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12/04/2014

Brancura breve



Bellis annua L.


Quando a moda dos herbicidas o consente, não há imagem mais clássica da Primavera do que um campo de malmequeres floridos. Mas devemos, nesse caso, interpretar o termo "Primavera" como um estado de espírito e não tanto como um período de três meses rigorosamente estabelecido pelo calendário. Há malmequeres que se mostram em abundância logo em Fevereiro ou Março, quase desaparecendo quando chega oficialmente a Primavera. Cumpriram a função de arautos. Não ficam os campos despidos (a menos que venha o herbidicida assassino), pois outros malmequeres amarelos ou brancos se ocupam agora da tarefa de florir, reforçados por uma confusão multicolorida de soagens, tremoceiros, gerânios, ranúnculos e o que mais queira aparecer.

A Bellis annua exemplifica na perfeição como os malmequeres na paisagem mudam não só com o correr dos meses mas também com a alteração da latitude. Mesmo num país curtinho como o nosso, onde a latitude não tem âmbito para grandes variações, o norte e o sul são mundos distintos, e este malmequer anual é definitivamente do sul: não quer nada com os territórios a norte de Lisboa e passeia-se alegremente pela Arrábida, Algarve e Costa Vicentina. Da sua vocação decididamente mediterrânica dá testemunho uma distribuição global repartida entre o sul da Europa, Anatólia e norte de África. Essa preferência ecológica também condiciona a fenologia de uma planta que, por apreciar um certo grau de humidade, tem de germinar, florir e e frutificar antes de virem os meses quentes e secos. Daí que a 8 de Março, quando a encontrámos na Arrábida, já levasse o serviço bem adiantado.

Há outras três representantes do género Bellis na flora portuguesa, todas elas plantas perene com folhas simples, de margens não recortadas. A mais conhecida dos citadinos, por frequentar assiduamente os relvados urbanos, sobretudo os que são aparados com insistência, é a B. perenis, vulgarmente conhecida como bonina. Em espaços naturais de norte a sul do país aparece uma versão da bonina com escapos e capítulos maiores e folhas mais estreitas: trata-se da B. sylvestris. A B. annua distingue-se bem dessas duas boninas por ter uma envergadura consideravelmente menor e por exibir folhas caulinares (3.ª foto). A mais preciosa e também a menos vistosa do género é a B. azorica, um ameaçado endemismo açoriano de que já aqui falámos.

29/03/2014

H, II ou X

Ophrys incubacea Bianca
Orquídeas silvestres outra vez?, pergunta o leitor de testa franzida. Pois, ainda não falámos desta. Só recentemente a vimos no Parque Natural da Arrábida, em sítios soalheiros ou a meia sombra, e estava no início da floração. Não ocorre no norte do país, embora haja populações no norte da Península Ibérica. É uma planta mediterrânica e, mau grado os poucos registos da sua presença em Portugal, não será assim tão rara no Alentejo e na Estremadura. Amaral Franco, na Nova Flora de Portugal, garante que também ocorre no maciço calcário do centro do país. O botânico italiano Giuseppe Bianca (1801-1883), que a nomeou em 1842, terá avistado exemplares diminutos na Sicília (o nome incubacea alude precisamente a essa pequenez), mas os caules erectos podem chegar aos 60 cm de altura.

Em algumas flores nota-se, na ponta do labelo, um apêndice amarelo redondinho cuja função desconhecemos. Para outros detalhes há, porém, explicação. As flores têm um estigma escuro e o labelo é peludo, em tom castanho avermelhado, próximo da cor do vinho tinto, no centro do qual se destaca uma mancha violácea brilhante que, para mais bem contrastar, tem por vezes um rebordo ocre ou esverdeado. A alguns, a flor lembra uma aranha, a outros uma vespa ou um moscardo. No polinizador (Andrena morio) suscita a grata memória de uma mosquinha-fêmea de tamanho aproximado ao do labelo, igualmente escura e com asas estreitas que, juntas, parecem formar um X. O desenho no labelo da flor imita quase perfeitamente este formato, embora a letra saia por vezes mal desenhada, lembrando antes um H ou um duplo I.

