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22/05/2021

O dever de não ver

Ranunculus ollissiponensis Pers.
Como crianças na hora do recreio, temos finalmente autorização para passear ao ar livre e admirar as belezas naturais fora do nosso concelho de residência, sempre sob o olhar benévolo e vigilante dos nossos tutores. Acontece que as restrições à mobilidade e o dever geral de recolhimento domiciliário resultaram, no que às plantas de floração precoce diz respeito, em restrições à visibilidade e, mais concretamente, no dever geral de não as vermos. Ninguém nos vai indemnizar pelas flores de 2020 e 2021 que fomos proibidos de ver, e ninguém nos garante que em 2022 a proibição não seja renovada, pois há um consenso alargado de que só as férias de Verão na praia merecem ser salvas, tudo o resto podendo ser sacrificado a esse objectivo. É a mitologia cristã a funcionar: purgamo-nos de pecados mais ou menos imaginários com cilícios e abstinências, para depois, de alma purificada, podermos ascender ao paraíso — ou, neste caso, descer à praia.

O botão-de-ouro ilustrado nas fotos, de seu nome Ranunculus olissiponensis, floresce entre Março e Abril, e por isso nos dois últimos anos a contemplação das suas flores esteve interdita a todos os portugueses que morassem em concelhos urbanos. Nem os lisboetas o puderam ver, apesar de o epíteto olissiponensis sugerir que este ranúnculo se dá especialmente bem na capital portuguesa. Trata-se, de facto, de uma espécie frequente em afloramentos rochosos de xisto ou calcário no norte e centro do país, rareando contudo a sul do Tejo. Em anos desconfinados, os lisboetas podem facilmente encontrar o R. olissiponensis na serra de Montejunto, e pela mesma altura (segunda quinzena de Março) é ele que cobre de amarelo os taludes das estradas do vale do Douro.

Botões-de-ouro há muitos, e quem perdeu este ranúnculo poderá ainda ver outros em habitats bastante diversificados. Por exemplo, o Ranunculus repens e o R. bulbosus, que preferem lugares encharcados, têm floração mais tardia, que se prolonga até Junho. E, nos calcários do centro e sul do país, há um ranúnculo também amarelo que floresce no Outono, o R. bullatus.

Como distinguir o Ranunculus olissiponensis dos seus congéneres? É preciso atender ao formato e pilosidade das folhas, que têm uma textura quase sedosa, e notar que tanto as hastes da planta como as sépalas das flores (2.ª foto em cima) são cobertos por pêlos brancos compridos. Se a época for avançada, o formato alongado do fruto é um indício importante. E, finalmente, há que ver se a ecologia está certa, pois o R. olissiponensis vive sobretudo em locais pedregosos e, de preferência, soalheiros.

07/06/2020

Abertura de fronteiras

Resguardado pelo confinamento, atento apenas às notícias sobre a evolução da pandemia e porventura zangado com a natureza, o leitor talvez não se tenha apercebido de que, no final de Abril, foi descoberta mais uma espécie para a flora portuguesa. A proeza é de António Flor, vigilante da natureza ao serviço do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que a encontrou durante a prospecção de uma zona menos explorada do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (notícia aqui).



Arenaria grandiflora L.


A novidade é do género Arenaria, e esta nova espécie portuguesa é fácil de avistar em fendas de rochas calcárias no norte de Espanha, mas talvez o nosso clima mais cálido não lhe agrade tanto. Estando o país em estado de emergência durante o mês de Abril, obrigado ao teletrabalho e a restrições de circulação de vária ordem, saúda-se que os membros do ICNF não tenham adiado esta iniciativa, decerto sorrindo dos alertas pela presença da notável colónia de morcegos que mora no PNSAC. É que, se essa saída de campo tivesse sido feita apenas agora, com a Primavera a terminar, talvez já não houvesse flores nas plantas avistadas e seria mais problemático identificá-las.

