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17/10/2019

Massaroco de Lanzarote

O leitor decerto concorda que o género Echium é dos mais fáceis de reconhecer quando em flor. É que as flores, de cor azul ou arroxeada (com raras excepções), são sempre taças com o bordo revirado e listadas na face interior, exibindo longos estames rosados a lembrar as línguas das víboras. Este é um género rico em espécies, algumas de distribuição tão ampla que não nos surpreende que ele esteja também abundantemente representado na flora das ilhas Canárias. Claro que, uma vez nas ilhas, a colonização não se fez sem adaptações, do que resultaram plantas com diferenças morfológicas suficientemente relevantes para que se tornassem autónomas das que lhes deram origem. É o caso deste endemismo canariense, das falésias do maciço de Famara, em Lanzarote.



Echium decaisnei subsp. purpuriense Bramwell [= Echium famarae Lems & Holzapfel]


Curiosamente, tal como aconteceu com algumas espécies açorianas (veja-se, por exemplo, o Centaurium portense, de flores cor-de-rosa, que nos Açores evoluiu para uma espécie que só dá flores brancas), as flores e os estames deste Echium são brancas, agrupando-se em inflorescências cónicas muito vistosas (ainda que menos espectaculares do que as do Echium wildpretii). Além disso, as folhas são longas (cerca de 12 cm) e quase glabras. A maior diferença, porém, é que esta é uma espécie arbustiva e lenhosa, atingindo cerca de um metro de altura. Um tal porte talvez resulte do clima ameno, da menor competição com outras espécies e do solo seco e rochoso mas cheio de nutrientes que muitas plantas apreciam.

Por boas razões, os taxonomistas distinguem duas subespécies, E. decaisnei ssp. decaisnei, da Gran Canaria, e E. decaisnei ssp. purpuriense, de Lanzarote e Fuerteventura (esta também denominada E. famarae em algumas Floras). O epíteto homenageia Joseph Decaisne (1807-1882), um agrónomo belga que começou a sua carreira como jardineiro em Paris e, enquanto botânico, foi descritor de inúmeras espécies novas.

01/08/2019

Taginaste vermelho

O género Echium, de flores geralmente arroxeadas, parece ter uma relação muito proveitosa com os polinizadores, a quem decerto recompensa generosamente. Com a sua ajuda, é garantidamente um género cosmopolita. A segunda virtude que lhe notamos é uma tendência para se tornar mais bonito nos casos em que se apostaria que a colonização do novo habitat estaria condenada ao fracasso. São exemplo disso as espécies de Echium endémicas do arquipélago da Madeira; e a que lhe mostramos hoje, endemismo da ilha de Tenerife, fácil de avistar florido nas ravinas das Cañadas do Teide durante os meses de Maio e Junho.



Echium wildpretii Pearson ex Hook. f.


Há registo de uma segunda subespécie (E. wildpretii subsp. trichosiphon) na ilha de La Palma, mas aí destaca-se outro Echium gigante, o E. pininana, que ainda não conhecemos -- ignorância que abrange mais uma dezena de endemismos canarienses só neste género.

O E. wildpretii é um arbusto mas não se ramifica. Habita lugares muito quentes no Verão, com solo árido de origem vulcânica, mas tolera as temperaturas de Inverno, às vezes negativas. A sua resistência, porém, termina aí: é uma planta bienal, produzindo uma roseta basal densa de folhas longas e penugentas no primeiro ano de vida, seguindo-se-lhe as flores no início de Maio do segundo ano, e morrendo no final desse período de floração. Em Dezembro, estas hastes com cerca de 3 metros de altura já terão disseminado as sementes e, secas, parecerão caudas de raposa gigante a ondular. O epíteto específico homenageia o botânico suíço Hermann Josef Wildpret (1834-1908).

Havia bastantes abelhas a bebericar néctar nestes exemplares das fotos, só ultrapassadas em número pelos visitantes ansiosos por se fotografarem com o telemóvel ao lado destas torres magníficas de flores cor-de-salmão e estames salientes, entremeadas por inusitadas brácteas em forma de língua.