Alguns naturalistas, botânicos e especialistas em orquídeas evocam várias diferenças morfológicas para não seguirem a norma da Flora Ibérica (e, portanto, do Flora-On) de designar esta orquídea como Ophrys sphegodes Mill., nome atribuído em 1768 a uma planta que, se aceitarmos essa opinião, não existe por cá. É certo que as variações morfológicas aleatórias numa mesma população de orquídeas podem ser muito benéficas à espécie, mas algumas das que observamos hoje têm por ventura ainda um carácter efémero. Entende-se, assim, a hesitação em formalizar esses cambiantes em múltiplas espécies sem o apoio de estudos genéticos aprofundados. Contudo, o género Ophrys hibrida com frequência, o que complica consideravelmente a tarefa da ciência mas é fonte de legítimo regozijo para quem descobre tais híbridos.


Castelo de Palmela

29/12/2011

Rosa Maria

Helianthemum marifolium (L.) Mill.
Os ingleses chamam rock roses às plantas da família Cistaceae, que nós tratamos por esteva, estevinha, estevão, sargaço, sargaça ou sargacinha. Por serem plantas nativas do nosso território, e não das ilhas britâncias, os nomes que lhes damos deveriam gozar de primazia. Sucede que a nomenclatura popular é altamente confusa, chamando a mesma coisa a plantas muito diferentes ou, pelo avesso, atribuindo nomes díspares a plantas claramente aparentadas. Quem poderia adivinhar, só pelos nomes, que a esteva e o sargaço são plantas da mesma família? Ou quem diria que o sargacinho (Lithodora prostrata) e a sargacinha (Halimium calycinum ) nada têm a ver um com o outro?

Rock rose tem pois a vantagem da simplicidade e da transparência: sabemos de imediato de que tipo de planta estamos a falar, e ainda ficamos com a ideia — em geral correcta, apesar de admitir excepções — de que ela prefere terrenos secos e pedregosos. Para quem quiser compor um jardim de plantas xerófilas, com cascalho e blocos de pedra (ou seja, aquilo a que os anglo-saxónicos chamam rock garden), as rock roses são a escolha óbvia para fazer companhia às suculentas. Pena é que o conceito e as próprias plantas que lhe dariam forma sejam quase ignorados em jardins portugueses.

A rosa-das-rochas que hoje nos visita tem um epíteto misterioso: marifolium. É pois, na opinião de Lineu, uma rosa com folhas de Maria, ou mais simplesmente uma Rosa Maria. Desde quando Maria é vegetal? Um mergulho nos poeirentos arquivos da taxonomia botânica revela-nos a existência de uma Maria-antonia orientalis Parl., leguminosa baptizada em 1844 de que entretanto se perdeu o rasto. Mas a Maria de Lineu terá que ser outra, pois a descrição original do Helianthemum marifolium (como Cistus marifolius) é de 1753.

O Helianthemum marifolium é um arbusto peludo, muito ramificado e de caules prostrados, que atinge um máximo de 30 cm de altura mas em regra é bem mais rasteiro; as suas folhas têm de 3 a 15 mm de comprimento, e as flores de 10 a 15 mm de diâmetro. Distribui-se pela Península Ibérica, sul de França, Baleares e norte de África, e em Portugal ocorre apenas na serra da Arrábida e no litoral algarvio.

Adenda. Uma leitora perspicaz sugeriu que marifolium não remete a Maria nenhuma, mas sim ao Teucrium marum, arbusto mediterrânico muito atraente para gatos que vive em França, Itália, Sardenha e Córsega.

08/12/2011

O sol nos Apeninos


Helianthemum apenninum (L.) Mill.


Mesmo quem nada entenda de flores dificilmente confundirá este arbusto rasteiro com um girassol. No entanto, essas duas plantas tão díspares comungam uma preferência pelo astro-rei que se traduz nos nomes científicos Helianthus (para o girassol) e Helianthemum. Mais do que parecidas, estas duas palavras são sinónimas: ambas nos dizem que as flores das plantas em causa gostam de se virar para o sol. Essa preferência, no caso do Helianthemum, é denunciada pela primeira foto aí em cima, em que as flores surgem alinhadas com um aprumo quase militar. A única falha é que nem todas elas compareceram à parada: há muitas ainda fechadas nos seus botões. É que, como sucede com todas as cistáceas, cada flor, depois de aberta, dura poucas horas, e ao fim da tarde deixa já tombar as pétalas. Porque é preciso assegurar o expediente do dia seguinte, não podem abrir todas as flores de uma só vez.

