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17/06/2011

Salgueiro-negro

Lee Valley Park
La lune blanche / luit dans les bois. / De chaque branche / part une voix / sous la ramée... / Ô bien aimée.

L'étang reflète, / profond miroir, / la silhouette / du saule noir / où le vent pleure... / Rêvons, c'est l'heure.

Un vaste et tendre / apaisement / semble descendre / du firmament / que l'astre irise... / C'est l'heure exquise.

Paul Marie Verlaine, La bonne chanson (1870)
Reynaldo Hahn, Chansons grises (1887-1890)

04/03/2011

O rubor do sargaço

Cistus sp. [variedada cultivada — Russel Square]
Coimbra, 2 de Fevereiro de 1958 — Enquanto via as imagens — uma arte insuspeitada trazida à tona do grande deserto africano —, ia-me consolando com a ideia de que nem a própria natureza comete crimes perfeitos. Engole uma civilização, fica-se a rir com um riso saariano, e tudo parece arrumado. Mas às tantas, o olho insubmisso dum grafito espreita por debaixo das areias, e pronto: a tramóia descobre-se, os entendidos cavam, e patenteiam à incredulidade dos jurados o esqueleto da vítima devorada.

E isto dá esperança, parecendo que não. A certeza de que não há facto soterrado sem claridade futura, de que aparece sempre um caco dos acontecimentos a desafiar a curiosidade dos vindoiros, embora melancólica, é consoladora. Mesmo póstuma, adiada para o dia do juízo, a verdade sabe bem.

Miguel Torga, Diário (D. Quixote, 2010)

03/03/2011

Flores caídas

Piptanthus nepalensis (Hook.) D. Don [= Piptanthus laburnifolius (D.Don) Stapf]
É sabido como o sistema de ensino tem vindo gradualmente a abandonar assuntos que, pela sua complexidade, podem causar lesões neuronais irreversíveis a quem por eles se aventure. A tendência nem sequer é recente. O escriba, nascido nos idos de sessenta, assume sem complexos ser já o produto de um ensino aligeirado. A prova? Nunca ninguém lhe tentou ensinar latim ou grego. Não é certo, porém, que algo lhe tivesse ficado vivo dessas línguas mortas se a elas tivesse sido exposto. Aprender é também esquecer, por falta de boa arrumação no sótão mental.

O interesse pela botânica vai suprindo, de modo fragmentário, essa lacuna formativa. Conhecer o significado de três ou quatro dezenas de epítetos científicos já proporciona um vocabulário latino muito rudimentar e embrionário. Não permitirá manter grande conversa com algum dignitário do império romano, mas dará para trocar umas dicas com o seu jardineiro. E ao latim juntam-se uns pozinhos ainda mais rarefeitos de grego antigo, como bem ilustra a planta de hoje. A palavra anthos, que aparece no nome genérico Piptanthus e numa série de outros termos botânicos (por exemplo micranthus), significa flor em grego clássico; o verbo pipto, que fornece o prefixo, significa cair. O termo Piptanthus diz-nos pois que as flores deste arbusto têm o hábito de cair. E — pergunta o perplexo leitor — o que há de singular nisso? Não acontece o mesmo com todas as flores? É que estas, afiançam os tratados de botânica, caem mais completamente do que as que caem simplesmente. Tombam não só a colora e os estames como também o cálice, de modo que as jovens vagens nascem quase sempre sem esse colarinho na base (visível, por exemplo, nesta foto de uma outra leguminosa).

Fotografado em Gordon Square (Bloomsbury, Londres) no início de Maio, este arbusto parecia ter sido acabado de plantar no seu canteiro definitivo: muito pequeno ainda, mas já com fartura de flores e promessa de mais para vir, e com a tirinha de identificação dando conta de que era parte de uma encomenda de três. Quando crescer poderá ultrapassar os dois metros de altura. Dependendo das condições ambientais, tanto pode ser de folhagem caduca como persistente; o mais provável é que nos jardins europeus de climas mais amenos (em Portugal nunca o vimos) ele não se dispa no Inverno.

O género Piptanthus inclui três únicas espécies, todas originárias da China e dos países vizinhos. O Piptanthus nepalensis é nativo da região que se estende dos Himalaias (Nepal) até ao sudoeste da China.

02/03/2011

Prímula dentuça

Primula denticulata Sm.
Nome vulgar: drumstick primula
Ecologia e distrbuição: zonas montanhosas húmidas do Afeganistão ao sudeste do Tibete, e ainda da Birmânia e do sul da China
Época de floração: Abril a Agosto
Data e local das fotos: Gordon Square (Bloomsbury, Londres), Maio de 2010

01/03/2011

Revoada de luas

Lunaria annua L.
(fotografada em Gordon Square, Bloomsbury, Londres)


Planta bienal, e por isso também designada Lunaria biennis Moench., esta crucífera tem folhagem caduca e opta ocasionalmente por um ciclo de vida anual, o que a denominação aceite (annua) assinala. É uma herbácea ramificada e alta, com vasto uso ornamental, o que facilitou a sua naturalização em recantos húmidos e sombrios longe do seu habitat natural, o sudeste da Europa e a região mediterrânica. As folhas ovado-cordiformes são largas e acuminadas, com margens serradas, sésseis as do topo, de pecíolo longo as basais para mais bem compor o ramalhete.

Os racimos vistosos de flores inodoras surgem na Primavera; o cálice tem sépalas de 1 cm a rodear quatro pétalas com cerca de 2 cm de diâmetro, violáceas ou brancas, dispostas em cruz como é típico na família Cruciferae. Mas são os frutos, enormes silíquas achatadas, com perfil arredondado e septos centrais acetinados, da cor do nácar, que persistem nos ramos depois que as sementes reniformes se disseminam, a razão maior da fama desta planta. A Lineu, lembraram eles a lua cheia. Para outros, são moedas de prata, a que a ironia popular juntou do-Papa ou de-Judas. Os ingleses chamam-lhe honesty talvez porque as vagens são translúcidas, permitindo entrever as sementes.

