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28/02/2011

Bloomsbury

Woburn Square
Bury é palavra do inglês antigo que designa fortificação ou castelo; corresponde ao borough do inglês moderno, numa evolução que atesta como modernizar pode não ser simplificar. Da mesma raiz latina nasceu o burgo português. Chegamos assim a uma possível explicação do topónimo que dá título a este texto: Bloomsbury seria Burgo das Flores ou talvez Burgo em Flor. O inglês é porém uma língua traiçoeira que tem fraco comércio com a lógica: aquele bloom não resultou de nenhuma flor, mas sim (de acordo com a Wikipedia) do desgaste a que o uso dos séculos submeteu o antropónimo Blemond.

Sucede no entanto que a interpretação florida do nome Bloomsbury, mesmo tendo por base um equívoco fonético, acaba por ter uma contrapartida bem real. Bloomsbury é o bairro de Londres onde as praças ajardinadas são de acesso livre, e não — como sucede em Chelsea, South Kensington, Belgravia e em inúmeros outros bairros da capital britânica — restrito aos privilegiados moradores dos respectivos quarteirões. É pois um lugar aberto em que os jardins são franqueados a toda a gente: trabalhadores locais no intervalo do almoço, estudantes do vizinho University College, indígenas desocupados, a massa heterogénea e sempre renovada de turistas. A informalidade é regra quase compulsiva: nos dias de Verão são muitos mais os que se estendem na relva do que aqueles que se acomodam num banco de jardim.

Esse anti-elitismo de Bloomsbury vem de longe. Aprendemos com os romances vitorianos que morar em Bloomsbury, no século XIX, não era propriamente um sinal de distinção, apesar da imponência marcante do Museu Britânico. Podiam viver no bairro pequenos proprietários ou profissionais medianamente bem sucedidos, à mistura com uns tantos intelectuais, mas a aristocracia, tanto a de sangue como a financeira, nunca escolheria lá morar. Em Bloomsbury trabalhava-se e estudava-se; os lugares da diversão requintada, com a épica saison estival de bailes e jantares de gala, eram bem outros.

Além de ter registado para a posteridade como era a Bloomsbury novecentista, a literatura ajudou à transformação do lugar ao dar-lhe uma imorredoura aura cultural. O famoso grupo de Bloomsbury que gravitou à volta de Virginia Woolf reunia-se nas casas que rodeiam os mesmos jardins que hoje podemos visitar. Muitos desses edifícios foram desde então ocupados pela Universidade de Londres; Gordon Square e Woburn Square (foto acima), talvez as mais bonitas e pacatas praças de quantas existem no bairro, frequentadas que foram por Virginia e pelo seu marido Leonard, são também hoje património universitário.

Talvez nada haja de espectacular nos jardins que preenchem essas praças. O que há é uma normalidade quotidiana que preza a sombra das árvores e faz do sossego e do bom gosto uma componente essencial da vida urbana. Nesses jardins há sempre flores, e não apenas em arranjos formais: alguns recantos (especialmente em Gordon Square) parecem retalhos de natureza que escaparam incólumes ao cerco da cidade.

Antes de avançarmos pela Primavera dentro, fazemos uma pausa citadina: as flores e árvores que esta semana nos visitam vêm todas das praças de Bloomsbury. Para começar temos plátanos, uma ameixeira-de-jardim, arbustos diversos, e Gandhi em Tavistock Square rodeado por tulipas.


26/12/2009

O jardim que foi cemitério



St George's Gardens - Londres

A meio caminho entre Russell Square e King's Cross encontra-se, escondido entre prédios, um cemitério morto que é uma apoteose de vida. Cemitério morto porque desde há mais de século e meio ninguém lá é enterrado; e vivo por causa das árvores e de toda a fauna de insectos, pássaros e esquilos que lhe está associada. Não ultrapassa um hectare de área, mas é bem mais valioso do que aqueles jardins e parques, mesmo que amplos, onde as árvores nunca são autorizadas a crescer.

Conta a placa no local que o cemitério, um dos primeiros na Grã-Bretanha a não ficarem anexos a uma igreja, foi aberto em 1713 num terreno descampado. Em 1855, quando o cemitério teve de encerrar por sobrelotação, a cidade tinha crescido desmesuradamente a toda à volta. Rebaptizado como St George's Gardens, reabriu em 1885 como jardim público ao gosto vitoriano, mantendo-se os já então seculares plátanos a pontuar os meandros dos caminhos.

De formato rectangular truncado, alongando-se por 200 m no sentido este-oeste, com um acesso no extremo oeste e mais dois no extremo oposto, o jardim, além de nos induzir ao descanso com os bancos bem servidos de sombra, funciona como atalho aprazível, surpreendente ao primeiro encontro, para quem se desloque a pé.