Aquilo que distingue os vários géneros arbustivos da família Cistaceae (os mais importantes são Cistus, Halimium e Helianthemum, que entre si abarcam 25 espécies da flora portuguesa) são detalhes dos cálices e dos frutos difíceis de observar a olho nu. Há truques que facilitam a identificação: as espécies de flores cor-de-rosa só podem ser Cistus; as de flores amarelas são Halimium ou Helianthemum; os Halimium e os Cistus costumam ser bastante maiores do que os Helianthemum; os Helianthemum escasseiam na metade norte do país. Mas, além de padecer de limitações geográficas, o receituário deixa de fora as plantas de flor branca, que são as mais numerosas e podem pertencer a qualquer um dos três géneros.

O Helianthemum apenninum, que costuma vegetar em lugares pedregosos, é um arbusto muito ramificado com não mais que 30 cm de altura; as folhas têm até 2 cm de comprimento, e as flores (que podem ser amarelas ou, como nas fotos, brancas com centro amarelo) têm de 1,5 a 2 cm de diâmetro. Floresce durante um longo período, de Março a Agosto, e a sua distribuição no nosso país é descontínua e pontual: ocorre em Trás-os-Montes, na Estremadura (serras de Montejunto, Candeeeiros e Arrábida) e no Baixo Alentejo.

27/07/2011

Titímalo pernalta

Euphorbia characias L.


Nomes vulgares: maleiteira-maior, titímalo-maior, mediterranean spurge
Ecologia e distribuição: ocorre em Portugal e na bacia mediterrânica de Espanha até Itália, e ainda em Marrocos e na Líbia; prefere terrenos calcários em lugares soalheiros e secos
Distribuição em Portugal: Trás-os-Montes, Beiras, Estremadura, Algarve
Época de floração: Março a Maio
Data e local das fotos: Março de 2010, Cabo Espichel (foto 2) e Pousaflores, Ansião (fotos 1 e 3)
Informações adicionais: planta robusta (até 1,5 m de altura), de base lenhosa, formando touceiras com muitas hastes; característica dos prados secos mediterrânicos, é popular como planta de jardim em Inglaterra

10/06/2010

Rodou três vezes

Convolvulus fernandesii P. Silva & Teles

.....Endemismo lusitano, exclusivo da Serra da Arrábida.


Arribas do Cabo Espichel

08/06/2010

Brava tulipa

Tulipa sylvestris subsp. australis (Link) Pamp.
Num dos contos de A derrocada da Baliverna, de Dino Buzzati (tradução de Margarida Periquito para a Cavalo de Ferro em 2008), há três satélites — um que parece um lápis prateado, outro em forma de ovo cor de laranja e um pintado com riscas amarelas e pretas — enviados para o espaço entre 1955 e 1958 e que, em vez de funcionarem como previsto, levaram as suas tripulações para um lugar onde ficaram penduradas a girar em silêncio. No lançamento, milhares de pessoas esperançadas ergueram o nariz para a atmosfera; agora só alguns poucos espreitam, pela surdina, os três pontinhos no céu, quando a luz e a hora o permitem.

[Nas cidades iluminadas, mesmo quando não é época natalícia, isso não é possível. Mas na serra da Arrábida, área cársica que é um paraíso para muitas plantas, pode até ver-se à noite a Via Láctea.]

Rói em todos a indignação pelo que aconteceu; e deste modo protestam «pela descoberta que lhes mudou a vida». Depois de uma largada perfeita, de uma trajectória impecável e de uma viagem tranquila, os satélites selaram-se inertes, com uma última comunicação enigmática: «Que música estranha... Raios, mas nós aqui viemos parar ao...!»

[Onde? Fosse a um terreno inculto e pedregoso ou a uma mata de montanha, poderiam avistar esta tulipa silvestre resistindo às estiagens e florindo de Março a Junho. As flores são em geral solitárias, sem estilete e com estames penugentos na base. As pétalas amarelas nascem por vezes com listas verdes ou vermelhas por fora. Distingue-se da espécie T. sylvestris L. por ter só duas folhas — lineares e na base de uma haste glabra —, ostentar flores menores e, em geral, não ir além dos 30 cm de altura.]

