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02/08/2014

O sol no Egipto


Helianthemum aegyptiacum (L.) Mill.


É um sol pálido e de vida curta aquele que estas flores representam. A exemplo do girassol (género Helianthus) e da verrucária (Heliotropium europaeum), também as plantas do género Helianthemum têm a reputação, plasmada no nome científico, de virarem as flores para a luz do sol. Mas na verdade não sabemos se o H. aegyptiacum cumpre esse tropismo, pois as suas flores são tão débeis e efémeras, deixando cair as pétalas por exaustão ao fim de duas ou três horas, que raramente as podemos ver. O hábito de descartar sem demora a produção florística de cada dia é comum a todas as cistáceas, mas nas estevas, sargaços e tuberárias as flores ainda se aguentam até ao fim da tarde, derramando-se então à volta da planta num tapete de pétalas brancas, rosadas ou amarelas.

Descrita por Lineu em 1753 como Cistus aegyptiacus, e mudada um século mais tarde por Philip Miller para o género Helianthemum, esta herbácea anual de floração primaveril e não mais que 30 cm de altura gosta de lugares secos e soalheiros, de preferência arenosos: gosta, em suma, do Egipto e dos desertos enfeitados com pirâmides. Aceita, contudo, relaxar essas exigências, e por isso frequenta os dois lados da bacia mediterrânica, alcançando o norte da Península Ibérica e, em Portugal, a Terra Quente transmontana. Mas o Egipto, terra que tantos apetites coloniais atraiu, era nos séculos XVIII e XIX mais interessante e acessível aos viajantes e estudiosos norte-europeus do que os países do sul da Europa. Talvez por isso tanto Lineu como Miller indiquem o Egipto como terra natal desta cistácea, ignorando a sua presença no continente europeu.

Philip Miller (1691–1771), botânico e jardineiro inglês, fornece pretexto para a nossa segunda menção do Chelsea Physic Garden em poucos dias. Miller foi sucessor de Samuel Doody como jardineiro-chefe do histórico jardim londrino, mantendo-se no cargo durante 48 anos. Com início em 1741, foi publicando edições sucessivamente aumentadas do seu Gardeners Dictionary, com a oitava e última edição (um tomo de mais de 1300 páginas) a surgir em 1768. Esses Dicionários para Jardineiros, apesar de incluírem abundantes conselhos sobre o cultivo de plantas, eram genuínos tratados científicos, e asseguraram ao autor um lugar entre os grandes botânicos da história. Sobre a emancipação do género Helianthemum, que consta da derradeira edição do Gardeners Dictionary, Miller justifica-a com o facto de as cápsulas dos frutos terem apenas três segmentos, enquanto que as plantas que optou por manter no género Cistus dão em geral cápsulas com cinco segmentos. Esse critério, com alguns aditamentos que justificaram a posterior partição do género Helianthemum em géneros adicionais (entre eles Tuberaria e Fumana), é ainda hoje aceite e válido.

01/12/2013

Semear Portugal

Em Portugal a jardinagem pública é uma arte perdida, substituída que foi pela rotineira manutenção de bisonhos espaços verdes. Quem quiser usufruir de um jardim colorido ou deita ele próprio mãos à obra ou visita os espaços naturais onde vivem as flores silvestres. As cores primaveris da serra dos Candeeiros ou do Barrocal algarvio (para citar apenas dois exemplos paradigmáticos) podem, na sua exuberância sem artifícios, servir de inspiração ao mais exigente dos jardineiros. Mesmo que a natureza não caiba toda entre os muros de um jardim, podemos ensaiar uma boa imitação, cultivando no nosso terreno as plantas da flora portuguesa com maior aptidão ornamental. Pois é sem dúvida bem mais gratificante termos um jardim que nos recorde os passeios pela serra do que uma coisa postiça preenchida com as novidades holandeses do garden center.

Para nos facilitar a vida, já que de facto as plantas portuguesas não estão à venda em hortos, o projecto Sementes de Portugal preparou um óptimo catálogo de sementes para venda. Só de sargaços e roselhas (como a da foto aí em baixo) já dá para compor um canteiro invejável. Mas a Crix e o João Gomes chegam ao requinte de disponibilizar sementes de plantas raras como a Aristolochia baetica, Cynara algarbiensis, Echinops strigosus, Iberis procumbens, Matthiola sinuata e Phlomis purpurea. A somar a tudo isto, lançaram um blogue que é já de consulta obrigatória para quem se interesse pela nossa flora espontânea.

De que está o leitor à espera para se fazer cliente?


Cistus crispus L.

05/07/2012

Sol de Maio



Helianthemum nummularium (L.) Mill.

Por esta altura, nos nossos pinhais de litoral, orlas de bosques e terrenos pedregosos, estão em flor muitas cistáceas, lenhosas ou rasteiras, várias delas com flores amarelas. E a identificação delas não é fácil ao olho não ensinado. Em alguns casos, só juntando informação sobre o porte (que a fotografia nem sempre revela), atributos inconspícuos nas flores e a morfologia das folhas se pode ter certeza.

