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17/07/2025

Rio de areia



Quem sai de Almeria em direcção a El Ejido, que fica uns doze quilómetros a oeste, atravessa uma costa nua e escarpada, sem préstimo agrícola e sem sinal de habitações, e que também não parece vocacionada para aproveitamento turístico. As praias são estreitas faixas pedregosas, acessíveis por caminhos íngremes; as duas estradas paralelas (uma delas é auto-estrada) sobrevoam barrancos de terra avermelhada empoleiradas em altos viadutos. São barrancos que hoje em dia só levam areia, memória de rios que noutras eras geológicas desciam das alturas da serra de Gadór. Com 2247 m de altitude máxima, a serra de Gadór é, a seguir à serra Nevada, a mais alta da província de Almeria, e são os seus contrafortes que formam esta paisagem acidentada, a que muitos chamariam desolada, aqui bem junto ao Mediterrâneo.

Um pouco ao acaso, escolhemos visitar o barranco de la Garrofa, que até dispõe de estacionamento conveniente logo à entrada. É um local muito frequentado por praticantes de escalada; sê-lo-á menos por aficionados de botânica, o que poderá dever-se ao desconhecimento ou ao preconceito. As primeiras impressões não são agradáveis: à aridez da terra ressequida e à nudez das escarpas soma-se o desmazelo do lixo. Mas o coberto vegetal ralo e desordenado não é formado por plantas vulgares, e em poucos minutos sabemos que viemos ao lugar certo. Não exigiria grande forma física caminhar muitas centenas de metros pelo barranco adentro, mas na verdade não vamos longe, obrigados pelas muitas novidades botânicas a paragens constantes e demoradas. Esta é uma pequena amostra do que vimos nesse memorável passeio.

Maytenus senegalensis subsp. europaea (Boiss.) Güemes & M. B. Crespo


A dois ou três metros do ponto onde estacionamos está em flor este arbusto que, a um olhar mais míope, se diria pertencer ao género Rhamnus. Contudo, a morfologia das flores logo desmente essa filiação: têm pétalas brancas bem visíveis, ao passo que no género Rhamnus as pétalas são inconspícuas ou inexistentes. De facto, seja qual for o nome que se lhe dê (Maytenus senegalensis ou Gymnosporia senegalensis), este arbusto, que na Europa só ocorre no sudeste de Espanha, é o solitário representante europeu de uma estirpe numerosa (mais de 100 espécies) distribuída por três continentes: África, Ásia e Oceânia. Nas ilhas da Macaronésia existem duas espécies endémicas dessa linhagem: Maytenus umbellata (= Gymnosporia dryandri) na Madeira, e Maytenus canariensis (= Gymnosporia cassinoides) nas Canárias; ambas têm as folhas bem maiores do que a planta almeriense (que não é exclusivamente europeia, pois também existe no norte de África).

Helianthemum abelardoi Alcaraz


As plantas do género Helianthemum, a que normalmente chamamos sargacinhos, e que podem ser herbáceas ou pequenos arbustos, são notoriamente difíceis de destrinçar, ocasionando por vezes entre especialistas insanáveis divergências de opinião quanto à melhor arrumação taxonómica. Na província de Almeria são frequentes os sargacinhos arbustivos de flores brancas, estando identificadas na região pelo menos três espécies distintas, duas das quais endémicas. O H. abelardoi, que vive em zonas costeiras áridas entre Almeria e Múrcia, foi descrito apenas em 2015 em artigo na revista Flora Montiberica (PDF), e distingue-se pelas folhas densamente revestidas por pêlos estrelados ásperos (claramente visíveis na foto acima).

Lafuentea rotundifolia Lag.


Endémica do sudeste peninsular, onde aparece com alguma assiduidade em escarpas e muros, a Lafuentea rotundifolia faz lembrar a figura mítica do centauro: as hastes floríferas, que parecem bastões (não muito contundentes), dir-se-iam enxertadas a trouxe-mouxe numa base de marroio, pois as folhas redondas, de margens crenadas, são quase iguais às da Ballota hirsuta. Contudo, esta orejilla de roca, como é popularmente chamada, nem sequer pertence à família das labiadas. Tem a distinção de ser uma das duas únicas espécies do seu género: a outra, Lafuentea jeanpertiana, vive no Anti-Atlas marroquino.