Não demorou a descobrir-se o significado das mensagens espantadas. «De maneira que hoje ninguém duvida — excepto alguns poucos casmurros irredutíveis que gostariam que o orgulho humano não cedesse — ninguém duvida já de que os três projécteis tenham sido atingidos pelo som a que a nossa pobre alma não resiste.» Os tripulantes foram parar ao céu.

Seguiram-se dias de desorientação, ira e polémica. «Que vulgaridade — disseram os cientistas, insurgindo-se contra a absurda hipótese —, já não estamos na Idade Média! Que vergonha!, disseram os teólogos, ofendidos com a ideia temerária de o reino dos Céus se encontrar assim próximo, aqui suspenso por cima de nós, de tal modo que, levantando a cabeça, quase chocamos com ele.» O planeta parece ter minguado com a casa dos anjos nos subúrbios. E, cheios de razão, ficámos ofendidos: o paraíso é afinal a nossa última fronteira, que nos barra o caminho e nos aprisiona.

[Na Europa mediterrânica, Portugal, Suíça e Bulgária partihamos a cela com esta flor. Que pesado castigo.]

28/05/2010

Cenoura de flores douradas

Thapsia villosa L.


Os ingleses não gostam de alardes de erudição, preferindo a popularização ao rigor científico. É por isso que, nos guias de flores silvestres, as famílias botânicas são designadas pelo seu membro mais conhecido. Falam-nos eles, por exemplo, da família da menta e da família da cenoura. A cenoura provém de uma planta umbelífera, Daucus carota, que é espontânea em Portugal e em boa parte da Europa. Na falta de nomes vernáculos apropriados ou sugestivos, parece-nos boa ideia chamar cenouras às umbelíferas. O único inconveniente é a sugestão implícita de que todas elas são comestíveis. Algumas, como a salsa e a própria cenoura, até se comem, mas outras muito semelhantes, como a cicuta (Conium maculatum), são mortalmente venenosas.

Por entre a profusão de cenouras de floração branca, que passam relativamente despercebidas mesmo quando são muito abundantes, as cenouras amarelas oferecem um regalo para a vista. A Thapsia villosa, com os seus quase dois metros de altura e as suas girândolas de flores douradas, estava em meados de Março no início da floração, mas já enfeitava garbosamente as falésias do Cabo Espichel. Dizem os manuais, repetindo-se acriticamente uns aos outros, que a floração da espécie decorre de Abril a Junho. Ainda bem que na Arrábida ela resolveu ignorar o calendário oficial.

Assinale-se que há outras plantas, como o funcho (Foeniculum vulgare) e a férula (Ferula communis) que amiúde se confundem com a Thapsia. A distinção entre essas três espécies, todas de porte avantajado, faz-se mais facilmente pelas folhas basais: com aspecto de penugem as do funcho (foto), filiformes e formando uma teia confusa as das férula (foto).

26/05/2010

Alfazema da Arrábida

Lavandula multifida L.
Há plantas portuguesas que nunca ninguém sentiu necessidade de nomear e que nunca andaram nas bocas do povo. Podem até ser plantas bastante comuns, mas, se não tiverem utilidade imediata, a nossa gente, tradicionalmente pouco dada ao mundo vegetal, não toma conhecimento delas. Em contrapartida, as plantas «úteis» recebem tantos nomes como os fidalgos da mais antiga estirpe. Rosmaninho, alfazema e lavanda são outras tantas designações populares para as plantas do género Lavandula. Porém, em contraste com outras plantas da mesma família, como o tomilho e o orégão, as alfazemas não estão ao serviço do nosso paladar, mas sim do nosso olfacto. Há poucas coisas melhores do que o perfume com que elas nos impregnam os dedos quando as acariciamos. E essa olorosa qualidade, além de lhes ter conquistado um destaque nos nossos jardins a que pouquíssimas plantas nativas têm direito, é há muito aproveitada pelos fabricantes de sabonetes e pela indústria de perfumaria.

Haverá umas 25 espécies de Lavandula, concentradas sobretudo na região Mediterrânica, mas estendendo-se também até às ilhas Canárias, ao sudoeste asiático e à Índia. São arbustos perenifólios de até metro e meio de altura, com flores agrupadas em penachos, típicos de habitats soalheiros, secos ou pedregosos. No nordeste de Portugal a espécie mais comum é a Lavandula pedunculata, que aqui já mostrámos nas escarpas do ameaçado vale do Tua. Descendo para sul encontramos a alfazema-da-Arrábida: por ter sido lá que primeiro a avistámos, é esse o nome que gostaríamos de dar à Lavandula multifida, muito embora ela ocorra também no Baixo Alentejo e, indo além de Portugal, em Espanha, em Itália e no norte de África.

