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13/06/2008

Da Austrália, com paixão


Passiflora aurantia var. aurantia

Quem sabe se não terá sido por falta de material didáctico de qualidade que a evangelização dos povos indígenas australianos nunca foi longe. É que nenhuma das três ou quatro espécies de Passiflora que lá existem ilustra a paixão de Cristo com o rigor e a abundância de pormenores das suas congéneres sul-americanas. A flor da foto é bem capaz de ter tudo, mas, além dos dois apóstolos excluídos por mau comportamento, há outros cinco que ela não mostra, vá-se lá saber porquê: as pétalas interiores ficam ocultadas pelas exteriores, que se recusam a abrir mais o cálice. E também a coroa de espinhos, enterrada no aconchego da corola, se esconde da nossa vista.

Outras peculiaridades desta passiflora-dos-antípodas são a durabilidade das flores - três ou quatro dias, quando o normal é um dia só - e o facto de elas começarem por ser de um amarelo pálido, passando gradualmente a cor-de-laranja (= aurantia). Os frutos, esféricos ou elipsoidais, têm cerca de 5 cm e ganham uma tonalidade lilás ao amadurecerem; ainda que comestíveis, são, ao que dizem, pouco saborosos.

A P. aurantia é nativa do nordeste da Austrália, das ilhas Fiji, da Malásia e da Nova Guiné. Apesar da sua origem tropical e sub-tropical, suporta um clima mais frio desde que esteja a salvo das geadas. A planta da foto, cultivada nos Kew Gardens, vegetava feliz na pequena estufa não aquecida adjacente ao jardim do recolhimento (secluded garden).

14/12/2007

Paixão sem espinhos


Passiflora molissima

Os missionários seiscentistas na América Tropical ficaram tão maravilhados com a flor desta trepadeira que se viram compelidos a interpretá-la como uma mensagem divina: terá sido nela, argumentaram, que Jesus Cristo quis simbolizar o episódio culminante da sua passagem terrena; por isso não puderam senão chamar-lhe flor-da-Paixão (Passiflora em Latim). Nesta extraordinária flor, como escreveu a Maria, «os estaminóides associam-se à coroa de espinhos; os 5 estames às cinco chagas; os 3 estigmas claviformes aos três pregos; e as 10 pétalas aos apóstolos, com excepção dos traidores Judas e Pedro». As fotos que ilustram esse escrito (e estas outras aqui) correspondem melhor a tal descrição do que a Passiflora de hoje, em que a coroa de estaminóides se reduz a um estreito anel. Mas talvez por algum evangelho apócrifo ainda inédito se venha um dia a saber que, em vez de uma coroa de espinhos, Cristo crucificado tinha um simples pano atado em volta da cabeça.

Calcula-se que, não contando com os inúmeros híbridos ornamentais, existam cerca de 500 espécies de Passiflora, e pelo menos 60 delas produzam frutos comestíveis, desde o vulgar maracujá roxo (P. edulis) à granadilha (P. ligularis) que começa a ver-se nas nossas frutarias; mas são ainda poucas as espécies frutíferas consumidas fora do seu local de origem. A P. mollissima, conhecida como maracujá-banana em virtude da forma do fruto, amarelo quando maduro, é uma das espécies comestíveis mais populares: originária dos Andes, desde o norte do Chile à Venezuela, é mais rústica que outras passifloras e suporta muito bem os invernos em climas temperados. Foi incluída, com outras suas congéneres andinas, no subgénero Tacsonia do género Passiflora, caracterizado pelas flores tubulares pendentes, adaptadas à polinização por colibris.

O maracujá-banana faz parte de um clube de má fama: o das plantas invasoras globais, que se espalharam descontroladamente por várias regiões do mundo, subtraindo espaço vital às plantas nativas. Foi declarado como praga no Havai (onde é tido como culpado pela quase extinção de três espécies indígenas), na Nova Zelândia e na África do Sul; nestes três países há programas com vista à sua erradicação. Na floresta de laurissilva da Madeira ele é também um invasor sério, mas não nos consta que lá se tenha procurado combater a sua disseminação.

P.S. Como se lê no comentário aqui deixado por Graça Mateus, a última frase do texto carece (felizmente) de correcção.

29/07/2006

Desejo branco


Passiflora caerulea "Constance Elliot"

Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.

Uma coisa branca
De carne, de luz,

Talvez uma pedra,
Talvez uma testa,

Uma coisa branca.
Doce e profunda,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.


Dante Milano, Imagens (1948)

18/12/2005

Instituto de Medicina Legal

Uma carrinha funerária aguarda
junto ao portão. Lá dentro o

ajudante cose à pressa com
uma agulha grossa a parede

do abdómen. O condutor
olha extasiado - suspensas

dos muros do Instituto - as
flores da paixão.


Jorge Sousa Braga, Porto de Abrigo (Assírio & Alvim, 2005)


Foto: pva - flor-da-paixão (Passiflora caerulea) no IML, Porto

03/07/2005

As trepadeiras


Foto: pva 0506 - Passiflora "atropurpurea" - Quinta da Bonjóia, Porto

Trepem, trepem trepadeiras!
Trepem, trepem pelo ar!
Que de plantas rasteiras,
está a terra a abarrotar.

Trepem, trepem trepadeiras!
Trepem, trepem sem parar!
E se o muro se acabar,
trepem, trepem trepadeiras,
por um raio de luar.

Jorge Sousa Braga, Herbário (Assírio & Alvim, 1999)

25/03/2005

Flores da Páscoa


Tibouchina sp.

As amendoeiras, inspiração do doce típico desta quadra, estão ainda em flor. O que significa que as amêndoas consumidas nesta Páscoa são da safra de anos anteriores. Outras plantas, mais anónimas, cumprem o calendário e associam-se tradicionalmente aos rituais desta quadra.

A flor-da-Quaresma nasce numa árvore brasileira de pequeno a médio porte, da família Melastomataceae e género Tibouchina. A floração é abundante em Fevereiro-Março e as flores são roxas, a cor da penitência que veste a alma de quem revive o episódio culminante dos Evangelhos. As pétalas são sedosas e os estames compridos da mesma cor das pétalas, acentuando o tom violeta intenso. As folhas são cordiformes alongadas, tomentosas e com três veios longitudinais bem vincados na face superior. Há exemplares dignos de uma visita em Serralves e no Jardim Botânico do Porto.

A flor-da-Paixão é de uma trepadeira tropical da família Passifloreacea, conhecida como maracujá (embora só uma das espécies do género Passiflora dê o vulgar fruto comestível com este nome, a Passiflora edulis). As flores são muito vistosas e o nome alude à curiosa correspondência entre vários segmentos da flor e a paixão de Cristo: os estaminóides associam-se à coroa de espinhos; os 5 estames às cinco chagas; os 3 estigmas claviformes aos três pregos; e as 10 pétalas aos apóstolos, com excepção dos traidores Judas e Pedro. Uma espreitadela em alguns jardins da cidade (por exemplo na Quinta da Bonjóia) darão ampla oportunidade ao leitor de, a partir de Junho, conferir estes detalhes.


Passiflora spp. (fotos pva 2003-2005)