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05/10/2007

Phygelius capensis



Esta noite
até os atacadores dos sapatos
floriram


Jorge de Sousa Braga, Balas de Pólen (2001)

09/12/2006

O vento

Por mais que tente, o vento
não consegue adormecer
se não tiver nada para ler.
Seja uma folha de tília,
de bambu ou buganvília.

É por isso que o vento
arrasta as folhas consigo,
até encontrar um abrigo,
onde possa adormecer.
- arrastou até a folha,
onde eu estava a escrever!


Jorge Sousa Braga, Herbário (2002)


Palácio de Cristal, Dezembro

12/08/2006

As chagas


Tropaeolum majus

O meu jardim está cheio de chagas.
Já só me resta um lírio e um antúrio.
O que me resta fazer? Talvez pincelá-las
com tintura de iodo ou com mercúrio.

Jorge Sousa Braga, Herbário (1999)

25/04/2006

Uma fotografia do 25 de Abril

Primeiro as árvores cobri-
ram-se de folhas depois

de pássaros e depois de
homens.

Jorge Sousa Braga, Porto de Abrigo (2005)


Cravina (Dianthus barbatus)

03/04/2006

Silêncio

«Tudo cresce no silêncio. Tudo cresce em silêncio. Desde o ácer até à vulgar tradescância. Mas quem melhor se adapta são, sem dúvida, os miosótis. Depois de alguns minutos em silêncio já não te consegues mexer, com receio de os pisares.»

Jorge de Sousa Braga, Balas de Pólen (2001)


Myosotis sylvatica - Abril de 2006

07/01/2006

O apanhador de cogumelos

O mais difícil não é distinguir
entre um boleto pão-de-ló e um

boleto-de-satanás o mais difícil
não é andar quilómetros e quiló-

metros por uma floresta e chegar
ao fim com os pés enxutos.

O mais difícil é não sucumbir
à beleza desse mundo que se

alimenta de detritos em putre-
facção e onde não há flores

nem frutos.

Jorge Sousa Braga, Porto de Abrigo (Assírio & Alvim, 2005)


Fotos: pva 2005

18/12/2005

Instituto de Medicina Legal

Uma carrinha funerária aguarda
junto ao portão. Lá dentro o

ajudante cose à pressa com
uma agulha grossa a parede

do abdómen. O condutor
olha extasiado - suspensas

dos muros do Instituto - as
flores da paixão.


Jorge Sousa Braga, Porto de Abrigo (Assírio & Alvim, 2005)


Foto: pva - flor-da-paixão (Passiflora caerulea) no IML, Porto

14/12/2005

Um livro e um lugar

Além das árvores, também nos sustentam as palavras de quem as vive. Os lugares fazem-se não só daquilo que os sentidos captam, mas também das memórias que neles se entretecem e se cristalizam em palavras. Memórias partilhadas ou pessoais, palavras públicas ou privadas, prosa ou verso, livro ou recorte de jornal: tudo isso reveste as árvores com uma persistência que nenhum Outono pode quebrar.

A Assírio & Alvim acaba de publicar Porto de Abrigo, colecção de poemas de Jorge Sousa Braga que vem enriquecer os jardins, as árvores e os muros da cidade com novas palavras que ficarão a pertencer-lhes para sempre. Como estas:

JARDIM DA CORDOARIA

Não sei se ainda há plátanos no Jardim
da Cordoaria nem se as couves traçadas

juncam ainda as margens do lago.
O que sei é que um plátano cresceu

dentro de mim e a comichão
que sinto são as raízes e as folhas

que se querem libertar.




Fotos: pva - plátanos da Cordoaria em Abril e Dezembro de 2005

(Não sei que é feito das couves, mas os plátanos ainda lá estão, rijos e para durar. Contudo, a perspectiva da mais famosa alameda do Porto foi estupidamente adulterada por quem teve a ideia de nela fixar, bem a meio, duas tabelas de basquete. É de bradar aos céus: não havia, no jardim ou nas proximidades, outro lugar para pôr semelhantes trambolhos?)

10/11/2005

As árvores e os livros

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

Jorge Sousa Braga, Herbário (2002)


Foto: pva - bétula no Largo D. João III, Porto, em Dezembro de 2004

22/10/2005

Estrelícias

Mantêm-se sempre em posição de voo
Talvez um dia as raízes
as não impeçam de voar

Jorge de Sousa Braga, Fogo sobre fogo (1998)


Foto: pva 0510 - Strelitzia reginae

12/07/2005

Rosa dos mares do sul



Fotos: pva 0507 - Hibiscus rosa-sinensis (1-3) e Hibiscus syriacus (4)

O HIBISCO
Cansado de servir de modelo
a uma legião de pintores,
transformou as anteras num pincel,
e na falta de guaches e de papel,
pincela com pólen amarelo
a cabeça dos beija-flores!