O epíteto multifida refere-se ao que a planta tem de mais distintivo: as folhas duplamente pinadas, que contrastam com as folhas simples das suas congéneres mais comuns. Outra característica diferenciadora é que a corola da flor tem a pétala superior muito desenvolvida, formando uma espécie de poupa.

Ensinam os manuais que a Lavandula multifida floresce de Fevereiro a Junho. Se ainda não a viu, de que está à espera o leitor sulista para ir à procura dela?

25/04/2010

Voava, voava

Ophrys tenthredinifera Willd.
       Antes ser na terra escravo de um escravo
Do que ser no outro mundo rei de todas as sombras
       Homero, Odisseia (Canto XI)

Antes ser sob a terra abolição e cinza Do que ser neste mundo rei de todas as sombras

Sophia de Mello Breyner Andresen, Paráfrase (O nome das coisas, 1977)


08/04/2010

Jacinto-da-tarde

Dipcadi serotinum (L.) Medik.


Give me some mud off a city crossing, some ochre out of a gravel pit and a little whitening and some coal dust and I will paint you a luminous picture if you give me time to gradate my mud and subdue my dust.
John Ruskin

Não é só a cor, mistura suave de laranja, castanho e bronze, que atrai nesta inflorescência de sininhos. A espiga de flores, de perfil, com 10 a 40 cm de altura, mostra como elas se dispõem viradas para um mesmo lado, inclinadas como se adivinhassem, com embaraço, que estamos a falar delas.

Trata-se de uma herbácea perene e bolbosa, frequente em terrenos incultos ou rochosos de montanha no sudoeste da Europa e no Norte de África mas que pode passar despercebida precisamente quando está em flor (Março-Junho), por causa da cor mate que adoptou e das suas três a cinco folhas basais estreitas. O que não a impediu de ser várias vezes descoberta e, com natural júbilo, nomeada: Hyacinthus fulvus Cav. (o latim fulvus aludindo ao moreno da flor), Uropetalum serotinum Ker Gawl. (do grego oura, a propósito das pontas reviradas das três pétalas exterioes) ou Hyacinthus serotinus L. (do latim serotìnu, referindo-se talvez ao amadurecimento serôdio do fruto). Julgámos que dipcadi seria aviso do pecado inato a planta tão virtuosa. Mas não. Segundo William T. Stearn, dipcadi é o nome turco deste jacinto (e não sul-africano como afirma o dicionário Houaiss).

As 55 espécies no género Dipcadi são originárias de África e do sul e oeste da Europa. D. serotinum é a única espécie ibérica.

07/04/2010

A eufórbia de José Gomes Pedro




As falésias entre a Serra da Arrábida e o Cabo Espichel estão viradas para sul. Fosse a terra plana e viéssemos nós equipados com visão telescópica, era em Marrocos que o nosso olhar se fixaria. Isto se conseguíssemos desprendê-lo do cenário esmagador de escarpas abruptas e praias secretas que nos rodeia. Quem vem do norte tem de encontrar nem que seja um pequeníssimo defeito para se defender: à noite não é neste mar que o sol mergulha.

Com a criação, por decreto-lei de 1976, do Parque Natural da Arrábida, quis-se proteger a flora do rebordo sul da península de Setúbal. Uma visita de um dia só à envolvente do Cabo Espichel, guiados por quem lhe conhece todos os trilhos, nichos e recantos, e sabe de cor o nome de todas as plantas grandes ou pequenas, forneceu-nos um panorama incompleto mas eloquente da vegetação ímpar deste parque. E as pessoas que nos acompanharam são tão generosas que querem partilhar o seu saber e entusiasmo com toda a gente. Botânicos amadores, aprendizes de naturalistas, curiosos do mundo vegetal: de que estão à espera para se inscreverem na Sociedade Portuguesa de Botânica?