23/12/2009

Quarto com vista, 2



Russell Square, Bloomsbury, Londres

   They perished on the scaffold: Williams, as I have said, by his own hand;
and, in obedience to the law as it then stood, he was buried in the centre
of a quadrivium, or conflux of four roads (in this case four streets), with
a stake driven through his heart. And over him drives for ever the uproar
of unresting London!
Thomas de Quincey
   On Murder Considered as one of the Fine Arts (1827)
A velocidade e o ruído não começaram com o automóvel, e são mesmo anteriores à invenção da máquina a vapor. Thomas de Quincey (1785–1859) fala-nos de uma Londres incessante e tumultuosa num tempo em que só havia veículos de tracção animal. O mesmo autor, em The English Mail-Coach (1849), descreve como autênticos bólides as carruagens a cavalo que, no primeiro quartel do século XIX, combinavam serviço postal com transporte de passageiros. Quando o cocheiro adormecia, como adormecem hoje ao volante os motoristas de longo curso, as consequências só não eram tão trágicas porque os cavalos à rédea solta sabiam manter-se na estrada. De Quincey, relatando uma quase colisão que ele próprio, como único passageiro desperto num veículo desgovernado, conseguiu evitar com um grito de alarme, dá-nos uma imagem mortífera da velocidade raras vezes igualada nesta nossa época de aeroportos e auto-estradas. Talvez porque o intervalo entre a consciência do perigo e a sua consumação esteja hoje reduzido a zero.

O trânsito em Londres nunca pára. Já não será a chiadeira dissonante das carroças e dos coches, nem o matraquear das patas dos cavalos, mas um ruído mais manso, ronronante, que sobe e desce como o marulhar das ondas. Ruth Rendell, em Thirteen Steps Down (2004), compara o rumor da Westway, um grande braço de auto-estrada que sobrevoa Notting Hill, à agitação do mar, mais calmo de marés à noite mas nunca silencioso.

Quando no hotel me foi dado escolher entre um quarto virado para a praça e outro para as traseiras, não tive dúvidas em optar pelo primeiro. Afinal, além de ficar a saber como é Russell Square vista pelos pássaros, ainda iria ter, a embalar-me o sono, o tal uproar of unresting London celebrado por De Quincey, em versão revista e actualizada para o século XXI. A caixilharia frágil, incapaz de atenuar o ruído, assegurou-me pela noite dentro a plena fruição desse concerto motorizado, com os veículos ligeiros a soarem as notas agudas sobre o baixo trepidante dos autocarros. O registo fotográfico, porém, foi prejudicado pelo estreito ângulo de abertura da janela, e só consegui captar um dos cantos da praça. Daí o bónus de uma foto tirada ao nível do chão.

Bloombsbury e South Kensington são dois dos pedaços de Londres mais aconchegantes, com praças arborizadas como refúgios de sossego que o trânsito automóvel, tantas vezes intenso, não chega verdadeiramente a perturbar. Bloomsbury, menos requintada, é também a mais democrática: as praças e os jardins estão abertos a toda a gente, e não apenas, como sucede em South Kensington e em Chelsea, aos moradores do quarteirão. Russell Square, a dois passos do Museu Britânico e da Universidade de Londres (University College), é tão só a maior de uma meia dúzia de praças ajardinadas que se espalham num raio de quinhentos metros: Bedford Square, Tavistock Square, Gordon Square, Queen Square, Bloomsbury Square. Todas elas estão dominadas por enormes plátanos e colonizadas por esquilos atrevidos, dependentes da (muita) fauna humana para a sua alimentação.

Numa tarde de sábado em Agosto, fui ao cinema Renoir (no Brunswick Centre) ver Home, filme belga que, por inadvertência, deixara fugir aquando da sua exibição no Porto. Com uma auto-estrada a dez metros de casa, há uma família, com Isabelle Huppert no papel de mãe, que quase se suicida ao tentar a todo o custo isolar-se do trânsito atroador. Se o enredo encoraja leituras metafóricas óbvias, o filme não deixa de ser uma lição prática de como o ruído e o tumulto modernos ultrapassam, em capacidade de enlouquecimento, tudo quanto foi testemunhado por Thomas de Quincey.

03/12/2009

Árvores




Plátanos (Platanus orientalis var. acerifolia) - Caldas de Moledo

Que árvores tem a Régua? Três ou quatro, e essas mesmo desenhadas num papel ou esculpidas em cimento armado. Se assim não fossem, já não existiam. A Régua, por influência do nome, só admite árvores regulares. Árvores que cresçam torto, pisem o risco ou abram os braços, não servem. (...) Seja assim nos sítios em que as árvores irregulares estorvem. Fora desses sítios, plantem-se árvores que vivam à lei da Natureza. (...)

[Admite-se que um belo renque de árvores, numa rua, possa incomodar o Menino Isaac, tão melindroso, que se constipa quando vê uma folha. Arrumadas as árvores num parque, é de supor que não incomodem ninguém.]

Parque, salvo seja, é coisa catita, imaginada e mantida por cabeleireiro. A Régua tem obrigação de idear e enraizar uma frondosa mata. (...) O nosso fim é coagir a Régua, suavemente, a ir plantando alguns milheiros de árvores. Na Chafarica ou onde melhor pareçam e se desenvolvam, sem as obrigarmos a mudar de poiso de oito em oito dias e a fazer a barba
às quartas e sábados.