12/01/2019

Nomes emprestados


Ceballosia fruticosa (L. f.) G. Kunkel



Que fazer quando a diversidade de seres vivos excede a quantidade de nomes disponíveis para a designar? Os nomes científicos combinam mal com o falar corrente, e há quem congemine "nomes comuns" para que os leigos nunca desconfiem da insuficiência das palavras. Lidamos bem com categorias amplas, amalgamando na mesma designação vaga (como "mosca", "árvore" ou "musgo") coisas muito heterogéneas, mas quando tomamos consciência dessa heteregeneidade fazem falta nomes mais específicos. Para isso é legítmo reciclar nomes que, noutros lugares, são atribuídos a outras entidades. Por exemplo, o folhado nos Açores (Viburnum treleasei) é um arbusto completamente diferente daquele que tem o mesmo nome na Madeira (Clethra arborea). O mesmo sucedeu com a Ceballosia fruticosa, pequeno arbusto endémico das ilhas Canárias: no arquipélago é conhecido como duraznillo, mas (de acordo com o portal Anthos) esse mesmo nome é dado, na Espanha continental, ao Viburnum tinus e a duas humildes herbáceas, Polygonum salicifolium e Polygonum persicaria. Além de pertencerem ao reino vegetal, e de serem todas elas plantas terrestres, custa discernir grandes afinidades entre estas quatro espécies.

Falando nós um castelhano trôpego, preferimos o nome científico Ceballosia ao vernáculo duraznillo, afinal causador de confusão. Ceballosia, além de fácil de pronunciar, é um nome perfeitamente inequívoco, pois este arbusto canarino é a única espécie do seu género. É um nome relativamente recente, criado em 1980 pelo naturalista alemão Günther Kunkel (1928-2007), substituindo o arrevesado nome Messerschmidia fruticosa com que Lineu filho baptizou a planta em 1782. Outros autores incluíram-na em diferentes géneros, chamando-lhe entre outras coisas Tournefortia fruticosa e Heliotropium messerschmidioides. A lição que daqui podemos extrair é que, se o nomes vernáculos sofrem de imprecisão, já os nomes científicos de certas plantas problemáticas são instáveis e controversos.

Não é fácil apontar parentes próximos deste arbusto, mesmo numa família tão diversa e tão amplamente representada na flora europeia como a das boragináceas. O seu historial taxonómico pode contudo dar-nos algumas pistas. Com alguma boa vontade, reconhece-se que as minúsculas flores brancas têm certa semelhança com as do Heliotropium, género que na Europa inclui apenas plantas herbáceas, mas pode atingir porte arbóreo no sudeste asiático e nas ilhas do Índico e do Pacífico. E os arbustos do género Tournefortia, quase todos eles originários da América tropical, têm parecenças muito vincadas com a Ceballosia, a julgar por esta foto da mexicana Tournefortia acutiflora. Essa parecença, contudo, desfaz-se na frutificação, pois os frutos da Ceballosia (3.ª foto acima) são verrucosos e verdes (pretos quando maduros), e os da Tournefortia são bagas brancas.

Presente em todas as ilhas Canárias, em geral em zonas de baixa altitude próximas do mar, a Ceballosia fruticosa é um arbusto de ramos esguios que apresenta um aspecto frágil e desgrenhado. Atinge 1 a 2 metros de altura, e floresce durante quase todo o ano. Em Tenerife vimo-lo na estrada do Teno, e em Lanzarote é frequente no norte da ilha (em particular no Malpaís de La Corona) como acompanhante da tabaiba-doce.

21/11/2017

Erva de soldar ossos


Symphytum tuberosum L.


É pelos faiais da Cantábria que continuamos. Na primeira quinzena de Maio, as folhas ainda frescas das árvores deixam escoar breves farrapos de sol. As prímulas (Primula veris, Primula acaulis) e as hepáticas deram já por cumprida, com a produção de frutos, a lista de tarefas reprodutivas do ano; o alho-dos-ursos (Allium ursinum), o selo-de-Salomão e algumas orquídeas de bosque estão em plena azáfama de floração; e várias outras herbáceas se aprestam a iniciar a temporada. Neste último grupo se inclui o Symphytum tuberosum, a que chamaríamos consolda-menor caso existisse em Portugal. Não existindo, o nome foi usurpado por uma espécie muito diferente (Prunella vulgaris), embora o nome consolda-maior ainda seja, por lei, pertença do Symphytum officinale, igualmente ausente do nosso país. Ausente na natureza, entenda-se, pois ele terá sido, mesmo por cá, assiduamente cultivado graças a uma reputação medicinal que já vem da antiguidade.

