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25/04/2010

Voava, voava

Ophrys tenthredinifera Willd.
       Antes ser na terra escravo de um escravo
Do que ser no outro mundo rei de todas as sombras
       Homero, Odisseia (Canto XI)

Antes ser sob a terra abolição e cinza Do que ser neste mundo rei de todas as sombras

Sophia de Mello Breyner Andresen, Paráfrase (O nome das coisas, 1977)


17/04/2010

Orquídea greco-lusa

Orchis italica Poiret
Lisboa, 18 de Novembro de 1969


Caríssimo Jorge

Do coração agradecemos o teu livro. Que apesar de todas as suas amarguras me arrancou dum dia péssimo.


Paradoxalmente, o poema de que mais gosto é
“Deixa os gregos em paz”, embora realmente eu creia que teremos de recomeçar tudo a partir dos gregos, isto é, a partir da fidelidade ao terrestre. Creio que o grande mal português será que sempre deixamos os gregos em paz. Por isso somos um país que não se reconhece. Um país que julga que a austera, apagada e vil tristeza é a condição do homem. Fomos um país de grandes navegadores — mas nunca tivemos em frente do mundo aquele sorriso de espanto que tinham as estátuas dos navegadores jónicos. Se você fosse à Grécia ficaria espantado de ver que a Grécia é muito mais grega do que tudo o que imaginamos – é muito mais grega do que o filme do Zorba. E quer tendo Homero, quer tendo a terrível Guerra do Peloponeso, quer tendo a Retirada dos Dez Mil, vemos que de grego foi ter estado mais no mundo em que estamos, e que os gregos eram gregos com uma veemência anterior à decadência da vida.


Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena, Correspondência 1959-1978 (Guerra e Paz, 2006)

22/07/2009

Ruínas azuis


Wahlenbergia hederacea (L.) Rchb.

Ruínas, com a crueza do plural, é a designação vernácula deste ser tão miudinho e mimoso. Talvez se queira chamar a atenção para a pequenez de folhas e flores, a rondar os 15mm, que contribui para um certo aspecto geral de desmoronamento; ou, quem sabe, se castigue a aparente desarrumação em que mora, formando manchas confusas de verde, com narizes quase translúcidos de flores azuis, a rastejar no solo enquanto enraíza os cotovelos. Certo é que, sendo espécie anual, morre em poucas semanas depois de assim se alindar. Adiante: como disse o Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal, Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

As folhas, alternadas e glabras, são versões homotéticas das da hera; as flores, de longo pedúnculo, são cópias quase perfeitas de campânulas. Mas, para que a botânica não se resuma às conclusões ingénuas do nosso olhar amador, o fruto não se assemelha ao usual no género Campanula: tem três válvulas no topo para verter as sementes em vez de poros laterais. Por isso, apesar de ter sido primeiro registada por Bauhin, em 1596, como Campanula Cymbalariae foliis, a partir de exemplares de Paris e Toulouse, e de Lineu a ter renomeado como Campanula hederaceae, o nome do género mudou em 1821 para Wahlenbergia, por semelhança com a sul-africana W. capensis. Georg Wahlenberg (1780-1851) foi botânico e professor em Uppsala, sucessor nesse cargo de C. P. Thunberg.

A Wahlenbergia gosta da terra húmida de paul e do ar frio das montanhas do oeste europeu, mas na Europa há essencialmente duas espécies silvestres. O género tem representantes perenes em regiões menos quentes de África (de facto, das cerca de 150 espécies, 60 estão na vizinhança do Cabo), Nova Zelândia e Austrália. Crê-se que, como sucedeu noutros reinos, a W. hederacea descenda de espécie africana que migrou para norte.

14/11/2007

Jardim do Liquidambar

«Este jardim, localizado no lado poente da casa, recebe esta designação devido ao notável exemplar de liquidâmbar (Liquidambar styraciflua) aqui existente. É um espaço onde se encontram diversas azáleas e rododendros e é também um espaço de referência no conto de Sophia "O Rapaz de Bronze".» (aqui)

Em cima, à esquerda: o liquidâmbar visto do fundo do Jardim dos Jotas


Para além das referidas plantas, neste jardim mora também um enorme Quercus robur e um jovem exemplar de Ginkgo biloba que está no apogeu da sua "doirada exuberância".

