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04/12/2006

Os nomes das árvores- Liquidâmbar


Liquidambar styraciflua- Palácio de Cristal, Novembro 2000
Nestas fotografias podem ver-se os ramos caracteristicamente suberificados, as folhas parecidas com as dos áceres e o frutos aglomerados.

No Porto, os liquidâmbares são muito usados como árvores ornamentais. Encontram-se alguns de porte notável- destacando-se entre esses o monumental exemplar do Jardim Botânico, a belíssima alameda de Serralves (já aqui retratada em Novembro e em Dezembro ) e os da Rotunda Boavista . Dificilmente passam despercebidos no Outono e não deve haver nenhuma outra folhosa que ostente, por vezes simultaneamente, uma tão grande variedade de tons de verde, amarelo, laranja, vermelho.

São quatro as espécies que o género abriga: duas da China, uma da Ásia Menor e uma da América do Norte. A espécie americana, Liquidambar styraciflua > , é a mais usada como árvore ornamental, na Europa onde aportou proveniente da Virgínia, no início do século XVIII.

Tal como em Espanha > , entre nós é conhecida por árvore-do-âmbar e sobretudo liquidâmbar, termo homónimo da designação científica para o género, utilizado pela primeira vez em francês por Dalechamps > , na Histoire générale des plantes > em 1615, como conta J. Brosse no seu Larousse des Arbres et des Arbustes.

Conhecida no continente norte-americano por sweetgum, os franceses chamam-lhe, para além de liquidambar, copalme d'Amérique. Em azteca copali designava genericamente a resina extraída de certas árvores- significado idêntico ao de "styrax" de que deriva"styraciflua", o designativo da espécie. Tanto a designação científica como os nomes vulgares aludem a esta seiva balsâmica cor de âmbar, a sua resina aromática, uma goma utilizada em perfumaria e farmácia sob o nome de estóraque*. Refira-se, por curiosidade, que foi usada na experiência que levou à descoberta acidental do polistireno > .

Outras designações > para o liquidâmbar e para a sua madeira > .

*O termo também se usa para designar resinas provenientes de outras árvores: pertencentes ao próprio género Styrax > e, segundo esta fonte > , a resina do Myroxylum balsamum.

21/06/2006

Os nomes das árvores - Metrosideros



Metrosideros excelsa- Av. Montevideu (Classificados de Interesse Público em Janeiro de 2005)

À semelhança das araucárias, das camélias e dos liquidâmbares, por exemplo, os metrosíderos são árvores cujo nome vulgar deriva directamente da designação científica do género, Metrosideros.
Este foi estabelecido por Joseph Banks (1743-1820) naturalista inglês e grande mecenas da ciência que participou na primeira viagem de James Cook ao Sul do Pacífico a bordo do Endeavour, considerada a primeira expedição dedicada a fins exclusivamente científicos. Organizada em 1768 sob os auspícios da Royal Society, passou primeiro pela América do Sul e seguiu depois para a Nova Zelândia e Austrália.

A equipa científica que J. Banks reuniu era constituída por voluntários possuidores de conhecimentos de botânica e zoologia e incluía dois pintores ilustradores que, segundo os relatos, não tinham mãos a medir, sem tempo sequer para colorir as ilustrações do material recolhido, deixando por vezes apenas as indicações das cores. (ver Ilustrações Botânicas da Expedição)
O herbário, constituído ao longo dos quase quatro anos que durou a viagem, constava de nada menos do que 1300 novas espécies e 110 novos géneros, número em que incluía o género Metrosideros. A designação alude a uma das principais características destas árvores (e arbustos): a dureza da sua madeira, semelhante ao ferro -sideros, em grego; com o primeiro elemento do nome- metro, do grego metra, útero- a transmitir a ideia de meio, interior.
Os metrosíderos pertencem à extensa família das Mirtáceas*, onde igualmente se incluem os eucaliptos, as melaleucas, os calistemon, as murtas, etc.. Há cerca de 20 espécies de metrosíderos, onze das quais são originárias da Nova Zelândia. Em Portugal os mais comuns são os Metrosideros excelsa, sendo este último termo, referente à espécie, indicativo do porte que a árvore pode atingir em plena maturidade: acima dos 20 metros de altura, com copas de mais de 30 metros de diâmetro. A designação sinónima de Metrosideros tomentosa que esta espécie ainda assume em alguma literatura, alude à característica lanugem branca que recobre a página inferior das folhas.

Na Nova Zelândia mantem-se o costume de também se chamarem as árvores pelo seu nome indígena, neste caso "pohutukawa", o que significa em linguagen maori, "salpicada pelo mar". Com efeito estes metrosíderos adaptam-se aos solos mais inóspitos e resistem ao sal dos ventos marítimos e da água do oceano, conseguindo crescer nas falésias rochosas, deixando então pender as suas características raizes aéreas sobre o mar. Em condições extremas não ultrapassam o estado arbustivo, com pouco mais de um metro de altura, não deixando no entanto de florir abundantemente.
Esta espectacular floração dá-se, no Sul do Pacífico, entre Novembro e Janeiro, o que levou os primeiros colonos ocidentais, nostálgicos das cores tradicionais do azevinho na época natalícia, a usarem os ramos floridos de vermelho destas árvores para enfeitarem as suas casas. Desde então, esta espécie, juntamente com mais três outras espécies de metrosíderos (M. robusta, M. umbellata e M. bartlettii), são, no seu país de origem, também chamadas simplesmente "árvore de Natal", sendo conhecidas nos outros países por "árvore de Natal da Nova Zelândia".
Estas árvores são actualmente consideradas invasoras, por exemplo na África do Sul, enquanto que, por ironia do destino, no seu país de origem estão ameaçadas em certas zonas por uns pequenos mamíferos marsupiais (Trichosurus vulpecula). (Ver a propósito o Project Crimson- "a charitable conservation Trust that aims to protect New Zealand's native Christmas trees - pohutukawa and rata").
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*Mirtáceas no Dias com Árvores

05/03/2006

Ameixoeiras na cidade

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Depois da chuva a bonança e hoje, se me sobrar tempo, vou juntar à ronda das magnólias que
planeava fazer, a das ameixoeiras em flor.