As plantas do género Cistus (a que os ingleses chamam rockrose e nós hesitamos entre esteva, roselha ou sargaço) são em geral arbustos perenes com folhas inteiras sem estípulas (umas folhinhas suplementares inseridas na base das folhas maiores) e flores brancas ou cor-de-rosa de 6 cm de diâmetro, ou mais, e com numerosos estames todos férteis (isto é, com anteras no topo, cheias de pólen). A hibridação é frequente, mas, com tais características, os Cistus não se confundem com a planta das fotos.

No género Tuberaria (a que chamamos alcar e os ingleses spotted rockrose, embora as flores de algumas espécies não tenham pintas) só há herbáceas, anuais ou perenes, e as folhas formam uma roseta basal. Por isso, distinguem-se facilmente das plantas da vitrine.

Igualmente de pequena estatura, embora possam ter cepa lenhosa, são as plantas do género Fumana, cujos estames exteriores são estéreis (parecem uns cabelinhos desgrenhados, sem a bolinha amarela na ponta). Como as folhas parecem grãos de arroz, não as tomamos erradamente pelas que hoje se exibem aí em cima.

A confusão começa a instalar-se quando passamos ao género Halimium. Aqui abrigam-se arbustos que dão flores amarelas ou brancas, mas afortunadamente as folhas exibem em geral basta penugem em ambas as faces, ou são longas e estreitas, e assim conseguimos evitar um equívoco embaraçoso com a planta que hoje aqui trazemos.

Da família Cistaceae sobra então o género Helianthemum, e o problema de etiquetar a planta das fotos parece resolvido. Na verdade, este género contém muito mais espécies do que os anteriores, e decidir a qual delas pertence uma planta é tarefa minuciosa. Reúne plantas ramificadas de base lenhosa e ainda algumas herbáceas, com pêlos estrelados, numerosos talos erguidos ou prostrados, folhas ovadas, simples, inteiras, opostas, com margens ligeiramente enroladas para dentro, estípulas lineares e pecíolo bem desenvolvido. As flores, com cerca de 3 cm de diâmetro, ou um pouco mais, são hermafroditas e agrupam-se em ramalhetes terminais. O cálice tem duas sépalas estreitas e mais três proeminentes (pode observar este detalhe na segunda foto) e nervadas (como se tivessem costelas castanhas); os estames são todos férteis. As pétalas, que se desprendem ao mais leve toque, parecem unhas amarelas, alaranjadas, brancas ou cor-de-rosa, com uma mancha dourada na base. Os espanhóis chamam-lhes mirasóis, nós alecrim-das-paredes (e não dos-muros).

O género Helianthemum foi proposto pelo botânico francês Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708) mas legalmente é atribuído ao naturalista escocês Philip Miller (1691-1771). Em 1753, Lineu designou esta planta Cistus nummularius, sendo plausível que o epíteto específico (que deriva de nummus, moeda) aluda ao formato das flores, embora o Stearn's Dictionary of plant names entenda que se refere às folhas, tendo possivelmente em conta o riksdaler, uma moeda de formato alongado usada na Suécia durante parte do século XVIII.

O primeiro exemplar que observámos, com a ajuda do Carlos Silva, estava num talude rochoso de Fafião, no Gerês; revimos a espécie na orla de um sobreiral no Alto Trovela e mais tarde perto de uma pedreira de calcário negro no Marão. Para encontrarmos outras populações, teremos de rumar até à Beira Alta, não havendo registos mais a sul. Ocorre na metade norte da Península Ibérica, na Serra Nevada, em quase todo o resto da Europa e no oeste da Ásia.

29/12/2011

Rosa Maria


Helianthemum marifolium (L.) Mill.

Os ingleses chamam rock roses às plantas da família Cistaceae, que nós tratamos por esteva, estevinha, estevão, sargaço, sargaça ou sargacinha. Por serem plantas nativas do nosso território, e não das ilhas britâncias, os nomes que lhes damos deveriam gozar de primazia. Sucede que a nomenclatura popular é altamente confusa, chamando a mesma coisa a plantas muito diferentes ou, pelo avesso, atribuindo nomes díspares a plantas claramente aparentadas. Quem poderia adivinhar, só pelos nomes, que a esteva e o sargaço são plantas da mesma família? Ou quem diria que o sargacinho (Lithodora prostrata) e a sargacinha (Halimium calycinum ) nada têm a ver um com o outro?

Rock rose tem pois a vantagem da simplicidade e da transparência: sabemos de imediato de que tipo de planta estamos a falar, e ainda ficamos com a ideia - em geral correcta, apesar de admitir excepções - de que ela prefere terrenos secos e pedregosos. Para quem quiser compor um jardim de plantas xerófilas, com cascalho e blocos de pedra (ou seja, aquilo a que os anglo-saxónicos chamam rock garden), as rock roses são a escolha óbvia para fazer companhia às suculentas. Pena é que o conceito e as próprias plantas que lhe dariam forma sejam quase ignorados em jardins portugueses.

A rosa-das-rochas que hoje nos visita tem um epíteto misterioso: marifolium. É pois, na opinião de Lineu, uma rosa com folhas de Maria, ou mais simplesmente uma Rosa Maria. Desde quando Maria é vegetal? Um mergulho nos poeirentos arquivos da taxonomia botânica revela-nos a existência de uma Maria-antonia orientalis Parl., leguminosa baptizada em 1844 de que entretanto se perdeu o rasto. Mas a Maria de Lineu terá que ser outra, pois a descrição original do Helianthemum marifolium (como Cistus marifolius) é de 1753.