Euphorbia pedroi Molero & Rovira


A Euphorbia pedroi, que só há treze anos foi oficialmente baptizada, é um dos símbolos maiores do Parque Natural da Arrábida. Com um tronco atarracado e cinzento, e uma copa arredondada que faz lembrar a de uma árvore em miniatura, é um arbusto que pode atingir os dois metros de altura e que, no Verão, se despe da sua folhagem semi-carnuda. Vive nas escarpas, sobre solo esquelético ou em fissuras de rochas. Dela se conhecem quatro populações entre a Arrábida e o Cabo Espichel. Não existe em mais lugar nenhum do mundo.

A proximidade morfológica entre a Euphorbia pedroi e outras espécies como a E. dendroides, ausente de Portugal mas de ampla distribuição mediterrânica, explicará como ela pôde permaner tantos anos incógnita. Durante longo tempo terá prevalecido a opinião de que a eufórbia da Arrábida seria a E. obtusifolia, espécie que hoje em dia (sob o nome E. regis-jubae) se julga estar confinada a Marrocos e às ilhas Canárias. Além da E. pedroi, as únicas outras eufórbias arbustivas espontâneas em território português são as madeirenses E. piscatoria e E. anachoreta.

Foi o engenheiro agrónomo José Gomes Pedro — nascido em 1915, um dos maiores estudiosos da flora arrabidense, galardoado em 2006 com o Prémio Quercus e autor do livro Vegetação e Flora da Arrábida (ICN, 1991) — quem primeiro reconheceu que a eufórbia que hoje leva o seu nome era afinal um caso à parte. Mas só em 1997, com a publicação nos Anales del Jardin Botánico de Madrid, é que a descoberta foi oficializada pelos botânicos espanhóis Julián Molero e A. M. Rovira.

03/04/2010

Da cor do limão

Gennaria diphylla (Link) Parl.
Patrizio Gennari (1820-1897), botânico da Sardenha, foi o primeiro director do Jardim Botânico de Cagliari. O acervo deste Jardim, inaugurado em 1866 com cerca de 430 espécies, exibe hoje mais de seiscentas árvores, outros tantos arbustos, umas mil suculentas e várias orquídeas endémicas nesta região autónoma italiana. Como a da foto.

É um geófito de raízes tuberosas com duas folhas cordiformes, desiguais e alternadas num caule de 15-30cm que termina numa espiga coberta de flores verdes, em geral viradas para um mesmo lado, com esporões corcundas. Pede sombra, de pinheiro, loureiro ou, na falta deles, de algum arbusto perenifólio como o carrasco, e uma fenda de rocha à medida da folha maior. Há registo da sua presença no sudoeste da Europa (mas aqui rara), na Tunísia, na Córsega, na Sardenha e na Macaronésia (Canárias, Madeira e Porto Santo).

27/03/2010

Moscardinho

Ophrys bombyliflora Link


Button Moulder — Hello, old man.
Peer — Good evening, friend.
Button Moulder — In a hurry? What are you doing, here on this empty moor?
Peer — Moving towards my death. What else?
Button Moulder — Ah. Excuse me... my eyes aren't what they were. Are you Peer Gynt?
Peer — So people say.
Button Moulder — Perfect! The man I was sent to find.
Peer — What for?
Button Moulder — Easy. I'm a button moulder. You're to go in my ladle.
Peer — Why?
Button Moulder — To be melted down.
Peer — Pardon?
Button Moulder — Here's the ladle, wiped and waiting. Your grave's dug. Your coffin's ordered. My orders are to fetch your soul to the Boss at once.
Peer — Without a word of notice?
Button Moulder — That's how it's always done. Births... burials. Day chosen on the quiet. Not a word to the guest of honour.
Peer — I don't feel well. Oh Peer! What an end to your journey! I wasn't all that bad. An idiot, perhaps. Not a proper sinner.
Button Moulder — Precisely. Not a proper sinner. You were not bad enough for the sulphur-pit, nor good enough for paradise. That's why you go to the casting ladle with the others.
Peer — You're going to melt me down, and start again?
Button Moulder — That's right. Like worn out coins.
Peer — I refuse. I won't.
Button Moulder — What's all the fuss about? It's not important. You were never yourself, alive — why do you care what happens when you're dead?
Peer — Never myself? You're joking! Never myself — Peer Gynt? What else have I ever been? I am Peer. All Peer.
Button Moulder — You have been selfish, but not yourself.