23/10/2007

Jardim de memórias



Hydrocleys nymphoides / Sagittaria latifolia

Durante cerca de um ano o Jardim Botânico do Porto esteve a aformosear-se. Quando reabriu encontrámos um espaço mais arrumado, com novos percursos e alguns recantos associados às obras de Sophia de Mello Breyner Andresen e de Ruben A. Estes nichos, onde além das plantas há sugestões de leitura, formam um jardim de ler e propõem uma aventura que complementa com boa dose de fantasia as visitas científicas ou de carácter mais académico.

Um deles é inspirado no livro O rapaz de bronze, em cujas noites as flores conversam, passeiam, dançam e se enleiam em amizades - e, numa especial, de lua cheia, organizam uma festa como as que vêem acontecer entre pessoas. Neste jardim contado havia «um lago redondo sempre cheio de folhas. No centro do lago havia uma ilha muito pequena feita de pedregulhos e onde cresciam fetos. E no centro da ilha estava uma estátua que era um rapaz feito de bronze.»

No jardim real a decoração é outra. O rapaz de bronze é de facto uma senhora elegante que guia um repuxo airoso, a taça do chafariz não está coberta de fetos e o lago não tem só folhas. Com os pés na água flutuam duas espécies com flores de três pétalas: a papoila-de-água (Hydrocleys nymphoides), sul-americana, de folhas circulares semi-caducas e flores cor-de-limão; e a erva-seta (Sagittaria latifolia), da América tropical, de folha perene, triangular, com dois lóbulos, formato que a taxonomia relaciona com a nona constelação do Zodíaco.

Mas o jardim encantado ainda perdura. E no «lugar de suspiros» de Ruben A o vento insiste em espalhar perfumes e flores, num eterno eco do antigo convite para a festa.

07/10/2007

É por ti


Verbena bonariensis


---É por ti que se enfeita e se consome,
---Desgrenhada e florida, a Primavera
---É por ti que a noite chama e espera

---És tu quem anuncia o poente nas estradas.
---E o vento torcendo as árvores desfolhadas
---Canta e grita que tu vais chegar.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do mar (1974)

16/07/2007

Granja e Macondo




Quem do sul viaja de comboio para o Porto depara, pouco depois de Espinho, e marginando a ferrovia pelo lado do mar, com uma sucessão de velhas casas sombreadas por plátanos. Mais altas ou mais baixas, geminadas umas com outras ou isoladas nos seus jardins, todas acusam o desgaste da idade; muitas delas, ao abandono, têm já a sentença de demolição lavrada em cartaz. É a Granja, local dilecto de veraneio da burguesia portuense, descrito por Ramalho Ortigão em As praias de Portugal (1876); é a praia mítica, já tocada de nostalgia e decadência, de Sophia de Mello Breyner Andresen. As férias de Verão, que duravam meses, eram uma vida à parte, muito mais desligada da cidade do que as actuais férias de pacote em paraísos tropicais: era outra a casa, outros os ritmos, outras as diversões. Havia na Granja, funcionando apenas no Verão, um clube recreativo com chá das cinco para as senhoras e, abrindo à noite, salas de jogo e de convívio e um grande salão de baile com orquestra privativa. O edifício do clube, rectangular e térreo, está reduzido à ruína que a segunda foto documenta. Custa hoje concebê-lo como cenário que foi do conto Praia, que decorre por alturas da 2.ª guerra e foi incluído por Sophia nos seus Contos exemplares (1962):

«Era uma espécie de clube de Verão, um grande casarão quadrado, pintado de amarelo e com grades verdes na varanda que dava para a avenida onde os plátanos maravilhosos povoavam a noite. Cheirava a maresia e a fruta. Longas músicas pareciam suspensas das árvores e das estrelas. E entre as casas brancas, na noite escura e azul, passava o rolar do mar.»

