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01/08/2021

Orquídeas da serra e da rocha

Acontece-nos com a flora da ilha da Madeira o que por vezes sucede ao reencontrarmos uma pessoa que conhecemos noutras circunstâncias: temos uma vaga lembrança da cara, hesitamos no nome, e a ajuda para nos poupar o embaraço só chega, por vezes tarde de mais, quando a memória nos revela de onde a conhecemos. Na flora madeirense, alguns arbustos lenhosos têm uma tal semelhança com plantas continentais que juraríamos serem com elas aparentadas. E são, embora as primas continentais, postas em contraponto, não passem de herbáceas frágeis e mirradas. Na ilha, resultado de um processo muito bem sucedido de adaptação a um novo habitat, as espécies que julgamos idênticas às continentais produzem indivíduos vigorosos, com flores grandes ou inflorescências vistosas, frequentemente com a folhagem densa e acumulada na ponta dos galhos para se elevarem na floresta.

A ilha da Madeira é sem dúvida um dos refúgios de flora mais notáveis e bem conservados. Para além do que resta das lauráceas que (antes de nascerem o mar Mediterrâneo e o deserto do Saara, e de várias crises climáticas assolarem o planeta) também existiram no que é hoje o sul da Europa e o norte de África, há na ilha da Madeira inúmeras espécies endémicas de géneros que ainda ocorrem no continente. É o caso de duas orquídeas que começam a florir no fim da Primavera.

Orchis scopulorum Summerh. (com Ranunculus cortusifolius)
Orchis scopulorum


A primeira é rara e vive, em regra, acima dos 1100 metros, em escarpas rochosas (daí o epíteto scopulorum) expostas aos ventos alíseos de nordeste e aos andares de nuvens, que arrefecem a encosta norte e a zona montanhosa central da ilha da Madeira. Estes ingredientes atmosféricos provocam uma «chuva horizontal» quase permanente, responsável pela manutenção do extraordinário coberto vegetal desta região da ilha. Do género Orchis, que em Portugal abriga onze espécies, esta orquídea pode chegar aos 65 cm de altura e exibir uma espiga com duas dezenas de flores. O labelo é mais pálido do que os outros segmentos da flor, criando um contraste de cor que decerto não passa despercebido aos polinizadores. As primeiras fotos são do Pico do Areeiro, num momento raro em que uma das nuvens se rompeu e destapou o sol; as duas últimas são de plantas junto à levada do Caldeirão Verde (a uma altitude anormal para a espécie), onde, no início de Maio, a floração já ía mais avançada.

Pico do Areeiro
Levada do Caldeirão Verde
A segunda orquídea endémica da Madeira é do género Dactylorhiza, de que se conhecem 4 ou 5 espécies em Portugal continental. Pode atingir 80 cm de altura, e nota-se bem nos bordos dos caminhos da floresta pelas folhas basais longas (cerca de 35 cm), lustrosas e em tom verde escuro. A inflorescência é cónica ou cilíndrica, composta às vezes por umas 50 flores de cerca de 3 cm de diâmetro, cujo labelo é marcado por um padrão de pintas que traz à memória o das espécies continentais do mesmo género. Dizem que é comum na laurissilva, entre os 500 e os 1500 metros de altitude, e na nossa visita encontrámos muitos exemplares na floresta temperada do til (Ocotea foetens), mas não vimos nenhum florido. [Julgámos que sim, mas o João Farminhão detectou de imediato que as flores que lá fotografámos eram de Orchis scopulorum.]

Til monumental [Ocotea foetens (Aiton) Baill.] & folhas de Dactylorhiza foliosa (Rchb. f.) Soó
Fajã da Nogueira — laurissilva do til

19/04/2017

Barbusano

Quem aporta à Madeira sente a aragem de um lugar quase africano, o receio das escarpas assombrosas do litoral, o fascínio pelos delicados bordados e o regalo nos pitéus de milho e de peixe-espada. Mas terá de se entranhar nas montanhas para conhecer a ilha a que Camões se refere, no Canto V de Os Lusíadas, através do discurso de Vasco da Gama que, não tendo passado pela Madeira, narra de facto a experiência do próprio poeta:

Passámos a grande Ilha da Madeira,
Que do muito arvoredo assi se chama;
Das que nós povoámos a primeira,
Mais célebre por nome que por fama.
Mas, nem por ser do mundo a derradeira,
Se lhe aventajam quantas Vénus ama;
Antes, sendo esta sua, se esquecera
De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.