As flores desta espécie, com sépalas glandulosas e pétalas recurvadas, são, como o epíteto indica, especialmente grandes para o género, e as cimeiras de flores podem chegar aos 20 cm de altura. A planta é perene, cespitosa e ocorre nas montanhas do norte de África e do Centro e Sul da Europa. As fotos são da Cantábria e dos muros de Vilaescusa de las Torres, já em Palência; as flores amarelas que surgem de permeio são do Alyssum montanum, outra espécie com preferências calcárias, de que (ainda) não há registo no maciço calcário estremenho. Aqui vai um retrato mais de perto para o caso de alguma vez ser vista deste lado da fronteira.


Alyssum montanum L.

27/12/2014

Andaluza à portuguesa


Klasea baetica (DC.) Boiss. & Reut. subsp. lusitanica (Cantó) Cantó & Rivas Mart.


Foi notícia nos jornais que as crianças finlandeses deixarão em breve de aprender caligrafia. Mesmo o acto de anotar pequenos lembretes em papel lhes estará vedado, e cairá aos poucos em desuso: no futuro, toda a escrita será intermediada por aparelhos electrónicos. Os responsáveis por tal medida ficarão na história como visionários e pioneiros — ou então, quem sabe, como idiotas deslumbrados pela tecnologia. É o nosso próprio corpo que se vai tornando obsoleto, à medida que as máquinas se vão apropriando das tarefas que ele poderia realizar. As pernas não são para andar, mas apenas para vencer a curta distância entre a casa e o automóvel. Em vez de usarmos os olhos para ver a paisagem à nossa volta, ficamos debruçados sobre o pobre sucedâneo bidimensional que o smartphone regista. Entupimos os ouvidos com um ruído personalizado a que chamamos música, reduzindo a cidade a um filme mudo a que acoplamos uma banda sonora postiça. Chega a ser estranho que uma tarefa tão morosa e repetitiva como a mastigação ainda tenha que ser realizada pelos nossos próprios maxilares.

Desde o advento dos estudos genéticos que aquilo que se vê, toca ou cheira deixou de ser a principal bitola na classificação das plantas. Contudo, ainda que obrigando a uma grande reorganização das famílias botânicas, os estudos moleculares confirmaram a validade da maior parte dos géneros e espécies estabelecidos pelos métodos tradicionais. Aquilo que os nossos olhos reconhecem de imeadiato como uma Silene ou uma Veronica (só para citar dois dos géneros mais populosos da flora portuguesa) continua a ser uma Silene ou uma Veronica mesmo depois de passar pelo crivo do laboratório. Neste frívolo passatempo de botanizar, ainda vamos podendo confiar na informação fornecida pelos sentidos, até porque, por enquanto, não dispomos de alternativas viáveis, nem no campo nem (no caso de amadores como nós) fora dele. Virá porém o tempo em que existirão máquinas portáteis para ler o código genético de uma planta com a mesma facilidade e rapidez com que numa loja se lêem os códigos de barras dos produtos. Dar nome às plantas num passeio pelo campo será então tão excitante como ver desfilar as compras na caixa de um supermercado. E é garantido que, tendo acesso instantâneo ao nome de todas as plantas, não saberemos de facto o nome de nenhuma, tal como hoje não sabemos de cor o número de telefone de ninguém, nem dos amigos mais chegados. A memória é das coisas mais fáceis de desaprender a usar.

Até 2005, o género Serratula incluía umas sete espécies em território nacional, mas agora só inclui uma, a S. tinctoria, de prados higrófilos de montanha no norte e centro do país. Também por culpa dos estudos moleculares, as restantes seis espécies foram arrumadas no novo género Klasea. De facto, os géneros Klasea e Serratula distinguem-se não apenas geneticamente (têm números cromossómicos diferentes) mas também, para nosso alívio, a olho nu: no primeiro, as hastes são simples, encimadas por capítulos solitários, e as brácteas involucrais são espinhentas; na S. tinctoria, as hastes são ramificadas na parte superior, e os capítulos, que são inermes, aparecem reunidos em corimbos.

