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18/10/2020

As brinças do rio Boco

Peucedanum officinale L.


Em Portugal, país que desconhece a sua flora, os nomes vernáculos das plantas silvestres são, em grande parte, uma fantasia incoerente. Há plantas vulgaríssimas e distintivas que nunca o povo se dispôs a baptizar — por exemplo, no norte do país, a Silene acutifolia e o Omphalodes nitida —, e outras praticamente inexistentes que têm uma profusão de (alegados) nomes comuns. O Peucedanum officinale, que só aparece com alguma regularidade nas margens quase inacessíveis do Douro internacional, e no resto do país só foi detectado em meia dúzia de lugares, recebeu nada menos que três nomes: brinça, ervatão-porcino e funcho-de-porco. O primeiro deles terá raiz latina; os outros são traduções mal amanhadas do inglês hog's fennel. São nomes que garantidamente nunca andaram nas bocas de um povo que nunca viu a planta; ou que, se a viu e lhe concedeu um minuto de atenção, certamente achou que se tratava de um funcho.

Se fosse vulgar no nosso país, a brinça (chamemos-lhe assim) bem merecia ser conhecida. Por essa Europa fora, nas épocas em que não havia farmácias nem receitas comparticipadas, funcionava como remédio barato e polivalente ao alcance de ricos e pobres. A lista das qualidades medicinais que lhe eram reconhecidas é extensa: o látex extraído do rizoma da planta seria anódino, anti-espasmódico, sudorífero, diaforético, diurético e peitoral (fonte) — quase uma farmácia completa.

A brinça é uma umbelífera alta, com mais de dois metros de altura, com folhas muito divididas bem diferentes das do funcho, dotadas de segmentos terminais compridos, hirtos e estreitos. Como grande parte das plantas da família a que pertence, floresce no Verão. As flores são amarelas como as do funcho, mas as umbelas são mais amplas, com maior número de raios.

A população que encontrámos, composta talvez por uma centena de plantas, mora em Cantanhede, num prado seco rodeado por eucaliptais em expansão. Ao fundo, uma linha de água sublinhada por salgueiros marca a fronteira entre os concelhos de Cantanhede e Vagos. Ainda que nos tenha parecido insignificante, essa linha de água alarga-se o suficiente para, uns quilómetros adiante, ser chamada de rio. É o rio Boco, que desagua em Vagos num dos braços da ria de Aveiro, um rio que vem de perto e vai para perto.

08/04/2019

Histórias da Lista Vermelha: Succisella carvalhoana



Succisella carvalhoana (Mariz) Baksay



Uma Lista Vermelha de espécies, sejam elas animais ou vegetais, indica aquilo que, por estar em risco de desaparecer num certo território, é merecedor de protecção. Idealmente, tal protecção passaria por medidas activas de conservação: recuperação de habitats, reforços populacionais, minimização de ameaças. Em Portugal, onde ao descaso pela natureza se junta a falta de dinheiro, é de recear que essa protecção se fique apenas, na generalidade dos casos, pela recomendação de não se destruir. O que, valha a verdade, já não seria mau. Se algum dia uma barragem no nosso país deixar de ser construída para não se afogarem plantas ameaçadas, então já terá valido a pena elaborar a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental (LFV), projecto agora em curso que estará concluído no próximo mês de Junho.

Portugal será então o último país europeu (pelo menos o último da União Europeia) a dispor de uma Lista Vermelha da Flora. Durante os anos de construção desenfreada de auto-estradas, barragens e parques eólicos, as únicas espécies vegetais com algum grau de protecção eram as que constavam dos anexos da Directiva Habitats, datada de 1992 mas com vários aditamentos posteriores. Muitos botânicos se queixaram do desfasamento entre essa directiva europeia e o verdadeiro grau de ameaça das espécies presentes em território português: embora algumas espécies indiscutivelmente raras fossem protegidas, a grande maioria delas ficou de fora; e várias das espécies listadas na Directiva não justificam qualquer protecção especial (um exemplo óbvio é a gilbardeira).

