03/06/2026

Das soagens aos massarocos

Serra de Grazalema, Málaga
Em Portugal, é a soagem que tem a alegre incumbência de pintar os campos de roxo no início da Primavera. Começando pelo sul, onde as temperaturas amenas chegam mais cedo, progride como um incêndio benigno do Algarve até ao Minho, fazendo abrir afanosamente as flores e atraindo o zumbido alvoroçado das abelhas. A espécie mais comum de soagem, Echium plantagineum, embora largamente dominante nessa tarefa, é aqui e ali coadjuvada por congéneres como E. rosulatum (na metade norte do país), E. tuberculatum (nos calcários do centro-oeste) e E. creticum (na planície alentejana). Com dez espécies em carteira em Portugal continental, e dezanove se alargarmos o âmbito da amostra a toda a Península Ibérica e às ilhas Baleares, o género Echium é bastante diverso, tanto em número de espécies como nas formas que assume. De facto, as espécies ibéricas, ainda que quase todas herbáceas, variam consideravelmente tanto no aspecto geral como no tamanho: há as que têm um só caule (como o E. vulgare) e outras com caules múltiplos (como o E. lusitanicum); umas ficam-se pelo meio metro de altura e outras excedem os dois metros (como o Echium boissieri); umas apresentam caule simples e outras são bastamente ramificadas.

Nada disto deixa adivinhar o modo como o género Echium se viria a diversificar na Macaronésia: são 33 as espécies endémicas, muitas delas arbustos lenhosos, distribuídas pela Madeira, Canárias e Cabo Verde, levando o segundo destes arquipélagos, com 27 espécies, grande vantagem sobre os outros dois, cada um deles só com três espécies. Mas as espécies continentais de Echium, ainda que menos celebradas do que as insulares, também podem ser surpreendentes. É essa afirmação que tentamos hoje ilustrar com três espécies fotografadas em Espanha.

Echium creticum L.


O Echium creticum, que encontrámos em Almeria mas também ocorre no sul de Portugal, é uma soagem de aspecto convencional, que um olhar desatento poderia confundir com o Echium plantagineum. Observamos, contudo, que tem folhas (em particular as basais) mais verrucosas e estreitas, ramificação mais lassa, e flores com estames menos salientes. Às diferenças morfológicas soma-se a circunstância de o Echium plantagineum estar ausente do sudeste de Espanha. Nessa região, a tarefa de colorir a Primavera de roxo cabe ao E. creticum e ao também abundante E. sabulicola — que, como o nome indica, tem distribuição sobretudo costeira.

Echium italicum L.


Encontrámos o Echium italicum em Menorca, e de facto ele não existe na Península Ibérica; mas, ocorrendo em todos os países da Europa mediterrânica desde a França até à Turquia, não é abusivo tratá-lo como espécie continental. Embora tenha porte modesto, não ultrapassando a altura de um metro, recorda irresistivelmente, pelo formato cónico, os famosos tajinastes de Tenerife e de La Palma. Até nas flores pequenas e com estames proeminentes a semelhança é indesmentível. É como se a natureza fizesse, com o E. italicum, um primeiro esquisso mediterrânico das obras-primas que viria a criar no arquipélago atlântico.

Echium albicans Lag. & Rodr.
O Echium albicans, endemismo andaluz, chega-nos das serras calcárias da província de Málaga. É uma planta pequena, de não mais que 70 cm de altura, em regra de caule simples, não ramificado, e de flores comparativamente grandes. De formato mais cilíndrico do que cónico, destaca-se pelo aspecto lanudo e esbranquiçado, e pelas folhas estreitas e compridas, quase lineares, formando uma roseta basal bem definida.

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