem poderia ser um esquilo, mas deve ter trepado ligeiro por alguma árvore (uma faia, pois só havia faias) e não chegámos a vê-lo. As faias e as plantas em geral não são esquivas como os animais, nem enganadoras como as paisagens (que nos puxam adiante mas nunca conseguimos alcançar, como a linha do horizonte ou o lado de lá do arco-íris.) Falemos então de uma das plantas que vimos nos mil metros da "senda del oso" que percorremos desde o desfiladeiro de Teverga.
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Aquando de uma anterior visita ao norte de Espanha, apresentámos aqui uma espécie de Phyteuma, género da família das campânulas que tem zero representantes na flora portuguesa, cinco na peninsular e mais de vinte na europeia. As flores, agrupadas em espigas ou capítulos, têm uma forma muito característica, com as pétalas soldadas na ponta formando um tubo alongado; quando ainda fechadas, fazem lembrar um cacho de bananas. Phyteuma hemisphaericum, que vimos antes, é uma planta alpina, de estatura baixa e folhas lineares, que espera pelo degelo para surgir em fissuras de rochas e em prados. Phyteuma spicatum, por contraste, é uma planta alta (até 1 m de altura), com folhas basais largas, que vive a altitudes moderadas na orla de bosques caducifólios húmidos. Tanto no trilho do urso como nos vários pontos na berma da estrada onde depois a encontrámos, só a vimos de flores azuis, mas ela também dá flores brancas, que aliás são preponderantes nas populações extra-peninsulares. É estimada como ornamental, e são poucos os países da Europa onde ela não ocorre: Portugal, Irlanda, Grécia e (só para confundir o retrato) Bélgica.
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Paulo Araújo
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24/01/2017
Sinos dourados
Lembra-se, caro leitor, da Azorina vidalii, espécie única de um género da família Campanulaceae que é endémico dos Açores? Pois bem, o arquipélago da Madeira também tem a sua quota de campânulas endémicas: o género Musschia, nome dedicado ao botânico Jean Henri Mussche (1765-1834), só existe na Madeira e Desertas, e dele há registo de três espécies.




As plantas da espécie Musschia aurea, fáceis de avistar em fissuras de rocha de algumas falésias do litoral sul madeirense, são herbáceas perenes de uns 50 cm de altura, com rosetas de folhas luzidias e flores amarelas dispostas em panícula piramidal. Estranha-se que sejam parentes das frágeis campânulas e lobélias mas, descontando o exagero no tamanho, notamos semelhanças entre todas elas. Repare-se, por exemplo, nas folhas bi-serradas mais estreitas na base, no cálice de sépalas longas, nas pétalas reviradas para fora, nos estigmas unidos ao centro. Não esperávamos vê-las em flor (ao contrário dos muitos pés de Gennaria diphylla a bordejar as levadas), mas na Ponta do Garajau, em rochas e muros mais sombrios, havia ainda alguns exemplares viçosos.

As plantas da espécie Musschia wollastonii são arbustivas, com caule lenhoso que pode atingir os dois metros de altura. Moram no interior extremamente húmido da ilha da Madeira, sob o ruído constante da água a correr e à sombra das magníficas árvores da laurissilva. Para as encontrar neste cenário especial, munidos de lanterna de mineiro, botas anti-derrapantes e bordão, atravessámos um túnel estreito, de uns 600 metros de comprimento, que acompanha parte da levada do Folhadal. As folhas são grandes e penugentas, estreitando na base, e formam um saiote engraçado porque a roseta basal se vai elevando à medida que o talo cresce. As flores, da Primavera e Verão, têm corola avermelhada e agrupam-se em panículas piramidais de cerca de um metro de altura. É uma espécie monocárpica: cada planta só floresce uma vez na vida, morrendo depois de lançar o seu fogo de artifício. Na lista vermelha da IUCN, a M. wollastonii está na categoria das espécies em risco pelas inúmeras ameaças ao seu habitat.