Um dos usos terapêuticos do Symphytum está plasmado na própria palavra consolda. Acreditava-se que a ingestão de infusões com a planta ajudaria a sarar fracturas ósseas, fazendo com que os ossos partidos soldassem mais rapidamente. E o nome Symphytum, que provém do grego, significa, segundo a Flora Iberica, "fazer crescer juntamente", entendendo-se que nesse processo as partes fracturadas acabariam por fundir-se uma com a outra. Sabe-se hoje que estas plantas contêm de facto um tipo de molécula (alantoína) capaz de estimular o crescimento e reparação dos tecidos celulares, mas a sua toxicidade torna-as desaconselháveis para uso interno, já que podem causar sérios danos ao fígado. Para aplicação externa as contra-indicações não são tão assustadoras, e a planta poderá ser útil no tratamento de feridas cutâneas.

Nem todas as consoldas (ou melhor, nem todas as espécies de Symphytum) terão idênticas propriedades medicinais, e por isso de modo nenhum encorajamos o leitor à prática de medicina caseira pela colheita desta ou de outras plantas silvestres. Assinale-se, ainda assim, que o Symphytum tuberosum, embora menos afamado e muito menos cultivado do que o Symphytum officinale, também teve os seus usos na vertente solda ossos do herbalismo.

A consolda-tuberosa (chamemos-lhe assim) é uma herbácea vivaz de porte modesto, atingindo não mais do que um metro de altura, presente como nativa em quase toda a Europa ocidental (Portugal e Irlanda são excepções), que vegeta em bosques caducifólios húmidos e em margens de cursos de água. Para não entristecermos por a natureza nos ter negado contemplá-la no nosso país, lembremos que por cá há plantas da mesma família, como o chupa-mel (género Cerinthe), também de flores tubulares, que num juízo imparcial a suplantam largamente em beleza.

25/07/2017

O voo do Corvo



Informações inúteis

Como ir. De avião pela SATA, ou de barco desde as Flores usando a lancha Ariel ou um semi-rígido. Os horários da SATA são flexíveis: o passageiro deve chegar com a antecedência regulamentar ao aeroporto, mas a transportadora exerce invariavelmente o seu direito de anunciar atrasos de última hora. No entanto, os atrasos das diversas ligações costumam encaixar na perfeição uns com os outros. Se uma das escalas for nas Flores, então nos melhores dias pode ser brindado com a mais paradoxal das surpresas, que é a chegada ao destino antes da hora da partida. Como é possível? O voo entre as Flores e o Corvo (ou vice-versa) dura cinco minutos; e, se já tiverem embarcado todos os passageiros, não há motivo para o avião não descolar de imediato. No nosso caso, com um total de seis passageiros que, para equilibrar o peso, se sentaram todos na parte de trás do avião, mais o comissário de bordo na outra ponta a despachar as instruções de segurança, levantámos voo oito minutos antes da hora marcada. Das ligações por mar, quem quiser ver golfinhos e saltar como eles sobre as ondas, com grandes borrifos de água salgada, deve escolher os fogosos semi-rígidos. Para os menos arrojados, recomenda-se a lancha Ariel da Atlânticoline, que costuma cancelar as ligações quando o mar está agitado e, nas festas das Flores ou do Corvo (ininterruptas em Julho e Agosto), só tem lugar para os previdentes que compram passagem com semanas ou meses de antecedência.