O Helianthemum marifolium é um arbusto peludo, muito ramificado e de caules prostrados, que atinge um máximo de 30 cm de altura mas em regra é bem mais rasteiro; as suas folhas têm de 3 a 15 mm de comprimento, e as flores de 10 a 15 mm de diâmetro. Distribui-se pela Península Ibérica, sul de França, Baleares e norte de África, e em Portugal ocorre apenas na serra da Arrábida e no litoral algarvio.

Adenda. Uma leitora perspicaz sugeriu que marifolium não remete a Maria nenhuma, mas sim ao Teucrium marum, arbusto mediterrânico muito atraente para gatos que vive em França, Itália, Sardenha e Córsega.

08/12/2011

O sol nos Apeninos




Helianthemum apenninum (L.) Mill.

Mesmo quem nada entenda de flores dificilmente confundirá este arbusto rasteiro com um girassol. No entanto, essas duas plantas tão díspares comungam uma preferência pelo astro-rei que se traduz nos nomes científicos Helianthus (para o girassol) e Helianthemum. Mais do que parecidas, estas duas palavras são sinónimas: ambas nos dizem que as flores das plantas em causa gostam de se virar para o sol. Essa preferência, no caso do Helianthemum, é denunciada pela primeira foto aí em cima, em que as flores surgem alinhadas com um aprumo quase militar. A única falha é que nem todas elas compareceram à parada: há muitas ainda fechadas nos seus botões. É que, como sucede com todas as cistáceas, cada flor, depois de aberta, dura poucas horas, e ao fim da tarde deixa já tombar as pétalas. Porque é preciso assegurar o expediente do dia seguinte, não podem abrir todas as flores de uma só vez.

Aquilo que distingue os vários géneros arbustivos da família Cistaceae (os mais importantes são Cistus, Halimium e Helianthemum, que entre si abarcam 25 espécies da flora portuguesa) são detalhes dos cálices e dos frutos difíceis de observar a olho nu. Há truques que facilitam a identificação: as espécies de flores cor-de-rosa só podem ser Cistus; as de flores amarelas são Halimium ou Helianthemum; os Halimium e os Cistus costumam ser bastante maiores do que os Helianthemum; os Helianthemum escasseiam na metade norte do país. Mas, além de padecer de limitações geográficas, o receituário deixa de fora as plantas de flor branca, que são as mais numerosas e podem pertencer a qualquer um dos três géneros.

O Helianthemum apenninum, que costuma vegetar em lugares pedregosos, é um arbusto muito ramificado com não mais que 30 cm de altura; as folhas têm até 2 cm de comprimento, e as flores (que podem ser amarelas ou, como nas fotos, brancas com centro amarelo) têm de 1,5 a 2 cm de diâmetro. Floresce durante um longo período, de Março a Agosto, e a sua distribuição no nosso país é descontínua e pontual: ocorre em Trás-os-Montes, na Estremadura (serras de Montejunto, Candeeeiros e Arrábida) e no Baixo Alentejo.

07/10/2011

Sargaço defumado



Fumana procumbens (Dunal) Gren. & Godr.

Já ninguém se lembra por que Thomas Bartholin (em 1673, e depois Lineu) lhe chamou Fumana, embora a casca cinzenta que reveste os ramos seja a explicação mais plausível, a que serve o termo latino fumus. Reparámos nela porque tinha flores amarelo-limão como as do Halimium, mas as folhas não condiziam: pareciam grãos de arroz verdes, reunidos em molhinhos. Encontrámos estes exemplares, já a floração estava no fim, na vertente sul da serra de Sicó. Lemos depois na Nova Flora de Portugal que, no nosso país, ela só ocorre neste lugar desta serra e nos arredores de Bragança (mas aqui sem localização precisa). Sendo assim tão rara, desculpa-se que não tenha nome vernáculo em português; em espanhol é a jarilla rastrera; em inglês, sprawling needle sunrose.

Trata-se de uma planta lenhosa de distribuição mediterrânica (na parte africana, só em Marrocos) mas que também está presente no centro-este da Europa e no oeste da Ásia; na Península Ibérica, encontra-se no interior e em zonas mais ou menos elevadas (entre os 100 e os 2000 m de altitude) do litoral. É cespitosa mas pequena (não ultrapassa os 35 cm) e prostrada, precisa de solo calcário e prefere terrenos pedregosos com vegetação pouco densa ou fissuras de rochas em pleno sol.

Antes de ir à sua vida, repare o leitor nas sépalas, três grandes e com nervuras salientes que parecem costelas, e mais duas minúsculas semelhantes a brácteas. As cinco pétalas, de 8 a 10 mm de diâmetro, não têm pé nem a mancha na base que é frequente nas cistáceas; o formato mais comum é o ovado-triangular mas por vezes, diz G. López González (em Los árboles y arbustos de la Península Ibérica e Islas Baleares, Mundi-Prensa, 2006), as pétalas assemelham-se a um "corazón invertido" - descrição meio enigmática para uma flor com simetria radial, não acha?

25/04/2011

Amarelo depois do fogo



Halimium ocymoides (Lam.) Willk.