Em 2007, foi descrita uma outra espécie também monocárpica, Musschia isambertoi, cujo epíteto homenageia o vigilante da natureza Isamberto Silva, seu primeiro descobridor, que se distinguiu na colaboração com várias gerações de botânicos na Madeira. Dela conhecem-se apenas duas populações na Deserta Grande. Diferencia-se das anteriores essencialmente pela corola verde das flores, pela inflorescência só dividida no topo da haste floral, e pelo formato e indumento das folhas. R. Lowe, que certamente visitou as Desertas pois descreve a flora destas pequenas ilhas na obra A manual flora of Madeira and the adjacent islands of Porto Santo and the Desertas (1868), não a terá visto porque, no século XIX, o excesso de cabras e coelhos terá reduzido drasticamente o contingente desta e de outras espécies. As mesmas que agora, sendo as Desertas uma reserva natural e estando as visitas controladas ou mesmo proibidas, recuperam aliviadas de um tal excesso de predadores.
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10/09/2016
Lobelinha
Para escolher o nome de uma criança, muitos pais sofrem noites de insónia a listar nomes, a dizê-los repetidamente em voz alta para se habituarem à sonoridade, a testar a harmonia com os apelidos, a inventar diminutivos, a combinar floreios. A escolha é tão variada que lhes custa decidir, e não é assim tão raro que afinal depois se arrependam do nome que escolheram, chegando alguns a oficializar a troca. Descoberta uma nova planta, se ela é muito parecida com as de algum género já nomeado, então metade do binómio que a virá a designar está determinado. Se o mesmo se aplicasse às pessoas, os membros de cada família teriam um mesmo nome inicial desde o primeiro par de progenitores. Nas plantas, resta então ao botânico atribuir um epíteto que distinga cada espécie das outras do mesmo género. O problema deste procedimento está no modo mais ou menos rigoroso de se atestar que uma planta se parece muito com outra sem o rigor que hoje os testes genéticos conferem. Vejamos um exemplo.





A planta pequenina das fotos, de flores azuladas que se inclinam para o solo para aí depositar as sementes em segurança, parece uma lobélia pela configuração da corola bilabiada, o cálice dentado, a haste floral alta, o leve recorte das margens das folhas e o arranjo basal da folhagem. E houve quem, no século XVIII e XIX, a colocasse no género Lobelia, a começar por Lineu, que, em 1753, a designou por Lobelia laurentia. Contudo, as flores das lobélias não são solitárias; além disso, ensina a Flora Ibérica, têm a corola tubular fendida na parte dorsal, coisa que esta não tem. Razões suficientes para o botânico checo Carl Borivoj Presl (1794-1852) propor uma mudança de nome: em 1836 passou a ser uma espécie de Solenopsis, termo que deriva do grego solen, tubo, e opsis, aspecto, aludindo ao formato tubular das corolas. As espécies deste género têm uma distribuição restrita à região mediterrânica, Península Ibérica e ilhas Baleares (que possuem um endemismo, a perene Solenopsis balearica). Presl parece ter hesitado na escolha do epíteto específico, indeciso entre gracilis, minuta, salzmanniana ou canariensis. Tendo em conta a precedência de Lineu, pôs um ponto final no assunto ao optar por laurentia.
Esta é uma planta anual relativamente rara na Península Ibérica, estando em alguns locais à beira da extinção, mas de que há um número animador de registos no centro e sul de Portugal continental. Tardámos a vê-la porque não a procurámos no habitat de que ela realmente gosta (margens húmidas de linhas de água, charcos e barragens, sujeitas a encharcamento temporário) e por ser de porte tão diminuto, fácil de se esconder no meio de outras herbáceas. Vimo-la no início do Verão nas margens de uma grande represa no Ribatejo, um lugar tão rico em biodiversidade (mas só de plantas minúsculas) que circulamos sempre por ele em bicos de pés. Dias depois, ao visitar um terreno de solo margoso perto de Cantanhede (onde mora uma população notável de Leuzea longifolia) revimo-la a forrar sulcos mais ou menos encharcados onde antes tinham aparecido bons contingentes de Cicendia filiformis.
Ao contrário dos do Ribatejo, quase todos os exemplares de Cantanhede exibiam flores brancas que, como as azuis, têm dois lóbulos superiores erectos como orelhas, e três inferiores ligeiramente dobrados para trás, lembrando dentinhos de coelho. Notam-se também umas pintas brilhantes na parte interna do tubo, mais densas na vizinhança dos estames, no que parece um enfeite mas deve ser um alerta, tal como se julga acontecer nas gencianas.
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06/07/2016
As máscaras de Lobélia