Não foram só as mudanças sociais e dos hábitos de veraneio que arruinaram a Granja. Há ondas de vulgaridade que, alastrando de Francelos e Miramar, vêm substituindo as venerandas mansões por vivendas sem carácter ou, pior ainda, por prédios de apartamentos com muitos andares; contudo, talvez a suburbanização seja preferível ao abandono. Mas outras ondas há de uma crueldade mais requintada: aquelas literais, vindas do mar, que levam consigo toda a areia da praia.

Desde a Primavera de 2002, quando se concluiu a construção do quebra-mar da Aguda, a praia da Granja tem vindo a ser chupada até ao osso. Todos os anos, antes da época balnear, a Câmara de Gaia manda lá um vaivém de camiões despejar areia para que o mar não avance até ao paredão. Os poucos banhistas estendem-se no areal postiço que todos os dias estreita um pouco mais. Em meados de Setembro, quando se levantarem as últimas toalhas, serão também arrastadas as últimas areias.

21/12/2006

Árvore de Natal


«Árvore que nos países do norte da Europa, se coloca na noite de Natal, na principal sala ou casa da ceia, e de cujos ramos ornados de muitas velinhas acesas, pendem brindes, doces, brinquedos e outras prendas, que depois se dão por sorte às crianças. Este uso foi introduzido em Portugal há já bastantes anos.»
(in PEREIRA, Esteves; RODRIGUES, Guilherme -Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico. Lisboa : João Romano Torres ed. , 1904 ; nota: a edição para a Internet deste dicionário ainda não comporta os assuntos genéricos )

Ler sobre esta tradição:
The Chronological History of the Christmas Tree -in The Christmas Archives
Afinal porque razão fazemos nós a Árvore de Natal? -no Naturlink

Ilustração de Maria Keil para a 1ª edição do conto A Noite de Natal de Sophia de Mello Breyner Andresen.

08/08/2006

As rosas



Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar (1947)

25/12/2005

a noite de natal

«(...) Então Joana foi ter com os primos. Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram todos para a mesa. Tinha começado a festa do Natal.
Havia no ar um cheiro de canela e de pinheiro. Em cima da mesa tudo brilhava: as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as pinhas doiradas. E as pessoas riam e diziam umas as outras: "Bom Natal". Os copos tilintavam com um barulho de alegria e de festa. E vendo tudo isto Joana pensava:
-Com certeza que a Gertrudes se enganou. 0 Natal é uma festa para toda a gente. Amanhã o Manuel vai-me contar tudo. Com certeza que ele também tem presentes.
E consolada com esta esperança Joana voltou a ficar quase tão alegre como antes.
0 jantar do Natal era igual ao de todos os anos. Primeiro veio a canja, depois o bacalhau assado, depois os perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananazes. No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a porta e entraram na sala.
As luzes eléctricas estavam apagadas. Só ardiam as velas do pinheiro.
Joana tinha nove anos e já tinha visto nove vezes a árvore do Natal. Mas era sempre como se fosse a primeira vez. Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que pousava sobre todas as coisas. Era como se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da Terra. Era o Natal. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra.
E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se ouvia.
Joana olhava, olhava, olhava. As vezes lembrava-se do seu amigo Manuel. Um dos primos puxou-a por um braço.
- Joana, ali estão os teus presentes.
Joana abriu um por um os embrulhos e as caixas: a boneca, a bola, os livros cheios de desenhos a cores, a caixa de tintas. À sua volta todos riam e conversavam. Todos mostravam uns aos outros os presentes que tinham tido, falando ao mesmo tempo.
E Joana pensava:
-Talvez o Manuel tenha tido um automóvel.
E a festa do Natal continuava. As pessoas grandes sentaram-se nas cadeiras e nos sofás a conversar e as crianças sentaram-se no chão a brincar. Até que alguem disse:
- São onze horas e meia. São quase horas da missa. E são horas de as crianças se irem deitar.
Então as pessoas começaram a sair.
0 pai e a mãe de Joana tambem saíram
- Boa noite, minha querida. Bom Natal - disseram eles. E a porta fechou-se.
Daí a um instante saíram as criadas. (...)»

in A Noite de Natal, de Sophia de Mello Breyner Andresen

A 1ª edição desta obra, em 1959, foi ilustrada por Maria Keil; em 1989 é publicada pela Figueirinhas com ilustrações de Júlio Resende.)