Prunus cerasifera var. pissardii rua Beato Inácio de Azevedo (Porto)

O nome científico desta variedade ornamental extremamente comum nas nossas cidades, vulgarmente designada por ameixoeira-de-jardim (mas que bem se poderia chamar ameixoeira-de-cidade) despertou a minha curiosidade.
E mais intrigada fiquei com este Senhor Pissard, um francês que foi jardineiro chefe do Xá da Pérsia! A ele se deve a introdução desta arvorezinha deliciosa na Europa por, em 1880, a ter feito chegar "dos jardins imperiais de Tabriz capital do Azerbaijão"(cf. Brosse 2000) a Paillet viveirista em Sceaux.

O epíteto cerasifera deve-se ao facto de produzir uns frutos pequenos do tamanho de cerejas (em latim cerasus). Razão aliás pela qual, por exemplo em espanhol, se chama para além ciruelo pissardi (ameixoeira p.) cerezo de Pissard e cerezo de jardín (ver)
Ver também a ficha relativa a esta árvore no muito recomendável Arborium de Leiria .

Aviso: de novo, no jardim da Casa das Artes, Exposição a não perder (primeiros e últimos dias)
Pedido: e na sua rua também estão em flor? Diga-nos onde ;-)

21/10/2005

Os nomes das árvores - plátanos

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Pelas melhores e piores razões temos ultimamente falado de plátanos, a árvore de sombra por excelência na maior parte das cidades da Europa e da América do Norte, e a folhosa ornamental mais regularmente distribuída de norte a sul de Portugal. E hoje, na sequência do que já foi aqui escrito nos comentários pela nossa amiga Ver, tentamos deslindar a sua origem e a razão de ser dos seus nomes.

Segundo Plínio -que no início da nossa era escreveu não haver árvore que melhor protegesse do calor do sol - os plátanos teriam sido introduzidas em Itália cerca de 390 a.C. provenientes da Grécia, onde eram objecto de uma veneração especial. Ainda hoje, na ilha grega de Cós, se pode admirar o chamado plátano de Hipócrates, debaixo do qual, segundo reza a lenda, aquele que é considerado o pai da medicina ocidental atendia os seus pacientes. É aliás do nome grego da árvore, "platanos", que vem a designação científica do género, derivando o termo de "platys" que significa plano, largo em referência às folhas, segundo a maioria dos autores.

Conhecem-se cerca de 6 a 7 espécies de plátanos. Enquanto os da Grécia pertencem à espécie Platanus orientalis, originária das regiões temperadas da Ásia ocidental, o Platanus occidentalis, é nativo da zona atlântica dos Estados Unidos e foi introduzido em Inglaterra ainda antes de meados do séc. XVII, oriundo da Virgínia. No entanto as espécies eram bastante confundidas na literatura dos séc. XVIII e XIX até 1853, data em que Sir Joseph D. Hooker esclareceu as diferenças entres as duas espécies baseando-se nas características distintas dos frutos, o que até então tinha passado despercebido (cf. Hui-lin li).

No livro Árvores Monumentais de Portugal (Portucel, 1984), Ernesto Goes introduz a descrição de alguns dos nossos mais notáveis plátanos do seguinte modo: «A única espécie difundida no país é a Platanus hybrida Brot., sendo de origem desconhecida e considerada uma espécie resultante do cruzamento do Platanus orientalis com o Platanus occidentalis

Com efeito o botânico português Félix da Silva Avelar Brotero (1744-1828) descreveu a espécie na sua Flora Lusitanica (1804) a partir de espécies cultivadas em Portugal (cf. Hui-lin li) todavia a denominação sinónima, Platanus x acerifolia Willd. que precedeu a de Brotero num ano é mais divulgada. (O x indica a natureza híbrida da espécie, o epíteto acerifolia reconhece a semelhança das folhas com as dos áceres, e a abreviatura final refere a autoria da designação: o botânico alemão Carl Ludwig Willdenow (1765 -1812), com quem aliás Brotero se correspondeu.)

Outra designação científica sinónima, por sua vez preferida no país vizinho, é a de Platanus hispanica Mill. ex Muenchh. Recentemente, a opinião dos botânicos evoluíu no sentido de considerar esta espécie, não um híbrido, mas sim uma variedade do plátano oriental, e por isso haverá uma tendência para se adoptar o nome de Platanus orientalis var. acerifolia Aiton. ou seja mais uma designação a juntar à longa lista e a necessidade de se reverem afirmações e "verdades" anteriores!

Os nomes vulgares da árvore nos diferentes idiomas são também significativos: platano comune em italiano; platane commun e platane à feuilles d'érable (p. de folhas de ácer) em francês; plátano de sombra em espanhol; e em inglês European plane (plátano europeu) e London plane (plátano de Londres), designação que faz jus à sua abundância nesta cidade onde mais de metade das árvores ornamentais são plátanos.

Porque é que se chama sycamore nos estados da América do Norte fica para apróxima "investigação", mas se alguém souber...