O género Lunaria agrupa umas oito espécies. Uma só delas, a L. rediviva L., é espontânea na Península Ibérica, distinguindo-se da L. annua por ser perene, por dar, no Verão, flores perfumadas de um roxo pálido, por ter todas as suas folhas pecioladas, e por preferir a montanha. Há registo dela em quase toda a Europa; em Portugal, segundo a Flora Ibérica, podemos encontrá-la, sempre acima dos 900 metros de altitude, no centro e sul — mas não conhecemos testemunho dessa presença.

28/02/2011

Bloomsbury

Woburn Square
Bury é palavra do inglês antigo que designa fortificação ou castelo; corresponde ao borough do inglês moderno, numa evolução que atesta como modernizar pode não ser simplificar. Da mesma raiz latina nasceu o burgo português. Chegamos assim a uma possível explicação do topónimo que dá título a este texto: Bloomsbury seria Burgo das Flores ou talvez Burgo em Flor. O inglês é porém uma língua traiçoeira que tem fraco comércio com a lógica: aquele bloom não resultou de nenhuma flor, mas sim (de acordo com a Wikipedia) do desgaste a que o uso dos séculos submeteu o antropónimo Blemond.

Sucede no entanto que a interpretação florida do nome Bloomsbury, mesmo tendo por base um equívoco fonético, acaba por ter uma contrapartida bem real. Bloomsbury é o bairro de Londres onde as praças ajardinadas são de acesso livre, e não — como sucede em Chelsea, South Kensington, Belgravia e em inúmeros outros bairros da capital britânica — restrito aos privilegiados moradores dos respectivos quarteirões. É pois um lugar aberto em que os jardins são franqueados a toda a gente: trabalhadores locais no intervalo do almoço, estudantes do vizinho University College, indígenas desocupados, a massa heterogénea e sempre renovada de turistas. A informalidade é regra quase compulsiva: nos dias de Verão são muitos mais os que se estendem na relva do que aqueles que se acomodam num banco de jardim.

Esse anti-elitismo de Bloomsbury vem de longe. Aprendemos com os romances vitorianos que morar em Bloomsbury, no século XIX, não era propriamente um sinal de distinção, apesar da imponência marcante do Museu Britânico. Podiam viver no bairro pequenos proprietários ou profissionais medianamente bem sucedidos, à mistura com uns tantos intelectuais, mas a aristocracia, tanto a de sangue como a financeira, nunca escolheria lá morar. Em Bloomsbury trabalhava-se e estudava-se; os lugares da diversão requintada, com a épica saison estival de bailes e jantares de gala, eram bem outros.

Além de ter registado para a posteridade como era a Bloomsbury novecentista, a literatura ajudou à transformação do lugar ao dar-lhe uma imorredoura aura cultural. O famoso grupo de Bloomsbury que gravitou à volta de Virginia Woolf reunia-se nas casas que rodeiam os mesmos jardins que hoje podemos visitar. Muitos desses edifícios foram desde então ocupados pela Universidade de Londres; Gordon Square e Woburn Square (foto acima), talvez as mais bonitas e pacatas praças de quantas existem no bairro, frequentadas que foram por Virginia e pelo seu marido Leonard, são também hoje património universitário.

Talvez nada haja de espectacular nos jardins que preenchem essas praças. O que há é uma normalidade quotidiana que preza a sombra das árvores e faz do sossego e do bom gosto uma componente essencial da vida urbana. Nesses jardins há sempre flores, e não apenas em arranjos formais: alguns recantos (especialmente em Gordon Square) parecem retalhos de natureza que escaparam incólumes ao cerco da cidade.

Antes de avançarmos pela Primavera dentro, fazemos uma pausa citadina: as flores e árvores que esta semana nos visitam vêm todas das praças de Bloomsbury. Para começar temos plátanos, uma ameixeira-de-jardim, arbustos diversos, e Gandhi em Tavistock Square rodeado por tulipas.


25/01/2010

A companhia dos mortos


Cemitério de Brompton — Londres


.....Mas se paro um momento, se consigo
.....Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
.....De novo, esses que amei vivem comigo
.........Antero de Quental, Com os Mortos


Em Earl's Court e Chelsea, dois bairros londrinos perto do Tamisa, abundam as praças ajardinadas, mas quase todas elas, por serem privadas, estão interditas ao público em geral. Há contudo, no limite dos dois bairros, um espaço de 16 hectares fartamente arborizado em que toda a gente pode entrar. Vêem-se lá pais e mães com crianças em carrinhos ou pela mão, gente que vem passear os cães, outros em trajes desportivos que correm disciplinadamente a sua quota diária de milhas, uns tantos menos enérgicos que se deixam ficar sentados a ler (não há falta de bancos nem de sombras). No intervalo do almoço muitos aqui vêm engolir a refeição ligeira comprada no take-away da esquina; esquilos, pombas e gralhas ficam à espreita para devorar os restos de comida. Excepcionalmente, lá aparece algum turista de máquina a tiracolo fotografando árvores e monumentos funerários.

Pois esse parque tão popular é afinal um dos históricos cemitérios de Londres, inagurado no mesmo ano (1840) em que foi aberto o cemitério de Highgate. Com um plano rigorosamente rectangular e entradas pelas duas extremidades, em Old Bromptom Road e em Fulham Road, o cemitério de Brompton, é esse o seu nome, não tem o encanto de Kensal Green, mas é de mais fácil acesso e, tal como o seu colega, tem muitas árvores (nas fotos vemos, por esta ordem, um castanheiro-da-Índia, um choupo e um plátano, mas também há tílias, áceres, carvalhos e azinheiras) e muitas flores silvestres. E, beneficiando dessa gestão inteligente que não elimina o que é espontâneo na natureza, são inúmeros os pássaros que fazem deste espaço a sua casa.

Seria sinal de sobranceiro desprezo pela actualidade desportiva não assinalar que o estádio aí em cima, mesmo encostado ao cemitério, é Stamford Bridge, morada do Chelsea Football Club. A verdade é que tal proximidade não ajuda à beleza da envolvente, mas regista a história que os dois, estádio e cemitério, separados apenas por uma linha férrea, são vizinhos um do outro há mais de cento e trinta anos. Ao longo desse período, o primeiro foi-se modernizando, enquanto o segundo regredia para um estado semi-natural. Para quem vem do norte da cidade, a necrópole serve de atalho para chegar à única entrada de Stamford Bridge, em Fulham Road. Ou pelo menos é isso que sugere o filme Eastern Promises (2007) de David Cronenberg, em que um adepto de gorro, cachecol e bandeira é lá esfaqueado quando segue num magote ululante em dia de jogo.

