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28/11/2017

O verdadeiro sanguinho



Cornus sanguinea L.


A legislação portuguesa permite, a quem o deseje, alterar o seu nome, ainda que o processo exija uma justificação e não seja barato. As razões alegadas são as mais variadas, podendo simplesmente não se gostar do nome que se tem. Na taxonomia das plantas, a obrigação de se usar o nome válido mais antigo não permite tais brios. E, na verdade, mesmo que algumas designações nos soem estranhas, como a que Lineu escolheu para esta espécie, uma consulta ao dicionário revela que tais nomes são até apropriados. E, sendo frequentemente baseados em detalhes morfológicos, servem de etiquetas de memorização fácil e dão uma grande ajuda na identificação de plantas.

A designação Cornus sanguinea parece aludir a uma tragédia amorosa, recheada de traição e infidelidade, mas não se trata disso. Cornus também significa, em latim, cerejeira ou pilriteiro, ou os ramos jovens dessas e de outras árvores semelhantes. Com os das Cornus, tingidos de vermelho, faziam-se outrora varas ágeis e cestos afamados. Em português, o nome vernáculo atribuído a esta espécie é sanguinho-legítimo, para a distinguir de outros sanguinhos, como o sanguinho-de-água (Frangula alnus) ou o sanguinho-das-sebes (Rhamnus alaternus). Poderia chamar-se cornizo, digamos, por analogia com o termo espanhol cornejo, sendo então as bagas negras os cornizolos, mas não seria uma escolha popular portuguesa, para não falar da possível confusão com a cornalheira (Pistacia terebinthus). A palavra sanguinho, bizarro diminutivo para sangue criado para dar nome a uma cor (a da cornalina, um tom de vermelho claro que vemos nos ramos desta Cornus, e na folhagem antes de cair no Outono), parece ser especialmente estimada pelo nosso povo, que a usa amiúde. Em inglês chamam-lhe dogwood, em alusão a uma outra característica desta pequena árvore: a madeira do tronco é dura (como um osso), usada em cabos de ferramentas.

Esta é a única espécie de Cornus que ocorre espontaneamente na Península Ibérica. E, ao contrário de outras congéneres ornamentais de que já aqui falámos (C. florida, C. kousa, C. capitata...) com flores minúsculas esverdeadas agrupadas em inflorescências com brácteas vistosas, a C. sanguinea dá flores mais convencionais, com quatro pétalas brancas e estames salientes, reunidas em cimeiras achatadas. Os exemplares que conhecemos no nosso país (também a vimos, bem mais abundante, na Cantábria) moram em bosques ribeirinhos no concelho de Vinhais. Quase todos os actuais registos da espécie em Portugal são transmontanos, mas ela ainda vai aparecendo no baixo Mondego, em sebes que separam campos de cultivo.

22/06/2009

Dove tree




Davidia involucrata Baillon - jardins da Kenwood House

Davidia é um género de folha caduca e uma só espécie, D. involucrata, adoptado como filho único pela família Davidaceae; estudos recentes sugeriram contudo que está próximo do género Cornus, optando os taxinomistas por colocá-la na família Cornaceae. Há vários aspectos na fisionomia desta árvore que atraem a atenção; atenda neles, caro leitor, enquanto manuseia as fotos.

Tem folhas que lembram as das tílias: acuminadas, de uns 15cm x 12cm, simples, alternadas e face inferior pubescente (curiosamente, há também uma variedade de folha glabra e amarelada, D. involucrata var. vilmoriniana). Uma inspecção mais cuidada revela que as folhas têm pecíolos avermelhados, base cordiforme, margens serradas e uma ponta saliente. A venação é peculiar: para cada lado partem, do veio central, sete a oito veios laterais que - ora confirme - se bifurcam antes de atingirem as margens.

Mas há mais. No fim da Primavera nascem fiadas de flores suspensas dos ramos que parecem pombas alvas - ou outros seres de roupagem branca a que aludem as designações handkerchief tree e ghost tree. As flores masculinas não têm sépalas ou pétalas, são meras estruturas redondas (com cerca de 2cm de diâmetro), feitas de numerosos estames com anteras de cor púrpura, que rodeiam um flor feminina verde - no que se pode considerar uma perversão da sã ortodoxia do harém. O conjunto é envolvido (daí o epíteto específico involucrata) por duas enormes brácteas (folhas modificadas que se situam na base da flor e a cobrem) de tamanhos desiguais, tendo a maior cerca de 20cm de comprimento.

