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27/09/2021

Floribunda mas nem tanto

Perto da entrada lateral dos jardins do Palácio de Cristal, escondida num bosquete de metrosíderos, camélias e rododendros, está uma árvore de origem australiana com folhas lustrosas, pendentes e rosadas no Outono. Tem cerca de 8 metros de altura (mas poderia atingir os 30) e a copa, de folhagem perene, é frondosa mas menos imponente do que poderia ser. Demorámos a reparar nela, e mais ainda a acertar com a data de floração para a fotografar. Não sabemos se pertence ao projecto inicial do jardim, de Emil David, caso em que já estaria plantada em 1865. O modelo de jardim então em voga na Europa servia vários propósitos, entre eles o de permitir o passeio sossegado por longas alamedas, ladeadas por renques de árvores da mesma espécie (frequentemente plátanos ou tílias), o apreço por açafates com muitas flores variadas (que certa arquitectura portuense entretanto desqualificou e tem paulatinamente eliminado de praças e jardins) e o coleccionismo de exemplares botânicos exóticos (que dominam nos jardins antigos que ainda sobrevivem no Porto). A árvore que vos mostramos hoje pode ter sido um desses pontos de interesse dos jardins do Palácio de Cristal.

Waterhousea floribunda (F. Muell.) B. Hyland


A fama entre jardineiros desta mirtácea vem-lhe da floração exuberante. Apesar de as flores serem minúsculas, são tantas, nascem em panículas tão densas e têm tantos estames (um formato que lembra as flores dos eucaliptos), que alguns exemplares no Verão (entre Dezembro e Março na Austrália, seis meses depois por cá) parecem brancos quando vistos de longe. Não lhe vimos ainda os frutos, mas são redondos e esverdeados, com uma semente grande, como os deste exemplar na ilha de São Miguel. O tronco é acinzentado, marcado por fissuras e ligeiramente rombudo na base, uma característica que denuncia a sua preferência por habitats húmidos e margens soalheiras de riachos. No jardim do Palácio de Cristal, porém, está longe do lago e nem consegue avistar o mar. Talvez por isso a sua floração seja modesta, como modesto tem sido o seu crescimento. Antes, e ainda mais agora, a selecção de árvores para ornamentar jardins terá sido mais guiada por caprichos do que pelo conhecimento.

24/07/2019

O tempo rasurado

Feto-do-Gerês (Woodwardia radicans) nos jardins do Palácio de Cristal, Porto (Foto: © Daniel Ferreira)

Um antiquário adquiriu por atacado o espólio de um falecido. Entre muita poeira e bricabraque, deparou-se com várias caixas de jóias e adereços femininos. Após rápido exame, atirou ao lixo um colar de ouro que, baço de sujidade, lhe pareceu de latão, e separou com amoroso cuidado, por se lhe afigurarem valiosos, uns brincos de plástico dourado com incrustações de vidro.

Negociante dessa estirpe não mereceria certamente o nome de antiquário. Desacreditado pelos seus pares e pelos seus potenciais clientes, rapidamente se veria obrigado a abandonar uma actividade para a qual não tinha a menor competência.

Os jardins do Palácio de Cristal, no Porto, estão entregues a "jardineiros" que de plantas sabem tanto como esse antiquário sabia de jóias. Move-os uma irreprimível vocação para guardar o pechisbeque e deitar fora o ouro.

A gruta de Camões, rústica estrutura de pedra e betão ao gosto oitocentista de imitação da natureza, dotada de um pequeno lago artificial para recreio dos patos, sombreada por grandes padreiros e castanheiros-da-Índia, está situada no patamar inferior dos jardins, a sul do recinto infantil. Desde há muitos anos (provavelmente desde meados do século passado) que sobre a gruta pendiam as ornamentais folhas do feto-do-Gerês (Woodwardia radicans), que, beneficiando da proximidade da água e da frescura proporcionada pelas árvores, se aclimatou perfeitamente ao lugar, lançando todos os anos abundância de folhas novas. Era um cenário artificial que evocava, de modo notável, as cascatas do Gerês ou dos Açores onde esse feto legalmente protegido em Portugal continental tem o seu habitat.

Nem a beleza do feto, nem a sua óbvia adequação ao local, nem o seu estatuto de espécie protegida: nada pôde salvá-lo da acção ignorante, cega e destruidora dos "jardineiros" do Palácio de Cristal. Na Primavera de 2018, talvez no âmbito de uma renovação de treta cujo ponto alto foi a instalação de uns pindéricos tapetes de relva para disfarçar os estragos causados pelas barracas de feira, todos os exemplares de feto-do-Gerês existentes no Palácio foram cortados e, para garantir que não voltavam, arrancados pela raiz.