Uma palavra sobre o «malmequer» ou «margarida» que se vê numa das fotos. Trata-se do Leucanthemum vulgare (Vaill.) Lam., planta ruderal muito frequente em toda a Europa e também em Portugal. Antes de o leitor se regozijar por finalmente saber o nome de uma planta tão ubíqua nos nossos campos, é melhor acautelar-se. São muitas as asteráceas, pertencentes por exemplo aos géneros Bellis, Anthemis, Anacyclus, Chamaemelum e Matricaria, que dão inflorescências brancas com centro amarelo, e algumas delas estão ainda mais disseminadas do que o Leucanthemum vulgare. Então como se distinguem os «malmequeres» uns dos outros? Não existe uma regra geral simples, mas, no caso do Leucanthemum vulgare, além do formato e disposição das folhas (alternadas, com margens dentadas — clique na foto para ver melhor), há a peculiaridade de cada haste ser encimada por uma única inflorescência.

30/12/2009

Das plantas e dos temperos


Origanum vulgare L.

Turismo gastronómico não é coisa que nos seduza: podemos fazer umas centenas de quilómetros para fotografar umas ervinhas na Serra dos Candeeiros, mas não para provar de um prato com elas confeccionado. E, se não viajamos para comer em Portugal, seria de todo inconcebível ir a Londres com esse propósito. Entendamo-nos: cada um tem o paladar moldado pelo país onde nasceu e cresceu, e parece haver uma incompatibilidade radical de gostos culinários entre portugueses e britânicos. É esta a maneira airosa de despachar um assunto embaraçoso, evitando comentar o fish & chips encharcado em vinagre, os legumes ultracozidos sem ponta de tempero, os molhos agressivos que obliteram o sabor da comida (se é que ela tem algum), as versões desenxabidas dos «pratos étnicos». Longe de nós afirmar que tudo isso demonstra uma desafinação grave dos orgãos gustativos dos britânicos. Não, mil vezes não. Acontece simplesmente que tais orgãos foram regulados de modo diferente dos nossos.

Os restaurantes indianos, italianos, gregos, chineses e de não sei quantas mais nacionalidades que proliferam em Londres são a escolha natural do visitante para fugir à comida britânica. Acontece que muitos deles praticam uma cozinha preguiçosa e aculturada. Não têm de fidelizar uma clientela exigente, seja porque ela não existe ou porque o afluxo de turistas incautos é inesgotável. É assim uma verdadeira surpresa encontrar um restaurante como o Da Mario, em Gloucester Road (Kensington), que não cobra preços astronómicos, não é chique nem exige reserva de mesa, e serve comida deliciosa. As pizzas, que há muito desisti de comer nos nossos restaurantes ditos italianos, são aqui autênticos tratados de apuro culinário. O que mais nos atrai ao Da Mario são porém as saladas, em especial a incomparável insalata tricolore: mozarela, tomate, abacate, azeitonas, manjericão fresco, tudo regado com um dourado fio de azeite. Nada mais seria preciso para uma refeição perfeita.

O manjericão ou alfavaca (Ocimum basilicum L.), a que os ingleses chamam basil, é a erva aromática mais usada em cozinha italiana; poucas são as pizzas que a dispensam. Como não tenho à mão uma foto dessa planta, decidi convocar o orégão (Origanum vulgare L.), que casa especialmente bem com o tomate e as azeitonas. Pode assim, numa emergência, substituir o manjericão numa versão caseira da insalata tricolore.

O orégão é um pequeno arbusto compacto (até 30 cm de altura), muito ramificado e aromático, com galhos aveludados, que ocorre naturalmente no norte de Portugal e nos países da bacia mediterrânica. As flores tubulares, de corola penugenta, são brancas ou cor-de-rosa, agrupam-se em cachos cimeiros, e medem cerca de 4 mm cada.

26/12/2009

O jardim que foi cemitério



St George's Gardens - Londres

A meio caminho entre Russell Square e King's Cross encontra-se, escondido entre prédios, um cemitério morto que é uma apoteose de vida. Cemitério morto porque desde há mais de século e meio ninguém lá é enterrado; e vivo por causa das árvores e de toda a fauna de insectos, pássaros e esquilos que lhe está associada. Não ultrapassa um hectare de área, mas é bem mais valioso do que aqueles jardins e parques, mesmo que amplos, onde as árvores nunca são autorizadas a crescer.

Conta a placa no local que o cemitério, um dos primeiros na Grã-Bretanha a não ficarem anexos a uma igreja, foi aberto em 1713 num terreno descampado. Em 1855, quando o cemitério teve de encerrar por sobrelotação, a cidade tinha crescido desmesuradamente a toda à volta. Rebaptizado como St George's Gardens, reabriu em 1885 como jardim público ao gosto vitoriano, mantendo-se os já então seculares plátanos a pontuar os meandros dos caminhos.

De formato rectangular truncado, alongando-se por 200 m no sentido este-oeste, com um acesso no extremo oeste e mais dois no extremo oposto, o jardim, além de nos induzir ao descanso com os bancos bem servidos de sombra, funciona como atalho aprazível, surpreendente ao primeiro encontro, para quem se desloque a pé.

23/12/2009

Quarto com vista, 2



Russell Square, Bloomsbury, Londres

   They perished on the scaffold: Williams, as I have said, by his own hand;
and, in obedience to the law as it then stood, he was buried in the centre
of a quadrivium, or conflux of four roads (in this case four streets), with
a stake driven through his heart. And over him drives for ever the uproar
of unresting London!
Thomas de Quincey
   On Murder Considered as one of the Fine Arts (1827)
A velocidade e o ruído não começaram com o automóvel, e são mesmo anteriores à invenção da máquina a vapor. Thomas de Quincey (1785–1859) fala-nos de uma Londres incessante e tumultuosa num tempo em que só havia veículos de tracção animal. O mesmo autor, em The English Mail-Coach (1849), descreve como autênticos bólides as carruagens a cavalo que, no primeiro quartel do século XIX, combinavam serviço postal com transporte de passageiros. Quando o cocheiro adormecia, como adormecem hoje ao volante os motoristas de longo curso, as consequências só não eram tão trágicas porque os cavalos à rédea solta sabiam manter-se na estrada. De Quincey, relatando uma quase colisão que ele próprio, como único passageiro desperto num veículo desgovernado, conseguiu evitar com um grito de alarme, dá-nos uma imagem mortífera da velocidade raras vezes igualada nesta nossa época de aeroportos e auto-estradas. Talvez porque o intervalo entre a consciência do perigo e a sua consumação esteja hoje reduzido a zero.

