

Quem do sul viaja de comboio para o Porto depara, pouco depois de Espinho, e marginando a ferrovia pelo lado do mar, com uma sucessão de velhas casas sombreadas por plátanos. Mais altas ou mais baixas, geminadas umas com outras ou isoladas nos seus jardins, todas acusam o desgaste da idade; muitas delas, ao abandono, têm já a sentença de demolição lavrada em cartaz. É a Granja, local dilecto de veraneio da burguesia portuense, descrito por Ramalho Ortigão em As praias de Portugal (1876); é a praia mítica, já tocada de nostalgia e decadência, de Sophia de Mello Breyner Andresen. As férias de Verão, que duravam meses, eram uma vida à parte, muito mais desligada da cidade do que as actuais férias de pacote em paraísos tropicais: era outra a casa, outros os ritmos, outras as diversões. Havia na Granja, funcionando apenas no Verão, um clube recreativo com chá das cinco para as senhoras e, abrindo à noite, salas de jogo e de convívio e um grande salão de baile com orquestra privativa. O edifício do clube, rectangular e térreo, está reduzido à ruína que a segunda foto documenta. Custa hoje concebê-lo como cenário que foi do conto Praia, que decorre por alturas da 2.ª guerra e foi incluído por Sophia nos seus Contos exemplares (1962):
«Era uma espécie de clube de Verão, um grande casarão quadrado, pintado de amarelo e com grades verdes na varanda que dava para a avenida onde os plátanos maravilhosos povoavam a noite. Cheirava a maresia e a fruta. Longas músicas pareciam suspensas das árvores e das estrelas. E entre as casas brancas, na noite escura e azul, passava o rolar do mar.»
Não foram só as mudanças sociais e dos hábitos de veraneio que arruinaram a Granja. Há ondas de vulgaridade que, alastrando de Francelos e Miramar, vêm substituindo as venerandas mansões por vivendas sem carácter ou, pior ainda, por prédios de apartamentos com muitos andares; contudo, talvez a suburbanização seja preferível ao abandono. Mas outras ondas há de uma crueldade mais requintada: aquelas literais, vindas do mar, que levam consigo toda a areia da praia.
Desde a Primavera de 2002, quando se concluiu a construção do quebra-mar da Aguda, a praia da Granja tem vindo a ser chupada até ao osso. Todos os anos, antes da época balnear, a Câmara de Gaia manda lá um vaivém de camiões despejar areia para que o mar não avance até ao paredão. Os poucos banhistas estendem-se no areal postiço que todos os dias estreita um pouco mais. Em meados de Setembro, quando se levantarem as últimas toalhas, serão também arrastadas as últimas areias.