Sarcocapnos enneaphylla (L.) DC.


Da família das papoilas, e apresentando fortes semelhanças com as muito comuns herbáceas do género Fumaria, o Sarcocapnos enneaphylla (ou zapatitos de la Virgen) ganharia facilmente em beleza às plantas suas vizinhas. Mas isto não é um concurso para a eleição da Miss Planta, e por isso a beleza é apenas um detalhe em que é impossível não reparar — embora, por uma questão de educação, não convenha olhá-la de modo insistente. Todas as partes da planta são pequenas, bem proporcionadas, de um design impecável: as flores brancas, tubulares, manchadas de vermelho e amarelo; as folhas glaucas, miudamente recortadas, com segmentos carnudos e arredondados. Não é planta rara, e de facto está distribuída por toda a metade oriental da Península Ibérica, mas é sempre gratificante encontrá-la.

12/12/2022

Sargacinho da levada



As montanhas sobranceiras a Güímar, em Tenerife, guardam um dos segredos mais inesperados da maior ilha das Canárias. A cerca de 1060 metros de altitude, corre uma levada esculpida nas encostas rochosas, furando túneis e debruçando-se em abismos de causar vertigens. Tal como na Madeira, é possível caminhar vários quilómetros ao longo da levada, tendo sempre a máxima cautela para não dar um passo em falso. Não há quaisquer resguardos para evitar quedas, e de facto vêem-se, no início do percurso, muitas tabuletas desencorajando os visitantes a aventurarem-se na caminhada. Não tendo acatado tais conselhos, avançámos sempre com prudência. Afinal, se na Madeira tivéssemos respeitado todas as proibições não teríamos visitado nem a levada do Caldeirão Verde nem a da Ribeira da Janela, e o nosso conhecimento da flora madeirense seria mais pobre.

Apesar de levar pouca água e de atravessar lugares não muito verdejantes, a levada de Güímar prometia-nos acesso a tesouros botânicos de outro modo inalcançáveis. À altitude a que aqui estamos, a vegetação é dominada pelos pinheiros-das-Canárias (Pinus canariensis), mas nestas encostas quase verticais a arborização é esparsa e presente apenas nos lugares mais resguardados. É sobretudo a vegetação herbácea e arbustiva que nos atrai a atenção: várias suculentas do género Aeonium, as estreleiras (género Argyranthemum), as emblemáticas canarinas (Canarina canariensis) e os simpáticos dragõezinhos (Dracunculus canariensis) são presença regular ao longo do passeio. Mas é só depois de atravessarmos o primeiro túnel (200 metros, uma brincadeira comparado com os da Madeira) que nos surge a mais rara das plantas que vimos nesse dia: uma pequena cistácea arbustiva de um género eminentemente mediterrânico, Helianthemum, que está bem representado na flora portuguesa, sobretudo na metade sul do país.

Helianthemum broussonetii Dunal


O sargacinho que viemos incomodar no seu esconderijo chama-se Helianthemum broussonetii. Endémico de Tenerife e La Palma, distingue-se dos seus congéneres (há dezasseis espécies de Helianthemum nas Canárias, a maioria endémicas) pelas folhas lanceoladas e relativamente grandes (até 2,5 cm de comprimento), e pelo indumento de pêlos curtos (em contraste com o aspecto hirsuto do Helianthemum teneriffae, endémico de Tenerife). Floresce de Maio a Junho e tem preferência por lugares de altitude elevada, tanto assim que há quem lhe chame jarilla de monte. Como invariavelmente sucede na família das cistáceas, as flores duram poucas horas antes de deixarem cair as pétalas. Por isso o encontro com uma planta florida é sempre uma ocasião feliz, e o fotógrafo sabe que não há tempo a perder: a foto é para tirar agora, pois no regresso pode já ser tarde.

02/08/2014

O sol no Egipto


Helianthemum aegyptiacum (L.) Mill.