O trânsito em Londres nunca pára. Já não será a chiadeira dissonante das carroças e dos coches, nem o matraquear das patas dos cavalos, mas um ruído mais manso, ronronante, que sobe e desce como o marulhar das ondas. Ruth Rendell, em Thirteen Steps Down (2004), compara o rumor da Westway, um grande braço de auto-estrada que sobrevoa Notting Hill, à agitação do mar, mais calmo de marés à noite mas nunca silencioso.

Quando no hotel me foi dado escolher entre um quarto virado para a praça e outro para as traseiras, não tive dúvidas em optar pelo primeiro. Afinal, além de ficar a saber como é Russell Square vista pelos pássaros, ainda iria ter, a embalar-me o sono, o tal uproar of unresting London celebrado por De Quincey, em versão revista e actualizada para o século XXI. A caixilharia frágil, incapaz de atenuar o ruído, assegurou-me pela noite dentro a plena fruição desse concerto motorizado, com os veículos ligeiros a soarem as notas agudas sobre o baixo trepidante dos autocarros. O registo fotográfico, porém, foi prejudicado pelo estreito ângulo de abertura da janela, e só consegui captar um dos cantos da praça. Daí o bónus de uma foto tirada ao nível do chão.

Bloombsbury e South Kensington são dois dos pedaços de Londres mais aconchegantes, com praças arborizadas como refúgios de sossego que o trânsito automóvel, tantas vezes intenso, não chega verdadeiramente a perturbar. Bloomsbury, menos requintada, é também a mais democrática: as praças e os jardins estão abertos a toda a gente, e não apenas, como sucede em South Kensington e em Chelsea, aos moradores do quarteirão. Russell Square, a dois passos do Museu Britânico e da Universidade de Londres (University College), é tão só a maior de uma meia dúzia de praças ajardinadas que se espalham num raio de quinhentos metros: Bedford Square, Tavistock Square, Gordon Square, Queen Square, Bloomsbury Square. Todas elas estão dominadas por enormes plátanos e colonizadas por esquilos atrevidos, dependentes da (muita) fauna humana para a sua alimentação.

Numa tarde de sábado em Agosto, fui ao cinema Renoir (no Brunswick Centre) ver Home, filme belga que, por inadvertência, deixara fugir aquando da sua exibição no Porto. Com uma auto-estrada a dez metros de casa, há uma família, com Isabelle Huppert no papel de mãe, que quase se suicida ao tentar a todo o custo isolar-se do trânsito atroador. Se o enredo encoraja leituras metafóricas óbvias, o filme não deixa de ser uma lição prática de como o ruído e o tumulto modernos ultrapassam, em capacidade de enlouquecimento, tudo quanto foi testemunhado por Thomas de Quincey.

23/11/2009

Que árvores são aquelas que fazem sombra no chão?


Tilia x vulgaris Hayne (tília-europeia) - Waterlow Park, Highgate, Londres

Não eram árvores, nem sei por que me lembrei delas, talvez fosse da hora. Ou da sombra, que tristes são as árvores sem sombra. Também não costumo

(não frequento áfricas, brasis, orientes)

pedir a ninguém que me diga que árvores são aquelas, bem as conheço e elas a mim. Mas não eram árvores, vamos a ver se agora conto direito. Cavalos que dão sombra colavam-se às paredes em cartazes ali aos semáforos do Campo Alegre, por certo anunciavam algum circo tão longe ainda do Natal. Achei estranha a sombra e os cavalos no mar, os cavalos-marinhos

(Hippocampus sp.)

se dão sombra ninguém a vê, os outros cavalos

(Equus ferus caballus)

não andam pelo mar a menos que voem e sejam por isso pégasos de outra estirpe, e o circo é nocturno, quando tudo é sombra ou tudo é luz artificial. Este circo que não verei

(agora também já se foi embora)

com cavalos de sombra fez-me lembrar outros circos em descampados que já não existem, e o cheiro a carne podre que sobrava de alimentar animais enjaulados. Circos que também não vi, que não sei se ainda montam a tenda em baldios de outros subúrbios, lembro-me é de ter visto uma ou duas vezes o Cardinali no Coliseu do Porto, sempre era melhor

(ou nós assim supúnhamos)

do que o circo da nossa aldeia que nem aldeia era. Havia os trapezistas e os palhaços esbofeteando-se e os leões tristes, mas do que me lembro melhor é do homem de peito de aço, um gigante careca de bigodes à Fu Manchu, que sem cambalear aparava as balas do canhão mas

(isto já sou eu a tecer romance de cordel)

todo se esboroava sob o olhar doce de Kátia, a ginasta voadora.

Tudo isto recordei ou imaginei por causa do muro do Campo Alegre que funciona como cartaz de espectáculos, diariamente renovado com camada em cima de camada de papéis pintados formato A não sei quantos. Fico a saber dos teatros e dos concertos, acompanho a carreira do Tony e do Micael quando fazem sair discos novos, e também a dos Irmãos Verdades

(com os Verdades me esganas, mas é trocadilho fácil e na verdade nunca os ouvi)

e de quem mais quiser cantar em público, tenha ou não garganta ou talento para isso. Nunca vou ver nem ouvir nada, não compro os discos, mas fica-me o ruído visual como depósito de ninharias que depois escorrem dos dedos para o teclado. Imagens postiças, em terceira mão, de vidas improváveis, como se fossem sombras ligeiras de cavalos alados sobre o mar.

30/10/2009

A vida horizontal



Quercus robur L. - Epping Forest

E se as árvores, em vez de morrerem de pé, vivessem deitadas? Mesmo que as raízes da árvore não sejam alicerces suficientemente firmes para resistirem a uma tempestade, cair pode não ser o fim, mas apenas uma mudança de postura: a vida continua, ainda que na horizontal.