Em Alfena, do lado de lá de uma novíssima auto-estrada-que-afinal-tem-custos, há uma lixeira a que alguns adeptos do eufemismo poderão chamar aterro ou depósito de inertes. Não sendo de desdenhar contributos privados, parece ser sobretudo à junta de freguesia que cabe manter e acrescentar o acervo de detritos: materiais de construção, entulhos, electrodomésticos, colchões, mobiliário diverso. A lixeira coroa uma encosta que desce para a ribeira de Tabãos, e está rodeada por muitos hectares de eucaliptais. No Verão passado ardeu tudo o que não tinha ardido em anos anteriores. O solo enegrecido e ralo, com alguma carqueja a despontar, estende-se como um tapete infernal até à mata de eucaliptos carbonizados.

Para facilitar o acesso à lixeira e aos montes circundantes de camiões e de veículos todo-o-terreno, existe um viaduto que sobrevoa a auto-estrada, e que está ligado ao centro da freguesia por uma estrada moderadamente esburacada. Não sendo passeio que se recomende aos amantes de paisagens e da vida ao ar livre, afinal o que viemos aqui fazer? Dá-se o caso de o regime quase anual de incêndios que sobreveio à eucaliptização não ter conseguido erradicar por completo a riqueza botânica deste lugar. É aqui que a população mais nortenha do pinheiro-baboso oscila no limiar da extinção. Em ano de censo nacional, é imperioso contarmos quantos efectivos sobrevivem.

Observar as outras plantas rentabiliza a excursão e é um bálsamo para o olhar. As que mais se esforçam por mitigar a fealdade do cenário são as cistáceas de flores amarelas: tuberárias e halímios inauguram os seus enfeites em Abril e prometem mantê-los por três ou quatro meses.

Conhecido como mato-branco ou sargaço-branco, o Halimium ocymoides é um pequeno arbusto de folhas esbranquiçadas, em geral com não mais que 30 ou 40 cm de altura (mas podendo chegar a 1 m), presente em terrenos silícicos de norte a sul do país na companhia de urzes e de tomilhos. Globalmente, distribui-se por Marrocos e pela Península Ibérica, onde só não alcança o extremo norte. Distingue-se pelas longas hastes florais, muito ramificadas, e pela mancha castanha ou púrpura na base das pétalas. O pretexto para o epíteto ocymoides vem da semelhança das suas folhas com as do manjericão (Ocimum basilicum).

04/03/2011

O rubor do sargaço


Cistus sp. [variedada cultivada - Russel Square]

Coimbra, 2 de Fevereiro de 1958 – Enquanto via as imagens – uma arte insuspeitada trazida à tona do grande deserto africano –, ia-me consolando com a ideia de que nem a própria natureza comete crimes perfeitos. Engole uma civilização, fica-se a rir com um riso saariano, e tudo parece arrumado. Mas às tantas, o olho insubmisso dum grafito espreita por debaixo das areias, e pronto: a tramóia descobre-se, os entendidos cavam, e patenteiam à incredulidade dos jurados o esqueleto da vítima devorada.

E isto dá esperança, parecendo que não. A certeza de que não há facto soterrado sem claridade futura, de que aparece sempre um caco dos acontecimentos a desafiar a curiosidade dos vindoiros, embora melancólica, é consoladora. Mesmo póstuma, adiada para o dia do juízo, a verdade sabe bem.

Miguel Torga, Diário (D. Quixote, 2010)

29/11/2010

Senhor das suas folhas




Halimium halimifolium (L.) Willk. - Mata Nacional das Dunas de Quiaios

A foto de uma flor não é uma flor; e, para os saudosistas do papel, aquilo que se vê no écran, e que se pode apagar carregando numa tecla, talvez não seja bem uma foto, mas uma ilusão. Dupla ilusão, portanto: a ilusão de uma foto onde está representada a ilusão de uma flor. Mas que fazer quando a realidade da flor já não está ao nosso alcance? Quando no pinhal onde floriu esta sargaça, e que não nos fica assim tão perto de casa, a vida está suspensa até à próxima temporada? Mostrar a flor, ou a ilusão da ilusão da flor, é marcar no calendário de 2011 um lembrete para o regresso.

O Halimium halimifolium, que no nosso país vive nos pinhais costeiros do centro e do sul, e de um modo geral se distribui pela metade oeste da bacia mediterrânica, é certamente o arbusto mais atraente de um género a que temos prestado atenção assídua (confira aqui, aqui e aqui). Com o seu porte empertigado (pode ultrapassar o metro e meio de altura) e a sua folhagem de um verde prateado, destaca-se pelas grandes flores amarelas, com ou sem pintas, que brotam profusamente entre Junho e Agosto. É nessa altura que os pinhais onde vive se transfiguram em jardins requintados, atravessados por uma mescla de perfumes onde sobressaem a caruma e a maresia.

A variabilidade das flores merece uma nota: o tamanho da mancha castanha na base das pétalas pode variar, mas é uniforme em cada arbusto. A mesma planta ou dá só flores sem pinta, ou as dá só com pinta, e sempre com a pinta do mesmo tamanho. Contudo, essas oscilações cromáticas não parecem ter qualquer significado taxonómico.