João de Araújo Correia, Pátria Pequena (Imprensa do Douro, 1977)

23/10/2009

Tim Burton em Vila Real



Se estas figuras no largo da Igreja de São Pedro, em Vila Real, aspirassem a proezas olímpicas, a androginia de que dão mostras seria obstáculo sério, a julgar por notícias recentes. Vistas ao longe e de costas, parecem mulheres muçulmanas embrulhadas em xailes e mantos, com uma incongruente rodela de pano à cabeça para equilibrar a bilha de água ou a canastra do peixe. Encaradas de frente, revelam-se desprovidas de cabeça e deixam à mostra um peito nu, raso e masculino. Não sabemos, por isso, do que falam nas suas conversas - ali, no largo da igreja, à sombra fugidia dos plátanos, com o arvoredo do Parque Florestal em fundo. Não sabemos se é conversa de mulheres ou de homens; se é conversa atinada ou desmiolada; se a cabeça afinal faz falta e se, por conseguinte, não há conversa possível.

10/11/2007

Outono por um fio


Alameda de plátanos de Ponte de Lima vista da outra margem, com amieiro em primeiro plano

30/07/2007

Cortina rasgada



A Avenida AEP, outrora Via Marechal Carmona, permitia, não há muitos anos, que nela circulassem peões e bicicletas: era então possível ir a pé, em pouco mais de meia-hora, da Rotunda da Boavista à Senhora da Hora, em Matosinhos. E o caminho, apesar de cruzar uma zona industrial, nem era desagradável de todo: a sombra dos plátanos era generosa, e a via para peões e ciclistas estava bem resguardada do restante tráfego. Mas aos poucos tudo foi mudando: a avenida passou a ser parte de um IC, mais tarde renomeado A28, construíram-se acessos e nós de auto-estrada, abriram-se passagens desniveladas, eliminaram-se passeios. Hoje, a ex-avenida é apenas uma peça adicional da cada vez mais apertada muralha rodoviária que cerca a cidade e nos obriga a usar o automóvel até em pequenas deslocações. Com a promoção à categoria de auto-estrada, surge em 2005 a inevitável ideia do alargamento: de momento, em Portugal, auto-estrada que se preze tem no mínimo três faixas em cada sentido; contudo, esse é apenas um estádio intermédio, altamente provisório, na cadeia evolutiva que nos levará às quatro, cinco ou sabe-se lá quantas mais faixas.

Na altura, eu e os meus colegas da Campo Aberto escrevemos a várias entidades (Estradas de Portugal, Instituto do Ambiente, Vereadores do Ambiente e do Urbanismo da Câmara do Porto), manifestando preocupação pelo destino dos mais de 100 plátanos adultos da ex-avenida, e pedindo informações adicionais sobre o projecto. Como é hábito em Portugal, não nos chegou qualquer resposta, mas também não voltámos a ouvir falar do projecto. Notícia recente no JN assegura-nos que ele não foi abandonado - o que só mostra como por cá as más ideias resistem facilmente às mudanças de governo. Quanto aos plátanos, uma fonte (não de água, mas falante) da empresa Estradas de Portugal terá dito o seguinte: «Apesar de ser feito um esforço no sentido de preservar a cortina arbórea existente ao longo de parte do IC1, será necessário afectar algumas dessas árvores para permitir a articulação da rede viária de cariz mais local.»

Não há que enganar: os rasgões na cortina hão-de ser grandes e sem remendo possível. Mas, como de nada serve enviar nova carta, limito-me a reproduzir textualmente, sem omitir nomes, aquela que a Campo Aberto enviou em Março de 2005 à Estradas de Portugal, E.P.E. (as outras três cartas tinham teor semelhante). Não vejo razão para lhe mudar sequer uma vírgula, e pode ser que desta vez alguém a leia.



......................................................Exm.º Senhor
......................................................Presidente do Conselho de Administração
......................................................EP - Estradas de Portugal, E.P.E.
......................................................Praça da Portagem
......................................................2809-013 ALMADA

.......Porto, 3 de Março de 2005

.......Assunto: alargamento da Avenida AEP (Porto)

