Há muitas espécies de árvores cujo nome é simplesmente canela ou canela qualquer coisa. O dicionário Houaiss, por exemplo, lista nada menos do que 86 termos em que aparece o vocábulo (ressalvemos todavia que alguns designam a mesma árvore ou arbusto.) Quase todas estas "canelas" pertencem à família das Lauráceas (Lauraceae) que agrupa árvores com madeiras aromáticas (e por vezes também fétidas), e aos géneros Cinnamomum, Cryptocarya, Ocotea, Nectandra e Persea.
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A canela da nossa doçaria, a que entrava no rol das especiarias que levaram os europeus a largarem rumo ao Oriente, e que motivou Sá de Miranda (1481-1558) a reclamar na sua famosa tirada :
«Não me temo de Castela
Donde guerra inda não soa,
Mas temo-me de Lisboa,
Que ao cheiro desta canela
O Reino nos despovoa.»
essa pertence ao género
Cinnamomum, e é da espécie
Cinnamomum zeylanicum, como já
aqui aliás foi referido.
.A origem do nome vulgar da canela é muito simples de entender e transcreve-se na íntegra o que escreve José Pedro Machado, no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (Livros Horizonte, 1967, 2ª ed.) : «Canela: Árvore. De cana. Na origem é diminutivo do lat. Canna, "junco, canudo", pois a casca ressequida da árvore toma a forma de pequenos canudos. Séc. XVI em P.M.»
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Conquanto actualmente não seja usual, a esta especiaria também se costumava chamar
canela-da-Índia,
canela fina e
canela-da-Rainha; esta última designação «
dever-se-à ao facto da Infanta D. Maria (neta do Rei D. Manuel), mulher culta ligada à literatura e à culinária, ter utilizado esta especiaria em receitas que compilou no seu famoso livro de cozinha, nos finais do séc. XV/início do séc. XVI. O livro de cozinha da Infanta D. Maria.*» segundo escreve Cremilde C. Barreiros em "
Lisboa Arte e Canela".
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Fotos manueladlramos 0112 - Alguma doçaria tradicional da quadra natalícia em que se usa canela.
.Quanto à razão de ser do seu nome científico, o termo que designa o género,
Cinnamomum - e que dá origem por ex. ao vocábulo inglês
cinnamon -também se deve ao modo como mais vulgarmente contactamos com esta planta: os canudos ou rolinhos do seu ritidoma. Segundo Jacques Brosse : «Cinnamomum:
du grec Kinnamómon
, de Kineien
, "enrouler", a
- "privatif" et mômos "
défaut", car la plante n'était connue en Grèce, que par les petits rouleaux d'écorce aromatique de cannelier qu'on y emportait; ce mot était lui-même une déformation du nom hébreu de la cannelle, kinnemom.» (in
Larousse des Arbres et des Arbustes. Paris : Larousse - Bordas, 2000)
Gernot Katzer na sua página dedicada à esta espécie de
canela acrescenta :«
(...) it is, however, possible that the word is ultimately loaned from an early Malaysian language, cf. the modern name kayu manis "sweet wood"
in Malay and Indonesian ».
.Já o designativo da espécie,
zeylanicum fala por si: de Ceilão (que desde 1972 se chama
Sri-lanka). Lembremos a referência à origem desta especiaria, na estrofe 14 do "Canto IX", dos
Lusíadas:
«
Leva alguns Malabares, que tomou
Per força, dos que o Samorim mandara
Quando os presos feitores lhe tornou;
Leva pimenta ardente, que comprara;
A seca flor de Banda não ficou;
A noz e o negro cravo, que faz clara
A nova ilha Maluco, co a canela
Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.»
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A origem geográfica (apesar da planta crescer abundantemente noutros locais como enumera Mrs. M. Grieve no seu famoso
Modern Herbal: «
Malabar, Cochin-China, Sumatra and Eastern Islands. Has also been cultivated in the Brazils, Mauritius, India, Jamaica, etc.. ») é também a razão de ser para a designação de
Canela-da-Índia.
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Como já se referiu, há muitas outras espécies de árvores em cujo nome aparece o termo
canela (sobretudo no Brasil), e dentro do próprio género
Cinnamomum (que inclui cerca de 200 espécies) a
C. Zeylanicum não é a única usada em culinária. Aliás nada nos assegura que a
canela que compramos no supermercado, na mercearia ou a que (na minha opinião indevidamente) nos fornecem com o café para servir de colher, não seja, por exemplo, canela-da-China ou cássia-aromática (
Cinnamomum cassia) que, segundo os entendidos, apesar de ter os mesmos constituintes e propriedades, é de qualidade inferior.
Mas se realmente quiser saber mais sobre os nomes (e não só) da(s)
canela(s) inebrie-se com
Gernot Katzer's Spice Pages, o melhor site sobre especiarias da internet, "ever"!
O que aqui lhe trouxemos é meramente um cheirinho...
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*Sobre estes manuscritos originalíssimos (e as suas modernas edições) ver:
As certidões de nascimento da cozinha portuguesa