Henrik Ibsen, Peer Gynt (1867; trad. Kenneth McLeish)

27/07/2004

Pão com rosmaninho

«Arrábida, Junho de 1545
Na encosta da serra da Arrábida, no convento dominicano de Santa Maria da Piedade, os religiosos atravessavam o claustro interior, a caminho do refeitório.
Gaspar contemplou os pequenos barcos de pesca, pontinhos coloridos que se moviam no oceano que rebrilhava na luz matinal (...) e, como todas as manhãs, pensou que, com uma vista daquelas, pouco custava louvar o senhor ao despontar de cada novo dia.
Como fazia todas as manhãs. Gaspar louvou ao mesmo tempo frei António, que lhe dera a ideia, verificando com satisfação que, aparentemente, o espinheiro-alvar, se contentava com o orvalho para crescer e desviou-se ligeiramente para a direita, para apanhar um ramo de rosmaninho, que esfregou entre o polegar e o indicador, deixando as folhinhas deslizar-lhe para o bolso, onde se foram juntar ao tomilho, à murta, aos oregãos, ao louro... Depois passou, esfregando, os dedos por baixo do nariz.
Ele solucionara o problema do eterno pedaço de pão seco que constituía o pequeno-almoço logo a partir do primeiro ano de noviciado: ao pedaço de pão conventual, alimentício mas magro de fantasia, que comia com a boca, juntava o seu nariz uma pitada de aroma de ervas aromáticas. Naquele dia, portanto, iria ser rosmaninho.»
In A China de Gaspar, de Magda van den Akker (Editorial Caminho, 1992)

A Arrábida - Herculano

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Foto: mdlramos 0202- Convento da Arrábida

A Arrábida
I
Salve, ó vale do sul, saudoso e belo!
Salve, ó pátria da paz, deserto santo,
Onde não ruge a grande voz das turbas!
Solo sagrado a Deus, pudesse ao mundo
O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
Qual ao freixo robusto a frágil hera,
E a romagem do túmulo cumprindo,
Só conhecer, ao despertar na morte,
Essa vida sem mal, sem dor, sem termo,
Que íntima voz contínuo nos promete
No trânsito chamado o viver do homem.
II
Suspira o vento no álamo frondoso;
As aves soltam matutino canto;
Late o lebréu na encosta, e o mar sussurra
Dos alcantis na base carcomida:
Eis o ruído de ermo! Ao longe o negro,
Insondado oceano, e o céu cerúleo
Se abraçam no horizonte. Imensa imagem
Da eternidade e do infinito, salve!
III
Oh, como surge majestosa e bela,
Com viço da criação, a natureza
No solitário vale! E o leve insecto
E a relva e os matos e a fragrância pura
Das boninas da encosta estão cantando
Mil saudades de Deus, que os há lançado,
Com mão profusa, no regaço ameno
Da solidão, onde se esconde o justo.
(...)
Sobre esta cena o sol verte em torrentes
Da manhã o fulgor; a brisa esvai-se
Pelos rosmaninhais, e inclina os topos
Do zimbro e alecrineiro, ao rés sentados
Desses tronos de fragas sobrepostas,
Que alpestres matas de medronhos vestem;
(...)
X
É aqui neste vale, ao qual não chega
Humana voz e o tumultuar das turbas,
Onde o nada da vida sonda livre
O coração, que busca ir abrigar-se
No futuro, e debaixo do amplo manto
Da piedade de Deus: aqui serena
Vem a imagem da campa, como a imagem
Da pátria ao desterrado; aqui, solene,
Brada a montanha, memorando a morte.
Essas penhas, que, lá no alto das serras
Nuas, crestadas, solitárias dormem,
Parecem imitar da sepultura
O aspecto melancólico e o repouso
Tão desejado do que em Deus confia.
Bem semelhante à paz que se há sentado
Por séculos, ali, nas cordilheiras
É o silêncio do adro, onde reúnem
Os ciprestes e a Cruz, o Céu e a Terra.
(...)
Eremitério antigo, oh, se pudesses
Dos anos que lá vão contar a história;
Se ora, à voz do cantor, possível fosse
Transudar desse chão, gelado e mudo,
O mudo pranto, em noites dolorosas,
Por náufragos do mundo derramado
Sobre ele, e aos pés da Cruz!...
Se vós pudésseis,
Broncas pedras, falar, o que diríeis!
(...) A Harpa do Crente (1837) , Alexandre Herculano
(versão integral aqui)
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