09/09/2005

Árvore das orquídeas


Fotos: pva 02 - Bauhinia variegata nos jardins do Palácio de Cristal (árvore já desaparecida)

As Bauhinias, arbustos que podem atingir os 10 metros de altura, são da família das leguminosas (Fabaceae), produzindo vagens acastanhadas que abrem violentamente quando maduras para espalhar as sementes. O nome homenageia os irmãos Caspar e Jean Johannes Bauhin, botânicos suíços do século XVI. As folhas têm formato inconfundível: redondas e bilobadas, com um sulco bem vincado, lembram a impressão de uma pegada de animal com casco; algumas abrem e fecham como páginas de um livro, um truque para controlar a evaporação. Formam copa larga e caiem quase todas antes da floração, que dura vários meses em exemplares saudáveis. As flores, que se agrupam nos extremos dos ramos, são de tom branco, rosa, carmim, vermelho ou violeta; assemelham-se a orquídeas, com cinco pétalas irregulares, algumas sobrepostas, estames proeminentes e um leve perfume.

De cerca de 350 espécies, as mais usadas como ornamentais têm origem na China, África ou América do Sul. Uma das mais famosas pela sua floração vermelha, conhecida desde 1880, é um híbrido natural estéril de B. variegata e B. purpurea que se identificou em Hong Kong, de nome científico B. x blakeana. Desde 1965 que é emblema da região e, depois dela passar para a soberania chinesa, a flor desta espécie de Bauhinia figura na sua bandeira sobre um fundo vermelho. Nas moedas de Hong Kong, que enquanto colónia inglesa continham numa das faces a efígie da rainha Isabel II, reina agora a flor desta Bauhinia.

Existia um exemplar de Bauhinia variegata de belo porte num dos terraços do Palácio de Cristal. Esta árvore adoeceu e foi retirada há uns anos; ainda não foi substituída por outra do mesmo género: no seu torrão cresce agora apenas uma relva espessa. Em contrapartida, o Jardim Botânico do Porto tem plantado com sucesso vários destes arbustos e vê-se recompensado com algumas flores excepcionais.


Bauhinia forficata no Jardim Botânico do Porto

08/09/2005

Pinheiros mansos em Serralves

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Pinheiros mansos (Pinus pinea) centenários em Serralves fotografados ontem

Que eu tenha conhecimento, este epíteto de manso apenas aparece na nossa língua. São mansos estes pinheiros por oposição ao chamados pinheiros bravos ou marítimos (Pinus pinaster). .

Em francês o P. pinea é conhecido por "pin parasol","pin pinier" e "pin pignon"; em língua inglesa por "umbrella pine"ou "stone pine"; e em italiano e espanhol por "pino da pinoli" e "pino pinonero" respectivamente, devido à forma da sua copa por um lado e às suas sementes duras, os pinhões, com uma amêndoa branca comestível. Às sementes dos pinheiros bravos, não comestíveis, chamam-se peniscos.

(Ver outra fografia destes pinheiros mansos ao pé do prado em Serralves.)
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03/08/2005

Robinia


Robinia pseudoacacia L (Acácia-bastarda) nos jardins do Palácio de Cristal- Julho 2003

«Le genre Robinia comprend environ 20 espèces d?Amérique du Nord et du Mexique.
Le nom de ce genre a été donné par Linné en hommage à celui qui fit croître les premiers pieds de Robinia pseudo-acacia en Europe, Jean Robin (1550-1629), apothicaire et "arboriste" des rois Henri III et Henri IV qui, peu avant 1600, en sema de graines qui lui avaient été envoyées de Virginie par son ami John Tradescant I dans son jardin expérimental à la pointe de l'Ile de la Cité à Paris.

La construction du Pont Neuf obligea Robin à transplanter le premier éxemplaire de robinier faux acacia près de l'église Saint Julien-le-Pauvre, où on peut le voir encore aujourd'hui; en 1636, son fils Vespasien Robin, lui aussi arboriste du Roi, transplanta un de ces arbres dans le Jardin du Roi, l'actuel Jardin des Plantes, fondé 10 ans plus tôt; on l'y voit encore, vétuste mais soigneusement étayé.»
Jacques Brosse in Larousse des Arbres et des arbustes, Larousse-Bordas 2000

13/07/2005

Lagerestroémias dos Jardins da Casa de Mateus

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Lagerstroemia spp. em flor - Casa de Mateus, Vila Real -Setembro 2003

A propósito de uma conversa que se vai desenrolando aqui, lembrei-me destes lindíssimos exemplares de lagerestroémias dos jardins da Casa de Mateus. Assim estavam esplendorosas ao sol nos canteiros bordados a buxo, sobre o fundo da notável sebe-túnel de Cupressus lusitanica.
No Porto já começaram a florir e assim se manterão até ao Outono.

Estas pequenas árvores têm qualidades ornamentais durante todo o ano e não apenas na época da floração de Julho a Setembro. No Inverno são particularmente interessantes a silhueta de ramos tortuosos, e as cores matizadas do tronco de superfície lisa, manchado de castanho, cinzento, rosa e cor de canela, devido a uma casca que, à semelhança do plátano, se fragmenta em placas.

Originária da China, já era cultivada na Coreia e na Índia antes de chegar à Europa em meados do século XVIII, graças ao botânico e coleccionador de plantas, o sueco M. Von Lagerström (1696-1759), Director da Companhia sueca das Índias orientais. Lineu ao baptizar o género de Lagerstroemiae homenageou este seu amigo que lhe enviava exemplares da flora da Índia. Daí a designação "indica" da espécie cultivada em Portugal para fins ornamentais, a Lagerstroemia indica, apesar de ser realmente proveniente da China.