A Klasea baetica, que antes se chamava Serratula baetica, está restrita aos calcários do centro e sul de Portugal, à Andaluzia (a que se refere o epíteto baetica) e ao norte de África (Marrocos, Argélia e Tunísia). Apresentando a espécie um alto grau de variabilidade, foram descritas várias subespécies, tendo-nos calhado em sorte uma subespécie que é endémica do nosso país, apropriadamente chamada lusitanica. A distinção entre as subespécies é subtil, e parece ter sobretudo a ver com os espinhos que prolongam as brácteas involucrais. Mesmo a subespécie lusitanica não é isenta de variações, aliás ilustradas nas fotos: as folhas caulinares tanto podem ser pinatífidas (1.ª foto) como inteiras (2.ª foto). Essas oscilações levaram João do Amaral Franco a descrever, no vol. 2 (de 1984) da Nova Flora de Portugal, três taxónes novos (Serratula estremadurensis, S. acanthocoma e S. alcalae subsp. aristata) de validade discutível, que a Flora Ibérica considera sinónimos de K. baetica subsp lusitanica.

Seja qual for o nome correcto, este endemismo português, que é perene, floresce entre Maio e Junho, e tem caules de uns 70 cm de altura, é abundante e fácil de observar em vários locais das serras de Aire e Candeeiros.

05/04/2014

Potências de dois


Moenchia erecta (L.) G. Gaertn., B. Mey. & Schreb. subsp. erecta
Conrad Moench (1744-1805), botânico alemão, elaborou, nos intervalos das suas tarefas académicas, uma lista da flora local presente nos campos e jardins da região onde vivia. Se tivesse um blogue, por certo nos teria legado pequenos trechos descrevendo as plantas que ia encontrando, nomeando inclusive algumas até então desconhecidas. A designação genérica da planta que hoje aqui mostramos foi criada em sua homenagem.

O género Moenchia abriga três espécies de herbáceas anuais, nativas da região mediterrânica, centro e sul da Europa. São plantas frágeis e pequeninas, de folhas opostas e sésseis; as flores de quatro pétalas brancas, cada uma com cerca de 5 milímetros de comprimento por 2 de largura, nascem protegidas por sépalas verdes pontiagudas e de margens hialinas. Apreciam relvados, campos cultivados e, em geral, terrenos arenosos bem irrigados. Como florescem cedo, logo em Fevereiro, é fácil não as vermos quando os dias soalheiros chegam e com eles recomeçam os passeios pelo campo.

Na Península Ibérica ocorre apenas uma espécie de Moenchia, de talos erguidos e pouco ramosa, mas, para compensar, tem uma distribuição ampla e surge em duas formas, que diferem essencialmente no número de estames: 4 na subespécie erecta, a mais frequente por cá, e 8 na subespécie octandra, de que se conhecem populações apenas na metade sul do país. Quanto aos estiletes, o número é igual, 4, em ambas. Como a natureza não tem de se pôr em harmonia com o que nos parece um padrão matemático, o tema não é tão simples como parece: há registo de populações com algumas plantas que dão flores de 4 estames e outras de 8. Resta saber que vantagem retira a planta desta oscilação, ou se ela é resultado de uma mutação fortuita que ainda não estabilizou.


Casal Velho, serra dos Candeeiros
Os exemplares da foto estavam num anfiteatro magnífico em Casal Velho, na serra dos Candeeiros, em companhia de Asplenium ruta-muraria, Arabis sadina e uma população invulgarmente numerosa de Narcissus calcicola, além de uns poucos pés de Barlia robertiana e Orchis mascula (para as restantes orquídeas, todavia, era ainda cedo e teremos de voltar a este monte branco em breve).