Uma das plantas esquecidas pela Directiva Habitats é a Succisella carvalhoana. Atendendo ao habitat paludoso e à semelhança com as plantas do género Scabiosa, a cuja família aliás pertence, não será desajustado chamar-lhe escabiosa-dos-pauis. As diferenças mais marcantes para as verdadeiras escabiosas estão nas flores de quatro pétalas (em vez de cinco) e nos frutos (compare as fotos acima com esta). No âmbito da LFV, a escabiosa-dos-pauis, como todas as mais de 600 plantas-alvo do projecto, foi avaliada à luz dos critérios da UICN, e ficará com o estatuto de "Em Perigo".

Descrita em 1890 por Joaquim Mariz, botânico na Universidade de Coimbra, sob o nome de Succisa carvalheana, a escabiosa-dos-pauis habitava margens de lagoas, charcos temporários, valas e outros lugares alagadiços da faixa litoral entre o Mondego e o Douro. Enfim, um tipo de habitat que, por força da expansão urbana e do aproveitamento agrícola e florestal dos terrenos, tem recuado a grande velocidade numa das zonas mais povoadas do país. A planta já existiu em Vila Nova de Gaia (onde foi colhida pela última vez em 1979), em Coimbra e em diversos outros lugares onde hoje é impensável encontrá-la. Foi de tal ordem a destruição que até há poucos meses o seu último reduto conhecido era junto à Pateira de Fermentelos, onde na mais recente visita foram contadas quatro plantas. Em 2004, os espanhóis Francisco Amich, Juan A. Devesa e Sonia Bernardos, autores do artigo Taxonomic revision of the genus Succisella (Dipsacaceae) in the Iberian Peninsula, não lograram encontrar a planta em nenhuma das localidades portuguesas onde ela havia sido assinalada.

A boa notícia é que as nossas fotos não foram tiradas na Pateira de Fermentelos, e que nesse outro local, algures entre Vagos e Cantanhede, eu e a Maria encontrámos centena e meia de exemplares da planta, espalhados por uma área ampla entre charcos, matos baixos, salgueirais e plantações de eucaliptos. A produção de flores e frutos era abundante; e, a menos de catástrofe ou de intervenção destrutiva em larga escala, a planta dificilmente desaparecerá dessa zona.

O sumiço quase completo da Succisella carvalhoana originou um episódio invulgar: uma outra planta do género Succisella, essa existente em Espanha, fez-se passar por ela numa autêntica usurpação da identidade. Em 1980, uma dita «Succisella carvalhoana» foi detectada em Espanha, na província de Salamanca, e mais tarde a mesma planta foi reencontrada em várias outras províncias espanholas. Ninguém parece ter posto em dúvida essa identifcação, e quando foi feita a revisão do género Succisella para a Flora Iberica (pelos autores do artigo atrás referido) as plantas do litoral português não foram tidas em conta, por não terem sido encontrados exemplares vivos. Resultado? A descrição da Succisella carvalhoana nessa obra não se ajusta às plantas portuguesas, as únicas que legitimamente podem usar esse nome.

No vol. 2 (de 1984) da sua Nova Flora de Portugal, Franco informa que as folhas caulinares da planta são lineares ou linear-lanceoladas, enquanto que a Flora Iberica descreve as folhas caulinares médias como "linear-lanceoladas, de pinatífidas a pinatissectas". Esse carácter pinatífido ou pinatissecto das folhas é omitido não apenas por Franco, mas também por Xavier Coutinho (Flora de Portugal, 2.ª ed., 1939), que informa serem as folhas caulinares "inteiras ou subinteiras"; e, além disso, também não há menção dessa característica na descrição original da planta por Joaquim Mariz.

As plantas existentes no litoral português, e que serviram de base às descrições de Mariz, Coutinho e Franco, apresentam folhas caulinares invariavelmente inteiras, facto que confirmámos tanto nos exemplares vivos como (por amabilidade de Filipe Covelo) nos que estão guardados no herbário da Universidade de Coimbra. Por outro lado, as plantas espanholas já apresentam folhas caulinares médias pinatífidas ou pinatissectas. Além disso, as folhas basais das primeiras são muitas vezes obovado-espatuladas, enquanto que as das segundas são quase sempre lanceoladas. Outra diferença importante está no invólucro dos frutos, que são de um vermelho carregado nas plantas espanholas e de uma cor amarelada próxima do bege nas plantas do litoral português.