Segundo um amigo (eng. silvicultor) que inquiri sobre o nome vulgar quando tirei estas fotografias há dois anos, em alguns catálogos a espécie aparece referida como "lagerestroémia", com o "aportuguesamento" do nome genérico latino (um processo aliás comum para designar espécies exóticas para as quais o nome vulgar não é ...vulgar), mas em certas publicações de divulgação vem referida como "flor-de-merenda" e "suspiros".
Num livro entretanto publicado, Portugal Botânico de A a Z (de Luís Mendonça de Carvalho & Francisca Fernandes), para além destas, aparece também a designação de "extremosa" e para a L. speciosa, "lagerestrémia", mas não "árvore-de-Júpiter" que parece ser uma denominação também corrente como o demonstra o facto de se encontrar em placas identificativas dos jardins (pelo menos em Guimarães -como nos lembrou MA , e em Leiria).

Outros nomes: à Lagerstroemia indica chamam os franceses "lilas des Indes" (nome por que também é conhecida nesse país a Melia azederach...), para além de "lilas d'été", "lagerose" e "fleur de mousseline". Esta última designação deve-se à forma ondulada das pétalas. O nome inglês de "crape myrtle" deriva não só deste aspecto frisado das inflorescências mas também do facto das folhas, de algum modo, se assemelharem às da murta.

28/06/2005

Os nomes das árvores

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Quantas vezes os nomes científicos das árvores parecem complicados e difíceis de entender? Os próprios nomes vulgares ou comuns são frequentemente autênticos enigmas! No entanto todos têm alguma razão de ser e o conhecimento da sua origem e significado, levando a uma mais profunda compreensão das características e história das árvores (e outras plantas) com que nos cruzamos diariamente, faz com que melhor as apreciemos.

O conhecimento do nome científico é também vantajoso segundo um ponto de vista prático porque permite que não se adquiram ou encomendem espécies que não eram realmente as pretendidas, pois enquanto que o nome comum ou vernacular pode designar por vezes plantas diferentes, o científico, em latim, é único e usa-se internacionalmente.
A designação científica é composta, pelo menos, por dois elementos que se costumam escrever em itálico: o primeiro é sempre um substantivo próprio, grafado com inicial maiúscula, designando o género, seguido de um adjectivo que caracteriza a espécie, escrito com letra minúscula. Quando há maior preocupação de rigor acrescenta-se a abreviatura do nome do botânico responsável pela designação, por exemplo: Camellia japonica L., em que o L. maiúsculo se refere a Lineu (1707-1778), ilustre botânico sueco e o único que nas designações científicas aparece representado apenas por uma letra.

Ambas as palavras designativas do género e da espécie são, como já se referiu, significativas, transmitindo variadíssimas informações sobre as árvores. Por exemplo, a origem: C. japonica (do Japão); algum aspecto morfológico: Tilia cordata (com a folha em forma de coração, do latim cor, cordis, coração); a abundância ou frequência da espécie: Malus communis, etc. , etc..
Por vezes ficamos mesmo a saber quem descobriu ou descreveu pela primeira vez essas plantas. Isso acontece quando, para designar o género ou a espécie, são adoptadas as formas latinizados dos nomes dessas pessoas, sendo um modo dos botânicos homenagearem colegas, naturalistas ou mecenas (o que aliás até acontece mesmo quando a planta não tem nada a ver com o botânico homenageado).

No caso de ser a designação do género a tomar a forma latinizada do nome da pessoa, é interessante notar que é frequente passar para a língua comum. Estão neste rol tanto árvores muito conhecidas, como por exemplo a camélia ( de Joseph Camel) e a magnólia (de Pierre Magnol), como outras cujos nomes são menos conhecidos entre os leigos. Entre estas últimas podemos referir justamente a albízia.
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Os nomes das árvores - Albizia julibrissin

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São diversos os nomes comuns desta árvore com flores de longos estames sedosos: "árvore-da-seda", "acácia-de-Constantinopola" (em francês e italiano), "mimosa rosa" (em francês), simplesmente mimosa (em algumas zonas dos Estados Unidos) e albízia-de-Constantinopola ou apenas albízia, vocábulo derivado directamente da designação científica do género: Albizia julibrissin Durz. .
Esta deve-se ao botânico italiano Antonio Durazinni que adoptou na sua nomenclatura o nome do introdutor da espécie na Europa, o naturalista amador Filippo degli Albizzi, que a trouxe da capital do império Otomano em 1745. No entanto esta árvore não é originária da Turquia mas de uma zona que se estende do Irão à China e "julibrissin", o designativo da espécie, deriva do seu nome persa.
Ao vê-la assim grácil nas ruas das cidades poucos imaginarão que o seu habitat natural - florestas, ravinas batidas pelo sol, margens de rios - se estende acima de 2000 metros nos Himalaias!

20/06/2005

Os nomes das árvores: Magnolia grandiflora

A designação vulgar de "magnólia" abrange actualmente mais de uma centena de espécies de árvores e arbustos originários tanto da América Central e do Norte como da Ásia.
A primeira magnólia a chegar à Europa -uma Magnolia glauca [M. virginiana; "Rose Laurel," sweet bay", "swamp magnolia"]- proveio da Virgínia, em 1688, enviada pelo missionário e botânico John Banister e foi plantada no parque do bispo de Londres, em Fulham. A designação do género, anterior a Lineu, deve-se a Charles Plumier, botânico do monarca francês, que em fins do séc. XVII assim pretendeu homenagear Pierre Magnol (1638-1715), autor da primeira classificação das plantas em "famílias" e director do Jardim Botânico de Montpellier, o mais antigo de França.
As famíllias agrupam árvores com características semelhantes, e aquela a que pertence o género Magnolia, designa-se justamente por Magnoliaceae. Um dos seus traços distintivos é a forma particular da flor em forma de tulipa. Refira-se a propósito que os tulipeiros (Liriodendrum tulipifera) pertencem também a um dos dez géneros desta famíla.