É um sol pálido e de vida curta aquele que estas flores representam. A exemplo do girassol (género Helianthus) e da verrucária (Heliotropium europaeum), também as plantas do género Helianthemum têm a reputação, plasmada no nome científico, de virarem as flores para a luz do sol. Mas na verdade não sabemos se o H. aegyptiacum cumpre esse tropismo, pois as suas flores são tão débeis e efémeras, deixando cair as pétalas por exaustão ao fim de duas ou três horas, que raramente as podemos ver. O hábito de descartar sem demora a produção florística de cada dia é comum a todas as cistáceas, mas nas estevas, sargaços e tuberárias as flores ainda se aguentam até ao fim da tarde, derramando-se então à volta da planta num tapete de pétalas brancas, rosadas ou amarelas.

Descrita por Lineu em 1753 como Cistus aegyptiacus, e mudada um século mais tarde por Philip Miller para o género Helianthemum, esta herbácea anual de floração primaveril e não mais que 30 cm de altura gosta de lugares secos e soalheiros, de preferência arenosos: gosta, em suma, do Egipto e dos desertos enfeitados com pirâmides. Aceita, contudo, relaxar essas exigências, e por isso frequenta os dois lados da bacia mediterrânica, alcançando o norte da Península Ibérica e, em Portugal, a Terra Quente transmontana. Mas o Egipto, terra que tantos apetites coloniais atraiu, era nos séculos XVIII e XIX mais interessante e acessível aos viajantes e estudiosos norte-europeus do que os países do sul da Europa. Talvez por isso tanto Lineu como Miller indiquem o Egipto como terra natal desta cistácea, ignorando a sua presença no continente europeu.

Philip Miller (1691–1771), botânico e jardineiro inglês, fornece pretexto para a nossa segunda menção do Chelsea Physic Garden em poucos dias. Miller foi sucessor de Samuel Doody como jardineiro-chefe do histórico jardim londrino, mantendo-se no cargo durante 48 anos. Com início em 1741, foi publicando edições sucessivamente aumentadas do seu Gardeners Dictionary, com a oitava e última edição (um tomo de mais de 1300 páginas) a surgir em 1768. Esses Dicionários para Jardineiros, apesar de incluírem abundantes conselhos sobre o cultivo de plantas, eram genuínos tratados científicos, e asseguraram ao autor um lugar entre os grandes botânicos da história. Sobre a emancipação do género Helianthemum, que consta da derradeira edição do Gardeners Dictionary, Miller justifica-a com o facto de as cápsulas dos frutos terem apenas três segmentos, enquanto que as plantas que optou por manter no género Cistus dão em geral cápsulas com cinco segmentos. Esse critério, com alguns aditamentos que justificaram a posterior partição do género Helianthemum em géneros adicionais (entre eles Tuberaria e Fumana), é ainda hoje aceite e válido.

01/12/2013

Semear Portugal

Em Portugal a jardinagem pública é uma arte perdida, substituída que foi pela rotineira manutenção de bisonhos espaços verdes. Quem quiser usufruir de um jardim colorido ou deita ele próprio mãos à obra ou visita os espaços naturais onde vivem as flores silvestres. As cores primaveris da serra dos Candeeiros ou do Barrocal algarvio (para citar apenas dois exemplos paradigmáticos) podem, na sua exuberância sem artifícios, servir de inspiração ao mais exigente dos jardineiros. Mesmo que a natureza não caiba toda entre os muros de um jardim, podemos ensaiar uma boa imitação, cultivando no nosso terreno as plantas da flora portuguesa com maior aptidão ornamental. Pois é sem dúvida bem mais gratificante termos um jardim que nos recorde os passeios pela serra do que uma coisa postiça preenchida com as novidades holandeses do garden center.

Para nos facilitar a vida, já que de facto as plantas portuguesas não estão à venda em hortos, o projecto Sementes de Portugal preparou um óptimo catálogo de sementes para venda. Só de sargaços e roselhas (como a da foto aí em baixo) já dá para compor um canteiro invejável. Mas a Crix e o João Gomes chegam ao requinte de disponibilizar sementes de plantas raras como a Aristolochia baetica, Cynara algarbiensis, Echinops strigosus, Iberis procumbens, Matthiola sinuata e Phlomis purpurea. A somar a tudo isto, lançaram um blogue que é já de consulta obrigatória para quem se interesse pela nossa flora espontânea.

De que está o leitor à espera para se fazer cliente?


Cistus crispus L.

05/07/2012

Sol de Maio

Helianthemum nummularium (L.) Mill.