Na memória do povo britânico, a data de 16 de Outubro de 1987 tem uma ressonância de tragédia. Nesse dia, uma das maiores tempestades da história atingiu o leste e o sudeste de Inglaterra. No mar houve poucos barcos naufragados, e os estragos em terra não foram, na sua maioria, nem em casas, nem em estruturas construídas. Notável foi o número de árvores tombadas, superior a dez milhões. As chuvas que antes tinham caído haviam ensopado os solos, o que diminuíra a estabilidade das árvores; e elas, além do mais, estavam pesadas da folhagem, apesar de já chegado o Outono.

Houve de imediato uma mobilização geral, com generosos donativos para «limpar» as florestas e plantar novas árvores em substituição das que se tinham «perdido». Mas, no entender de Oliver Rackham, autor de Trees & Woodlands in the British Landscape (Phoenix Press, 2.ª ed. 1990), esse impulso voluntarista causou estragos muito mais sérios do que a tempestade em si. Porque, na verdade, e pelo menos na sua grande maioria, as árvores tombadas não estavam perdidas. Se o tronco não se tivesse quebrado, e se as raízes se mantivessem, em parte, agarradas à terra, a árvore continuava viva, embora numa posição em que não estamos habituados a vê-la. O carvalho aí em cima é uma boa amostra dessa vida horizontal: dá folhas, dá bolotas, é abrigo e sustento para outras vidas, exactamente como se estivesse de pé. Caso a árvore, em vez de cair inteira, tivesse quebrado pela cintura, do cepo alimentado pelas raízes surgiriam novos ramos que iriam, ao fim de alguns anos, refazer a copa. As florestas «arrasadas» pela tempestade estavam, afinal, tão vivas como antes, e só precisavam de tempo, e não de dinheiro, para se recomporem.

Havendo dinheiro, porém, era preciso gastá-lo. Vieram motosserras e escavadoras para remover os troncos caídos e arrancar os torrões das raízes; plantaram-se centenas de milhares de novas árvores. Se num jardim ou num parque urbano formal se aceita a pulsão de ter tudo arrumadinho, já numa floresta uma tal intervenção é danosa e esbanjadora. As árvores de viveiro têm hipóteses quase nulas de sobreviverem em ambiente natural (em Portugal muita gente com responsabilidades sabe disso, o que não impede essas mistificadoras campanhas de um milhão de árvores para aqui ou para ali); e as poucas que conseguem vingar acabam por adulterar e falsificar a composição natural da floresta, a menos que tenham sido criadas a partir de sementes obtidas no local.

E mesmo a árvore tombada que se despediu da vida, como a que vemos aí em baixo, cumpre uma função importante na ecologia de um bosque, fornecendo alimento a escaravelhos e outros insectos, abrigando pássaros e esquilos nas cavidades do tronco apodrecido. A árvore caída pode estar morta, mas ainda é parte da cadeia viva a que chamamos natureza.


Hampstead Heath

21/09/2009

Caçador de rios 3: Roding


The Temple - Wanstead Park - Epping Forest

Londres de A a Z é um atlas de ruas em formato de livro que se folheia como se fosse romance, com a peculiaridade de sermos nós os protagonistas. Abrimos a página com o quadradinho onde nos encontramos e espetamos o dedo: estamos aqui. Tal é a minúcia do atlas que nem os caminhos florestais foram esquecidos: podemo-nos guiar por ele na Epping Forest, mas só na metade sul, que o resto já fica de fora. Foi assim que consegui ir a pé da estação de Leytonstone até ao parque de Wanstead, parte da floresta que pertenceu a uma casa senhorial demolida em 1824. Regista a história terem aqui existido grandiosos jardins formais, com longas alamedas e parterres graciosamente geométricos. Hoje nada disso sobra, engolido que foi pelo arvoredo espontâneo. Dessa época ficaram apenas o templo - pequeno edifício com pórtico neoclássico, onde funciona o atendimento aos visitantes - e os lagos artificiais com ilhotas arborizadas, alguns deles quase secos por altura da minha visita, em meados de Agosto.


Lago com Lythrum salicaria - Wanstead Park - Epping Forest

O rio Roding, afluente do Tamisa, tem aqui um troço que corre paralelamente a um lago de formato longilíneo, cuja vocação claramente fluvial talvez tenha sido despertada pela vizinhança do seu colega nas lides aquáticas. Vistos do caminho que os separa, lago e rio parecem gémeos. Mas eu, instruído pelo meu A a Z, queria por força atravessar o rio; e um lago, por muito que se disfarce de rio, não precisa de ser atravessado, mas tão só circundado. O rio marca aqui os limites da Epping Forest; logo depois há uma estrada servida por um autocarro que me transportaria comodamente até à parte da floresta mais a norte. Para chegar à paragem só teria de transpor o rio - proeza trivial, bastou descalçar os sapatos e arregaçar as calças - e rodear as traseiras do bairro contíguo à estrada.


Rio Roding - Epping Forest, Londres (em primeiro plano, Acer pseudoplatanus)

A Grã-Bretanha é talvez o país mais liberal (ou será socialista?) do mundo a conceder direito público de passagem em propriedades privadas: por toda a ilha existem trilhos, muito usados por caminheiros e amantes da natureza, que nenhum proprietário tem permissão para vedar. O reverso da medalha é que, onde não houver caminho autorizado, a passagem é mesmo impossível e não há desenrascanço que nos valha. Ou, se não for impossível, é arriscada e imprudente. E o A a Z, vendo bem, não indicava qualquer caminho legítimo até à estrada, mesmo estando ela ali tão perto.

Ocorreu-me isto depois de ter saltado duas vedações e de me ter visto a salvo, ainda atarantado de susto e com arranhões nas mãos e nos joelhos, na paragem que me propusera alcançar. A primeira barreira era inocente, quase convidativa: uma paliçada de madeira baixa, dando acesso a um carreiro que parecia desembocar na estrada. Mas a segunda barreira, depois de duas centenas de metros rompendo por uma vegetação cada vez mais densa e espinhenta, era gratuita e maldosa, formada por barras metálicas com dois metros de altura e pontas aguçadas. Recuar estava fora de causa, mas não sei como consegui ultrapassar tamanho obstáculo com a roupa intacta. Não invadi propriedade alheia e, tanto quanto sei, ninguém me observou neste exercício de alpinismo à mão desarmada. Mas não quero repetir a aventura: doravante, ficar-me-ei pelos caminhos assinalados no mapa.