Quando o equívoco for desfeito, a verdadeira Succisella carvalhoana recuperará o seu legítimo estatuto de endemismo português, e a usurpadora terá que adoptar outro nome. Mas essa outra planta não ficará a ser um endemismo espanhol, visto que em 2017 a botânica Adelaide Clemente a encontrou do lado de cá da fronteira, no concelho do Sabugal. As fotos da «Succisella carvalhoana» que constam do portal Flora-On são dessa planta raiana, e poderão servir ao leitor para conferir as diferenças.

20/12/2016

Mistérios de Cantanhede


Phagnalon rupestre (L.) DC.


Vim eu um dia antes para cima para estar mais perto do local onde combinámos e é isto. Combinei às 13:30, são 13:17 e ainda estou no quarto do hotel a escolher que boxers hei-de levar. Vou optar pelos justos. Os vermelhos. Afinal não é todos os dias que almoçamos com Deus!

Quem me conhece sabe que não é meu apanágio chegar atrasado. Mas como é que conseguiria evitá-lo? Combinasse onde combinasse e a que horas combinasse, Ele já lá estaria! Mesmo antes de termos combinado, Ele já lá estaria!

Ora bem... chaves, óculos de sol, telemóvel... acho que está tudo. Ah, a carteira, que Ele é menino para querer rachar a conta. Tabaco compro ali na bomba, que parece mal estar a cravar cigarros a Deus. (...) Bom, está tudo. Que nervos, estou agora no carro a imaginá-lo a olhar para o relógio e a bufar. Devia ter convidado o Buda, não é propriamente um deus, mas sempre tem fama de ser mais calmo e paciente. (...)

Olha, vai já aqui ao lado deste, que assim fica à sombra. Espero que Ele tenha percebido que era aqui na Meta dos Leitões. Há tantos restaurantes com leitão que às vezes podia... (...)

Agora que estou aqui aflito a farejar a sala com os olhos é que percebi que Deus nem me disse como vinha vestido. Nem sei do que é que estou à procura. Duma túnica branca? Dum colete de bombazina? Não sei. Cabelo apanhado? Cabelo solto? É estúpido estar a olhar para uma sala repleta de famílias que reluzem tanto ou mais do que o próprio leitão que estão a aspirar alarvemente, à procura de Deus. Espero que o meu sobrolho franzido não faça com que este empregado me aborde para perguntar o que desejo, porque está fora de questão responder...

– O que é que deseja? – disparou-me o dito empregado, sem me deixar acabar o raciocínio.
– Estou à procura de Deus. Viemos os dois ao leitão. (...)

Estão todos em grupos. Estão todos acompanhados, não vejo ninguém sozinho, a não ser aquele senhor careca e gordo, que está a... olhar para o relógio e a bufar. Será...?

– Pombares! Ó, Pombares! – diz o senhor (ainda com letra minúscula, na dúvida), acenando-me com um guardanapo branco que já me parece suavemente carimbado de queijinho seco curado.

Meu Deus, é Deus! (...)

– Gostava de lhe colocar algumas questões. E a verdade é que até agora nem me provou sequer que é Deus.
– Estás a ser parvo, Frederico. Achas que sou o quê? Vamos fazer antes ao contrário: prova-me que eu não existo. É melhor duas doses que aquilo é só osso – Rapaz! Rapaz! São duas de leitão, com molho.
– Temos então um Deus tirano?
– Querias o quê? Eleger o teu Deus democraticamente? Por acaso, têm-te corrido bem as eleições democráticas, para estares com essa moral?
– O senhor é que está mal habituado. Toda a gente fala baixinho consigo, sem razão alguma. Rezam baixinho, como se "baixo é, alto lhe parece". A bichanar, a bichanar... Porque é que as pessoas não gritam consigo?! (...) A verdade é que estas pessoas colocam a vida nas suas mãos e o Senhor lava-as sempre que pode.
– Ah! Então, para ti, não sou só a Sorte como o Azar, é isso?