Por esta altura, nos nossos pinhais de litoral, orlas de bosques e terrenos pedregosos, estão em flor muitas cistáceas, lenhosas ou rasteiras, várias delas com flores amarelas. E a identificação delas não é fácil ao olho não ensinado. Em alguns casos, só juntando informação sobre o porte (que a fotografia nem sempre revela), atributos inconspícuos nas flores e a morfologia das folhas se pode ter certeza.

As plantas do género Cistus (a que os ingleses chamam rockrose e nós hesitamos entre esteva, roselha ou sargaço) são em geral arbustos perenes com folhas inteiras sem estípulas (umas folhinhas suplementares inseridas na base das folhas maiores) e flores brancas ou cor-de-rosa de 6 cm de diâmetro, ou mais, e com numerosos estames todos férteis (isto é, com anteras no topo, cheias de pólen). A hibridação é frequente, mas, com tais características, os Cistus não se confundem com a planta das fotos.

No género Tuberaria (a que chamamos alcar e os ingleses spotted rockrose, embora as flores de algumas espécies não tenham pintas) só há herbáceas, anuais ou perenes, e as folhas formam uma roseta basal. Por isso, distinguem-se facilmente das plantas da vitrine.

Igualmente de pequena estatura, embora possam ter cepa lenhosa, são as plantas do género Fumana, cujos estames exteriores são estéreis (parecem uns cabelinhos desgrenhados, sem a bolinha amarela na ponta). Como as folhas parecem grãos de arroz, não as tomamos erradamente pelas que hoje se exibem aí em cima.

A confusão começa a instalar-se quando passamos ao género Halimium. Aqui abrigam-se arbustos que dão flores amarelas ou brancas, mas afortunadamente as folhas exibem em geral basta penugem em ambas as faces, ou são longas e estreitas, e assim conseguimos evitar um equívoco embaraçoso com a planta que hoje aqui trazemos.

Da família Cistaceae sobra então o género Helianthemum, e o problema de etiquetar a planta das fotos parece resolvido. Na verdade, este género contém muito mais espécies do que os anteriores, e decidir a qual delas pertence uma planta é tarefa minuciosa. Reúne plantas ramificadas de base lenhosa e ainda algumas herbáceas, com pêlos estrelados, numerosos talos erguidos ou prostrados, folhas ovadas, simples, inteiras, opostas, com margens ligeiramente enroladas para dentro, estípulas lineares e pecíolo bem desenvolvido. As flores, com cerca de 3 cm de diâmetro, ou um pouco mais, são hermafroditas e agrupam-se em ramalhetes terminais. O cálice tem duas sépalas estreitas e mais três proeminentes (pode observar este detalhe na segunda foto) e nervadas (como se tivessem costelas castanhas); os estames são todos férteis. As pétalas, que se desprendem ao mais leve toque, parecem unhas amarelas, alaranjadas, brancas ou cor-de-rosa, com uma mancha dourada na base. Os espanhóis chamam-lhes mirasóis, nós alecrim-das-paredes (e não dos-muros).

O género Helianthemum foi proposto pelo botânico francês Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708) mas legalmente é atribuído ao naturalista escocês Philip Miller (1691-1771). Em 1753, Lineu designou esta planta Cistus nummularius, sendo plausível que o epíteto específico (que deriva de nummus, moeda) aluda ao formato das flores, embora o Stearn's Dictionary of plant names entenda que se refere às folhas, tendo possivelmente em conta o riksdaler, uma moeda de formato alongado usada na Suécia durante parte do século XVIII.

O primeiro exemplar que observámos, com a ajuda do Carlos Silva, estava num talude rochoso de Fafião, no Gerês; revimos a espécie na orla de um sobreiral no Alto Trovela e mais tarde perto de uma pedreira de calcário negro no Marão. Para encontrarmos outras populações, teremos de rumar até à Beira Alta, não havendo registos mais a sul. Ocorre na metade norte da Península Ibérica, na Serra Nevada, em quase todo o resto da Europa e no oeste da Ásia.