28/08/2009

A natureza paga-se



Epping Forest. Riacho (Loughton Brook) rodeado por faias (Fagus sylvatica).

Desde 1878 que a Epping Forest é propriedade do município de Londres (City of London Corporation). Os objectivos estatutários da gestão da floresta são a preservação do seu aspecto natural e a sua manutenção enquanto espaço verde público - duas metas que podem ser contraditórias. Certo é que (como se explica na brochura The Official Guide to Epping Forest, Corporation of London, 1993) a noção de aspecto natural é controversa; e, em qualquer caso, não é a mesma coisa que estado natural. Se a floresta não tivesse sido usada pelo homem durante séculos, o que teríamos no seu lugar seriam bosques em grande parte impenetráveis. Com esse estado de coisas, nem os utentes humanos ficariam bem servidos, nem haveria, por estranho que pareça, igual diversidade de fauna e flora. Uma grande parte do esforço de gestão da floresta é assim, paradoxalmente, uma luta contra as forças da natureza: ora evitando que o excesso de vegetação ripícola faça secar charcos e lagos; ora permitindo a existência de clareiras para refúgio de plantas herbáceas e de répteis; ora criando condições para a regeneração natural do arvoredo. O custo desta manutenção ultrapassa os quatro milhões de libras anuais.

Claro que nem todas as actividades de recreio são permitidas na floresta. Os veículos a motor estão interditos nos caminhos florestais, só podendo circular nas (poucas) estradas. Autorizam-se equitação e ciclismo, mas com restrições. O vale do riacho (Loughton Brook) que se vê nas fotos, com o curioso leito em zigue-zague escavado em solo arenoso, foi declarado como sítio geomorfológico de importância regional; para evitar estragos, é interdito percorrê-lo de bicicleta ou a cavalo.

Talvez possamos tirar lições de tudo isto. A primeira é que a natureza (pelo menos aquela muito modificada pela presença humana) exige manutenção e gastos: com os orçamentos miserabilistas que temos (tanto do governo como das câmaras), os nossos espaços naturais só podem continuar a degradar-se. A segunda é que as proibições são para cumprir. O turismo desregrado dito de natureza, que a inexistente vigilância nunca poderá dissuadir, é outro dos nossos grandes males: autocaravanas estacionadas em arribas, percursos pedestres em parques naturais invadidos por veículos todo-o-terreno (como sucede na Serra dos Candeeiros), piqueniques que deixam um rasto de lixo e sujidade.

27/08/2009

Thoreau




Se eu for viver para a montanha, a montanha sai de lá, para eu ficar absolutamente sozinho?

Desculparão a pergunta absurda, mas ao cidadão que vem da cidade ruidosa, uma montanha calada e calma, quieta e calma, paciente e calma, pode, quem sabe, ser ainda de mais se o que se quer é descanso.

Sozinho juntamente com a natureza composta pelas sete mil e quinhentas árvores de um bosque? Eis o que se poderá chamar de isolamento muito frequentado.

Sózinho só no ar, sendo pássaro, ou no caixão, sendo cadáver. De resto somos sempre incomodados pelo mundo, que desde há milénios incomoda muito.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (2004)


Carpinus betulus L. - Epping Forest

24/08/2009

O charco perdido



Lost Pond, Epping Forest.
Fagus sylvatica L. (em cima); Betula pendula Roth e Cardamine pratensis L.

Os aprendizes da natureza agradecem todas as ajudas quando primeiro se aventuram num bosque, numa serra ou numa reserva natural. Surgem assim aqueles percursos recomendados onde os nossos medrosos e hesitantes passos são guiados por setas ou tracinhos coloridos. São como as rodinhas laterais de quem, criança ou já adulto, aprende a equilibrar-se numa bicicleta. E, tal como ninguém chega a ser um verdadeiro ciclista se não dispensar, a dada altura, as rodinhas extra, também não atinge um estado de verdadeira fruição da natureza quem sempre se limita aos trilhos sinalizados. Onde não há estradas nem passeios para peões também não deve haver barreiras para o inesperado. Às vezes um pequeno desvio - aquela árvore ou aquela pedra servindo-nos de referência para o caminho de regresso - proporciona uma grande descoberta: uma planta ou pássaro que nunca tínhamos visto, um lençol de água oculto pelo arvoredo.

Em Portugal muitas pessoas há que partem à descoberta da natureza sem nunca saírem dos trilhos. Ficam-se, assim, por aqueles pedaços de natureza que outros seleccionaram para elas. É verdade que os caminhos não assinalados requerem um sentido de orientação e uma familiaridade com o terreno que só gradualmente se adquirem. Mas quem se fica temerosamente pelo conhecido e repisado abdica da relação profunda com os lugares que só as escolhas ditadas pelo improviso e pelas preferências pessoais podem criar.

Nos parques, bosques ou reservas naturais de Inglaterra a regra é que os caminhos não estejam sinalizados. Quem quiser socorre-se dos seus próprios meios - mapas, bússolas, GPS, simples intuição - para definir os seus percursos. Ninguém é apaparicado: quem frequenta esses lugares tem desde logo que se emancipar. Porque a natureza (e é a natureza possível, ainda que mitigada, que buscamos) não vem equipada com setinhas ou postes, nem os outros animais da criação carecem dessas muletas.

É verdade que se vendem folhetos com percursos, mas com indicações tão escassas e por vezes tão enigmáticas que mais parecem os mapas do tesouro das histórias juvenis. E esse espírito lúdico e aventureiro é perfeitamente ajustado: podemo-nos enganar uma ou outra vez (é aliás o mais provável), mas é nesses desvios imprevistos que está grande parte da piada; e se, ultrapassados os percalços, chegarmos ao fim, sentimo-nos tão argutos como o herói numa aventura de piratas.