E limpando os cantos da boca de quaisquer resquícios de leite creme, Deus diz-me:

– É esse o teu problema, Pombares. (...) O teu problema não é, nem nunca foi, não acreditares em mim. Como não precisas, não ligas, não tens fé – e levantou-se, aprontando-se para sair.
– Então e a conta?!
– Já está paga.
– Mas quanto lhe devo? – digo eu, com voz de quem não quer ficar a dever nada a Deus.
– Deixa estar, Pombares. Depois acertamos contas.

Sorriso de xeque-mate e, num piscar de olhos meu, desapareceu.

Frederico Pombares, Almoço divino (O Fio à Meada – diálogos imprevistos, Escrit'orio Ed., 2010)

20/09/2016

A ressurreição do agrião



Rorippa amphibia (L.) Besser


Rorippa nasturtium-aquaticum é o nome científico do popular agrião usado em sopas e saladas. Por falta de nome alternativo em português, temos chamado agrião às demais ervas do género Rorippa, quase todas elas amigas de ambientes húmidos ou encharcados. Com caules geralmente erectos e flores amarelas, não são assim tão parecidas com o verdadeiro agrião, que tem flores brancas e caules prostrados. De facto, estudos moleculares indicam que o agrião está mal posicionado no género Rorippa, e por isso há quem prefira emancipá-lo num género próprio, chamando-lhe Nasturtium officinale.

Falemos pois do falso agrião que hoje ocupa o escaparate. O epíteto amphibia sugere que ele está à vontade tanto na água como em terra. O local onde em Junho passado o encontrámos, uma lagoa pouco profunda de uns quatrocentos metros de comprimento, em Febres (Cantanhede), permitia-lhe fazer bom uso dessa versatilidade, não se ficando temerosamente pelas margens mas avançando bem até ao centro da lagoa. Espreitando com alguma dificuldade por entre a densa vegetação de árvores, juncos e canas, o que víamos (2.ª foto) era o amarelo das flores ocultando o azul da água. E era um amarelo espesso, pois a Rorippa amphibia, podendo ultrapassar um metro de altura, não é uma planta rasteira.

Não é apenas pelo habitat aquático e pelo porte avantajado que a Rorippa amphibia se distingue das congéneres que por aqui têm desfilado (a R. palustris é muito menor, a R. pyrenaica prefere lugares mais secos). Embora as folhas basais exibam forma muito variável, as folhas caulinares costumam ser inteiras e às vezes (1.ª foto) bastante largas. Outro pormenor distintivo é que os frutos (silíquas) são duas a três vezes mais curtos do que os pedúnculos (penúltima foto).

A extensão ocupada por esta Rorippa todo-o-terreno na lagoa de Febres sugere, correctamente, que a planta é capaz de se reproduzir vegetativamente, libertando estolhos que, enraizando-se, dão origem a novas plantas. Não tendo ela, ao que pudemos comprovar, conseguido instalar-se nas outras lagoas da região, é de supor que a reprodução por semente não tenha o mesmo grau de eficiência. Na verdade, e mesmo que esta população seja da ordem dos muitos milhares, a Rorippa amphibia é uma das espécies mais raras e ameaçadas da flora portuguesa. Assinalada apenas na Beira Litoral e no Ribatejo, mas pouco ou nada vista nos últimos anos, pode ser que a sua exuberante presença nesta lagoa de Cantanhede seja o seu canto do cisne em território nacional. (De resto, embora rara na Península, ela é comum na Europa para lá dos Pirenéus.)

17/09/2016

Maio em Cantanhede

Comecemos por recordar como é uma Leuzea conifera, uma das asteráceas mais bonitas dos calcários do centro e nordeste do país. Aprecia clareiras de bosques e taludes rochosos com solo bem drenado. Note como a folhagem é rasteira e como os capítulos de flores, terminais e solitários, nascem protegidos por uma atraente pinha de brácteas coriáceas e brilhantes.

Façamos agora algumas alterações ao formato e ao porte desta espécie. Estiquemos as folhas até terem uns 20 cm de comprimento e margens quase sem recorte, apontando num papel, para não esquecermos, que longifolia seria um epíteto apropriado para uma tal planta. Puxemos também para o alto a haste floral até ela atingir uns 70 cm, e finalmente coloquemos em cima uma pinha como a da L. conifera, arredondando-a, porém, para que se equilibre sem esforço na ponta do talo. E aqui temos mais uma espécie perene de Leuzea, a que chamaremos Leuzea longifolia. Assim alta e de folhas erectas, está perfeitamente adaptada a habitats húmidos, com solos margosos e escorregadios.