.......Exm.º Sr. Engº António Carlos Laranjo da Silva,

.......Foi noticiado no jornal O Primeiro de Janeiro de 18 de Fevereiro de 2005 que está em estudo um possível alargamento da Avenida AEP, abrangendo o lanço da IC1 entre o Nó de Francos (concelho do Porto) e a Ponte de Leça (concelho de Matosinhos). O projecto, segundo a notícia, encontra-se em discussão entre a EP – Estradas de Portugal e as autarquias do Porto e Matosinhos para «acerto de pormenores», prevendo-se o seu envio ao Instituto do Ambiente, para análise do impacto das alterações propostas, até ao Verão do corrente ano. O Sr. Secretário de Estado das Obras Públicas, Eng. Jorge Costa, em declarações ao mesmo jornal, afirmou acreditar que a obra seja lançada e adjudicada no início de 2006.
.......A associação Campo Aberto vem manifestar a sua extrema preocupação pelas possíveis consequências desta empreitada no troço da Avenida AEP incluído no concelho do Porto. Esta estrutura viária, que corresponde à antiga Via Marechal Carmona e divide ao meio a zona industrial de Ramalde, foi construída na década de 1950 segundo o Plano Regulador da Cidade do Porto da autoria de Antão de Almeida Garrett. Acompanhando de ambos os lados a zona industrial, existe uma arborização contínua e homogénea, formada por mais de uma centena de plátanos de grande porte com cerca de cinquenta anos de idade. Até há poucos anos essa arborização estendia-se por toda a antiga Via Marechal Carmona, mas o desnivelamento do seu troço final levou ao arranque das árvores entre o viaduto de Antunes Guimarães e a rotunda AEP. Pelo seu número, pelo porte saudável que exibem, pelo seu valor paisagístico e ambiental, os plátanos sobreviventes constituem um património natural a preservar a todo o custo. Embora a notícia suscite dúvidas, pois fala de um alargamento para três faixas em cada sentido quando de facto tais faixas já existem (embora uma delas seja para transportes públicos), queremos deixar bem claro que consideramos o alargamento dessa via, e consequente abate de ainda mais árvores, como um atentado lesa-património que nenhum estudo de mobilidade viária pode justificar.
.......Há um outro aspecto do projecto divulgado que nos deixa perplexos: a construção de dois novos viadutos sobre esse troço da Avenida AEP, que ficaria com nada menos que três viadutos numa extensão de poucas centenas de metros. É pouco crível que as necessidades de deslocação entre as duas metades da zona industrial, que não registou expansão visível nas últimas décadas, justifiquem uma tal profusão de viadutos, construções pesadas que degradam inevitavelmente a paisagem urbana; e, em qualquer caso, é bom lembrar que o actual viaduto já serve o mesmíssmo propósito de conectar os dois pólos industriais.
.......Em conclusão, e considerando que o seu impacto negativo é inteiramente desproporcionado dos possíveis ganhos em fluidez de tráfego (que são sempre provisórios, pois maiores facilidades de circulação atraem sempre mais automóveis), somos enfaticamente contra a anunciada intervenção no troço portuense da Avenida AEP, tanto no que toca ao seu possível alargamento como à construção dos viadutos – os quais, se o alargamento não o fizer, também obrigariam ao sacrifício de numerosos plátanos, e ao consequente rompimento da continuidade paisagística desses dois alinhamentos arbóreos, notáveis apesar da amputação que sofreram no troço final da Via.
.......Vimos solicitar a V. Ex.ª que, com a brevidade possível, nos sejam facultadas informações detalhadas sobre o projecto.

.......Com os melhores cumprimentos,
.......Paulo Ventura Araújo



Fotos de Manuela D. L. Ramos (Março 2005)

28/07/2007

Ter olhos e não ver

Estas árvores -tílias em Ramalde e plátanos no Passeio Alegre - são árvores condenadas. O seu destino foi traçado por pessoas que, apesar de terem olhos não vêem; são incompetentes; aparentemente desconhecem e não cumprem o Regulamento Municipal dos Espaços Verdes (RMEV)- disponível para consulta na página web da CMP (doc) ; gastam o nosso tempo, a nossa paciência e o nosso dinheiro.



O que seria de esperar de qualquer pessoa com um mínimo de bom senso era que não plantasse árvores de grande porte e copa larga em passeios estreitos, a pouca distância de paredes ou outros obstáculos, neste caso dois obeliscos classificados de interesse público (oriundos da Quinta da Prelada)

Fruto de um mau planeamento, estas são árvores condenadas, para seu mal e nosso profundo incómodo, a serem maltratadas, mutiladas, indecentemente podadas. Não, nem todas as histórias têm fim, esta "is a never ending one" .

16/07/2007

Granja e Macondo




Quem do sul viaja de comboio para o Porto depara, pouco depois de Espinho, e marginando a ferrovia pelo lado do mar, com uma sucessão de velhas casas sombreadas por plátanos. Mais altas ou mais baixas, geminadas umas com outras ou isoladas nos seus jardins, todas acusam o desgaste da idade; muitas delas, ao abandono, têm já a sentença de demolição lavrada em cartaz. É a Granja, local dilecto de veraneio da burguesia portuense, descrito por Ramalho Ortigão em As praias de Portugal (1876); é a praia mítica, já tocada de nostalgia e decadência, de Sophia de Mello Breyner Andresen. As férias de Verão, que duravam meses, eram uma vida à parte, muito mais desligada da cidade do que as actuais férias de pacote em paraísos tropicais: era outra a casa, outros os ritmos, outras as diversões. Havia na Granja, funcionando apenas no Verão, um clube recreativo com chá das cinco para as senhoras e, abrindo à noite, salas de jogo e de convívio e um grande salão de baile com orquestra privativa. O edifício do clube, rectangular e térreo, está reduzido à ruína que a segunda foto documenta. Custa hoje concebê-lo como cenário que foi do conto Praia, que decorre por alturas da 2.ª guerra e foi incluído por Sophia nos seus Contos exemplares (1962):

«Era uma espécie de clube de Verão, um grande casarão quadrado, pintado de amarelo e com grades verdes na varanda que dava para a avenida onde os plátanos maravilhosos povoavam a noite. Cheirava a maresia e a fruta. Longas músicas pareciam suspensas das árvores e das estrelas. E entre as casas brancas, na noite escura e azul, passava o rolar do mar.»

Não foram só as mudanças sociais e dos hábitos de veraneio que arruinaram a Granja. Há ondas de vulgaridade que, alastrando de Francelos e Miramar, vêm substituindo as venerandas mansões por vivendas sem carácter ou, pior ainda, por prédios de apartamentos com muitos andares; contudo, talvez a suburbanização seja preferível ao abandono. Mas outras ondas há de uma crueldade mais requintada: aquelas literais, vindas do mar, que levam consigo toda a areia da praia.