Não é surpresa, dada a proximidade destas ilhas do continente africano, que parte da flora do arquipélago da Madeira tenha essa origem. Mas a nós, habituados a uma única espécie de Wahlenbergia (a delicada e pequenina W. hederacea, de talos filiformes, que aprecia solos húmidos, turfosos e sombra, e é nativa do oeste da Europa), causa alguma estranheza encontrar em fendas de rochas expostas ao sol, ou em terreno arenoso e árido, outra espécie de Wahlenbergia que até se parece com uma Lobelia (género de que também só temos uma espécie nativa).
É verdade que as flores são parecidas, ambas campanuladas, solitárias e com pedicelos longos, embora numa das espécies as corolas sejam sempre de cor azul-pálido e na outra costumem ser brancas ou de cor lilás. E deve ser esta parecença que de imediato coloca a planta das fotos no género Wahlenbergia. Mas prestemos também atenção às diferenças. A W. hederacea é uma herbácea (perene) glabra, de folhas frágeis cordadas na base, palmadas e pediceladas, que forma tapetes cerrados quando o habitat lhe é favorável. A W. lobelioides, pelo contrário, tem uns pelitos nos caules e porte erecto, com as hastes florais pendentes; as folhas são coriáceas e sésseis, e não vimos mais do que meia dúzia de plantas juntas.
Desta espécie há registo de três subspécies: a W. lobelioides subesp. lobelioides, endémica da Macaronésia, que é planta anual, ocorre na ilha da Madeira, Porto Santo, Selvagens, Canárias e Cabo Verde, e que fotografámos em vários picos do Porto Santo; a W. lobelioides subesp. riparia, da região ocidental da África tropical; e a W. lobelioides subsp. nutabunda, do noroeste de África, região mediterrânica e sudeste de Espanha (estas duas últimas mais hirsutas do que a subespécie madeirense).
E afinal qual é o papel nesta descrição das lobélias? Reconhecemos facilmente as plantas do género Lobelia pelas flores zigomorfas, com dois lóbulos da corola a formar umas orelhas, bem separados dos outros três. Ora, este detalhe morfológico não surge nas flores da Whalenbergia lobelioides, e por isso é legítimo concluir que o epíteto lobelioides não se refere à semelhança das flores. Atentemos então para as folhas, o cálice das flores e o porte. Não há dúvida, pois não? Há que reconhecer que, nestes aspectos, a afinidade entre a planta de Porto Santo e a Lobelia urens é notória. Claro que à análise do especialista não terão escapado outros pormenores, mas nós já nos damos por satisfeitos com esta justificação para o nome desta campanulácea.
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24/11/2015
Azul tlim-tlim



Olhamos para esta campânula azul-lilás, de que vimos inúmeros exemplares em Tres Mares, na Cantábria, e não temos dúvidas: é a nossa campânula da serra da Estrela, a C. herminii. É certo que a das fotos é um pouco mais baixa, de folhas mais largas, algumas até cordiformes (como as da 3ª foto), e com mais flores num mesmo pé. E, concordamos, também se nota que, enquanto que os sinos da C. herminii são levantados, a mostrar bem o badalo, os das fotos, embora maiores, são pendentes. Pormenores, pensámos, que para o aspecto geral pouco contam e a que a ciência terá, como nós, encolhido os ombros. Pois sim. Hoje até já se sabe que estas duas campânulas tão iguais se distinguem no número de cromossomas, razão maior para a sua individualização como espécies. E, se tivéssemos esperado uns dias, confirmaríamos que, ao contrário do que acontece com a C. herminii, cuja folhagem persiste mesmo depois de as flores desabrocharem e serem polinizadas, na das fotos as folhas caem depois da antese.
Seja, suspiramos. Ganha-se assim um endemismo ibérico neste género, que se pode ver facilmente durante o Verão nos cervunais e prados da serra da Estrela (e também ocorre em Trás-os-Montes, a acreditar na Flora Ibérica e na obra de Amaral Franco, mas não sabemos onde). A distribuição da C. scheuchzeri é mais vasta, estende-se às montanhas do sul da Europa, e tanto ocorre em prados de montanha como em fendas de rocha ensolaradas.
Guardemos algumas linhas para lembrar o paleontólogo e naturalista suíço Jakob Scheuchzer (1672-1733), que Lineu homenageou com a designação desta campânula. A sua obra reúne informação sobre a flora alpina, achados fósseis e outros indícios de uma história natural e geológica da região suíça dos Alpes, que nem Scheuchzer nem os contemporâneos entendiam completamente. Os textos aludem a grandes eventos bíblicos, de que Scheuchzer se socorre para explicar o que via, embora sem o fanatismo de outros tempos (passados e futuros). À época, foram muito apreciados os seus relatos de viagens e as suas impressões sobre a biodiversidade das montanhas, lagos e glaciares da Suíça, rendendo-lhe grande prestígio na academia. Do seu nome derivam os de duas montanhas suíças e os de várias espécies de plantas.
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Etiquetas: Campanulaceae , Cantábria
20/10/2015
Uma flor para Rapunzel