29/12/2011

Rosa Maria

Helianthemum marifolium (L.) Mill.
Os ingleses chamam rock roses às plantas da família Cistaceae, que nós tratamos por esteva, estevinha, estevão, sargaço, sargaça ou sargacinha. Por serem plantas nativas do nosso território, e não das ilhas britâncias, os nomes que lhes damos deveriam gozar de primazia. Sucede que a nomenclatura popular é altamente confusa, chamando a mesma coisa a plantas muito diferentes ou, pelo avesso, atribuindo nomes díspares a plantas claramente aparentadas. Quem poderia adivinhar, só pelos nomes, que a esteva e o sargaço são plantas da mesma família? Ou quem diria que o sargacinho (Lithodora prostrata) e a sargacinha (Halimium calycinum ) nada têm a ver um com o outro?

Rock rose tem pois a vantagem da simplicidade e da transparência: sabemos de imediato de que tipo de planta estamos a falar, e ainda ficamos com a ideia — em geral correcta, apesar de admitir excepções — de que ela prefere terrenos secos e pedregosos. Para quem quiser compor um jardim de plantas xerófilas, com cascalho e blocos de pedra (ou seja, aquilo a que os anglo-saxónicos chamam rock garden), as rock roses são a escolha óbvia para fazer companhia às suculentas. Pena é que o conceito e as próprias plantas que lhe dariam forma sejam quase ignorados em jardins portugueses.

A rosa-das-rochas que hoje nos visita tem um epíteto misterioso: marifolium. É pois, na opinião de Lineu, uma rosa com folhas de Maria, ou mais simplesmente uma Rosa Maria. Desde quando Maria é vegetal? Um mergulho nos poeirentos arquivos da taxonomia botânica revela-nos a existência de uma Maria-antonia orientalis Parl., leguminosa baptizada em 1844 de que entretanto se perdeu o rasto. Mas a Maria de Lineu terá que ser outra, pois a descrição original do Helianthemum marifolium (como Cistus marifolius) é de 1753.

O Helianthemum marifolium é um arbusto peludo, muito ramificado e de caules prostrados, que atinge um máximo de 30 cm de altura mas em regra é bem mais rasteiro; as suas folhas têm de 3 a 15 mm de comprimento, e as flores de 10 a 15 mm de diâmetro. Distribui-se pela Península Ibérica, sul de França, Baleares e norte de África, e em Portugal ocorre apenas na serra da Arrábida e no litoral algarvio.

Adenda. Uma leitora perspicaz sugeriu que marifolium não remete a Maria nenhuma, mas sim ao Teucrium marum, arbusto mediterrânico muito atraente para gatos que vive em França, Itália, Sardenha e Córsega.

08/12/2011

O sol nos Apeninos


Helianthemum apenninum (L.) Mill.


Mesmo quem nada entenda de flores dificilmente confundirá este arbusto rasteiro com um girassol. No entanto, essas duas plantas tão díspares comungam uma preferência pelo astro-rei que se traduz nos nomes científicos Helianthus (para o girassol) e Helianthemum. Mais do que parecidas, estas duas palavras são sinónimas: ambas nos dizem que as flores das plantas em causa gostam de se virar para o sol. Essa preferência, no caso do Helianthemum, é denunciada pela primeira foto aí em cima, em que as flores surgem alinhadas com um aprumo quase militar. A única falha é que nem todas elas compareceram à parada: há muitas ainda fechadas nos seus botões. É que, como sucede com todas as cistáceas, cada flor, depois de aberta, dura poucas horas, e ao fim da tarde deixa já tombar as pétalas. Porque é preciso assegurar o expediente do dia seguinte, não podem abrir todas as flores de uma só vez.

Aquilo que distingue os vários géneros arbustivos da família Cistaceae (os mais importantes são Cistus, Halimium e Helianthemum, que entre si abarcam 25 espécies da flora portuguesa) são detalhes dos cálices e dos frutos difíceis de observar a olho nu. Há truques que facilitam a identificação: as espécies de flores cor-de-rosa só podem ser Cistus; as de flores amarelas são Halimium ou Helianthemum; os Halimium e os Cistus costumam ser bastante maiores do que os Helianthemum; os Helianthemum escasseiam na metade norte do país. Mas, além de padecer de limitações geográficas, o receituário deixa de fora as plantas de flor branca, que são as mais numerosas e podem pertencer a qualquer um dos três géneros.