Desde a Primavera de 2002, quando se concluiu a construção do quebra-mar da Aguda, a praia da Granja tem vindo a ser chupada até ao osso. Todos os anos, antes da época balnear, a Câmara de Gaia manda lá um vaivém de camiões despejar areia para que o mar não avance até ao paredão. Os poucos banhistas estendem-se no areal postiço que todos os dias estreita um pouco mais. Em meados de Setembro, quando se levantarem as últimas toalhas, serão também arrastadas as últimas areias.

09/06/2007

A ler- "Plátano mais airoso aos 169 anos de idade"

«O famoso Plátano do Rossio de Portalegre sofreu na terça-feira uma operação de limpeza e de manutenção, uma situação que não passou despercebida aos muitos portalegrenses que, durante este dia, se passearam pelo Rossio.
O mais célebre plátano do País está agora mais "airoso". Isto porque dois técnicos de arboricultura da Fundação Serralves passaram o dia de terça-feira em Portalegre a fazer a manutenção do Plátano. Um trabalho "cuidado", segundo afirmam, para que a árvore centenária fique nas melhores condições. (...)»
continuar a ler reportagem no Jornal Fonte Nova >

04/05/2007

"...and my heart has been struck with the hearts of the planes!"

.
The Trees Are Down
"...and he cried with a loud voice: Hurt not the earth, neither the sea, nor the trees"-Revelation

They are cutting down the great plane-trees at the end of
the gardens.
For days there has been the grate of the saw, the swish of
the branches as they fall,
The crash of the trunks, the rustle of trodden leaves,
With the 'Whoops' and the 'Whoa', the loud common talk,
the loud common laughs of the men, above it all.

(...)
It is not for a moment the Spring is unmade to-day;
These were great trees, it was in them from root to stem:
When the men with the 'Whoops' and the 'Whoas' have carted
the whole of the whispering loveliness away
Half the Spring, for me, will have gone with them.

It is going now, and my heart has been struck with the
hearts of the planes;
Half my life it has beat with these, in the sun, in the rains,
In the March wind, the May breeze,
In the great gales that came over to them across the roofs from the great seas.
There was only a quiet rain when they were dying;
They must have heard the sparrows flying,
And the small creeping creatures in the earth where they were lying -
But I, all day, I heard an angel crying:
'Hurt not the trees.'

© by Charlotte Mew
(post dedicado a todos os que sentem uma profunda dor com o abate dos plátanos do Campo Pequeno em Lisboa)

23/02/2007

Jardins de inferno

espaços onde custa respirar


"Poda" de plátanos em Lagoa, freguesia de Aboim, concelho de Fafe (fotos de Alexandre Leite)
.
Em 1875 (sim, leram bem: 1875!), José Duarte de Oliveira Júnior, a propósito do que apelidou "hecatombe de 23 de Fevereiro", escrevia:
«Supomos que não haverá ninguém que, por mero divertimento ou para matar o tédio, tome da pena como arma ofensiva e venha para a imprensa agredir um indivíduo ou ofender uma corporação. Quem tal fizesse teria dado provas da baixeza do seu carácter ou da perversidade do seu talento.
Esta é a nossa maneira de pensar, esta a nossa maneira de proceder. Censurar não é atacar violentamente e quando censuramos é com maior pesar e por vezes com a máxima repugnância, porque a nossa aspiração constante seria elogiar sem sair dos limites do justo.

Há todavia certos factos perante os quais é quase uma vergonha o silêncio. O que ultimamente tem sucedido com a jardinagem portuense* está clamando não diremos vingança, mas um protesto selene. É o que fazemos: protestamos. Julgamos isso um dever.
A jardinagem de uma cidade é um ramo importante do serviço público e deve merecer todo o cuidado da câmaras municipais. O vereador encarregado deste pelouro não deve ignorar tão completamente os rudimentos de horticultura que deixe praticar as maiores arbritariedades ao pessoal que lhes obedece. Quando o município não tem empregados peritos e suficientemente ilustrados, é necessário que o director do pelouro tenha o senso comum suficiente para consultar as pessoas entendidas e deixar-se guiar pelos seus conselhos. p. 97(...)
Veja-se quanto não pode a ignorância e os entendimentos de verdadeiros vândalos! Muito de propósito, para que os vindouros possam avaliar os actos de selvajaria que se praticavam nos fins do século XIX na ditosa pátria minha amada, mandamos fazer estes desenhos, que falam mais ao vivo do que qualquer minuciosa descrição. Em face deste vandalismo poderíamos realmente ficar silenciosos? p. 99
(...)»
José Duarte de Oliveira Júnior, “Crónica Hortícola-agrícola”, Jornal de Horticultura-Prática, Vol. VI, 1875 (ler versão on line > imagens 55 e 56 )

NB *Substituir portuense pelo gentílico correspondente à localidade onde continuam a ser praticados impunemente os actos de selvajaria que este blogue, e este, e este , e este (entre outros) têm vindo a denunciar.

17/01/2007

Selvajaria

Rolagem e abate de plátanos na Covilhã
É lastimável continuarem a abundar casos como este, prova de ignorância e insensibilidade -enquanto rareiam as boas práticas- como por exemplo o trabalho conduzido por técnicos habilitados, de diagnóstico e poda cirúrgica das árvores do monte da Penha!