Foi pela exuberância vegetal que a Madeira venceu, na comparação de Camões, as ilhas gregas, componentes famosas da civilização helénica. O arvoredo da ilha é ainda hoje notável, mas algumas espécies características dos bosques de laurissilva tornaram-se raras, como o imponente barbusano (ou barbuzano), uma laurácea de copa arredondada e densa, que pode atingir os 25 metros de altura.


Apollonias barbujana (Cav.) Bornm.


Tivemos sorte por, em Dezembro, termos encontrado flores frescas, sendo elas mais dadas a surgir na Primavera. São minúsculas, esbranquiçadas ou verdes, mas as inflorescências em panícula são muito vistosas. Depois delas, vêm umas bagas com feitio de azeitona mas de pé longo, que amadurecem escuras. As folhas ovaladas e glabras, de um verde lustroso, exibem por vezes umas protuberâncias que lembram estruturas semelhantes nas pistácias ou os bugalhos dos carvalhos. No barbusano, estas verrugas são casinhas de insectos feitas de folha, onde eles se resguardam enquanto se alimentam de seiva sem, aparentemente, comprometerem a saúde geral e a sobrevivência da planta.

Endémica dos arquipélagos da Macaronésia (talvez extinta no Porto Santo), da Apollonias barbujana há registo, na ilha de Gomera, de uma segunda subespécie, com folhas mais largas e cuspidadas. O nome do género é dedicado à divindade Apolo, uma das mais intrigantes da mitologia grega: filho de Zeus, com uma irmã gémea (Artemis), é o ideal de beleza atlética e da juventude; reconhecido como deus da poesia e da música, além de ser um oráculo poderoso, tem como símbolo o loureiro ou, se quisermos, qualquer outra árvore da mesma família.

O género Apollonias inclui cerca de dez espécies de árvores e arbustos perenes, embora estudos recentes proponham que o género se limite a uma espécie, a que ocorre na Madeira e Canárias, sendo as outras transferidas para o género Beilschmiedia.

12/12/2011

Salvemos a canforeira

A envolvente da Faculdade de Arquitectura do Porto, entre a rua do Gólgota e a via Panorâmica, é um caos de automóveis estacionados onde calha e como podem. A única preocupação visível das autoridades académicas não foi a de reprimir ou ordenar o estacionamento, mas sim torná-lo mais cómodo para alguns privilegiados. Foi assim que uma árvore mais-que-centenária, uma canforeira (Cinnamomum camphora), se viu convertida em adereço de parque de estacionamento, um trambolho que recusa arredar-se para dar espaço a mais carros. Isto não é bom para a saúde de uma árvore que, em Dezembro de 2004, só não foi classificada de interesse público pela Autoridade Florestal Nacional porque se desconhece quem seja o seu proprietário.

João Pedro da Costa, um amigo das árvores, lançou uma campanha para salvar a canforeira da rua do Gólgota. O que ele pede é fácil de conceder: não que o estacionamento seja proibido, mas que se crie um perímetro de protecção em volta da árvore. Eis uma oportunidade para a escola que forma os nossos arquitectos mostrar que gosta de árvores. Mais informações nesta página do Facebook.

18/03/2005

Rua com qualidades



Fotos: pva 0503 - flores de loureiro e camélia na rua Miguel Bombarda (Porto)

No meu trajecto diário percorria de uma ponta à outra a rua D. Manuel II, com paragens para saudar as tílias (as jovens, à entrada da rua, e as veteranas, junto ao Palácio) e comprar o jornal na loja do gato preto. Mas agora que arrancaram as tílias, o gato se fez absentista, e os passeios foram convertidos em labirintos poeirentos, um tal percurso seria um mau começo de dia para quem não abdica de dar descanso à indignação.