O Helianthemum apenninum, que costuma vegetar em lugares pedregosos, é um arbusto muito ramificado com não mais que 30 cm de altura; as folhas têm até 2 cm de comprimento, e as flores (que podem ser amarelas ou, como nas fotos, brancas com centro amarelo) têm de 1,5 a 2 cm de diâmetro. Floresce durante um longo período, de Março a Agosto, e a sua distribuição no nosso país é descontínua e pontual: ocorre em Trás-os-Montes, na Estremadura (serras de Montejunto, Candeeeiros e Arrábida) e no Baixo Alentejo.

07/10/2011

Sargaço defumado

Fumana procumbens (Dunal) Gren. & Godr.


Já ninguém se lembra por que Thomas Bartholin (em 1673, e depois Lineu) lhe chamou Fumana, embora a casca cinzenta que reveste os ramos seja a explicação mais plausível, a que serve o termo latino fumus. Reparámos nela porque tinha flores amarelo-limão como as do Halimium, mas as folhas não condiziam: pareciam grãos de arroz verdes, reunidos em molhinhos. Encontrámos estes exemplares, já a floração estava no fim, na vertente sul da serra de Sicó. Lemos depois na Nova Flora de Portugal que, no nosso país, ela só ocorre neste lugar desta serra e nos arredores de Bragança (mas aqui sem localização precisa). Sendo assim tão rara, desculpa-se que não tenha nome vernáculo em português; em espanhol é a jarilla rastrera; em inglês, sprawling needle sunrose.

Trata-se de uma planta lenhosa de distribuição mediterrânica (na parte africana, só em Marrocos) mas que também está presente no centro-este da Europa e no oeste da Ásia; na Península Ibérica, encontra-se no interior e em zonas mais ou menos elevadas (entre os 100 e os 2000 m de altitude) do litoral. É cespitosa mas pequena (não ultrapassa os 35 cm) e prostrada, precisa de solo calcário e prefere terrenos pedregosos com vegetação pouco densa ou fissuras de rochas em pleno sol.

Antes de ir à sua vida, repare o leitor nas sépalas, três grandes e com nervuras salientes que parecem costelas, e mais duas minúsculas semelhantes a brácteas. As cinco pétalas, de 8 a 10 mm de diâmetro, não têm pé nem a mancha na base que é frequente nas cistáceas; o formato mais comum é o ovado-triangular mas por vezes, diz G. López González (em Los árboles y arbustos de la Península Ibérica e Islas Baleares, Mundi-Prensa, 2006), as pétalas assemelham-se a um "corazón invertido" - descrição meio enigmática para uma flor com simetria radial, não acha?

25/04/2011

Amarelo depois do fogo

Halimium ocymoides (Lam.) Willk.


Em Alfena, do lado de lá de uma novíssima auto-estrada-que-afinal-tem-custos, há uma lixeira a que alguns adeptos do eufemismo poderão chamar aterro ou depósito de inertes. Não sendo de desdenhar contributos privados, parece ser sobretudo à junta de freguesia que cabe manter e acrescentar o acervo de detritos: materiais de construção, entulhos, electrodomésticos, colchões, mobiliário diverso. A lixeira coroa uma encosta que desce para a ribeira de Tabãos, e está rodeada por muitos hectares de eucaliptais. No Verão passado ardeu tudo o que não tinha ardido em anos anteriores. O solo enegrecido e ralo, com alguma carqueja a despontar, estende-se como um tapete infernal até à mata de eucaliptos carbonizados.

Para facilitar o acesso à lixeira e aos montes circundantes de camiões e de veículos todo-o-terreno, existe um viaduto que sobrevoa a auto-estrada, e que está ligado ao centro da freguesia por uma estrada moderadamente esburacada. Não sendo passeio que se recomende aos amantes de paisagens e da vida ao ar livre, afinal o que viemos aqui fazer? Dá-se o caso de o regime quase anual de incêndios que sobreveio à eucaliptização não ter conseguido erradicar por completo a riqueza botânica deste lugar. É aqui que a população mais nortenha do pinheiro-baboso oscila no limiar da extinção. Em ano de censo nacional, é imperioso contarmos quantos efectivos sobrevivem.

Observar as outras plantas rentabiliza a excursão e é um bálsamo para o olhar. As que mais se esforçam por mitigar a fealdade do cenário são as cistáceas de flores amarelas: tuberárias e halímios inauguram os seus enfeites em Abril e prometem mantê-los por três ou quatro meses.