Onde comer. Quem faz turismo gastronómico não tem no Corvo um destino de eleição. Entre as nossas duas visitas à ilha, a primeira em Junho de 2016 e a segunda em Julho de 2017, há contudo novidades substanciais a reportar. Em 2016 havia dois restaurantes: o Caldeirão, junto ao aeroporto, e o Traineira, junto ao porto; ou, em rigor, já que distam 250 metros um do outro, os dois junto ao aeroporto mas o segundo mais encostado ao porto. Tendo jurado nunca servir peixe fresco aos clientes, pois quase tudo o que é pescado na ilha é vendido para o continente ou para as outras ilhas, tinham ainda assim pratos aceitáveis, com o Caldeirão esmerando-se um pouco mais e o Traineira monopolizando a clientela operária (há sempre no Corvo dezenas de trabalhadores vindos para obras do Governo regional). O duopólio permitia-nos diversificar as refeições, almoçando no Traineira e jantando no Caldeirão, ou almoçando no Caldeirão e jantando no Traineira. Nos dias em que algum deles fechava, íamos duas vezes ao que estivesse aberto, aproveitando a segunda ocasião para degustar o outro prato do dia. Se dispensássemos o luxo sibarita de uma segunda refeição completa no mesmo dia, podíamos ir ao BBC (Bar dos Bombeiros do Corvo, um must da noite corvina) para nos regalarmos com uma tosta mista (podia ser francesinha, se quiséssemos) regada com um néctar de pêssego ou de laranja (apesar de ter muitas e variadas bebidas alcoólicas, o BBC trata com igual afabilidade os que preferem bebidas não inebriantes). Por último, havia a opção ascética de, com pão, fruta e outros géneros adquiridos no comércio local (uma mercearia, duas lojas generalistas e uma padaria), improvisar um jantar ligeiro na sala de estar do hotel. De 2016 para 2017, BBC, mercearia, lojas e padaria (aberta só de manhã de segunda a sábado) mantiveram-se iguais a si próprias, mas um dos restaurantes deixou de funcionar como tal. Era isso mesmo que esperávamos, pois em 2016 soubéramos que os então concessionários do Caldeirão se iriam embora no final do Verão. Afinal o Caldeirão reabriu com nova gerência, e foi o Traineira que deixou de ser restaurante por ter perdido a cozinheira. Mantém-se aberto, mas servindo apenas sopas, sandes e bebidas. À porta, onde dizia Horário do restaurante diz agora Horário do; as horas de abertura e os dias de descanso são os mesmos. Esta oferta depauperada ainda mais se reduziu no fim-de-semana de 8 e 9 de Julho, quando todos os estabelecimentos de comes-e-bebes estiveram fechados: o Caldeirão o dia todo, o Traineira e o BBC a partir do meio da tarde. O motivo eram as festas da ilha, onde algumas barracas vendiam refeições: para garantir a afluência de clientes, toda a ilha se pôs de acordo em não lhes deixar alternativa. Mas a canja de galinha e a morcela com inhame até estavam boas.

Transportes. Na ilha há três ou quatro táxis; todos acorrem de pronto à chamada e fazem a volta à ilha cobrando 10 euros por pessoa. Quem for poupado e não quiser deslocar-se a pé facilmente arranja boleia numa carrinha de caixa aberta. Apesar de serem muitos os carros no Corvo, a ponto de os habitantes se terem desabituado de andar a pé mesmo em distâncias curtíssimas, não é possível alugar carros na ilha.



Agora a sério

Os parágrafos anteriores são o nosso contributo para moderar a afluência turística ao Corvo. Há lugares que foram feitos para o silêncio e combinam mal com multidões. Mas quem nos leu até aqui, e esteja disposto a despojar-se de alguns dos seus hábitos de vida urbana, merece saber que o Corvo é um lugar extraordinário. Não para visitar a correr, como fazem os que chegam de barco por umas horas, sobem de táxi à grande cratera, tiram umas fotos e já está, mas para ficar alguns dias, dando tempo a que os sentidos se ajustem e se possa entender como uma ilha de 6 Km de comprimento por 4 Km de largura, com 430 habitantes, também é um mundo. As refeições não serão um luxo, mas o alojamento não tem que ser espartano. O Hotel Comodoro (ou Guest House Comodoro), único da ilha, é mais acolhedor, confortável e asseado do que muitos hotéis cheios de estrelas. Não tendo a ilha, com excepção da fábrica de queijos, indústria que se veja ou uma economia de serviços, cada habitante cumpre muitos papéis: um taxista é também pescador e cultiva os seus legumes no quintal; muitos têm afazeres diurnos mas ao fim da tarde sobem às pastagens para ordenhar as vacas; e o dono do hotel pode ser presidente da câmara.