O nome Halimium halimifolium, que traduzido à letra dá um lapalissiano halímio com folhas de halímio, pode suscitar alguma estranheza. A aparente idiotice deve-se a Lineu, por em 1751, no seu Species Plantarum, ter chamado à planta Cistus halimifolius; o alemão Wilkomm, quando em 1878 a transferiu para o género Halimium, foi obrigado a manter o epíteto específico. E, de facto, o halimifolium (ou halimifolius) não foi motivado pela semelhança do arbusto consigo mesmo, mas sim com a salgadeira (Atriplex halimus). Essa outra planta, a que os gregos chamavam hálimos, tem folhagem igualmente acinzentada e é característica dos sapais mediterrânicos, surgindo em Portugal da ria de Aveiro para sul.

19/07/2010

Estevão ardente


Cistus populifolius L.

Num país apinhado junto ao mar, uma planta como o estevão (Cistus populifolius), que prefere viver longe da costa, faz figura de raridade. Se as suas flores, embora vistosas, não fogem ao figurino de congéneres suas como a esteva, já as folhas são um caso à parte, tanto pelo seu grande tamanho (até 8 cm de comprimento) como pelo formato cordiforme (semelhante ao das folhas dos choupos, e daí o epíteto populifolius). Quando pela primeira vez a vimos, no Douro, enfeitando o talude da estrada que desce de São João da Pesqueira para a barragem da Valeira, ela obrigou-nos a uma travagem ainda mais brusca do que um súbito semáforo vermelho. Ao inspeccionarmos o local, outras plantas valiosas se revelaram à nossa vista; uma delas já aqui apareceu, e outras duas terão o seu momento esta semana.

Asseveram as habituais fontes que o estevão está presente em toda a metade sul do país, mas que no norte e no centro ele se encontra confinado ao interior. Custa-nos porém crer que uma planta tão apelativa nos passasse sempre despercebida nas nossas incursões ao Portugal profundo. Diríamos pois que, apesar de ter uma ampla área de distribuição potencial, ela não é de modo nenhum abundante. No Guia de campo: as árvores e os arbustos de Portugal continental (Público / LPN - 2007) afirma-se que a espécie é frequente em matos de substituição de sobreirais, sobre solos delgados e ácidos; e acrescenta-se que, apesar de ter qualidades ornamentais, o seu uso mais comum é como combustível. Referir-se-á o livro ao fogo da lareira ou ao fogo estival que corre solto pelos montes? Em qualquer caso, consideramo-nos afortunados por termos visto o estevão antes que arda tudo.

14/07/2010

Alcar do Gerês


Tuberaria globulariifolia (Lam.) Willk. [sinónimo: Xolantha globulariifolia (Lam.) Gallego, Muñoz Garm. & C. Navarro]

Há plantas que têm um modo especial de adormecer: não desaparecem aconchegadas no solo, mas deixam à superfície uma roseta de folhas como promessa e desafio; desafio dirigido aos botânicos amadores para adivinharem o que elas prometem dar. O alcar-do-Gerês acenou-nos ainda no frio de Dezembro, quase no início do longo trilho que segue o rio Homem até aos Carris. Eram folhas como nunca tínhamos visto: pecíolos longos, faces lustrosas sulcadas por três veios longitudinais, uma curta penugem sublinhando as margens. Uma estampa com desenhos de plantas do Gerês num livro de Oleg Polunin desvendou-nos a identidade da planta, e marcou-nos o regresso ao local para fim de Maio.

A família Cistaceae, a que pertence esta planta (e que inclui as estevas e os sargaços), é como os bons restaurantes: só serve produtos frescos, e rejeita em absoluto os pratos requentados. Os polinizadores que se regalam no néctar nem precisam de perguntar, já sabem que a flor é fresquinha, acabada de abrir. Pelo final da tarde, todas as flores - mesmo as que não foram usadas - largarão as pétalas à hora de fechar o estaminé. Ficam as plantas rodeadas por tapetes coloridos muito mais bonitos do que os sacos plásticos onde os restaurantes despejam as suas sobras. Mas ainda assim é bem mais gratificante encontrar as flores na planta do que vê-las desfeitas no chão.

Talvez essa alta rotatividade floral e o longo período em que ela decorre (de Maio a Setembro) não permitam ao alcar-do-Gerês exibir de cada vez muitas flores abertas. O máximo que encontrámos foi três ou quatro por planta. Cada flor amarela tem uns cinco centímetros de diâmetro e um anel acastanhado no centro; é uma versão em ponto grande da flor da tuberária-mosqueada.

A Tuberaria globulariifolia é um exclusivo do noroeste da Península Ibérica; em Portugal, ocorre no Minho, no Douro Litoral e nas Beiras, mas só no Gerês parece ser fácil de encontrar. No barrocal algarvio existe uma planta tão semelhante a esta que até já foi considerada uma subespécie: trata-se do alcar-do-Algarve, ou Tuberaria majus. Fica o leitor convidado a descobrir as diferenças.

05/05/2010

Olhos castanhos


Tuberaria guttata (L.) Fourr. [sinónimo: Xolantha guttata (L.) Rafin.]