As magnólias que agora florescem são as Magnolia grandiflora, vulgarmente designadas apenas por "magnólia" ou "magnólia-branca", "magnólia-de-flores-grandes", "magnólia-sempre-verde" e ainda, simplesmente, "grandiflora".
É uma espécie perenifólia originária do sudeste dos Estados Unidos, a "sweet magnolia" das canções, conhecida também por "Southern magnolia" e "Bull Bay".
O primeiro exemplar plantado na Europa no início do séc. XVIII vegetou tristemente durante cerca de 20 anos numa estufa perto de Nantes, antes de ser transplantado para o exterior onde finalmente se desenvolveu e floriu abundantemente, atraindo visitantes de muito longe. O designativo da espécie, "grandiflora" faz jus às belíssimas flores brancas que podem em certos casos atingir cerca de 25 cm. de diâmetro, e que são com efeito as maiores do género.

05/03/2005

Os nomes das árvores: Palmeira-das-Canárias

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Se bem que vulgarmente sejam chamadas árvores, as palmeiras não o são e distinguem-se destas, entre outras razões, por não terem ramos e pelas características do seu caule (que se denomina espique e não tronco) sem anéis de crescimento, nem ritidoma, e constituído pela sucessão das bases foliculares.
Na altura em que Lineu as designou como "Principes plantarum", o mundo ocidental apenas conhecia cerca de 15 espécies. Actualmente estão classificadas na ordem das Palmales limitada à família denominada Arecaceae (também conhecida por Palmaceae e Palmae) que contem cerca de 200 géneros e mais de 2500 espécies.

A Palmeira-das-Canárias (Phoenix canariensis) é a espécie do género Phoenix mais plantada para fins ornamentais no nosso país devido à sua beleza e robustez. Pode confundir-se por vezes com a sua congénere, a tamareira (Phoenix dactylifera), mas os frutos são insípidos, tem um espique mais espesso e menos alto, e as características folhas pinadas (em forma de pena) são de um verde mais intenso e brilhante.
A designação do género é aliás o termo grego para a palmeira-tamareira e está relacionado não com a ave mítica renascida das cinzas mas com a Fenícia donde os gregos pensavam que era originária.
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Nas Ilhas Canárias de onde é oriunda esta espécie e onde pela primeira vez foi identificada pelo botânico inglês Philip Parker-Webb em 1840 (Cf. Brosse,2000), faz-se a extracção da seiva das palmas que depois de tratada fica reduzida a uma espécie de mel.

Ler Phoenix canariensis in the Wild (artigo originalmente publicado em Abril de 1998 na revista da International Palm Society)

07/01/2005

Os nomes das árvores - Romãzeira

.A romãzeira ou romeira (Punica granatum L.) é uma pequena árvore de tendência arbustiva com uma enorme resistência a condições de seca, apreciada tanto pelas flores como pelos frutos. Estes adornam tradicionalmente as nossas mesas nesta altura do ano com a sua coroa perfeita e interior deslumbrante. Associadas a votos de ano afortunado, em certas famílias há ainda o costume de, no dia dos Reis, partilhar romãs para que durante o resto do ano não falte sorte nem dinheiro. "Bagalhos" e "bagulhos" são aliás designações regionais e populares para os "bagos" da romã e para o dinheiro.

Quase toda a simbologia popular e erudita associada à romã - abundância, fertilidade, união - está relacionada com a opulência das suas sementes. Característica morfológica que também determina a designação da romãzeira na maior parte das línguas europeias e está patente no seu nome científico, Punica granatum, em que o último termo, designativo da espécie, significa "abundante em grãos".

Em português, sinónimos de romã, temos os regionalismos "milgrada, milgrã e milgranada", «de mil grãos ou mil sementes, onde mil significa número indefinido» como explica o grande etnólogo e filólogo José Leite de Vasconcelos. Igualmente se encontra o étimo latino relativo a "grãos", no granada espanhol e no grenade francês, verificando-se para além disso, a presença de elementos que significam "maçã", "pomo", por exemplo em inglês, pomegranate, alemão, granatapfel e italiano, melograne.
Neste último, transparece uma das denominações usadas pelo romanos para a romãzeira, malum granatum, em que "malum" (do gr. melon; dórico mâlon) é um termo genérico que muitas vezes serve para referir tudo o que se assemelhe a maçãs.

Plínio, o grande naturalista romano do séc. I da nossa era, denominou-a malum punicum. Esta última palavra deriva de "poeni" (do gr. phoenikes) nome que os romanos davam aos habitantes da cidade fundada pelos fenícios no séc. IX a.C. no Norte de África, e exprime a ideia "de Cartago"; pode também significar "vermelho, da cor da púrpura", a famosa púrpura de Tiro (substância corante proveniente de uma glândula de um gastrópode marinho do género Murex) que os fenícios comercializaram.
Punica granatum, o nome científico instituído por Lineu, baseou-se aparentemente nas duas denominações criadas pelos romanos, e mesmo sem ser deliberadamente, presta homenagem aos fenícios pois terão sido estes a introduzir a romã no ocidente trazendo-a da Ásia Menor onde há muito era apreciada.