Conhecido como mato-branco ou sargaço-branco, o Halimium ocymoides é um pequeno arbusto de folhas esbranquiçadas, em geral com não mais que 30 ou 40 cm de altura (mas podendo chegar a 1 m), presente em terrenos silícicos de norte a sul do país na companhia de urzes e de tomilhos. Globalmente, distribui-se por Marrocos e pela Península Ibérica, onde só não alcança o extremo norte. Distingue-se pelas longas hastes florais, muito ramificadas, e pela mancha castanha ou púrpura na base das pétalas. O pretexto para o epíteto ocymoides vem da semelhança das suas folhas com as do manjericão (Ocimum basilicum).

04/03/2011

O rubor do sargaço

Cistus sp. [variedada cultivada — Russel Square]
Coimbra, 2 de Fevereiro de 1958 — Enquanto via as imagens — uma arte insuspeitada trazida à tona do grande deserto africano —, ia-me consolando com a ideia de que nem a própria natureza comete crimes perfeitos. Engole uma civilização, fica-se a rir com um riso saariano, e tudo parece arrumado. Mas às tantas, o olho insubmisso dum grafito espreita por debaixo das areias, e pronto: a tramóia descobre-se, os entendidos cavam, e patenteiam à incredulidade dos jurados o esqueleto da vítima devorada.

E isto dá esperança, parecendo que não. A certeza de que não há facto soterrado sem claridade futura, de que aparece sempre um caco dos acontecimentos a desafiar a curiosidade dos vindoiros, embora melancólica, é consoladora. Mesmo póstuma, adiada para o dia do juízo, a verdade sabe bem.

Miguel Torga, Diário (D. Quixote, 2010)

29/11/2010

Senhor das suas folhas

Halimium halimifolium (L.) Willk. — Mata Nacional das Dunas de Quiaios


A foto de uma flor não é uma flor; e, para os saudosistas do papel, aquilo que se vê no écran, e que se pode apagar carregando numa tecla, talvez não seja bem uma foto, mas uma ilusão. Dupla ilusão, portanto: a ilusão de uma foto onde está representada a ilusão de uma flor. Mas que fazer quando a realidade da flor já não está ao nosso alcance? Quando no pinhal onde floriu esta sargaça, e que não nos fica assim tão perto de casa, a vida está suspensa até à próxima temporada? Mostrar a flor, ou a ilusão da ilusão da flor, é marcar no calendário de 2011 um lembrete para o regresso.

O Halimium halimifolium, que no nosso país vive nos pinhais costeiros do centro e do sul, e de um modo geral se distribui pela metade oeste da bacia mediterrânica, é certamente o arbusto mais atraente de um género a que temos prestado atenção assídua (confira aqui, aqui e aqui). Com o seu porte empertigado (pode ultrapassar o metro e meio de altura) e a sua folhagem de um verde prateado, destaca-se pelas grandes flores amarelas, com ou sem pintas, que brotam profusamente entre Junho e Agosto. É nessa altura que os pinhais onde vive se transfiguram em jardins requintados, atravessados por uma mescla de perfumes onde sobressaem a caruma e a maresia.

A variabilidade das flores merece uma nota: o tamanho da mancha castanha na base das pétalas pode variar, mas é uniforme em cada arbusto. A mesma planta ou dá só flores sem pinta, ou as dá só com pinta, e sempre com a pinta do mesmo tamanho. Contudo, essas oscilações cromáticas não parecem ter qualquer significado taxonómico.

O nome Halimium halimifolium, que traduzido à letra dá um lapalissiano halímio com folhas de halímio, pode suscitar alguma estranheza. A aparente idiotice deve-se a Lineu, por em 1751, no seu Species Plantarum, ter chamado à planta Cistus halimifolius; o alemão Wilkomm, quando em 1878 a transferiu para o género Halimium, foi obrigado a manter o epíteto específico. E, de facto, o halimifolium (ou halimifolius) não foi motivado pela semelhança do arbusto consigo mesmo, mas sim com a salgadeira (Atriplex halimus). Essa outra planta, a que os gregos chamavam hálimos, tem folhagem igualmente acinzentada e é característica dos sapais mediterrânicos, surgindo em Portugal da ria de Aveiro para sul.