23/11/2013

Planta de estimação


Odontites viscosus (L.) Clairv. subsp. australis (Boiss.) Jahand. & Maire


As inflorescências em espiga e as flores amarelas, de corola bilabiada e interior difícil de espreitar, fazem lembrar as da Odontitella virgata, mas há detalhes que as diferenciam — nos sulcos da flor, no aroma, no tomento e no visco que as revestem, e até no pólen — e que o olhar ensinado dos botânicos detecta, justificando a separação dos géneros. São, porém, ambas semi-parasitas, por isso pouco exigentes com o solo onde lhes calha nascer, mesmo que seja perturbado, seco ou exposto, embora não desdenhem de um bosque fresquinho de azinheiras, pinheiros, carvalhos ou outras árvores perenes. Naturalmente, aquilo a que chamamos parasitismo entre as plantas pode ser de facto um negócio vantajoso cujas contrapartidas desconhecemos. Ou, quem sabe, as plantas parasitas são os gatos e cachorros das outras, alimentados em troca de companhia e brincadeiras a tentar caçar o vento. Não se pode prever que talentos teremos desenvolvido daqui a uns milhões de anos, mas talvez nessa altura consigamos ouvir as plantas a crescer, a espreguiçar-se depois de um longo sono, algumas a ronronar.

Sendo planta anual, o exemplar que vimos florido numa encosta calcária, junto da população de Nothobartsia asperrima, não estará lá no próximo Verão. Esperemos que a descendência seja farta porque parece planta rara, de cuja ocorrência há registos apenas na Estremadura e Ribatejo. Para essa escassez, por certo contribui o baixo número (muito menor que os das outras espécies do género) de sementes por cápsula, algumas delas, caprichosamente, nem sequer viáveis.

Das nove espécies do género Odontites descritas pela Flora Ibérica, apenas duas são conhecidas em Portugal: além da das fotos, nativa do sudoeste da Europa e noroeste de África, ocorre a Odontites vernus, de flores rosa ou púrpura, que, embora tenha uma distribuição mais ampla, ainda não encontrámos.

02/11/2013

Nome digital


Nothobartsia asperrima (Link) Benedí & Herrero


Quando a vimos pela primeira vez, era ainda Inverno, ela exibia, no meio de rochas calcárias da serra de Sicó, apenas uma haste de folhas novas e lustrosas, de cor verde escuro, que nos fizeram lembrar a Euphrasia azorica. Consultadas algumas Floras, conjecturámos que se trataria de uma Nothobartsia — que, como o nome indica (nothos é o termo grego para "falso" e, em latim, notho também se refere a bastardo, não legítimo, como a luz da Lua), é parecida com as plantas do género Bartsia. Houve quem lhe chamasse Euphrasia aspera (Brotero em 1804) e Bartsia asperrima (Sampaio em 1913), mas ainda hoje se discute se deve ser Nothobartsia aspera (designação proposta por Bolliger & Molau em 1992) ou Nothobartsia asperrima (nome proposto por Benedí & Herrero em 2005). Não se tratando exactamente de uma maior ou menor sensibilidade do taxonomista à textura rugosa e peluda dos caules e folhas desta herbácea, a Flora Ibérica decidiu-se pelo último nome, com o fundamento de que a alternativa seria ilegal à luz do código da nomenclatura botânica.

Controvérsias à parte, o que nós queríamos mesmo era ver a planta com flores, que são amarelas com pequenas bossas eivadas de roxo ou vermelho. Ora, as plantas, ao contrário dos bichos e das pessoas, estão presas ao chão, muitas vezes a pequena distância das plantas vizinhas, e não têm meios para arredarem pé e mudarem de casa nem quando são já adultas. Por isso, se o cenário onde moram não estiver em vias de requalificação, não passar por lá a brigada da limpeza-de-bermas, nem lá se instalar entretanto uma pedreira, basta uma nova viagem na altura da floração para reencontrar a planta, desta vez florida. Dito e feito: no fim de Agosto voltámos à serra para conferir a identificação dela e o seu carácter (muito) áspero. A população maior e mais fácil de fotografar que conhecemos está, porém, na serra de Aire, ao cimo de uma ladeira com cerca de 800 m de extensão, carregada de tomilho, roselha-grande, carrascos e azinheiras, além de várias preciosidades.