Não são só as pupilas castanhas, abertas de espanto, que a singularizam. Também o seu breve ciclo de vida, completado em poucos meses, a destaca no seio de uma família (Cistaceae, que inclui as estevas e os sargaços) quase toda ela formada por arbustos perenes. Mas destaca é força de expressão, pois quem passa desatento pelos muitos lugares onde ela vegeta pode nem reparar na sua existência - efeito conjugado da pequenez da planta e da pose empertigada de quem nunca fixa o olhar nas coisas rasteiras.

Aqui vão, porém, os dados identitários da tuberária-mosqueada. Começa por formar, em Março ou Abril, uma roseta basal que só os entendidos saberão identificar. Depois, e até Julho, coroando uma haste peluda e esguia que se fica pelos 20 ou 30 cm de altura, surgem as numerosas e pequeninas flores amarelas. As manchas castanhas na base das pétalas não exibem sempre a mesma configuração: podem formar anéis como na planta das fotos, ou reduzir-se a pintas de forma e tamanho variáveis. Uma vez produzidos os frutos e disseminadas as sementes, a planta desaparece; uma nova geração retomará o ciclo no ano seguinte.

Além de presente em Portugal, a T. guttata surge na generalidade dos países da bacia mediterrânica e ainda na Bélgica, Holanda, Grã-Bretanha e Irlanda.

09/04/2010

Sozinha no bosque


Halimium umbellatum (L.) Spach

Esta é mais uma daquelas plantas solitárias que encontramos por vezes em Valongo. Não é que recuse a companhia das suas semelhantes: elas é que debandaram em massa e a deixaram sozinha no bosque. E que assustador é este bosque mesmo não sendo frequentado por lobos. Porque esta sargacinha não foi educada para viver cercada de eucaliptos, nem para suportar os veículos atroadores que constantemente ameaçam atropelá-la.

Tudo somado, Valongo guarda um número apreciável de preciosidades botânicas. O que perturba é a precaridade da vegetação destas serras: é tudo escasso, frágil e ameaçado. Talvez a classificação, a concretizar-se em breve, das Serras de Santa Justa e Pias como paisagem protegida de âmbito local permita recompor alguns ecossistemas e, sobretudo, controlar os «desportos» motorizados. Se os estragos da eucaliptização se revelarem irreversíveis, que pelo menos se proteja eficazmente o que ainda resta.

Os arbustos do género Halimium são muito semelhantes aos Cistus, mas a maioria das espécies nele incluídas (como estas duas) dão flores amarelas, cor que os Cistus estão probidos de ostentar. Quando as flores são brancas é que o caso se complica. O Halimium umbellatum, que floresce de Março a Maio, é um sósia quase perfeito do Cistus clusii, dele se distinguindo essencialmente pelos frutos. Mas não precisamos de nos preocupar com minudências dessas, pois o Cistus clusii, embora presente em Espanha, não é espontâneo em Portugal. Quanto ao Halimium umbellatum, trata-se de um arbusto de não mais que 70 cm de altura, penugento, por vezes viscoso; as suas folhas exibem forma linear, são alvacentas na face inferior, e têm margens recurvadas para dentro. Dá-se bem em pinhais, e gosta de terrenos silicosos como os que há na serra de Valongo. Além de morar em Portugal, está presente em países do Mediterrâneo ocidental como a Espanha, França, Grécia, Marrocos e Argélia.

22/02/2010

Alecrinzito


Halimium calycinum (L.) K. Koch

Porque as folhas deste pequeno arbusto lhes fazem lembrar as do alecrim (Rosmarinus officinalis L.), os espanhóis chamam-lhe romerito ou romera; ao alecrim, está bom de ver, chamam eles romero. De facto, há pelo menos quatro romeritos na flora espanhola, todos de folhagem semelhante: dois no género Cistus [C. libanotis L. e C. clusii Dunal], e dois no género Halimium [H. calycinum e H. umbellatum (L.) Spach]. O H. calycinum dá flores amarelas, os outros três alecrinzitos dão flores brancas. Escusado será dizer que a designação agora proposta, num arroubo algo irreflectido de iberismo, vai agravar a confusão entre os portugueses que se iniciam nos mistérios da botânica. Pese embora a semelhança fortuita da folhagem, o alecrim e os alecrinzitos integram famílias botânicas bem distantes uma da outra, como aliás se constata pela morfologia das flores. Pensando bem, talvez seja mais avisado continuarmos a chamar sargaço(a) ou sargacinho(a) aos arbustos do género Halimium.

Se não fossem as flores a vincar a diferença, o Halimium calycinum e o Cistus libanotis seriam quase gémeos, com o segundo um pouco mais espigado do que o primeiro (1 m contra 60 cm). Ambos ocorrem no litoral português, o primeiro do Douro Litoral ao Algarve, o segundo só em partes da costa alentejana e da algarvia. O Pinhal de Leiria, onde os arbustos das fotos foram encontrados em local próximo da Praia do Pedrogão, é bem representativo do tipo de habitat escolhido pelo H. calycinum: pinhais costeiros, matos secos e dunas. Ocasionalmente, mas não em Portugal, encontra-se também em terrenos arenosos longe do mar, como os que há na província de Madrid, onde a planta é protegida por lei. Globalmente, a sua distribuição restringe-se à Península Ibérica e a Marrocos.