19/07/2010

Estevão ardente


Cistus populifolius L.

Num país apinhado junto ao mar, uma planta como o estevão (Cistus populifolius), que prefere viver longe da costa, faz figura de raridade. Se as suas flores, embora vistosas, não fogem ao figurino de congéneres suas como a esteva, já as folhas são um caso à parte, tanto pelo seu grande tamanho (até 8 cm de comprimento) como pelo formato cordiforme (semelhante ao das folhas dos choupos, e daí o epíteto populifolius). Quando pela primeira vez a vimos, no Douro, enfeitando o talude da estrada que desce de São João da Pesqueira para a barragem da Valeira, ela obrigou-nos a uma travagem ainda mais brusca do que um súbito semáforo vermelho. Ao inspeccionarmos o local, outras plantas valiosas se revelaram à nossa vista; uma delas já aqui apareceu, e outras duas terão o seu momento esta semana.

Asseveram as habituais fontes que o estevão está presente em toda a metade sul do país, mas que no norte e no centro ele se encontra confinado ao interior. Custa-nos porém crer que uma planta tão apelativa nos passasse sempre despercebida nas nossas incursões ao Portugal profundo. Diríamos pois que, apesar de ter uma ampla área de distribuição potencial, ela não é de modo nenhum abundante. No Guia de campo: as árvores e os arbustos de Portugal continental (Público / LPN - 2007) afirma-se que a espécie é frequente em matos de substituição de sobreirais, sobre solos delgados e ácidos; e acrescenta-se que, apesar de ter qualidades ornamentais, o seu uso mais comum é como combustível. Referir-se-á o livro ao fogo da lareira ou ao fogo estival que corre solto pelos montes? Em qualquer caso, consideramo-nos afortunados por termos visto o estevão antes que arda tudo.

14/07/2010

Alcar do Gerês

Tuberaria globulariifolia (Lam.) Willk.
[= Xolantha globulariifolia (Lam.) Gallego, Muñoz Garm. & C. Navarro]
Há plantas que têm um modo especial de adormecer: não desaparecem aconchegadas no solo, mas deixam à superfície uma roseta de folhas como promessa e desafio; desafio dirigido aos botânicos amadores para adivinharem o que elas prometem dar. O alcar-do-Gerês acenou-nos ainda no frio de Dezembro, quase no início do longo trilho que segue o rio Homem até aos Carris. Eram folhas como nunca tínhamos visto: pecíolos longos, faces lustrosas sulcadas por três veios longitudinais, uma curta penugem sublinhando as margens. Uma estampa com desenhos de plantas do Gerês num livro de Oleg Polunin desvendou-nos a identidade da planta, e marcou-nos o regresso ao local para fim de Maio.

A família Cistaceae, a que pertence esta planta (e que inclui as estevas e os sargaços), é como os bons restaurantes: só serve produtos frescos, e rejeita em absoluto os pratos requentados. Os polinizadores que se regalam no néctar nem precisam de perguntar, já sabem que a flor é fresquinha, acabada de abrir. Pelo final da tarde, todas as flores — mesmo as que não foram usadas — largarão as pétalas à hora de fechar o estaminé. Ficam as plantas rodeadas por tapetes coloridos muito mais bonitos do que os sacos plásticos onde os restaurantes despejam as suas sobras. Mas ainda assim é bem mais gratificante encontrar as flores na planta do que vê-las desfeitas no chão.

Talvez essa alta rotatividade floral e o longo período em que ela decorre (de Maio a Setembro) não permitam ao alcar-do-Gerês exibir de cada vez muitas flores abertas. O máximo que encontrámos foi três ou quatro por planta. Cada flor amarela tem uns cinco centímetros de diâmetro e um anel acastanhado no centro; é uma versão em ponto grande da flor da tuberária-mosqueada.

A Tuberaria globulariifolia é um exclusivo do noroeste da Península Ibérica; em Portugal, ocorre no Minho, no Douro Litoral e nas Beiras, mas só no Gerês parece ser fácil de encontrar. No barrocal algarvio existe uma planta tão semelhante a esta que até já foi considerada uma subespécie: trata-se do alcar-do-Algarve, ou Tuberaria majus. Fica o leitor convidado a descobrir as diferenças.