Até quando se vai continuar a permitir este tipo de actuação?
Senhores arboricultores não estará na altura de se fazer mais alguma coisa? De se levar este assunto à Assembleia da República? Uma vez que parece não haver iniciativas partidárias, para quando uma recolha de assinaturas exigindo legislação que impeça e puna estes actos de vandalismo? Estamos à espera!

Fotos enviadas por Pedro Santos do Sombra Verde.
Ler os seus comentários sobre mais este caso de selvajaria
aqui e aqui.



Rolagem e abate de plátanos na estrada N230 entre a Covilhã e o Tortosendo

Mais fotografias no Dias sem árvores

02/01/2007

Plata-nus



Plátanos no Parque da Cidade: Novembro de 2006 / Janeiro de 2007

Para observadores menos treinados, esta é a época em que quase todas as árvores caducifólias se remetem ao anonimato, deixando tombar as últimas folhas como quem descarta o bilhete de identidade. Passar-se-ão meses até que, com o rebentar das novas folhas, lhes possamos restituir os nomes perdidos. Mas nem todas as árvores troçam da nossa ignorância: o plátano, com a franqueza rude que lhe é própria, é tão assumidamente ele mesmo quando despido como quando coberto de folhagem. É que a sua casca (ou ritidoma, para sermos precisos) vai-se continuamente soltando em pequenas lascas, imprimindo-lhe no tronco um inconfundível padrão marmoreado. Verdade esta que pode também ser comprovada nos plátanos jovens que compõem a mais bonita e panorâmica alameda do Parque da Cidade.

31/07/2006

Caldas de Moledo - rolagem em "plátanos ancestrais"


Rolagem em plátanos e tílias- Caldas de Moledo - Janeiro de 2004 e Abril de 2006
clicar nas imagens para aumentar



Quando ancestral deixa de rimar com ornamental...

Alguns dos plátanos ancestrais da Estância Termal das Caldas de Moledo- como são designados no site da Câmara Municipal da Régua - têm vindo a ser repetidamente submetidos a podas drásticas. Quando os vi pela primeira vez, em Janeiro de 2004, pensei que a rolagem tinha sido recente! Mas não, acontecera dois ou três anos antes, como me informaram da Junta de freguesia de Fontelas para onde telefonei. Segundo o mesmo funcionário, o problema tinha sido uma doença "de que se não lembrava o nome", diagnosticada por entidades competentes da UTAD -que, frisou, não tinham sido os autores dessas "podas entre aspas camarárias" (sic). Em resposta ao meu protesto e desgosto pelo tristíssimo e degradante espectáculo, a mesma pessoa afiançou-me que se lá fosse em Junho encontraria "as árvores compostinhas e tudo muito bonito".

Só voltei em Abril deste ano e ia prevenida por uma pessoa amiga que passa semanalmente pelo local: tal como nos anos anteriores, as árvores tinham sido de novo radicalmente podadas. Aliás não são os únicos plátanos de grande porte barbaramente tratados: na cidade da Régua é chocante a visão de exemplares que se adivinha serem centenários e terem sido gigantescos, com as copas truncadas. De referir em local público desta cidade, um plátano de 120 anos que se encontra num pequeno jardim (rua Dr. José de Sousa) e se salvou intacto da barbárie, provavelmente por ter sido classificado árvore de interesse público em 1999 (juntamente com um Cedrus deodara de 200 anos).

Agora que se fala de modo mais insistente sobre uma futura requalificação deste espaço histórico (ver aqui e aqui) haja discernimento suficiente para impedir que se repitam actos como este - e coragem para retirar as pobres árvores (pobres de nós) decepadas.

É pena que a legislação não preveja punição consequente para os responsáveis. E lamentável não se ouvir, não se ver mais gente a clamar contra atentados desta natureza.

Sabemos de alguém- caso ainda estivesse entre nós- que de certeza não se manteria calado: referimo-nos a um dos mais distintos contistas portugueses, João de Araújo Correia, duriense apaixonado pela sua terra e por árvores, e que muito apreciava o Parque de Moledo. O seu nome, aliás, foi atribuído ao "balneário principal"- «uma forma simbólica de lhe prestar uma homenagem (...) dado que nos arquivos consta que foi um dos Homens que muito lutou para que as Termas não conhecessem o desfecho "encerramento" » -como nos é explicado aqui (reportagem Notícias do Douro).

Adenda: ler- «O nosso único parque» por João Araújo Correia

Publicado também no Dias sem Árvores

10/07/2006

Plátano de Amarante


Fevereiro de 2006 / Junho de 2006

Para quem chega de comboio, este largo é a sua primeira imagem de Amarante. O que não é, convenhamos, uma experiência entusiasmante ou que faça jus aos reais encantos da cidade; por isso, talvez nos alegre saber que a frase inicial deste texto está completamente errada. É que ninguém chega a Amarante de comboio: o ronceiro veículo que percorre o que resta da linha do Tâmega, entre Livração e Amarante, não é um comboio, mas sim uma automotora diesel; que, de facto, transporta pouquíssimos passageiros. Tão poucos que na estação já nem a bilheteira abre.