Jorge Sousa Braga, Herbário (Assírio & Alvim, 1999)

03/07/2005

As trepadeiras


Foto: pva 0506 - Passiflora "atropurpurea" - Quinta da Bonjóia, Porto

Trepem, trepem trepadeiras!
Trepem, trepem pelo ar!
Que de plantas rasteiras,
está a terra a abarrotar.

Trepem, trepem trepadeiras!
Trepem, trepem sem parar!
E se o muro se acabar,
trepem, trepem trepadeiras,
por um raio de luar.

Jorge Sousa Braga, Herbário (Assírio & Alvim, 1999)

13/06/2005

Extravasou do largo o jacarandá...

.

Jacarandá do Largo do Viriato numa manhã de Verão de há dois anos

Extravasou do largo o jacarandá
Com as suas flores miúdas
Ocupa agora toda a manhã.
(Jorge Sousa Braga, in Fogo sobre fogo)
.

13/05/2005

Ciência descobre a arma do crime


Foto: mdlramos 0504 - Cornus florida - Parque de Amarante

«O criminoso nunca escondeu as suas intenções, e chegou mesmo a publicitá-las em poema com o paradoxal título Carta de Amor. Se teve o desplante de nomear o local do crime (Jardim de S. Lázaro) e a vítima (Eugénio de Andrade), e ainda de assinar por baixo (Jorge de Sousa Braga), quem julgava ele enganar com um título assim? Os três últimos versos do poema não podiam ser mais explícitos:

Um dia destes vou-te matar...
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração


Até hoje, mais de vinte anos decorridos sobre este chocante anúncio, o criminoso tem escapado à justiça. Apesar de as autoridades alegarem não haver a certeza de ele ter alguma vez tentado cometer o crime, uma ameaça pública de morte nunca deveria ficar impune. São situações como esta que descredibilizam o sistema (...) [1] e é por isso necessário, agora mais do que nunca, agir com determinação. E não me venham com a história de que a poesia não é para ser tomada à letra, ou de que afinal a arma usada seria inofensiva. Tudo conversa fiada. Para desgraça dos malfeitores, a ciência forense não pára de evoluir. Pois que dizer da descoberta de que a flor da Cornus canadensis dispara pólen à velocidade de 1584 km/h? [2] Mortífero, sem dúvida. Era por certo com esta arma à cintura que o meliante rondava pelas sombras do Jardim de S. Lázaro nas manhãs de Primavera. Se nunca disparou, muitas vezes o quis fazer. Talvez a arma simplesmente não funcionasse das 9h às 19h, durante o horário de abertura do jardim.

Mas agora não escapa. Até porque, como é do conhecimento geral, um poema nunca prescreve.»
NOTAS
[1] Omitimos aqui o choradinho da praxe sobre a crise do sistema judicial.
[2] Segundo a última página do Público de ontem, o pólen desloca-se 22 cm em meio mili-segundo, o que é equivalente ao valor que indicamos e não aos 3 m/s que o jornal põe em título.

14/02/2005

Todos à Grande Manifestação



Fotos: pva 0502 - magnólias em flor no Largo Primeiro de Dezembro (Porto)

A magnólia

Nem sempre as folhas são
quem primeiro vê a luz.
Olhem esta magnólia,
que se cobriu de flores,
antes de se terem coberto
de folhas, os ramos nus...

Jorge Sousa Braga, Herbário (1999)

16/01/2005

Mimosas


Foto: pva 0501 - Acacia dealbata

Todos os anos na mesma altura
a montanha veste o mesmo vestido amarelo
para ver se ainda lhe serve na cintura.

Jorge Sousa Braga, Fogo sobre fogo (1998)

27/10/2004

Folhagens

Há árvores de folhas persistentes
e outras, cujas folhas são caducas.
Mas o que me faz confusão,
é que andem nuas no inverno
e vistam um sobretudo de folhas
no verão!

Jorge Sousa Braga, Herbário (1999)

08/08/2004

Raízes

Quem me dera ter raízes,
que me prendessem ao chão.
Que não me deixassem dar
um passo que fosse em vão.

Que me deixassem crescer
silencioso e erecto,
como um pinheiro de riga,
uma faia ou um abeto.

Quem me dera ter raízes,
raízes em vez de pés.
Como o lodão, o aloendro,
o ácer e o aloés.

Sentir a copa vergar,
quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado,
pelas raízes, ao chão.

Jorge Sousa Braga, Herbário (Assírio & Alvim, 1999)