A flor aí em cima, desabrochada ainda em Janeiro, deve ser a primeira do ano. Havia mais botões no mesmo arbusto, e muitos arbustos sem um único botão, mas flores só havia essa. Entretanto muitas mais terão aberto; até Junho ou Julho, a produção deve continuar a bom ritmo. Pois estas são flores de um dia só, e importa não deixar que o colorido esmoreça.

13/07/2009

Sargaço-branco


Halimium lasianthum subsp. alyssoides Greuter

O nome parece absurdo para um arbusto que dá flores amarelas, mas o adjectivo branco refere-se ao tom prateado da folhagem; o termo sargaço, por seu turno, é usado para designar várias plantas arbustivas dos géneros Cistus e Halimium. Este (seja então) sargaço-branco, arbusto rasteiro e penugento com flores de 3 a 4 cm de diâmetro, foi fotografado no princípio de Abril numa escarpa na margem esquerda do rio Ferreira, em Valongo, local onde, apesar dos eucaliptos, existe uma população ainda numerosa da espécie.

Se o leitor estudou com a devida atenção o fascículo (gratuito e à distância de um clique) que distribuímos no passado sábado, talvez reconheça alguns traços de parentesco entre os géneros Cistus, de que então falámos, e Halimium, que ora aqui trazemos. Ambos integram a família Cistaceae, e a semelhança das flores é evidente: cinco pétalas indiferenciadas rodeando profusa coroa de estames. E, coisa que as fotos não mostram, tanto num género como no outro cada flor é de curta duração, deixando em regra cair as pétalas no mesmo dia em que as abre.

Há cerca de 12 espécies de Halimium, com flores que podem ser brancas ou amarelas; cinco dessas espécies (ou oito, se contarmos com subespécies) estão referenciadas em Portugal. A distribuição natural do género na Europa fica quase confinada à Península Ibérica, mas de resto ele também ocorre no norte de África e na Turquia. Eis pois mais uma planta que gostaríamos de ver nos nossos jardins, mas que nenhum garden center (como dizemos em português) tem o bom gosto de pôr à venda.

11/07/2009

Sanganho


Cistus psilosepalus Sweet

Os arbustos do género Cistus deveriam ser obrigatórios em qualquer jardim no continente português: sendo plantas nativas, estão perfeitamente adaptadas ao nosso clima, não exigindo cuidados especiais e aguentando-se bem com pouca rega; além do mais, são bonitos e têm floração vistosa. Enquanto não for promulgada a lei que consagre essa obrigatoriedade e proíba os relvados-com-palmeiras característicos das «vivendas» dos subúrbios (já se fizeram leis mais descabidas), o modo de encontrar os Cistus é passear por aqueles pedaços de território ainda livres de construções. São plantas tenazes, que persistem mesmo em lugares onde a natureza foi reduzida à caricatura, como os eucaliptais. Não surpreende, por isso, que sejam abundantes na Serra de Valongo.

As duas espécies de Cistus dominantes na Serra de Valongo são o sanganho (C. psilosepalus), de que acima exibimos fotos, e o sanganho-manso (C. salviifolius), duas plantas que facilmente se confundem, e que aliás costumam hibridar entre si. Ambas atingem uma altura máxima de um metro, e dão flores brancas com um diâmetro de 3 a 5 cm. Ao contrário de outras congéneres suas também de flores brancas (como o C. ladanifer e o C. monspeliensis), estas duas plantas não são pegajosas. As épocas de floração do C. psilosepalus e do C. salviifolius coincidem em parte, mas a do primeiro prolonga-se até mais tarde: quando tirei as fotos, no final de Junho, já o segundo perdera todas as flores. A distinção entre as duas espécies faz-se mais facilmente pelas folhas: as do sanganho são sésseis (ou seja, não têm pecíolo, agarrando-se directamente aos ramos) e alongadas (o termo técnico é oblongas); as do sanganho-manso dispõem já de um curto pecíolo e têm uma forma mais arredondada (dita ovada). [Estas características da folhagem do C. salviifolius podem ser conferidas nesta página.]

Ambas as espécies têm ampla distribuição nacional, mas o C. psilosepalus, a acreditar na Flora Digital de Portugal, está ausente do Algarve e do interior alentejano. Encontrei-o também no Sabugal, ainda em flor, atapetando o terreno à volta dos veneráveis castanheiros. Globalmente, o C. psilosepalus é um exclusivo ibérico; o C. salviifolius, mais viajado, está presente em toda a bacia mediterrânica, da França à Turquia e de Marrocos a Israel.

11/06/2008

Roselha-maior


Cistus albidus

Não as contámos, e aliás a distinção entre elas exige alguma paciência, mas talvez tenhamos encontrado na Serra dos Candeeiros umas cinco ou seis espécies de Cistus, todas em plena floração. Duas das espécies tinham flores rosadas: eram elas a roselha (Cistus crispus) e a roselha-maior (Cistus albidus). A segunda, além de ter flores maiores e de um tom mais suave, ainda se diferencia da primeira pelo porte mais avantajado e pelas folhas penugentas e esbranquiçadas (que justificam o epíteto albidus).

