16.6.05

Introdução à Inglaterra


Foto: pva 0506 - plátano em Hampstead Heath, Londres

«Eu sei que é ridículo em Portugal amar outros países, quando é hábito, e mesmo uma instituição nacional, fazer profissão de amor pelo nosso. É precisamente isto que eu acho um pouco ridículo, um pouco ingénuo, talvez como que a suspeitosa necessidade de reafirmar patriotismo, peculiar às pátrias muito jovens ou bastante provectas. (...) Os portugueses não têm, em geral, destas segundas pátrias, uma vivência profunda, talvez porque não saibam verdadeiramente viver, de ponta a ponta, lucidamente, a vida que racionalmente criaram. (...)

Para um natural de um país onde tudo desaparece, onde as memórias (históricas ou individuais) são um exercício convencional, é sentimentalmente agradável e espiritualmente de uma suave amargura viver num país cuja vida é socialmente um exemplo da lei de Lavoisier ou, mais latamente, do princípio da conservação da energia... Aqui, nada se perde, tudo se transforma; é possível viver-se, sem nostalgias literatas ou patrioteiras, no real rio sempre fugidio da vida, sabendo que as águas não são as mesmas, mas o rio é. (...)

Em Portugal, é diferente: tudo se perde, e nada se transforma. Aqui, perto de mim, nesta aldeia do Buckinghamshire de onde escrevo(*), para além destas árvores magníficas onde há pássaros e passeiam esquilos, está o velho cemitério acerca do qual Gray escreveu um dos mais belos poemas do século XVIII (**). Toda a gente aqui sabe disto, e é difícil distinguir quem está em dívida, se o velho cemitério à volta da igrejinha, se o sábio e catedrático Gray.»

Jorge de Sena, Sobre Literatura e Cultura Britânicas (ed. Relógio D'Água, 2005)

(*) Stoke Poges
(**) Elegy Written in a Country Church-Yard de Thomas Gray (1716-71)

7 comentários :

Anónimo disse...

Wonderful!

Alexandre Leite disse...

a ligação para o poema tem o último "L" a mais. O link correcto é: http://www.blupete.com/Literature/Poetry/Elegy.htm

Maria Carvalho disse...

Obrigada pela chamada de atenção. Já corrigi o atalho.

Draco disse...

Para quem, como eu, é apaixonado pelas ilhas britânicas, este post é um bálsamos reconfortante.

As àrvores inglesas são de facto lindas. A devoção daquele povo por plantas e jardins é incomparável.

Há muitos anos que eu digo que gostava de ser enterrado num cemitério inglês pelo verde com que ficava à minha volta.

Esta foto está já no meu desktop.

obrigado!

Carla de Elsinore disse...

nem sei para onde me virar. belíssima foto, belíssima árvore sobretudo e que adequada prosa.

Cláudia disse...

Não há palavras para dizer como esta árvore é magnífica!

zazie disse...

que maravilha este blogue! e ao tempo que não vinha cá. Que estupidez...

parabéns menina! conto passar pelas brasas debaixo desse plátano não tarda muito...

";O)