A Lost Pond é um dos 150 lagos ou charcos que existem espalhados pela Epping Forest e perfazem uma área total de 40 hectares. Não é visível de nenhum dos grandes caminhos que cruzam a floresta. Há um pequeno atalho, tenuemente marcado no chão, que emerge de um desses caminhos e serpenteia duas ou três centenas de metros num cerrado bosque de faias até à clareira ocupada pelo lago. Uma vez lá, dão-se dois passos na margem e o atalho parece apagar-se. Seria aquele ou o outro? Nada parece distingui-los. Felizmente, a bétula com as raízes salientes (foto em cima) ficou a assinalar o atalho correcto, e o regresso fez-se sem problemas. Houve tempo para admirar os marrecos que nadavam no seu sossego, a faia de troncos múltiplos, e uma rara planta aquática (Cardamine pratensis) que só neste esconso lago se fez achada. O isolamento e a solidão eram tão absolutos como na mais remota floresta virgem.

21/08/2009

Epping Forest



Epping Forest. Em cima: Quercus robur. Em baixo: Fagus sylvatica, Betula pendula

Londres é uma amálgama de cidades sobrepostas e contrastantes. Há os túneis da rede de metro, com as carruagens apinhadas nas horas de ponta, os tablóides gratuitos que, abandonados nos assentos, vão passando de mão em mão. Títulos de um sensacionalismo desavergonhado: professores garantem que macacos podem ser treinados para passar nos exames nacionais; máquina multibanco em supermercado fornece dinheiro grátis a clientes. Há o consumismo efervescente, tanto de turistas como de autóctones, em Oxford Street, em Picadilly, nos armazéns Harrods. Há a Madame Tussaud com as inexauríveis filas de visitantes à porta. Há os museus e galerias onde dias inteiros não chegam senão para admirar uma ínfima parte dos acervos. Há o teatro sério, de reportório, e o musical-para-toda-a-família (Os Miseráveis, O Fantasma da Ópera, Blood Brothers) que se mantém em cartaz anos a fio.

E, entremeando este labirinto urbano no limite da alucinação, há os enormes plátanos nas ruas, há os jardins e parques dos mais variados tamanhos democraticamente espalhados pelo território da metrópole. De facto, aos habitantes pouco abonados dos subúrbios cabe até um quinhão mais generoso na distribuição do verde. A Epping Forest é o maior espaço verde público da capital britânica; situada a nordeste de Londres, estende-se por 18 km no sentido norte-sul e tem uma largura máxima de 4 km. Reserva de caça real desde os alvores do segundo milénio da era cristã até meados do século dezanove, foi protegida por decreto parlamentar de 1878, onde se estipulou que a floresta permaneceria sem construções e de livre acesso para todos.

Do que a Epping Forest não se livrou foi da completa suburbanização do seu perímetro: Leyton, Wanstead, Walthamstow, Chingford e Loughton são bairros que prolongam a malha urbana londrina e completam o cerco da floresta. Locais indistinguíveis uns dos outros, feitos do mesmo tijolo vermelho ou bege, com o mesmo comércio de rua a um passo da falência, os mesmos pubs, os mesmos pindéricos shopping centres, os mesmos hipermercados (Tesco ou Sainsbury's), os mesmos bairros residenciais. Quem lá vive só é privilegiado por ter a Epping Forest à porta de casa. E, para o visitante de ocasião, é a existência desses bairros periféricos que lhe permite o conforto de chegar às franjas da floresta usando metro ou autocarro.

Apesar do seu carácter urbano, a Epping Forest não é uma floresta de brinquedo. A começar pelo tamanho: ocupa 24 km2 (2400 hectares), o que, para usar termo de comparação que se entenda, é bem mais de metade da área do concelho do Porto (que tem 42 km2). O coberto arbóreo é denso e os caminhos não estão sinalizados, o que faz com que um visitante desprevenido se perca com a maior das facilidades. Isso, porém, só seria um óbice numa floresta menos frequentada: aqui passa sempre alguém que nos põe na rota certa.

Na Epping Forest palmilhamos quilómetros e quilómetros sem ver um carro, entre carvalhos, faias, bétulas, carpas (Carpinus betulus), azevinhos e avelaneiras. Aqui e ali abrem-se clareiras, vislumbram-se lagos e charcos. Acompanha-nos o som dos pássaros, das aves aquáticas, do vento sacudindo a folhagem das árvores. Tudo isto na mesma cidade em que os peões se acotovelam nos passeios, e em que o metro e o trânsito automóvel nem por um momento descansam do seu afã nas 24 horas do dia.

22/06/2009

Dove tree




Davidia involucrata Baillon - jardins da Kenwood House

Davidia é um género de folha caduca e uma só espécie, D. involucrata, adoptado como filho único pela família Davidaceae; estudos recentes sugeriram contudo que está próximo do género Cornus, optando os taxinomistas por colocá-la na família Cornaceae. Há vários aspectos na fisionomia desta árvore que atraem a atenção; atenda neles, caro leitor, enquanto manuseia as fotos.

Tem folhas que lembram as das tílias: acuminadas, de uns 15cm x 12cm, simples, alternadas e face inferior pubescente (curiosamente, há também uma variedade de folha glabra e amarelada, D. involucrata var. vilmoriniana). Uma inspecção mais cuidada revela que as folhas têm pecíolos avermelhados, base cordiforme, margens serradas e uma ponta saliente. A venação é peculiar: para cada lado partem, do veio central, sete a oito veios laterais que - ora confirme - se bifurcam antes de atingirem as margens.

Mas há mais. No fim da Primavera nascem fiadas de flores suspensas dos ramos que parecem pombas alvas - ou outros seres de roupagem branca a que aludem as designações handkerchief tree e ghost tree. As flores masculinas não têm sépalas ou pétalas, são meras estruturas redondas (com cerca de 2cm de diâmetro), feitas de numerosos estames com anteras de cor púrpura, que rodeiam um flor feminina verde - no que se pode considerar uma perversão da sã ortodoxia do harém. O conjunto é envolvido (daí o epíteto específico involucrata) por duas enormes brácteas (folhas modificadas que se situam na base da flor e a cobrem) de tamanhos desiguais, tendo a maior cerca de 20cm de comprimento.

O formato das flores, com pouca protecção da componente feminina, sugere que este é um género de origem remota. Sobreviveu isolado nas florestas húmidas das regiões chinesas de Sichuan e Hubei, as que são também habitat do Ginkgo, da Metasequoia e dos pandas. O nome do género homenageia o naturalista e missionário francês Armand David (1826-1900).