E quanto à natureza? Numa paisagem dominada por pastagens, de onde a manta arbórea original há muito foi extirpada, a maioria das árvores e arbustos refugiam-se em sebes ou em linhas de água temporárias. Os bosques de cedro-do-mato (Juniperus brevifolia) que cobrem grandes extensões da vizinha ilha das Flores estão quase totalmente ausentes do Corvo, sobrando, como últimas amostras significativas, um povoamento de algumas centenas de árvores adultas no Morro da Fonte e um outro, de menor expressão, no troço final do ribeiro da Cancela do Pico, perto do farol. Contudo, são frequentes pela ilha os exemplares isolados de cedro-de-mato, alguns de provecta idade. Ao contrário do que sucede nas restantes ilhas, a conteira (Hedychium gardneranum) não é um problema no Corvo e parece, aliás, ter sido completamente eliminada. O galardão de infestante mais nociva ficou para a hortênsia (Hydrangea macrophylla), que invade ribeiros de forma sufocante e ameaça ocupar de alto a baixo as vertentes do Caldeirão, lugar onde se concentra um número apreciável de endemismos botânicos. Apesar disso, o Caldeirão do Corvo é, sem favor, a mais fotogénica cratera vulcânica do arquipélago e, mesmo com o pastoreio intensivo de gado bovino, guarda habitats preciosos tanto no bordo como nas lagoas e turfeiras que lhe preenchem o fundo. Dado que o coberto vegetal ralo não representa obstáculo à nossa passagem, é fácil descer ao fundo, vencendo um desnível de 150 metros, e caminhar em redor das lagoas, com a necessária cautela não vão os pés afundar-se no terreno pantanoso. As muitas vacas que vamos cumprimentando são pacíficas e estão habituadas às visitas. Estas lagoas têm boas populações de Isoetes azorica, um raríssimo feto aquático que é também um endemismo açoriano, e que no início de Julho, tendo já largado os esporos, deixa ver as suas folhas como longos cabelos verdes e flutuantes. Outras raridades aquáticas igualmente discretas que aqui se fazem comuns são a Littorella uniflora e a Elatine hexandra, acompanhadas por Eleocharis palustris, Potamogeton polygonifolius e Juncus effusus. Nas valas que escoam a água das encostas para as lagoas aparecem grandes fetos (Osmunda regalis, Woodwardia radicans), escoltados aqui e ali por indivíduos dispersos de Vaccinium cylindraceum, Juniperus brevifolia e Ilex perado subsp. azorica.


Isoetes azorica Milde



Myosotis azorica H. C. Watson
Por muito interessante que fosse o fundo do Caldeirão, era no seu bordo que devíamos procurar o tesouro que o mau tempo de Junho de 2016 não nos permitiu alcançar, obrigando ao nosso regresso um ano mais tarde. Conforme comprovativo fotográfico acima, a persistência foi recompensada. Sem batota e sem ajuda, seis anos depois de iniciarmos a busca na ilha das Flores, encontrámos finalmente a Myosotis azorica na natureza. Todos os nossos encontros anteriores com este endemismo das Flores e do Corvo, devorado até à beira da extinção por cabras assilvestradas, tinham sido com plantas cultivadas. Desta vez, vimos umas trinta plantas em flor, duas que pudemos tocar e as restantes em lugares vertiginosamente inacessíveis. Por perto residiam outros dois endemismos destas ilhas, a Veronica dabneyi e a Euphrasia azorica, a segunda muito abundante no bordo da Caldeirão.


Festuca francoi à esquerda e Deschampsia foliosa à direita
Nem só de plantas floridas vive o ecossistema hiper-húmido e quase sempre ventoso do Caldeirão. Mesmo no bordo há muitas zonas turfosas, dominadas por Sphagum, e nos afloramentos rochosos várias gramíneas endémicas abanam as espigas ao vento. As dominantes são a Festuca francoi e, de menor tamanho e com folhas mais curtas, a Deschampsia foliosa. Vê-las lado a lado, como na foto em cima, é a melhor maneira de aprender a distingui-las.


Deschampsia foliosa Hack.

25/10/2016

O sol na cascalheira

No acesso ao Cabeço das Flores e à praia do Zimbralinho, na ponta oeste da ilha de Porto Santo, nota-se logo com alguma estranheza o solo amarelo farinhento. Feito de areia com fragmentos de conchas e algas, esfarela-se ao mais leve toque, desabando com a trepidação causada pela passagem de veículos. Não fosse a chuva miúda, afinal não tão rara nesta ilha, sairíamos dali como padeiros no fim de uma fornada. Estamos num dos mais famosos geossítios da ilha, com indícios de vulcanismo submarino e habitats movediços, onde a erosão é preocupante apesar de ali terem sido plantados muitos pinheiros-de-Alepo (uma espécie resistente ao vento e à maresia com origem na região mediterrânica e descrita a partir de exemplares sírios).


Porto Santo: plantação de pinheiros-de-Alepo (Pinus halepensis Mill.) no Zimbralinho

Prossigamos até ao topo da falésia. Com o mar azul-turquesa ao fundo, começa ali uma escadaria íngreme que nos levaria a uma pequena enseada. Porém, a impedir-nos a descida está um guarda vigilante. Diz-nos ele que, naquele dia, não é permitido descer à calheta pois há uma equipa a preparar a temporada balnear que se avizinha. Onde? Ali, no cabeço, vê? Estão a soltar as pedras mal presas, as que não tardariam a tombar dos taludes. Uma vez caídas, restará uma casca bem segura que só será um perigo daqui a uns dois anos, altura em que é realizado um novo descasque.