O género Punica compreende apenas duas espécies: a P. protopunica que só se encontra na ilha de Socotorá (Iémen) e a P. granatum de que estamos a falar. Esta, oriunda de uma zona que se estende do sul do Cáucaso ao norte da Índia passando pelo Irão (antiga Pérsia), é um dos frutos de que se conhecem testemunhos mais antigos. Aparece, por exemplo, representada no túmulo do faraó Ramsés IV (séc. XII a.C.) e, é interessante notar, dada a sua importância na simbologia do judaismo, que a única relíquia recuperada do chamado primeiro templo de Jerusalem é uma pequena romã em marfim do séc. VI a.C.. Em hebraico diz-se "rimon", e "ruman" é o termo árabe equivalente de onde parece derivar o nosso romã. (o nome da romã noutros idiomas)
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Ver outras entradas da série Os nomes das árvores

26/12/2004

Os nomes das árvores- Canela

Há muitas espécies de árvores cujo nome é simplesmente canela ou canela qualquer coisa. O dicionário Houaiss, por exemplo, lista nada menos do que 86 termos em que aparece o vocábulo (ressalvemos todavia que alguns designam a mesma árvore ou arbusto.) Quase todas estas "canelas" pertencem à família das Lauráceas (Lauraceae) que agrupa árvores com madeiras aromáticas (e por vezes também fétidas), e aos géneros Cinnamomum, Cryptocarya, Ocotea, Nectandra e Persea.
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A canela da nossa doçaria, a que entrava no rol das especiarias que levaram os europeus a largarem rumo ao Oriente, e que motivou Sá de Miranda (1481-1558) a reclamar na sua famosa tirada :
«Não me temo de Castela
Donde guerra inda não soa,
Mas temo-me de Lisboa,
Que ao cheiro desta canela
O Reino nos despovoa.»
essa pertence ao género Cinnamomum, e é da espécie Cinnamomum zeylanicum, como já aqui aliás foi referido.
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A origem do nome vulgar da canela é muito simples de entender e transcreve-se na íntegra o que escreve José Pedro Machado, no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (Livros Horizonte, 1967, 2ª ed.) : «Canela: Árvore. De cana. Na origem é diminutivo do lat. Canna, "junco, canudo", pois a casca ressequida da árvore toma a forma de pequenos canudos. Séc. XVI em P.M.»
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Conquanto actualmente não seja usual, a esta especiaria também se costumava chamar canela-da-Índia, canela fina e canela-da-Rainha; esta última designação «dever-se-à ao facto da Infanta D. Maria (neta do Rei D. Manuel), mulher culta ligada à literatura e à culinária, ter utilizado esta especiaria em receitas que compilou no seu famoso livro de cozinha, nos finais do séc. XV/início do séc. XVI. O livro de cozinha da Infanta D. Maria.*» segundo escreve Cremilde C. Barreiros em "Lisboa Arte e Canela".
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Fotos manueladlramos 0112 - Alguma doçaria tradicional da quadra natalícia em que se usa canela.
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Quanto à razão de ser do seu nome científico, o termo que designa o género, Cinnamomum - e que dá origem por ex. ao vocábulo inglês cinnamon -também se deve ao modo como mais vulgarmente contactamos com esta planta: os canudos ou rolinhos do seu ritidoma. Segundo Jacques Brosse : «Cinnamomum: du grec Kinnamómon, de Kineien, "enrouler", a- "privatif" et mômos "défaut", car la plante n'était connue en Grèce, que par les petits rouleaux d'écorce aromatique de cannelier qu'on y emportait; ce mot était lui-même une déformation du nom hébreu de la cannelle, kinnemom.» (in Larousse des Arbres et des Arbustes. Paris : Larousse - Bordas, 2000)
Gernot Katzer na sua página dedicada à esta espécie de canela acrescenta :«(...) it is, however, possible that the word is ultimately loaned from an early Malaysian language, cf. the modern name kayu manis "sweet wood" in Malay and Indonesian ».
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Já o designativo da espécie, zeylanicum fala por si: de Ceilão (que desde 1972 se chama Sri-lanka). Lembremos a referência à origem desta especiaria, na estrofe 14 do "Canto IX", dos Lusíadas:
«Leva alguns Malabares, que tomou
Per força, dos que o Samorim mandara
Quando os presos feitores lhe tornou;
Leva pimenta ardente, que comprara;
A seca flor de Banda não ficou;
A noz e o negro cravo, que faz clara
A nova ilha Maluco, co a canela
Com que Ceilão é rica, ilustre e bela
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A origem geográfica (apesar da planta crescer abundantemente noutros locais como enumera Mrs. M. Grieve no seu famoso Modern Herbal: «Malabar, Cochin-China, Sumatra and Eastern Islands. Has also been cultivated in the Brazils, Mauritius, India, Jamaica, etc.. ») é também a razão de ser para a designação de Canela-da-Índia.
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Como já se referiu, há muitas outras espécies de árvores em cujo nome aparece o termo canela (sobretudo no Brasil), e dentro do próprio género Cinnamomum (que inclui cerca de 200 espécies) a C. Zeylanicum não é a única usada em culinária. Aliás nada nos assegura que a canela que compramos no supermercado, na mercearia ou a que (na minha opinião indevidamente) nos fornecem com o café para servir de colher, não seja, por exemplo, canela-da-China ou cássia-aromática (Cinnamomum cassia) que, segundo os entendidos, apesar de ter os mesmos constituintes e propriedades, é de qualidade inferior.
Mas se realmente quiser saber mais sobre os nomes (e não só) da(s) canela(s) inebrie-se com Gernot Katzer's Spice Pages, o melhor site sobre especiarias da internet, "ever"!
O que aqui lhe trouxemos é meramente um cheirinho...
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*Sobre estes manuscritos originalíssimos (e as suas modernas edições) ver:
As certidões de nascimento da cozinha portuguesa