A mesma mão bruta que destruiu o ouro deixa em paz o pechisbeque. Plantas invasoras como Acanthus mollis, Tradescantia fluminensis, Ailanthus altissima e Acacia melanoxylon proliferam alegremente em canteiros desmazelados. Nada se planta, nada se cultiva. A única "jardinagem" que ali se pratica, sempre com grande estardalhaço de máquinas, é o corte periódico da vegetação desordenada para que ela não ultrapasse a altura regulamentar.

É por isso moderado o nosso entusiasmo pelas obras de recuperação do Jardim Emílio David, agora em fase de conclusão. O projecto é, com toda a certeza, tecnicamente correcto e historicamente informado, respeitador do histórico jardim e das suas memórias. Mas, sem jardineiros que conheçam e estimem as plantas, que metam as mãos na terra, não haverá jardim digno desse nome, e o Jardim Emílio David recuperado pouco mais será do que uma instalação efémera.



Rhododendron maddenii Hook. f.


A herança de Emílio David não se resume ao desenho, agora escrupulosamente recuperado, dos jardins formais à entrada do Palácio de Cristal. A ele se devem também os dois bosquetes laterais compostos por árvores e arbustos das mais variadas proveniências; e, se parte desse arvoredo é de plantio posterior a 1865 (ano em que os jardins foram inaugurados), é verdade que camélias, rododendros, metrosíderos, ciprestes-de-Lawson e ginkgos denunciam pelo porte uma idade respeitável. Quem por certo lá mora desde o início é o rododendro de flores brancas e tronco avermelhado descascando-se em tiras que se esconde no bosquete do lado nascente. Rodeado que está por árvores de maior envergadura, e florindo apenas entre Maio e Junho, não espanta que este Rhododendron maddenii seja desconhecido até pelos frequentadores mais atentos do jardim.

À data da inauguração dos jardins do Palácio de Cristal, estava no auge entre a elite portuense o entusiasmo pela jardinagem e pelo coleccionismo botânico. O afamado horticultor José Marques Loureiro, estabelecido na Quinta das Virtudes, publicou o seu primeiro catálogo precisamente em 1865. A diversidade das plantas listadas para venda era simplesmente inimaginável: entre inúmeras outras plantas (árvores, arbustos, palmeiras, herbáceas, fetos...) que não cabe aqui nomear, contavam-se mais de 700 variedades de camélias, 75 de rododendros, cerca de 110 azáleas e umas 250 roseiras.

Na pág. 11 do catálogo, e entre sete "espécies novas" de Rhododendron originárias "do Assam e do Butão", aparece o R. jenkinsii, que hoje é tido como sinónimo de R. maddenii. É pois plausível que Marques Loureiro tenha fornecido o exemplar dos jardins do Palácio. Outros rododendros que ainda hoje se mantêm no recinto poderão ter passado pelas suas mãos, entre eles o vistoso Rhododendron arboreum (chamado Rhododendron windsorii no catálogo), que produz grandes cachos de flores cor-de-rosa no início da Primavera.


Polypodium cambricum num muro da Quinta da Macieirinha
A renovação do Jardim Emílio David provocou um dano colateral que pouca gente terá notado; ou, se notou, por certo não considerou importante. É que o solo debaixo dos bosquetes e junto ao gradeamento, onde crescia uma mistura rala de relva, musgos, flores miúdas e fetos, valia como testemunho da passagem dos anos. Ou, se quisermos puxar da erudição, era uma amostra, ainda que em escala diminuta, do trabalho minucioso do tempo, esse grande escultor. Viam-se lá plantas espontâneas que seriam comuns na região quando havia mais espaço para a natureza, mas que no centro da cidade faziam figura de raridades. Eram prova de que, se lhe dermos tempo (um tempo que se mede em décadas), o que é artificial acaba por ser contaminado pelo que é natural. Eis uma lista incompleta dos emissários da natureza que por lá se haviam instalado: morangueiros (Fragaria vesca), violetas silvestres (Viola riviniana), erva-toira-das-heras (Orobanche hederae), fetos variados (Polypodium cambricum, Athyrium filix-femina, Polystichum setiferum), verónicas (Veronica serpyllifolia), e diversos juncos e ciperáceas (Luzula forsteri, Carex divulsa, etc.). Esse solo velho e ricamente infectado pela natureza foi revolvido e obliterado por novas camadas de substrato com os nutrientes na proporção certa para acolher buxos, gilbardeiras e camélias. Nada temos contra esses recém-chegados, mas o tempo foi rasurado, talvez desnecessariamente, e já não estaremos cá para o ver recuperar as décadas perdidas.