O formato das flores, com pouca protecção da componente feminina, sugere que este é um género de origem remota. Sobreviveu isolado nas florestas húmidas das regiões chinesas de Sichuan e Hubei, as que são também habitat do Ginkgo, da Metasequoia e dos pandas. O nome do género homenageia o naturalista e missionário francês Armand David (1826-1900).

29/04/2008

Não parece quem é



Cornus controversa - Kew Gardens

Talvez o epíteto controversa se deva à vincada diferença no tipo de floração entre esta pequena árvore asiática e as suas congéneres mais famosas, como a Cornus florida e a C. kousa. Nas duas últimas, as flores são minúsculas, agrupando-se em inflorescências rodeadas por quatro brácteas vistosas; na C. controversa, as flores são mais convencionais, com pétalas e estames perfeitamente visíveis, e dispõem-se em umbelas parecidas com as do folhado (Viburnum tinus), muito embora as duas plantas não tenham qualquer relação entre si. Ressalve-se, porém, que há outras espécies de Cornus, como a C. kas, com floração em umbela semelhante à da C. controversa. A divergência na floração reflecte-se na morfologia dos frutos: as espécies mais tradicionalistas, como a C. florida, a C. kousa e a C. capitata, dão frutos carnudos e avermelhados que lembram morangos, ao passo que a C. controversa se contenta em produzir pequenas bagas pretas.

As fotos foram tiradas há um ano, na última visita que fizemos aos Kew Gardens, em Londres.

14/04/2008

Kousa nunca vista


Cornus kousa

Conforme prometido na semana passada, aqui vão, na falta de fotos que a mostrem no seu rubro vestido outonal, as imagens possíveis desta outra Cornus no Parque Florestal de Amarante. Várias diferenças há entre a Cornus florida e a Cornus kousa. A que não salta à vista é serem originárias de continentes diversos: a primeira, como indica o epíteto específico, da costa leste dos EUA; a segunda da China e do Japão, sendo aliás kousa o seu nome japonês. As duas são de folhagem caduca, mas - como já vimos - a C. florida, mais pressurosa em exibir-se, faz brotar as flores antes das folhas. Em ambas as espécies as verdadeiras flores são verdes e discretas, formando pequenos bouquets rodeados por quatro brácteas semelhantes a pétalas; mas as brácteas da C. kousa são lanceoladas (foto em cima), ao passo que as da C. florida têm reentrâncias nas pontas, como se alguém as tivesse mordido (foto aqui). Finalmente, as folhas da C. kousa têm margens serradas e as da C. florida têm margens lisas. Tanto uma como outra espécie deram origem a numerosos cultivares ornamentais, quase todos eles inéditos em jardins portugueses. De facto, o Parque Florestal de Amarante é o único local do país onde alguma vez vimos exemplares de qualquer destas duas espécies de Cornus.

08/04/2008

É uma olaia? É uma cerejeira?

Nem uma coisa nem outra, é claro. As vivas manchas cor-de-rosa que enfeitam por estes dias o Parque Florestal de Amarante são de duas Cornus florida. Uma delas já tinha sido aqui festejada em anos anteriores; posteriormente, a mesma árvore forneceu o material pedagógico para explicarmos que nas Cornus, tal como nas buganvílias, o colorido vistoso é das brácteas e não exactamente das flores. Este ano notámos que a árvore não está sozinha: outro exemplar da mesma espécie (na foto) vive em lugar mais discreto, fora do circuito dos visitantes, num declive entre campos de cultivo. Tivemos que a ver de perto para tirar a teima sobre que árvore seria ela. Era a cara chapada de uma olaia, um bocadinho atrasada na floração, é certo - só que não era olaia, e com isso perdi uma aposta. Mas como olaias há muitas e as Cornus são raras, no fim de contas também ganhei.