15/06/2009

É no Sabugal que os amigos se encontram


Carvalho (Quercus robur) em Golders Hill Park, Hampstead Heath, Londres

Falo naturalmente dos amigos das árvores; mas, mesmo para os que nunca antes se falaram, o encontro no Sabugal com essas amigas comuns, a 25 e 26 de Junho (já para a semana!), é o mais auspicioso prólogo para uma amizade a sério.

Melhor será contar a história desde o início, tentando dar-lhe forma intelígivel. Talvez no final se entenda por que está este carvalho britânico, enjaulado em benefício de uma velhice tranquila, encabeçando uma notícia sobre árvores em Portugal. Da terra anfitriã do anunciado evento e das árvores que lá vegetam ainda não tenho fotos; terei depois, mas já seria tarde para a notícia.

Desde 2007 que Miguel Rodrigues e Pedro Nuno Teixeira Santos (autor de A sombra verde) têm compilado um metódico registo das árvores monumentais do extremo sul do país, que vêm vertendo no blogue Árvores Monumentais do Algarve e Baixo Alentejo. Um trabalho dessa índole nunca está concluído, mas o Miguel e o Pedro quiseram alargá-lo a todo o país, tomando a iniciativa de fundar, com outros amigos, a associação Árvores de Portugal. Associação essa que, ressalve-se, tem objectivos mais gerais, como o de intervir na defesa e promoção da árvore, numa altura em que a Sociedade Portuguesa de Arboricultura, que teria naturalmente essa função, se encontra paralisada.

Mas é o amor pela árvore multissecular que motiva a primeira iniciativa pública da nova associação: justamente o seminário sobre «Árvores Monumentais - Importância e Conservação», a decorrer no Sabugal em 25 e 26 de Junho. O programa completo do evento pode ser aqui consultado, mas há que ressaltar as presenças do Professor Jorge Paiva, do Eng.º Campos Andrada (da Autoridade Florestal Nacional, que mantém o registo português das árvores de interesse público), de Ted Green (o maior activista na defesa das árvores históricas da Grã-Bretanha) e de Susana Domínguez Lerena (co-autora do notável livro Árboles, Leyendas Vivas). (Admito que também lá farei uma mini-apresentação deste livro.) A coroar o programa, na manhã do dia 26, há uma visita aos castanheiros notáveis do concelho do Sabugal; os mesmos que irão ilustrar a reportagem do evento quando aqui a publicarmos.

Acredito que os amigos das árvores, se puderem fazê-lo, não deixarão de ir ao Sabugal. É no interior, é longe, a viagem é demorada... Há tudo isso, mas falemos com franqueza: que piada teria um evento destes em Lisboa ou no Porto? Quantas árvores conhecemos nessas cidades comparáveis ao carvalho de sua majestade aí em cima? Confiemos no Sabugal para mostrar aos ilustres visitantes estrangeiros, com uma pitada de imerecido orgulho, que em Portugal também há árvores realmente monumentais.

P.S. Carregue aqui para fazer a sua inscrição. Para mais informações contacte:

Nélia Vasco, tel.: 271 75 10 42
Laura Alves, tel.: 96 10 13 552
Fax: 271 753 408

21/06/2008

Jardins japoneses

Foi anunciado em Lisboa, no final de 2004, que iria abrir ao público em Belém no Verão seguinte um jardim japonês composto por 461 cerejeiras; tratava-se de uma iniciativa da Associação de Amizade Portugal-Japão, apoiada pela Câmara Municipal, para celebrar o 461.º aniversário das relações luso-nipónicas. Em Setembro de 2006, porém, o Jornal de Notícias noticiava que a inauguração não tinha ainda data marcada, apesar de as obras da primeira fase estarem concluídas. É que as cerejeiras revelavam dificuldades em vingar, e a afluência de visitantes ao local poderia prejudicá-las. Além disso, como seria exagerado enfiar 461 cerejeiras num terreno de apenas 6000 m^2 (o que daria 13 m^2 de espaço vital para cada árvore), acabaram por ser plantadas só 170. Não sei se alguma vez houve inauguração, mas de 2006 para cá as coisas foram de mal a pior: como contou António Barreto há duas semanas no Público (pode ler a crónica na Sombra Verde), praticamente todas as árvores morreram. Isso mesmo tinha sido denunciado, em Dezembro de 2007, pelo blogue Cidadania LX, que falava ainda do relvado seco e do sistema de rega inoperante. Um único consolo é possível tirar de tamanho fiasco: por não terem chegado a ser plantadas, houve 291 cerejeiras que não morreram.

O erro mais clamoroso do projecto terá sido o local escolhido para as cerejeiras. Em 2001, no Porto, deu-se um caso semelhante: apesar dos avisos em contrário, plantaram-se oliveiras à beira-mar na requalificada rotunda do Castelo do Queijo, e secaram todas em poucos meses. Cada vez mais - em Lisboa, no Porto e no país - os nossos jardins são planeados por quem nada entende de plantas e de jardinagem; o resultado é o desperdício de dinheiro e o desmazelo no espaço público.

Além do projectista ignorante, há outra figura que explica, desta vez pela ausência, o nosso reiterado insucesso: é o jardineiro. Sem ele, não há Câmara Municipal que consiga manter decentemente os jardins ou espaços verdes inaugurados com pompa e circunstância. Nos países onde essa profissão é acarinhada, os jardins, em vez de degenerarem em caricaturas de si próprios, crescem em beleza e maturidade. Gosto de imaginar que esta estátua no Holland Park, em Londres, à qual só falta um carrinho de mão, é uma homenagem aos jardineiros que lá trabalham ou trabalharam, e a quem se deve a beleza serena de lugares como o Jardim de Quioto.



O Jardim de Quioto existe desde 1991. É um simples lago com cascata rodeado por um caminho e por meia-dúzia de árvores: tulipeiro, bétula, pinheiros, áceres arbóreos e arbustivos. Há rochas, maciços de azáleas, uma sebe mista, quatro ou cinco bancos bem espaçados. Cada elemento deste pequeno espaço - seja ele vegetal ou inerte - parece estar no lugar exacto. Mas o jardim que hoje vemos não foi assim criado, completo e imutável, no dia em que se cortou a fita: é um trabalho diário de amor e paciência, feito por quem sabe do seu ofício.




Jardim de Quioto - Holland Park - Londres