Mas este largo ostenta um monumento que vale bem uma visita: não o edifício da estação, e muito menos o medonho prédio fronteiro onde funciona um dos dois shoppings de Amarante. Trata-se, isso sim, de um plátano: uma árvore soberba, altiva como são os plátanos quando não lhes tolhem o crescimento. Numa cidade onde as árvores nas ruas são regularmente cortadas à escovinha, a sua existência é verdadeiro milagre de São Gonçalo.

02/05/2006

O novo pinhal do avô Júlio



Fotos de Augusto Ferreira

Eis como começa a notável reportagem de Carla Maia de Almeida publicada com o título Os plátanos também se abatem na mais recente edição (30 de Abril) do Notícias Magazine:

«Este Verão vão faltar sombras no jardim central de Pinhal Novo. Uma fúria serradora abateu-se sobre os plátanos, deixando-os irreconhecíveis, uns troncos com meia dúzia de ramos em forma de garra, ou menos do que isso. Talvez ficassem bem nos cenários assombrados de Tim Burton, mas a vida é outra coisa, quem sabe. As poucas pessoas que, num domingo à tarde, gozam o sol ainda cerimonioso da Primavera, procuram os cantos mais abrigados por arbustos, alentando conversas espaçadas, enquanto os bancos de pedra permanecem vazios, inóspitos, como tudo o resto.

O pinheiro manso, símbolo da vila, é agora a árvore que governa o recinto, onde cabem também a igreja, o coreto, o parque infantil e, cruzada a rua, a estação de caminho-de-ferro. É uma das saídas possíveis. Este Verão, quando o jardim se transformar numa eira de calor, vão ser muitos os desertores do Pinhal Novo, sôfregos por um vento de praia ou pelo fresco artificial dos centros comerciais, agora pomposamente chamados de fóruns. Visto da estrada, o anúncio, quase comovedor, diz que é no Fórum Montijo que «o avô Júlio vai passar as tardes de domingo com a neta». Os jardins estão fora de moda, não há dúvida. A avaliar pelo estacionamento ao ar livre, gigantesco, a abarrotar de automóveis, é nestes parques de cimento que maioria dos «avôs Júlios» e família prefere passar uma tarde soalheira de Primavera.»


Além deste doloroso começo, a reportagem inclui declarações muito pertinentes de Ana Júlia Francisco e Maria Domingas, ambas da Sociedade Portuguesa de Arboricultura, e é ilustrada com belas fotos de árvores (não podadas) nos jardins públicos de Lisboa e Porto; texto completo aqui ( 1,4 MB - pdf). (Ah, é verdade: nela também se fala de nós.)

Publicado também no Dias sem árvores

21/03/2006

Árvores com histórias: a "árvore grande" de Alijó

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«A "Árvore Grande" é um pedaço da alma de Alijó»
Por Nuno Amaral (textos) e Nelson Garrido (fotos) no Público de hoje

«O orgulho no plátano, mandado plantar há 150 anos, está espelhado no mais ínfimo pormenor da comunidade. No Dia Mundial da Floresta, câmara e freguesia convidam as crianças do concelho a plantarem 150 plátanos.

Sentada na borda da lareira, Maria Laura Rodrigues vai desfiando as memórias da "Árvore Grande". Conta a "balbúrdia" que Alijó viveu há pouco mais de 50 anos, quando o boato que corria anunciava o fim do plátano. "Dizam que o iam cortar para fazer socos", solta, por entre sorrisos. O povo não gostou. E o rumor deu mesmo azo a uma peça de teatro, como que para afastar os demónios. Maria Laura teria uns 16 ou 17 anos. A mãe, enfatiza, ainda serviu na casa do visconde de Alijó, o homem que mandou um servente, António Pela-Gatos, deitar a semente à terra. Agora, aos 70 anos, recorda os tempos em que as "notícias" circulavam debaixo dos ramos do plátano. "Aquilo sempre foi um ponto de encontro, era o centro da vila", afina.
Na véspera do Dia Mundial da Árvore, Graciano Ferreira olha para a escultura que a câmara e a junta de freguesia hão-de descerrar hoje. A lápide ainda está tapada. Há um novo banco de madeira debaixo das ramadas. Um feixe de luz há-de iluminar-lhe o tronco.

"Então não namorei? Eu e todos. Houve aqui muitas declarações de amor", esclarece. Hoje, aos 65 anos, é menos "maroto". "Ah, mas naquela altura, era, lá isso era."
O simbolismo do ancestral plátano está em cada pedaço de Alijó, no coração do Alto Douro vinhateiro. Todos lhe conhecem a história. Todos lá viveram um pedaço da infância. À entrada da vila, pelo sul, quem vem de Pinhão, está a Escola de Condução Plátano. Na avenida central, o Café Plátano. A árvore ilustra porta-chaves, faz parte dos panfletos de promoção turística. Criou uma rota própria. A "Árvore Grande", no léxico local, é mesmo o símbolo da Junta da Freguesia de Alijó. "É um pedaço da alma desta vila", classifica o autarca Alípio Alves. Tanto assim é que a comemoração dos 150 anos do plátano era um dos pontos do manifesto eleitoral do socialista. "E, se o tempo ajudar, amanhã [hoje] é cumprido", regozija-se.