Cornus florida

Embora as «flores» se mantenham na árvore por algum tempo, a cor viva vai-se gradualmente esbatendo à medida que a árvore faz brotar as folhas novas. Daqui a duas ou três semanas, o rosa terá desmaiado para branco, ainda mais atenuado pelo verde da folhagem. Também em Amarante, perto destas duas, vegeta uma pequena e bonita árvore da espécie C. kousa, a qual, por nunca fazer o espalhafato das suas congéneres, nunca aqui trouxemos: as suas flores, rodeadas por brácteas brancas, surgem ao mesmo tempo que as folhas. A terceira espécie de Cornus cultivada em Portugal, presente no Jardim Botânico do Porto e em alguns jardins privados, é a C. capitata, que é igualmente pouco dada a exibicionismos primaveris e se distingue das outras duas por ser de folhagem perene.

27/04/2007

Explicação da flor



Cornus florida - Parque Florestal de Amarante, Abril de 2007

A beleza em Portugal é uma raridade, e por isso voltamos sempre aos locais onde a encontramos. É a terceira vez que esta árvore em Amarante, que nem sequer logrou ter nome em português, aparece no nosso blogue: ora vista de longe como uma mancha rosa na paisagem; ora de perto para melhor lhe admirarmos a floração. Hoje vêmo-la de mais perto ainda, e aproveitamos a ocasião para lhe desvendarmos as flores. Essas grandes pétalas rosadas são na verdade brácteas - ou seja, folhas modificadas que se mascaram de pétalas. E a flor que vemos à esquerda não é propriamente uma flor, mas sim um arranjo floral: no seu centro, em vez de estames, o que há é um ramalhete de minúsculas flores.

Essas inflorescências que parecem flores são uma das características do género Cornus, se bem que nalgumas espécies as brácteas vistosas estejam ausentes. São cerca de seis dezenas as espécies de arbustos ou pequenas árvores, originárias da Ásia, Europa e América do Norte, que integram o género Cornus, muito cultivado em países onde a jardinagem é levada a sério mas quase inexistente nos jardins portugueses. Os frutos são bagas carnudas, em regra vermelhos, muito apreciados pelos pássaros. A Cornus florida é nativa da costa leste dos EUA, e atinge uma altura máxima de 10 metros. Na sua forma mais comum apresenta «flores» brancas, e não cor-de-rosa como as deste exemplar.

26/04/2007

Ulmeiro - Amarante



Ulmus glabra 'Pendula' no Parque Florestal de Amarante -fotos: Abril de 2005
A manchinha cor-de-rosa na fotografia da direita corresponde à copa de um Cornus florida aqui já retratado Este ulmeiro "chorão" fica à sua frente, à direita.

13/05/2005

Ciência descobre a arma do crime


Foto: mdlramos 0504 - Cornus florida - Parque de Amarante

«O criminoso nunca escondeu as suas intenções, e chegou mesmo a publicitá-las em poema com o paradoxal título Carta de Amor. Se teve o desplante de nomear o local do crime (Jardim de S. Lázaro) e a vítima (Eugénio de Andrade), e ainda de assinar por baixo (Jorge de Sousa Braga), quem julgava ele enganar com um título assim? Os três últimos versos do poema não podiam ser mais explícitos:

Um dia destes vou-te matar...
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração


Até hoje, mais de vinte anos decorridos sobre este chocante anúncio, o criminoso tem escapado à justiça. Apesar de as autoridades alegarem não haver a certeza de ele ter alguma vez tentado cometer o crime, uma ameaça pública de morte nunca deveria ficar impune. São situações como esta que descredibilizam o sistema (...) [1] e é por isso necessário, agora mais do que nunca, agir com determinação. E não me venham com a história de que a poesia não é para ser tomada à letra, ou de que afinal a arma usada seria inofensiva. Tudo conversa fiada. Para desgraça dos malfeitores, a ciência forense não pára de evoluir. Pois que dizer da descoberta de que a flor da Cornus canadensis dispara pólen à velocidade de 1584 km/h? [2] Mortífero, sem dúvida. Era por certo com esta arma à cintura que o meliante rondava pelas sombras do Jardim de S. Lázaro nas manhãs de Primavera. Se nunca disparou, muitas vezes o quis fazer. Talvez a arma simplesmente não funcionasse das 9h às 19h, durante o horário de abertura do jardim.

Mas agora não escapa. Até porque, como é do conhecimento geral, um poema nunca prescreve.»
NOTAS
[1] Omitimos aqui o choradinho da praxe sobre a crise do sistema judicial.
[2] Segundo a última página do Público de ontem, o pólen desloca-se 22 cm em meio mili-segundo, o que é equivalente ao valor que indicamos e não aos 3 m/s que o jornal põe em título.