Esta planta é perene, de base lenhosa, semi-parasita, com ramagem ramificada e talos que podem chegar a um metro de altura. É quase um endemismo ibérico, do sul e oeste da Península Ibérica, havendo também registo da sua presença no norte de Marrocos. Há quem assegure que, em português, o nome vernáculo é escamédrio, mas esta palavra não consta de nenhum dicionário da língua portuguesa que conheçamos.

20/05/2013

Margarida floribunda


Anthemis arvensis L.


É cada vez mais frequente as nossas máquinas serem mais inteligentes do que nós. Por não nos empenharmos em estudar manuais de instruções, os brinquedos electrónicos que nos facilitam ou complicam a vida têm inúmeras potencialidades de que nunca tiramos proveito. O mesmo sucede com o software que, sem esperar pela nossa autorização, o computador actualiza com enervante assiduidade. As novas versões, dizem-nos as caixinhas que abrem espontaneamente no ecrã, têm esta e aquela vantagem relativamente às anteriores; as quais, na verdade, nunca chegámos a testar. Ainda assim, temos a vaga ideia de que as frenéticas actualizações nos deixam mais bem servidos. Seria um mundo de possibilidades sempre em expansão se não tivéssemos ultrapassado há muito a fronteira da sobrecarga informativa.

Está na altura de admitirmos a impotência, baixarmos os braços, e regressarmos a coisas simples como ler um livro em papel ou passear no campo. Esta última actividade não está, porém, a salvo da mediação tecnológica, uma vez que o único modo de darmos nome a certas plantas que vamos encontrando é fotografá-las para depois, em casa, lhes analisarmos os detalhes morfológicos. Mas há coisas que não ficam nas fotos, pois exigiriam desmembrar as plantas para deixar à vista pormenores em geral ocultos. E, como ainda não se inventou tecnologia que permita registar impressões olfactivas ou tácteis, para sentirmos o perfume e a textura de uma planta não há nada que substitua o nariz e as pontas dos dedos. Por isso é algo frustrante compreendermos que certa identificação dependeria de uma dicotomia tão simples como bom ou mau cheiro, e que nós, no momento crucial, com a planta à nossa frente, nos esquecemos de dar uso ao nariz. Trata-se de um equipamento básico com que todo o ser humano vem provido, e que acabamos por considerar meio obsoleto por não ser alvo de constantes upgrades (pelo menos no que à função de cheirar diz respeito).

Há muitas margaridas de flores brancas espontâneas em Portugal; e o número não baixa significativamente se nos restringirmos àquelas que têm folhas dividas em segmentos mais ou menos lineares. No blogue já mostrámos, dentro dessa categoria, os raros Phalacrocarpum oppositifolium e Leucanthemopsis pulverulenta e o muito comum Chamaemelum fuscatum. Depois das folhas e das flores, convém olhar as brácteas involucrais, que já permitem distinguir com segurança essas três margaridas daquela que hoje nos ocupa. O maior ou menor grau de pilosidade reduz ainda mais o rol de candidatos; e, dado que a nossa planta anda longe de ser glabra, é com alguma confiança que nos decidimos pelo género Anthemis. Falta o passo final: será A. arvensis ou A. cotula? Dizem que a primeira é bem cheirosa e que a segunda é fétida, mas não a cheirámos quando laboriosamente nos estendemos na relva para a fotografar. Há ainda uma conversa, que nada adianta, sobre as escamas interflorais, só visíveis quando desfazemos a inflorescência. Um ou outro detalhe mínimo (margens das brácteas involucrais quase transparentes, formato mais alongado das folhas) inclina-nos para a Anthemis arvensis, mas podemos estar equivocados.