Restou-nos recuar e procurar plantas cobertas de pó nos recantos das rochas do caminho. E lá estava, refastelado naquele ambiente seco e arenoso, um Heliotropium encimado de flores de miosótis brancas com um centro amarelo, como é usual neste género. Mas a aparência geral da planta destoava do que conhecíamos, fosse pela inflorescência mais densa ou pelas folhas crispadas, com margens revolutas, onduladas e ligeiramente crenadas. Julgámos tratar-se do H. europaeum, espécie anual frequente em Portugal, tão incomodado como nós com aquela argila calcária fina e salgada. Mas não. Trata-se de outra espécie de Heliotropium, perene e por vezes lenhosa, nativa de África, da Península Arábica, da Ásia, e das ilhas de Porto Santo e das Canárias.


Heliotropium ramosissimum (Lehm.) Sieber ex DC. [= Heliotropium crispum Desf.]


Das cerca de duzentas espécies conhecidas neste género, uma é naturalizada e duas são consideradas espontâneas na Península Ibérica: o H. europaeum e o H. supinum.



Heliotropium supinum L.


Ao contrário da espécie de Porto Santo, o rastejante H. supinum precisa de humidade no solo e aprecia margens pedregosas de rios asseados onde se espraiar. Como as do rio Sabor que escaparam à nova barragem.

24/05/2016

Flora endémica do Porto Santo: Echium portosanctensis



Echium portosanctensis J. A. Carvalho, Pontes, Batista-Marques & R. Jardim



Responsáveis por uma vasta mancha roxa que enfeita agora os nossos prados e terrenos baldios, as plantas do género Echium são vulgares no nosso território e resistentes a muitos dos riscos a que estão sujeitos nestes habitats. Não são especialmente bonitas, com excepção do raríssimo E. boissieri, mas em conjunto garantem uma nota colorida nos campos e são fonte importante de alimento para as abelhas.

As espécies que existem no arquipélago da Madeira destacam-se das continentais pelo porte arbustivo e pelas inflorescências cilíndricas exuberantes. Sabe-se hoje que essas espécies de Echium derivam de uma herbácea do continente europeu, conclusão fundamentada num estudo genético conduzido, em 1996, por Böhle e colaboradores. E, de facto, a um olhar desatento, as plantas de Porto Santo talvez pareçam todas iguais, e semelhantes ao endemismo madeirense E. nervosum (foto em baixo). Porém, anos antes, já havia sido notado, em obras sobre a flora da Madeira, que alguns espécimes em Porto Santo se distinguiam pela corolas branco-rosadas, com estames de cor carmim e anteras azuis, e um anel branco (que surge na 4ª foto) no topo da inflorescência, que é mais pequena que a do E. nervosum. E, decerto, também terão reparado em diferenças na forma e textura das folhas, e no tipo de pêlos que as protegem.

Foi o bastante para que uns quarenta anos depois, em 2010, alguns botânicos quisessem pôr fim às dúvidas e, após minuciosa comparação morfológica, publicassem um artigo (no Anales del Jardín Botánico de Madrid, Vol. 67 (2) : 87-96) que atesta a existência de três espécies endémicas do género Echium no arquipélago da Madeira: E. candicans, planta de montanha e de que só há registo acima dos 800 metros na ilha da Madeira; E. nervosumon, das ilhas da Madeira, Desertas e Porto Santo; e E. portosanctensis, da ilha de Porto Santo, com flores campanuladas (não em funil, como as outras espécies continentais e madeirenses) e com um matiz de azul escuro na base de cada corola (ausente nas outras espécies). Os autores estão seguros sobre o valor adaptativo de todos estes pormenores distintivos ao ambiente rochoso e, por vezes, muito seco de Porto Santo, com intenso vento e maresia. E apresentam uma chave clara para mais facilmente identificarmos cada uma das espécies.

Depois de termos visto o E. nervosum plantado em jardins e bermas de estrada em vários locais da ilha, foi o E. portosanctensis que procurámos na subida ao Pico Branco, montanha com cerca de 450 metros de altura máxima e um percurso assinalado até ao topo, protegido aqui e ali por uma balaustrada firme de madeira. A flora interessante está nas encostas mais ou menos escarpadas que ladeiam o caminho e, confirmámos, o Echium portosanctensis acompanha-nos esparsamente durante quase toda a subida. A distribuição conhecida do E. portosanctensis restringe-se a este pico e ao Pico da Gandaia, com um total de cerca de mil indivíduos. Não surpreende que conste da lista vermelha internacional de espécies em risco.


Pico Branco, ilha do Porto Santo