Gostamos de tecer à volta das plantas histórias que dêm testemunho da sua convivência com os homens. Podem ser lendas, contos de fadas ou tradições de origem incerta, mas o importante é sentirmos que, muito antes de nós, outras vidas se cruzaram com essas plantas e foram influenciadas por elas. Às vezes, porém, esta vontade de humanizar as plantas, sobretudo as que não têm uma utilidade óbvia, esbarra em incertezas inultrapassáveis. Os nomes populares das plantas são, em regra, caóticos: dependendo da região em que é usado, o mesmo nome pode designar plantas muito diferentes (veja-se a persistente confusão entre o Rhododendron ponticum e o Nerium oleander, ambos conhecidos como loendros); além disso, a mesma planta pode ter diversíssimos nomes. Há ainda os nomes que são esquecidos à medida que o conhecimento tradicional das plantas se vai perdendo, e outros que subsistem vagamente sem que se saiba ao certo que plantas teriam sido por eles designadas. Por exemplo, dizem certas fontes que o topónimo "Carregal" resultaria de "carrega", que seria uma gramínea própria de lugares alagadiços, mas hoje em dia não parece haver em Portugal nenhuma planta que seja conhecida por esse nome.
Contam os irmãos Grimm que Rapunzel, a rapariga de longos cabelos aprisionada numa torre, devia o nome à planta que a sua mãe comeu avidamente quando estava grávida, e pela qual pagou o preço de entregar a filha à bruxa logo após o nascimento. Rapunzel seria o nome dado localmente a alguma variedade de Phyteuma, mas é improvável que se tratasse da planta alpina que hoje apresentamos, pois ela, pela sua pequenez e estreiteza de folhas, pouco teria que se comesse. Na verdade, é até plausível que a planta que saciou a fome à mãe de Rapunzel não fosse uma Phyteuma, mas sim uma outra campanulácea, a Campanula rapunculus, planta comprovadamente comestível usada em tempos como substituta do rabanete.
Uma recolha de contos tradicionais não é um tratado de botânica (nem sequer de etnobotânica), e não devemos censurar os irmãos Grimm pela falta de notas de rodapé que resolvessem semelhantes dilemas. Poderiam tê-lo feito, pois viveram depois de Lineu, quando as plantas europeias mais comuns dispunham já de nomes científicos de aceitação universal. Os dois nomes em jogo neste caso (Campanula e Phyteuma) até são da lavra de Lineu, ou pelo menos foram por ele legalizados, já que "Campanula" foi antes usado por Tournefort (1656–1708). Quanto a "Phyteuma", Lineu parece ter sido o primeiro a usá-lo para estas plantas, muito diferentes daquelas (do género Reseda) que tinham o mesmo nome na antiga Grécia. Nem sempre as escolhas taxonómicas de Lineu obedeceram a uma lógica inatacável.
Dispersa por prados e fissuras de rochas nas mais altas montanhas da Europa ocidental, desde os Alpes aos Pirenéus e à Cantábria, esta herbácea de uns 10 a 20 cm de altura só floresce no Verão. É uma das cinco espécies do género Phyteuma na Península Ibérica, todas elas (tanto quanto se sabe) ausentes do nosso país. A inflorescência globosa, reunindo uma dúzia de pequenas flores, é típica do género: cada flor é tubular e as pétalas começam a descolar por baixo, deixando entrever os estames; o estilete, rematado por três estigmas, fica a sobressair do "tubo" (penúltima foto). Enquanto estão fechadas, as flores assemelham-se a um molho de garras afiadas, mas depois as inflorescências assumem um aspecto desgrenhado, como se fossem taças de esparguete azul.
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Paulo Araújo
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20.10.15
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03/10/2015
Visgo, vidálias & painhos


É que a ilha Graciosa tem ao largo dois ilhéus, o Ilhéu de Baixo e o Ilhéu da Praia, onde decorrem, há mais de vinte anos, programas de conservação da flora e da fauna com um sucesso invejável. E foi precisamente no ilhéu da Praia que, com permissão de quem cuida do Parque Natural da Graciosa e guiados por dois zelosos vigilantes da natureza, reencontrámos algumas boas populações da flora endémica açoriana e uma ave extraordinária.


Durante décadas, o ilhéu da Praia serviu como parque de merendas para as tardes de domingo dos moradores da Graciosa. Tornou-se um torrão ressequido, quase sem vegetação. Quando começou o programa de reintrodução de plantas e de conservação das aves que nidificam ou poisam no ilhéu, o acesso ao ilhéu foi condicionado e hoje nota-se o resultado dessa redução da pressão humana. A população de Azorina vidalii no ilhéu é surpreendente (ela que se recusa a germinar nos calhaus das praias da Graciosa) e a de Tolpis succulenta é um regalo para quem sabe como ela é rara nos Açores (com excepção da ilha de Santa Maria). E o esforço com que cuidaram da ave marinha Oceanodroma monteiroi, aumentando significativamente os seus efectivos, é digno não apenas da honra e glória de uma medalha da Unesco mas merecedor de um apoio financeiro consistente, que garanta que o empenho nestas medidas de preservação não esmorece.

Falta registar que a nossa visita à Graciosa no início de Agosto coincidiu em parte com uma festa religiosa de renome que duplicou o número de visitantes na ilha e esgotou a produção das deliciosas queijadas locais. Fica o leitor avisado.
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Maria Carvalho
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3.10.15
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