Supondo então que é dela que se trata, a falsa-camomila (Anthemis arvensis) é uma planta anual de terrenos baldios ou cultivados, nativa de toda a Europa, do norte de África e da Ásia Menor, que costuma florescer a partir de Maio, ou um pouco mais cedo em climas mais cálidos. Os capítulos florais, com cerca de 3 cm de diâmetro, surgem solitários nas extremidades das hastes, que podem atingir os 50 cm de altura. O nome Anthemis, escolhido por Lineu, parece referir-se à exuberância da floração.

18/05/2013

De Sintra para o mundo


Saxifraga cintrana Kuzinsky ex Willk.


Apesar de ser endémica de Portugal, restrita, tanto quanto se sabe, às serras de Sintra, Montejunto, Aire e Candeeiros, esta planta foi primeiramente descrita por um botânico alemão, em 1889, na revista Oesterreichische Botanische Zeitschrift. Uma desatenção dos botânicos portugueses: Coutinho também a reconheceu como novidade para a flora portuguesa, que designou por Saxifraga hochstetteri, mas apenas em 1910. Heinrich Moritz Willkomm (1821-1895), que estudou a flora ibérica em duas longas visitas a Portugal (de 1844 a 45) e Espanha (em outras duas ocasiões, cerca de trinta anos mais tarde), deixou um legado notável de plantas colectadas e uma mão-cheia de cartas a Júlio Henriques (1838-1928) que podem ser consultadas na Universidade de Coimbra. No artigo da revista austríaca, Willkomm traça o retrato de uma planta que terá visto na serra de Sintra, florida em Maio, a que chama Saxifraga Cintrana Kuz., atribuindo o mérito da descoberta a P. A. Kuzinsky, cuja esposa Willkomm homenageia na designação de um outro endemismo português, o Omphalodes kuzinskyanae Willk.

Esta saxífraga é perene e rupícola, de fendas de rochas calcárias ou clareiras de matagais pouco desenvolvidos, tirando sustento das pequenas bolsas de terra rica que se acumulam entre as rochas. No aspecto geral faz lembrar a S. granulata L., a qual, porém, é mais esguia, não exige substratos calcários e tem a face superior das pétalas sem pêlos glandulosos (repare na 4ª e 6ª fotos).

A S. cintrana é uma planta baixinha (10-30 cm) de caule erecto e ramoso. As folhas na base têm pecíolo longo e são reniformes e pubescentes. As folhas caulinares são de formato parecido mas mais pequenas e quase sésseis. No topo da haste, entre Março e Junho, surge uma panícula densa de flores com sépalas ovadas e pétalas brancas com menos de 1 cm de diâmetro onde se notam três nervuras de tom lilás ou esverdeado.

Sendo tão rara e especial mal se aceita que esteja ameaçada pela extracção de inertes, pela construção de infra-estruturas e pelos veículos todo-o-terreno que sobem pelas encostas das serras sem olhar ao que esmagam.

08/03/2013

Colheita do ano

Lathyrus annuus L.


Nome comum: Cizirão-de-um-ano; agrião-roxo
Ecologia: Locais com humidade e sombra
Distribuição global: Sul da Europa, parte da Ásia, norte de África e Macaronésia
Distribuição em Portugal: Parece preferir solos básicos, do litoral centro e sudeste; nos Açores (São Miguel), onde também ocorre, é muito rara
Época de floração: Abril a Junho
Data e local das fotos: Maio de 2012, Almonda, Torres Novas
Informações adicionais: Erva anual de talos alados, que podem chegar aos 2 metros de altura, e poucas folhas, cada uma das quais é um par de folíolos opostos e acuminados. As inflorescências têm uma haste mais baixa do que a folha axilante e as flores são franzinas (a corola tem cerca de 1.5 cm de diâmetro), destacando-se no emaranhado de gavinhas e caules por serem amarelas ou alaranjadas. A quilha protege a estrutura reprodutiva mas não impede a visita de abelhas; tal com o estandarte e as pétalas laterais, cai depois da polinização para que, das paredes do ovário, se forme a vagem. O fruto, com o que restou do cálice de cinco sépalas da flor, parece uma faca de pirata de ponta alongada; quando seca, abre-se pela bainha que une as duas metades para disseminar uma dezena de sementes redondas e escuras que, enquanto embriões, estiveram ligadas à superfície interna do feijão-verde por finos cordões, por onde também receberam nutrientes.