Festa para todos ao final da tarde
Para que a homenagem também singre na terra, os alunos das escolas do concelho plantam 150 plátanos a poucos quilómetros do centro da vila. "Ao final da tarde, teremos um momento de poesia e um lanche aberto a toda a população, porque a "Árvore Grande" é de todos", sublinha o presidente de câmara, Artur Cascarejo.
Foi junto ao local onde havia de nascer a árvore que a mãe da Maria de Laura conheceu o visconde de Alijó. Uns anos depois, já a mãe de Laura trabalhava na casa senhorial, o visconde mandou plantar a árvore. Porquê, nunca se soube. Mais tarde, o local onde o plátano já ganhava corpo, e um simbolismo próprio, deixou de integrar a quinta dos "senhores". A passagem era estreita e o filho do visconde deu mais um pedaço de terra.
Hoje, ao final da tarde, Maria Laura há-de sentar-se nas imediações da árvore a ouvir poesia e a saborear uma vitela. "Já há 50 anos lá estive. Foi quando puseram a placa dos cem anos."


A "Árvore Grande" cresceu e resistiu. A placa ainda hoje avisa o viajante. Ou "viandante", como escreveu o antigo inspector escolar Mira Saraiva. Na súplica que lavrou, o plátano faz um pedido aos visitantes: "Tu, que passas, olha-me bem e não me faças mal". »

Ler a propósito: Plátano de Alijó (17.10.05) ; PLÁTANO COMPLETA 150 ANOS

21/10/2005

Os nomes das árvores - plátanos

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Pelas melhores e piores razões temos ultimamente falado de plátanos, a árvore de sombra por excelência na maior parte das cidades da Europa e da América do Norte, e a folhosa ornamental mais regularmente distribuída de norte a sul de Portugal. E hoje, na sequência do que já foi aqui escrito nos comentários pela nossa amiga Ver, tentamos deslindar a sua origem e a razão de ser dos seus nomes.

Segundo Plínio -que no início da nossa era escreveu não haver árvore que melhor protegesse do calor do sol - os plátanos teriam sido introduzidas em Itália cerca de 390 a.C. provenientes da Grécia, onde eram objecto de uma veneração especial. Ainda hoje, na ilha grega de Cós, se pode admirar o chamado plátano de Hipócrates, debaixo do qual, segundo reza a lenda, aquele que é considerado o pai da medicina ocidental atendia os seus pacientes. É aliás do nome grego da árvore, "platanos", que vem a designação científica do género, derivando o termo de "platys" que significa plano, largo em referência às folhas, segundo a maioria dos autores.

Conhecem-se cerca de 6 a 7 espécies de plátanos. Enquanto os da Grécia pertencem à espécie Platanus orientalis, originária das regiões temperadas da Ásia ocidental, o Platanus occidentalis, é nativo da zona atlântica dos Estados Unidos e foi introduzido em Inglaterra ainda antes de meados do séc. XVII, oriundo da Virgínia. No entanto as espécies eram bastante confundidas na literatura dos séc. XVIII e XIX até 1853, data em que Sir Joseph D. Hooker esclareceu as diferenças entres as duas espécies baseando-se nas características distintas dos frutos, o que até então tinha passado despercebido (cf. Hui-lin li).

No livro Árvores Monumentais de Portugal (Portucel, 1984), Ernesto Goes introduz a descrição de alguns dos nossos mais notáveis plátanos do seguinte modo: «A única espécie difundida no país é a Platanus hybrida Brot., sendo de origem desconhecida e considerada uma espécie resultante do cruzamento do Platanus orientalis com o Platanus occidentalis

Com efeito o botânico português Félix da Silva Avelar Brotero (1744-1828) descreveu a espécie na sua Flora Lusitanica (1804) a partir de espécies cultivadas em Portugal (cf. Hui-lin li) todavia a denominação sinónima, Platanus x acerifolia Willd. que precedeu a de Brotero num ano é mais divulgada. (O x indica a natureza híbrida da espécie, o epíteto acerifolia reconhece a semelhança das folhas com as dos áceres, e a abreviatura final refere a autoria da designação: o botânico alemão Carl Ludwig Willdenow (1765 -1812), com quem aliás Brotero se correspondeu.)

Outra designação científica sinónima, por sua vez preferida no país vizinho, é a de Platanus hispanica Mill. ex Muenchh. Recentemente, a opinião dos botânicos evoluíu no sentido de considerar esta espécie, não um híbrido, mas sim uma variedade do plátano oriental, e por isso haverá uma tendência para se adoptar o nome de Platanus orientalis var. acerifolia Aiton. ou seja mais uma designação a juntar à longa lista e a necessidade de se reverem afirmações e "verdades" anteriores!

Os nomes vulgares da árvore nos diferentes idiomas são também significativos: platano comune em italiano; platane commun e platane à feuilles d'érable (p. de folhas de ácer) em francês; plátano de sombra em espanhol; e em inglês European plane (plátano europeu) e London plane (plátano de Londres), designação que faz jus à sua abundância nesta cidade onde mais de metade das árvores ornamentais são plátanos.

Porque é que se chama sycamore nos estados da América do Norte fica para apróxima "investigação", mas se alguém souber...

17/10/2005

Plátano de Alijó


Plátano monumental de Alijó, conhecido como a "árvore grande". Plantado em 1856 e classificado de interesse público em 1953. Segundo Ernesto Goes , ca1984, tinha «6 m. de P.A.P., 30 m. de altura, e 26 m. de diâmetro de copa.»