08/12/2004

Os nomes das árvores - Ginkgo

(Família: Ginkgoaceae)
Nome científico: Ginkgo biloba
Nomes vulgares: Ginkgo, gincgo, nogueira-do-Japão
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Originária da China, esta árvore considerada um "fóssil vivo"- termo utilizado por Darwin para designar sobreviventes de um longínquo passado- aparece mencionada pela primeira vez na Materia Medica chinesa, Ri Yong Ben Cao (ca. 1350) e é posteriormente descrita em obras tanto chinesas (por ex. Ben Cao Gang Mu de Li Shi-Zhen, 1596), como japonesas.
Os europeus descobriram-na apenas no início do séc. XVII graças ao alemão Engelbert Kaempfer, botânico e médico que permaneceu no Japão (entre 1690 e 1691, ao serviço da Companhia Holandesa das Índias Orientais) e a quem se deve não só a primeira descrição científica ocidental da árvore, como provavelmente a sua introdução na Europa, mais particularmente na Holanda, onde o primeiro exemplar semeado dizem ainda se poder hoje admirar no jardim botânico de Utrech.
Também a Kaempfer devemos o nome corrente, pois ginkgo é a sua transcrição (1711) de "ginkyo", uma das denominações japonesas da árvore- mais concretamente o termo usado na literatura da época- cujos caracteres, idênticos aos que em chinês a designam, significam "alperce (ou amêndoa) de prata".


Fotos: mdlr
Em 1771, Lineu adopta a palavra para o género e utiliza o termo biloba (com dois lobos) para designar a espécie, devido à característica forma indentada das folhas. Note-se no entanto que nem todas as folhas têm esta particularidade (glosada por Goethe no seu conhecido poema).
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No século XIX, a ginkgo também foi conhecida por Salisburia adiantifolia, designação pro­posta em 1797 por Sir James E. Smith, fundador da Linnean Society de Londres -que achava o nome de origem oriental "uncouth and barbarous" (cf. Hui-Lin Li)- em homenagem ao seu amigo Richard A. Salisbury, botânico como ele, para além de horticultor.
Também neste caso, o desig­nativo da espécie exprime as características morfológicas da folhagem, semelhante às avencas, do género Adiantum, plantas conhecidas em língua inglesa per "mai­den hair fern", sendo um dos nomes comuns da ginkgo, em inglês, justamente "maiden hair tree".
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Inicialmente classificada como conífera e incluída na família das Taxaceae, a ginkgo é -desde as descobertas do botânico japonês Hirase em 1898, sobre as peculiares características dos núcleos das células reprodutoras masculinas- considerada a única representante viva das Ginkgoales, ordem de que se conhecem apenas vestígios fossilizados.

São admiráveis alguns dos sítios dedicadas a esta árvore na WWW. O mais completo, Ginkgo Pages, é da autoria de Cor Kwant, uma holandesa que reuniu um conjunto fabuloso de informações, nomeadamente fotografias de ginkgos do mundo inteiro, inclusivé Portugal. (A propósito faz-se aqui um pedido: se conhecer alguma ginkgo de algum modo notável, envie essa informação para o mail de Cor Kwant).
Ver também Ginkgo-"living fossil" (1 e 2), "product of Brian Chandler's fevered imagination"

18/11/2004

Os nomes das árvores - Dióspiro

Diospyros kaki L. (D. Sinensis Bl.) - Espécie originária da China e do Japão, foi introduzida na Europa em 1796, por William Roxburgh, botânico inglês responsável pelo jardim botânico de Calcutá. Todavia, ao contrário da sua congénere Diospyros lotus L, de frutos bastante mais pequenos, cuja cultura é documentada no 'velho continente' a partir dos finais do séc. XVI, a cultura do Diospyros kaki só começou a divulgar-se depois de meados do séc. XIX.

Kaki em francês, italiano e basco; caqui em catalão e no Brasil, onde também lhe chamam caquizeiro; kakipflaume em alemão; persimmon em inglês; e, se bem que não seja incorrecta a designação caqui (ou cáqui) (e caque e figo-caque em Macau, de acordo com o Houaiss), em Portugal chamamos a esta árvore, diospiro, dióspiro (ou diospireiro), designações derivadas directamente da denominação científica do género atribuída por Lineu. De acordo com Jacques Brosse*, Lineu usou o termo com que Teófrasto (c 371 -c. 287 AC) designava os frutos do já referido Diospyros lotus; sempre gostei de pensar que a palavra 'diospyros' significava "fogo dos deuses"! Mas não: se bem que 'dios', em grego seja com efeito 'de deus', já 'pyros' quer dizer 'o trigo, o grão', significando portanto o conjunto "alimento divino".


Quanto a kaki, designativo da espécie, é a abreviação de 'kakino', o nome japonês do fruto. E a mais não nos aventuramos, no que respeita as designações chinesas e japonesas do diospiro, pois existem nomes diferentes para todas as formas e partes do fruto e da árvore, consoante se encontram frescos, secos ou fermentados, salgados ou doces, em pó ou aos pedacinhos... Todas estas versões com propriedades a não desprezar, das quais decorei duas: a pele seca pode ser usada como adoçante e as sépalas secas e reduzidas a pó são boas contra os soluços!