13/10/2012

Cães & frutos

Scrophularia canina L.


A associação entre o Senecio jacobaea e a borboleta Tyria jacobaeae, cujas larvas consomem vorazmente as flores e a folhagem desta asterácea, especialmente quando ainda tenra, constitui um meio biológico de controlar a disseminação da planta e parece só lhe trazer dissabores. Contudo, o exemplo da S. canina sugere que talvez haja, ou venha a existir, um acordo com vantagens mútuas.

O insecto Cionus scrophulariae (um gorgulho) alimenta-se das folhas de algumas espécies do género Scrophularia, e pode provocar-lhe grandes estragos. Porém, o uso que faz desta planta não se resume a comê-la: as larvas são guardadas em casulos dispostos nos caules, disfarçando-se de frutos, com que se parecem, e conseguindo assim escapar a alguns predadores. Neste período, a planta recupera da comezaina dos progenitores mas, quando termina a metamorfose e as lagartas finalmente irrompem, sofre novo desaire com o desbaste. Há porém um pequeno desfasamento neste processo de que a planta tira proveito: quando as larvas são depositadas, a planta ainda está em flor, e os polinizadores, atraídos pelo néctar, inevitavelmente reparam nos casulos castanhos, transparentes e brilhantes como gotas de resina (mas não hermeticamente fechadas, têm uns furinhos por onde entra o ar). Ora, este é alimento muito apreciado pelas crias das vespas, que o recolhem sem parcimónia e transportam até aos ninhos. Dessa forma, não apenas há mais polinizadores interessados na planta, como ela se livra de parte do problema. Naturalmente, este ardil só se justifica se a planta for perene, e há alguma evidência de que esta batalha com os predadores pode levar as espécies atacadas a mudarem o seu ciclo anual, tornando-se vivazes.

O nome comum escrófularia-menor explica-se por as flores serem muito menores do que as de outras espécies de Scrophularia, embora semelhantes em tudo o resto: desabotoam entre Março e Julho, agrupam-se em panículas e têm brácteas rudimentares, lobos do cálice arredondados, corola púrpura e estames com anteras violáceas. Embora a maioria das espécies prefira bosques e lugares de sombra perto de cursos de água, há até as que habitam dunas no litoral e a S. canina dá-se bem em sítios pedregosos e leitos secos, encontrando-se em areais costeiros formas de transição entre ela e a S. frutescens. A esta última, frequente ao longo da costa e com flores quase iguais às da S. canina mas de folhas coriáceas, poderíamos chamar escrofulária-das-dunas.

Scrophularia frutescens L.
Os exemplares de S. canina que vimos estavam junto a uma pedreira desactivada na zona calcária da serra de Aire, a cerca de 300 m de altitude. São arbustos pequenos, glabros, de caules estriados, folhas inferiores bastante divididas, as superiores trilobadas e um pouco menos exuberantes. Os frutos parecem nozes de casca lisa com uma abertura mucronada. A Flora Ibérica distingue duas subespécies, a S. canina subsp. canina e a S. canina subsp. ramosissima, mas por cá não há registo da segunda, que é nativa da região mediterrânica. A primeira é espontânea no centro e sul da Europa, parte de África e Ásia e ilhas Baleares.

Não sabemos o que surgiu primeiro, se o nome vernacular escrofulária-de-cão, sugerindo que a planta ajuda a tratar maleitas destes animais, ou Scrophularia canina, cujo epíteto específico pode, como dissemos, também significar menor.