A roselha-maior é uma planta mediterrânica, espontânea de Portugal até à Itália e também em Marrocos e na Argélia. A sua distribuição no nosso país é descontínua, concentrando-se na Estremadura, no interior alentejano e no Algarve. Preferindo ela solos calcários, não é supresa encontrá-la na Serra dos Candeeiros; é de supor, aliás, que a serra albergue uma das maiores populações da espécie em território nacional. Em vários pontos da encosta, sobretudo em antigos olivais, ela forra por completo o solo; noutros locais, como mostra a foto abaixo, disputa a primazia com o alecrim. Mas cada planta tem a sua época de glória, e o alecrim, despojado do seu azul, terá de aguardar a próxima temporada: quem desta vez monopolizou a nossa admiração foi a roselha-maior.

Ainda que pouco se vejam em jardins portugueses (apesar da sua origem mediterrânica, é de facto mais fácil encontrá-los em jardins londrinos), os Cistus têm granjeado crescente popularidade em horticultura. E, sendo embora inúmeras as variedades ornamentais, a roselha-maior, que cresce livremente nos nossos montes, tem beleza de sobra para ombrear com as melhores.


Serra dos Candeeiros

10/05/2008

Sem pinta nenhuma


Cistus ladanifer

As estevas (Cistus ladanifer) fazem casa em todo o território continental português, desde o plácido litoral algarvio ao acidentado relevo transmontano. Mas será mesmo todo? Há um vazio no mapa que começa a sul do Douro e abrange boa parte do Douro Litoral e toda a província do Minho: aí não chegaram as estevas. Mesmo esta asserção, contudo, exige ser corrigida. Há estevas nos taludes das auto-estradas poucos quilómetros a sul do Porto; como a que se vê na foto, marginando o nó de Esmoriz da A29.

O fenómeno tem contornos conhecidos: as estevas nortenhas, à semelhança do que sucedeu com as populações humanas, iniciaram um movimento migratório em direcção ao litoral. Não estou certo de que o tenham feito da melhor maneira. Iludidos por algum promotor sem escrúpulos, o lugar que estes primeiros migrantes escolheram para fixar residência deixa muito a desejar, tanto no que toca às condições objectivas do presente como às perspectivas futuras. Uma habitação de sonho entre os bosques e o mar, idealmente situada com bonitas vistas e esplêndidos acessos, muito perto de Espinho com as suas praias e o seu requintado Casino, apenas a vinte minutos do Porto e dos grandes Shoppings. Foi isso que lhes venderam; porém, a realidade é outra. A vista só alcança asfalto, separadores, viadutos, postes de iluminação e matas de eucaliptos; do mar tão perto, mas tapado por cerrada cortina de árvores, não chega sequer um sopro de brisa salgada; e as plantas, agarradas ao chão, não tiram partido dos fáceis acessos nem se propagam mais velozmente na vizinhança de uma via rápida. Pior ainda: quando alargarem a auto-estrada, coisa inevitável mais tarde ou mais cedo no país do asfalto, as adventícias estevas e toda a sua hipotética descendência não só perderão a casa como serão dizimadas no processo.

Já se ouvem vozes desiludidas entre as estevas do nó de Esmoriz. Terão feito bem em deixar o aconchego modorrento da terra natal? Em troca de quê? Isto ainda é pior que Vila d'Este, não tem mesmo pinta nenhuma, murmuram. E as estevas, acabrunhadas pela desdita, deixaram de dar flores com pinta.

06/05/2008

108 Old Brompton Road


Cistus x purpureus - The Royal British Society of Sculptors

O nome desta espécie talvez seja entendido por alguns como referência a um campeonato, sendo a equipa Cistus visitada pela Purpureus, soando esta última designação como um oportuno disfarce a uma turma que tem andado desavinda com a glória. Desengane-se o leitor. E se ainda aí está, ouça a história do cruzamento de franzidos e nervuras que deu origem ao x.

O Cistus x purpureus (orchid rock-rose) é um híbrido de Cistus creticus e Cistus ladanifer, arbustos de folha perene comuns na região mediterrânica que se propagam e hibridam facilmente. Apreciam bosques de pinheiros e montes áridos, são polinizados por abelhas e as suas flores não duram mais de um dia: abrem de manhã, a meio do dia o curto estilete, com um estigma que parece um botão branco, alonga-se, e as pétalas caem ao fim da tarde.

A espécie Cistus creticus, que pode atingir 1m de altura, tem folhas cobertas de penugem branca, margens onduladas e nervação vincada; as flores são grandes (6cm de diâmetro), com pétalas enrugadas de cor magenta, e nascem em grupos de 3 a 5. Os espécimes de Cistus ladanifer são em geral mais altos, têm folhas lanceoladas e viscosas de resina que rescende a montes quentes; as flores são solitárias, grandes (10cm), num aparente desalinho de pétalas amarrotadas e brancas com uma manchinha púrpura na base, destacando-se no conjunto um centro amarelo com numerosos estames. O ládano, substância usada em farmácia e perfumaria, é obtido das folhas desta planta.

O resultado deste encontro feliz é a média esperada: um cultivar de jardim com porte majestoso, folhagem aromática, folhas lanceoladas mas de margens levemente onduladas e flores grandes (7cm) de pétalas enrugadas, magenta com manchas de cor púrpura, que se agrupam em trios na ponta dos ramos. Um triunfo de criação que inspira artistas e suscita justa inveja divina.