(relacionado: Árvore de Natal )

26/11/2005

Novembro

A respiração de Novembro verde e fria
Incha os cedros azuis e as trepadeiras
E o vento inquieta com longínquos desastres
A folhagem cerrada das roseiras

Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia (1967)


Foto: pva 05 - Cedrus atlantica "Glauca" em Agramonte, Porto

20/11/2005

O rei de Ítaca

A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão

Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado

Sophia de Mello Breyner Andresen, O nome das coisas (1977)


Foto: pva 0511 - frutos e folhas de Ginkgo biloba

10/07/2005

Pã

Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar - branco pano que se rasga.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Coral (1950)


Fotos: pva 0505 - Porto: derrube de eucaliptos na EN 209

15/05/2005

Lanterna chinesa


Fotos: pva 0505 - Abutilon megapotamicum - jardins do Palácio de Cristal

DEVAGAR NO JARDIM

Devagar no jardim a noite poisa
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços,
Como se de novo fosse criada cada coisa.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar (1947)

24/04/2005

Pra minha imperfeição


Foto: pva 0504 - Enkianthus campanulatus - Jardim Botânico do Porto

Pra minha imperfeição está suspenso
Em cada flor da terra um tédio imenso.

Todo o milagre, toda a maravilha
Torna mais funda a minha solidão.
E todo o esplendor pra mim é vão,
Pois não sou perfeição nem maravilha.

As flores, as manhãs, o vento, o mar
Não podem embalar a minha vida.
Imperfeita não posso comungar
Na perfeição aos deuses oferecida.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do mar (1974)

14/04/2005

No Jardim dos "Jotas"

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Fotos: mdlramos 0404
Jardim dos "Jotas" visto do caramanchão das glicínias- Jardim Botânico do Porto

«Era uma vez um jardim maravilhoso, cheio de grandes tílias, bétulas, carvalhos, magnólias e plátanos.
Havia nele roseirais, jardins de buxo e pomares. E ruas muito compridas, entre muros de camélias talhadas. (...)
Ora num dos jardins de buxo havia um canteiro com gladíolos. (...)
- Os jardins civilizados - diziam eles - são sempre jardins de buxo.
Perto dos gladíolos estava um caramanchão com glicínias e bancos de azulejos.
- Nos jardins antigos - diziam os gladíolos - há sempre azulejos.
Os buxos, quando ouviam isto, sorriam e murmuravam com voz de buxo, que é uma voz pequenina, húmida e verde.
- Nos jardins antigos havia buxo e azulejos mas não havia gladíolos. (...)»


Sophia de Mello Breyner Andresen, O Rapaz de Bronze, 1956


O traçado da composição em buxo do Jardim dos "Jotas" é da autoria da avó da escritora, Joana Lehman que reuniu a inicial do seu nome e a de seu marido, João Henrique Andresen.

Ver O nosso Jardim de Sophia

22/08/2004

Jardim reservado

Alguém diz:
«Aqui antigamente houve roseiras» -
Então as horas
Afastam-se estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito de demoras.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia I (1944)

14/07/2004

O nosso jardim de Sophia

...

Foto: mdlr 0203 -Rapariga de bronze - Botânico (Porto)
Dizem que esta graciosa estatueta, no Botânico do Porto, terá inspirado "o rapaz de bronze" a Sophia de Mello Breyner Andresen que em criança brincou nestes jardins da então Quinta do Campo Alegre.
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«Era uma vez um jardim maravilhoso, cheio de grandes tílias, bétulas, carvalhos, magnólias e plátanos. Havia nele roseirais, jardins de buxo e pomares. E ruas muito compridas, entre muros de camélias talhadas.(...)»
in O Rapaz de Bronze, 1958
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Hoje é o "nosso" jardim de Sophia. Felizmente acessível para passeios encantados.
Pena é o ruído da estrada construída «no campo com trigo e papoilas, e (...) pinhal onde entre mimosas e pinheiros cresciam urzes e fetos»!
Efeito do "avassalador avanço ... do chão asfaltado", como diz Gonçalo Ribeiro Telles temendo pela paisagem que se avista do jardim da poetisa, em Lisboa! (Ver transcrição aqui).