Desvio-me então pela rua Miguel Bombarda. Os mais distraídos alegarão que a rua não tem árvores, que os prédios são feios, que os passeios são estreitos e, pelo menos de um lado, sempre ocupados por carros. Tudo isso é verdade, mas:

- como o trânsito é pouco, caminho à vontade (em contra-mão) pela faixa de rodagem;

- vejo na montra da Assírio & Alvim (que está fechada de manhã) os livros que poderei comprar ao fim da tarde, no regresso a casa (truque excelente para um dia positivo, o de saber que ele terminará com a posse do livro desejado);

- uma sebe de loureiros debruça-se, estridente de chilreios, do muro no troço final da rua, largando folhas estaladiças que dá gosto pisar e, agora que a floração está no auge, carregando o ar de perfume;

- logo a seguir, para terminar a rua em beleza, há as camélias ao cimo de um discreto lanço de escadas, incluindo a que dá a flor na foto e me parece muito rara (rara por si mesma e pela surpresa de estar onde está).

26/12/2004

Os nomes das árvores- Canela

Há muitas espécies de árvores cujo nome é simplesmente canela ou canela qualquer coisa. O dicionário Houaiss, por exemplo, lista nada menos do que 86 termos em que aparece o vocábulo (ressalvemos todavia que alguns designam a mesma árvore ou arbusto.) Quase todas estas "canelas" pertencem à família das Lauráceas (Lauraceae) que agrupa árvores com madeiras aromáticas (e por vezes também fétidas), e aos géneros Cinnamomum, Cryptocarya, Ocotea, Nectandra e Persea.
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A canela da nossa doçaria, a que entrava no rol das especiarias que levaram os europeus a largarem rumo ao Oriente, e que motivou Sá de Miranda (1481-1558) a reclamar na sua famosa tirada :
«Não me temo de Castela
Donde guerra inda não soa,
Mas temo-me de Lisboa,
Que ao cheiro desta canela
O Reino nos despovoa.»
essa pertence ao género Cinnamomum, e é da espécie Cinnamomum zeylanicum, como já aqui aliás foi referido.
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A origem do nome vulgar da canela é muito simples de entender e transcreve-se na íntegra o que escreve José Pedro Machado, no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (Livros Horizonte, 1967, 2ª ed.) : «Canela: Árvore. De cana. Na origem é diminutivo do lat. Canna, "junco, canudo", pois a casca ressequida da árvore toma a forma de pequenos canudos. Séc. XVI em P.M.»
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Conquanto actualmente não seja usual, a esta especiaria também se costumava chamar canela-da-Índia, canela fina e canela-da-Rainha; esta última designação «dever-se-à ao facto da Infanta D. Maria (neta do Rei D. Manuel), mulher culta ligada à literatura e à culinária, ter utilizado esta especiaria em receitas que compilou no seu famoso livro de cozinha, nos finais do séc. XV/início do séc. XVI. O livro de cozinha da Infanta D. Maria.*» segundo escreve Cremilde C. Barreiros em "Lisboa Arte e Canela".
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Fotos manueladlramos 0112 - Alguma doçaria tradicional da quadra natalícia em que se usa canela.
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Quanto à razão de ser do seu nome científico, o termo que designa o género, Cinnamomum - e que dá origem por ex. ao vocábulo inglês cinnamon -também se deve ao modo como mais vulgarmente contactamos com esta planta: os canudos ou rolinhos do seu ritidoma. Segundo Jacques Brosse : «Cinnamomum: du grec Kinnamómon, de Kineien, "enrouler", a- "privatif" et mômos "défaut", car la plante n'était connue en Grèce, que par les petits rouleaux d'écorce aromatique de cannelier qu'on y emportait; ce mot était lui-même une déformation du nom hébreu de la cannelle, kinnemom.» (in Larousse des Arbres et des Arbustes. Paris : Larousse - Bordas, 2000)
Gernot Katzer na sua página dedicada à esta espécie de canela acrescenta :«(...) it is, however, possible that the word is ultimately loaned from an early Malaysian language, cf. the modern name kayu manis "sweet wood" in Malay and Indonesian ».
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Já o designativo da espécie, zeylanicum fala por si: de Ceilão (que desde 1972 se chama Sri-lanka). Lembremos a referência à origem desta especiaria, na estrofe 14 do "Canto IX", dos Lusíadas:
«Leva alguns Malabares, que tomou
Per força, dos que o Samorim mandara
Quando os presos feitores lhe tornou;
Leva pimenta ardente, que comprara;
A seca flor de Banda não ficou;
A noz e o negro cravo, que faz clara
A nova ilha Maluco, co a canela
Com que Ceilão é rica, ilustre e bela
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A origem geográfica (apesar da planta crescer abundantemente noutros locais como enumera Mrs. M. Grieve no seu famoso Modern Herbal: «Malabar, Cochin-China, Sumatra and Eastern Islands. Has also been cultivated in the Brazils, Mauritius, India, Jamaica, etc.. ») é também a razão de ser para a designação de Canela-da-Índia.
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Como já se referiu, há muitas outras espécies de árvores em cujo nome aparece o termo canela (sobretudo no Brasil), e dentro do próprio género Cinnamomum (que inclui cerca de 200 espécies) a C. Zeylanicum não é a única usada em culinária. Aliás nada nos assegura que a canela que compramos no supermercado, na mercearia ou a que (na minha opinião indevidamente) nos fornecem com o café para servir de colher, não seja, por exemplo, canela-da-China ou cássia-aromática (Cinnamomum cassia) que, segundo os entendidos, apesar de ter os mesmos constituintes e propriedades, é de qualidade inferior.
Mas se realmente quiser saber mais sobre os nomes (e não só) da(s) canela(s) inebrie-se com Gernot Katzer's Spice Pages, o melhor site sobre especiarias da internet, "ever"!
O que aqui lhe trouxemos é meramente um cheirinho...
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*Sobre estes manuscritos originalíssimos (e as suas modernas edições) ver:
As certidões de nascimento da cozinha portuguesa