Para terminar, fiquemos a saber que o género Diospyros (que conta com mais de 400 espécies) é o principal género da família das Ebenáceas, árvores e arbustos na sua maioria tropicais com madeira muito dura. A tão preciosa madeira de ébano provem justamente de árvores do género Diospyros: não só do D. ebanum, o verdadeiro ébano, de cor negra, como de outras espécies, com ébanos que podem variar do castanho escuro ao cinzento, com reflexos e veios de tonalidade mais quente. A designação em castelhano de "palo-santo" para o diospireiro tem decerto a ver com a sua madeira, também usada** em ebanesteria, a arte do ebanista, marceneiro "que ensambla ou entalha". ( cf. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)

* Larousse des Arbres et des Arbustes, Larousse-Bordas (2000)
** Segundo Lorenzo-Cáceres in Arboles Ornamentales

22/10/2004

Os nomes das árvores #1 - actualização

A resposta a uma pergunta enviada ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa sobre as designações de árvores, formadas por palavras compostas com nomes próprios deu azo a alguns comentários discordantes (e interessantes). Estes foram comunicados entretanto ao Prof. D' Silvas Filho que muito simpaticamente nos respondeu. Ver aqui.

Jacinto e os nomes das árvores...

«E o que esse Príncipe, nesta tarde, me esfalfou! Farejava, com uma curiosidade insaciável, todos os recantos da serra! Galgava os cabeços correndo, como na esperança de descobrir lá do alto os esplendores nunca contemplados de um mundo inédito. E o seu tormento era não conhecer os nomes das árvo­res, da mais rasteira planta brotando das fendas de um socalco... Constantemente me folheava como a um Dicionário Botânico.
- Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais ilustres da Europa, tenho trinta mil volumes, e não sei se aquele senhor além é um amieiro ou um sobreiro...
-É um azinheiro, Jacinto.
Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente.
E toda essa adorável paz do céu, realmente celestial, e dos campos, onde cada folhinha conservava uma quietação contem­plativa, na luz docemente desmaiada, pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava tão profundamente Jacinto, que eu o senti, no silêncio em que caíramos, suspirar de puro alívio.
-Tu dizes que na Natureza não há pensamento...
-Outra vez! Olha que maçada! Eu...»

Eça de Queiroz- A Cidade e as Serras (1901), Cap. IX, p. 243
(Ler cont. no site da BN sobre o autor.)

12/10/2004

Os nomes das árvores #1

Enviei, em tempos, umas perguntas para o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Verifiquei hoje que tiveram a gentileza de responder (ver aqui)
As perguntas: «A minha dúvida prende-se com a estranheza que me causa a ocorrência dos nomes de países com letra minúscula em designações por exemplo de árvores. Ex: pinheiro-do-brasil; pinho-do-paraná; araucária-da-austrália, etc. Será devido à utilização dos hífens? São correctas as versões dessas palavras sem hífen e com o nome dos países (estados, etc.) em letra maiúscula? Que regra é esta que transforma assim um nome próprio? Por ser elemento da palavra composta perde o seu estatuto?»

A resposta: «(...) A lógica, sendo 'Brasil, Paraná e Austrália' topó[ô]nimos, era que se escrevesse: 'pinheiro do Brasil', 'pinho do Paraná', 'araucária da Austrália'. No entanto, nestas grafias poderia ficar a ide[é]ia de que tais árvores seriam exclusivas de cada um destes países, o que não é o caso: por hipótese, todas elas poderão ser plantadas em países diferentes daquele que lhes deu a designação, isto é, do país ou localidade que figura como elemento comum no nome de várias árvores da mesma natureza. E como o conjunto forma um sentido único, este nome tem os seus substantivos, ambos comuns, unidos por hífen, numa palavra única, composta: pinheiro-do-brasil, pinho-do-paraná, araucária-da-austrália/-do-chile/-da-caledó[ô]nia/-do-japão. Da mesma maneira que escrevemos, por exemplo: erva-de-santa-maria, ou água-de-coló[ô]nia, embora Maria e Coló[ô]nia sejam nomes próprios. Ao seu dispor, D' Silvas Filho»

Ficam desde já aqui os meus agradecimentos. Todavia não fiquei ainda esclarecida se, de acordo com os distintos especialistas do Ciberdúvidas, a utilização da letra maiúscula nos nomes compostos hifenizados é aceitável (por ex: pinheiro-do-Brasil, araucária-da-Austrália, etc..). Que se usam, usam!

13/07/2004

Pinheiro do Paraná #1

Fotografia: S. Miguel de Seide > - Famalicão
A araucária-do-Brasil (A. angustifolia) não é tão frequente em Portugal como a sua congénere Araucaria-de-Norfolk (A. heterophylla) , mas vai-se encontrando em algumas quintas e jardins, sobretudo no Norte.
A designação actual da espécie, que já foi denominada A. brasiliensis, deve-se ao facto das suas folhas serem estreitas ("angusti" em lat.).

No Brasil, onde aparece nada menos do que na bandeira de um estado (Paraná) e de sete municípios (Araucária , Curitiba, Ibaporã , Irati , Pinhalão , S. José dos pinhais ), são muito variadas as suas denominações, podendo citar-se entre outras: curi, curiúva, pinheiro-araucária, pinheiro-são-josé; os nomes mais correntes em Portugal são araucária do Brasil, pinheiro-brasileiro e pinho ou pinheiro do Paraná.
O nome da capital deste estado, Curitiba, deriva justamente da expressão em língua tupi: "curi" (pinheiro ) e "tiba" (muito, abundante).

Enquanto que a nossa preocupação pelos exemplares que vão resistindo à urbanização e destruição dos jardins pode ser considerada um tanto ou quanto diletante, no Brasil o assunto é bem mais sério e prende-se com a sobrevivência das florestas originais.
Ver por exemplo: S.O.S Araucárias
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"Paraná" - Através do Brasil ; "O maior e mais belo exemplar ..." (em Portugal)