Leuzea longifolia Hoffmanns. & Link / Rhaponticum longifolium (Hoffmanns. & Link) Soskov


Naturalmente, a espécie que acabámos de fabricar é nossa. Trata-se de um endemismo lusitano, descrito em 1825 por Hoffmannsegg e Link na Flore Portugaise ou description de toutes les plantes qui croissent naturellement en Portugal, de que se conhecem apenas meia dúzia de populações, todas com poucos indivíduos. Teoricamente protegida por legislação portuguesa e da Comunidade Europeia, está de facto em perigo de extinção devido à destruição imparável dos habitats palustres no nosso território. A boa notícia é que a população que conhecemos, talvez a mais nortenha de todas as que existem, situada perto de uma das inúmeras lagoas de Cantanhede, parece em franca expansão entre os matos de urze, murta e carvalho-anão.

O género Leuzea tem estado em actualização e as suas espécies que ocorrem em Portugal foram transferidas para o género Rhaponticum. A L. longifolia designa-se Rhaponticum longifolium, nome a que tem direito desde 1959 a partir da investigação do botânico russo Yurij Soskov.

13/09/2016

Lagoas de Cantanhede

Que resta de natureza num concelho como Cantanhede, onde todos os metros quadrados de terreno parecem ter sido avaramente aproveitados para algum fim? Entre pinhais, eucaliptais, vinhas, campos de cultivo, fábricas, armazéns, povoações desordenadas e vivendas avulsas, numa paisagem plana, sem maciços rochosos e sem recantos, haverá ainda lugar para o que é espontâneo? A resposta, já se adivinha, é enfaticamente positiva. Basta lembrar que os pinhais da Tocha, embora infestados por acácias, dão abrigo a camarinhas, samoucos, giestas variadas, sargaços amarelos e brancos, salgueiros-anões, meia dúzia de espécies de orquídeas, e até a um verbasco endémico da costa portuguesa. Beneficiando das estradas em estado calamitoso, da ausência de redes de telemóvel e de outros inconvenientes que afugentam os veraneantes, certos pontos do cordão dunar apresentam uma flora em muito bom estado. Avançando para o interior, e já perto da sede de concelho, o Horst de Cantanhede é uma pequena ilha calcária que, a somar a uma invejável colecção de orquídeas, logrou reunir uma mão-cheia de raridades (como esta, esta ou esta), algumas delas no limite norte da sua distribuição em Portugal.

E, rodeadas por matas de produção ou por campos agrícolas, muitas são as lagoas e charcos que pontuam as imagens aéreas do concelho. Antes da invenção do Google Earth, só quem consultasse os mapas militares se aperceberia dessa fartura de águas paradas. Não havendo diferenças de altitude, ou sendo elas quase insignificantes, as águas não se esforçam por chegar ao mar a não ser nas épocas de muita chuva. Artificiais ou naturais, essas lagoas acabam por ser o refúgio de plantas que desapareceram das zonas do país onde os habitats palustres se fizeram raros. Em Cantanhede, as populações de Utricularia australis, uma planta carnívora aquática com flores amarelas que fazem lembrar as das linárias, devem ser as maiores do país.

A freguesia de Cantanhede com maior número de pequenas lagoas talvez seja a de Febres; um dos lugares da freguesia tem precisamente o nome de Lagoas. Será apenas coincidência que uma terra com tantas lagoas e charcos se chame Febres? O senso comum considera (ou considerava) tais lugares como viveiros de mosquitos transmissores de infecções — ou seja, causadores de febres. Mas, como o nosso clima não é tropical e a água faz falta, e como um ecossistema em equilíbrio raramente é fonte de pragas, é preferível deixar as lagoas em paz em vez de tentar secá-las. Além do mais, mesmo não se aconselhando mergulhos, as lagoas são bonitas, com margens agradavelmente providas de sombras para acolher famílias merendantes.