25/12/2004

O Natal na Sala e na Cozinha


Fotos: pva 0412 Porto - caneleira (Cinnamomum zeylanicum)

Para este postal estava reservado um tema que, visto do ângulo apropriado, era irrepreensivelmente natalício. Fazia um paralelo entre a flora exótica e a fauna também exótica: a flora exótica era representada pelo eucalipto que, vindo da Austrália, por cá se instalou de forma tão avassaladora; a fauna pelo Pai Natal, que de tal modo se multiplicou em Portugal (e em especial no Porto) que acabou por extravasar dos centros comerciais para desfiles de rua.

Mas, embora um tal tema fosse natalício, talvez o seu espírito fugisse à tolerância e bonomia próprias da Quadra. Daí que resolvêssemos pôr de lado a analogia entre o eucalipto e o Pai Natal (que só mencionámos para que, se alguém desenvolver o tema antes de nós, fique registada a nossa prioridade) e tenhamos optado por assunto menos controverso.

Preocupou-nos, em textos e imagens anteriores, sobretudo a face exterior do Natal: as suas cores, os seus enfeites. Ora, é sabido que o Natal não é só isso: além das luzes a piscar e da troca de prendas, há também o que se come. A festa vistosa não nos deve fazer esquecer todo o trabalho de preparação que a sustenta; a sala colorida de luzes, com a lareira a crepitar e a mesa farta de iguarias, não poderia existir sem a cozinha. Por isso, tendo aqui falado de árvores de Natal, que se limitam a exibir-se à nossa admiração, seria imperdoável esquecermos as árvores que na cozinha dão o corpo ao manifesto.

Imaginem como seria insípido e inodoro um Natal sem canela. É pois de inteira justiça o destaque que hoje aqui lhe damos, com uma foto de corpo inteiro de um jovem exemplar de caneleira (Cinnamomum zeylanicum) e um grande plano da sua folhagem luzidia, de tom verde-limão. Embora as folhas, quando esmagadas, libertem o inconfundível cheiro a canela, não é delas que se extrai esse condimento, mas sim da casca da árvore.