Schoenoplectus lacustris (L.) Palla


O Schoenoplectus lacustris, popularmente conhecido como bunho (embora o mesmo nome se dê a uma espécie de menor porte, Scirpoides holoschoenus, comum em todo o país), é uma ciperácea de quase três metros de altura que guarnece profusamente duas das mais recatadas lagoas de Febres. Como planta rizomatosa que é, forma densos aglomerados na borda das lagoas, suprindo a falta do caniço (Phragmites australis), que talvez prefira substatos mais arenosos. As hastes deste bunho, quase destituídas de folhas (que estão em regra reduzidas a bainhas), são grossas, com uns 2 cm de diâmetro, e têm secção perfeitamente circular. As inflorescências, formadas por várias dezenas de espiguetas cada uma com 1 ou 2 cm de comprimento, surgem como cabeleiras despenteadas no topo das hastes, e a floração, que começa na Primavera, prolonga-se pelo Verão dentro. De acordo com a Flora Ibérica, a espécie deveria estar presente em todas as províncias portuguesas, mas no portal Flora-On só se dá conta de ocorrências no centro e sul do país. A mesma Flora Ibérica considera, além da subespécie nominal (representada nas fotos), a subsp. glaucus, que vive em sapais e em estuários e tem dimensões menores.

O nome galego (e espanhol) do Schoenoplectus lacustris, que é antela, recorda um dos piores actos de destruição da natureza levados a cabo no país vizinho ao longo do século XX. A planta deu nome à lagoa de Antela, uma das mais extensas zonas húmidas da Península Ibérica: com 40 Km^2 de área, era várias vezes maior do que a nossa Pateira de Fermentelos. Situada na província de Ourense, a cerca de 600 m de altitude, a lagoa foi drenada em 1959 por ordem do governo de Franco, que justificou o ecocídio pelo aproveitamento agrícola dos terrenos e como medida para erradicação dos mosquitos.

10/09/2016

Lobelinha

Para escolher o nome de uma criança, muitos pais sofrem noites de insónia a listar nomes, a dizê-los repetidamente em voz alta para se habituarem à sonoridade, a testar a harmonia com os apelidos, a inventar diminutivos, a combinar floreios. A escolha é tão variada que lhes custa decidir, e não é assim tão raro que afinal depois se arrependam do nome que escolheram, chegando alguns a oficializar a troca. Descoberta uma nova planta, se ela é muito parecida com as de algum género já nomeado, então metade do binómio que a virá a designar está determinado. Se o mesmo se aplicasse às pessoas, os membros de cada família teriam um mesmo nome inicial desde o primeiro par de progenitores. Nas plantas, resta então ao botânico atribuir um epíteto que distinga cada espécie das outras do mesmo género. O problema deste procedimento está no modo mais ou menos rigoroso de se atestar que uma planta se parece muito com outra sem o rigor que hoje os testes genéticos conferem. Vejamos um exemplo.


Solenopsis laurentia (L.) C. Presl


A planta pequenina das fotos, de flores azuladas que se inclinam para o solo para aí depositar as sementes em segurança, parece uma lobélia pela configuração da corola bilabiada, o cálice dentado, a haste floral alta, o leve recorte das margens das folhas e o arranjo basal da folhagem. E houve quem, no século XVIII e XIX, a colocasse no género Lobelia, a começar por Lineu, que, em 1753, a designou por Lobelia laurentia. Contudo, as flores das lobélias não são solitárias; além disso, ensina a Flora Ibérica, têm a corola tubular fendida na parte dorsal, coisa que esta não tem. Razões suficientes para o botânico checo Carl Borivoj Presl (1794-1852) propor uma mudança de nome: em 1836 passou a ser uma espécie de Solenopsis, termo que deriva do grego solen, tubo, e opsis, aspecto, aludindo ao formato tubular das corolas. As espécies deste género têm uma distribuição restrita à região mediterrânica, Península Ibérica e ilhas Baleares (que possuem um endemismo, a perene Solenopsis balearica). Presl parece ter hesitado na escolha do epíteto específico, indeciso entre gracilis, minuta, salzmanniana ou canariensis. Tendo em conta a precedência de Lineu, pôs um ponto final no assunto ao optar por laurentia.

Esta é uma planta anual relativamente rara na Península Ibérica, estando em alguns locais à beira da extinção, mas de que há um número animador de registos no centro e sul de Portugal continental. Tardámos a vê-la porque não a procurámos no habitat de que ela realmente gosta (margens húmidas de linhas de água, charcos e barragens, sujeitas a encharcamento temporário) e por ser de porte tão diminuto, fácil de se esconder no meio de outras herbáceas. Vimo-la no início do Verão nas margens de uma grande represa no Ribatejo, um lugar tão rico em biodiversidade (mas só de plantas minúsculas) que circulamos sempre por ele em bicos de pés. Dias depois, ao visitar um terreno de solo margoso perto de Cantanhede (onde mora uma população notável de Leuzea longifolia) revimo-la a forrar sulcos mais ou menos encharcados onde antes tinham aparecido bons contingentes de Cicendia filiformis.

Ao contrário dos do Ribatejo, quase todos os exemplares de Cantanhede exibiam flores brancas que, como as azuis, têm dois lóbulos superiores erectos como orelhas, e três inferiores ligeiramente dobrados para trás, lembrando dentinhos de coelho. Notam-se também umas pintas brilhantes na parte interna do tubo, mais densas na vizinhança dos estames, no que parece um enfeite mas deve ser um alerta, tal como se julga acontecer nas gencianas.

03/05/2016

Sobre os pés


Plantago serraria L.


Quem sabe latim — ou não sabe mas vai aprendendo umas migalhas à custa dos nomes botânicos — por certo não desconhece que planta e pé têm quase o mesmo significado, como aliás denuncia a expressão planta do pé. Dir-se-ia até, falseando a etimologia, que as duas palavras têm a mesma raiz, mas enquanto que nós, os donos dos pés, podemos ter raízes metafóricas, as plantas têm-nas de verdade. É porém um facto indesmentível que tanto plantas como pés foram feitos, de um modo geral, para assentar no chão. Daí que a palavra latina planta se aplique de igual modo ao vegetal (em especial na fase de rebento) e a essa parte basilar da anatomia humana.

Se, por via do latim, todas as plantas têm alguma coisa a ver com os pés, já as do género Plantago se destacam por manter com eles uma relação mais íntima. Plantago, dizem os entendidos, traduz-se justamente por planta do pé — o que, como agora sabemos, é uma expressão algo pleonástica. Tal designação dever-se-á à forma das folhas de certas espécies: as do Plantago major fazem lembrar chinelos dispostos em círculo, com os calcalhares virados para dentro. Em espécies de folha mais estreita, como P. lanceolata ou P. maritima, a semelhança pedestre é bem menos vincada. Há porém outra afinidade entre estas plantas e os nossos pés: são várias as espécies de Plantago que se dão muito bem em lugares pisoteados tais como caminhos ou parques de estacionamento. Quanto mais calcamos os rebentos de P. coronopus e P. major que espreitam entre as pedras mais eles ganham forças para se reproduzirem. E à mesma escola masoquista pertence de pleno direito o Plantago serraria, o primeiro dos dois que hoje aqui mostramos.

A roseta basal do Plantago serraria, formada por folhas grandes, por vezes com mais de 20 cm de comprimento, é inconfundível (ver 1.ª foto) e permite identificá-lo em qualquer altura do ano. Preferindo substratos calcários e solos argilosos, vive no centro e sul de Portugal continental e na metade oeste da bacia mediterrânica. É presença habitual nas clareiras dos matos de zimbro que revestem o litoral de Sintra e Cascais.


Plantago bellardii All.
O Plantago bellardii é anual e de porte discreto, e por isso mais difícil de observar, embora não seja menos frequente e beneficie até de uma distribuição mediterrânica mais ampla. Ao contrário do seu congénere, não consta que fique grato quando lhe põem um pé em cima. A sua haste raramente atinge os 10 cm de altura, e as folhas ficam-se pelos 5 cm de comprimento; a sua espiga é compacta, contrastando com a espiga alongada do P. serraria. Vimo-lo nos pinhais da Tocha, mas, exigindo sempre solos ácidos, é suficientemente versátil para aparecer também em montados longe da costa.