25/03/2013

Mãe galinha


Asplenium X lucrosum Perrie & Brownsey [ = A. bulbiferum G. Forst. X A. dimorphum Kunze]



Junto à entrada dos jardins do Palácio de Cristal, no Porto, mora à sombra das camélias, julgamos que desde sempre, um grande feto muito decorativo, de frondes numerosas, escuras e rendilhadas. Resiste à chuva, ao frio, ao calor e aos maus tratos ocasionais; sobreviveu à instalação do sistema de rega que fez apodrecer as raízes das magnólias; e vai lançando, ano após ano, folhas sempre novas para substituir as que vão secando.

Desvendar a identidade de uma planta possivelmente tão antiga no seu canteiro como as mais velhas árvores do jardim tornou-se-nos imperativo. E o feto apresenta peculiaridades que deveriam facilitar a tarefa. As frondes sofrem de um claro dimorfismo: comparem-se as pínulas largas e achatadas na segunda foto com as pínulas quase lineares nas fotos seguintes. As pínulas largas são estéreis, enquanto que as estreitas são fertéis, com o verso preenchido por uma tira de esporângios (3.ª foto). Outro carácter distintivo é a presença de plantas-bebés produzidas por bolbilhos agarrados à página superior de algumas frondes (última foto): são novas plantas completas, prontas a enraízarem-se quando se soltarem da planta-mãe. Esse comportamento de cada folha funcionar como maternidade, afinal não tão raro no mundo das pteridófitas, acabou por ser decisivo na identificação do feto. Os anglo-saxónicos chamam-lhe mother fern ou hen and chicken fern. É popular em jardinagem e, sendo tão fácil de reproduzir (ele próprio, sem ajuda, se encarrega da tarefa), aparece com frequência no comércio hortícola. Com surpresa por causa do seu porte avantajado, embora a disposição linear dos esporângios esteja de acordo com o normal no género, aprendemos que se trata de um Asplenium: de seu nome completo A. bulbiferum, é originário da Nova Zelândia, Austrália e (segundo algumas fontes) de grande parte da Ásia.

Acontece que esta história, repetida em vários guias de identificação de plantas, está cheia de equívocos que só foram cabalmente esclarecidos em artigo publicado em 2005, na revista Plant Systematics and Evolution, por três botânicos neo-zelandeses: L. R. Perrie, L. D. Shepherd e P. J. Brownsey (veja também aqui). Concluíram os autores que a planta habitualmente cultivada em jardins e vendida um pouco por todo o mundo como Asplenium bulbiferum é na verdade um híbrido estéril, produzido talvez acidentalmente em Inglaterra durante o século XIX, que terá resultado do cruzamento do verdadeiro A. bulbiferum com o A. dimorphum. Estas duas espécies, apesar de geneticamente próximas, nunca teriam oportunidade de produzir um híbrido em condições naturais, pois a primeira é endémica da Nova Zelândia (não tem a ampla distribuição que alguns lhe atribuem) e a segunda da ilha australiana de Norfolk. Curiosamente, o híbrido que durante tanto tempo usurpou o nome de A. bulbiferum é mais cultivado do que o seu progenitor até na própria Nova Zelândia, onde chegou a ser usado em programas de regeneração de espaços naturais. Os estragos resultantes do erro não foram irreparáveis porque a esterilidade da planta, que só lhe permite reproduzir-se por bolbilhos, a manteve confinada a áreas relativamente pequenas. Morfologicamente, o híbrido é uma média perfeita dos seus dois pais, herdando de cada um deles uma característica crucial e distintiva: o dimorfismo foliar veio do A. dimorphum, e a produção de bolbilhos do A. bulbiferum.

O epíteto lucrosum com que os autores do artigo baptizaram o até então mal identificado feto presta jocosa homenagem às qualidades comerciais de uma planta cultivada em cinco continentes. Em Portugal, porém, a sua venda dificilmente seria negócio lucrativo, e por isso os bolbilhos das plantas do Palácio estão a salvo da nossa cobiça.

09/06/2011

Azul intermitente

Veronica serpyllifolia L.
No ano passado descobri esta verónica camuflada entre a relva do Parque das Virtudes, no Porto. Quando quis lá voltar na Primavera para a fotografar em melhores condições encontrei o portão fechado. O vigilante, com indisfarçável regozijo por fazer valer a sua pequena autoridade, não me deixou entrar. Explicou que o parque estava fechado porque tinha caído uma palmeira: de facto, a falta da Washingtonia filifera era tão notória como um sorriso com um dente a menos. A palmeira caída já havia sido retirada, e era estranho que a sua ausência fosse perigosa a ponto de obrigar ao encerramento do espaço, mas com vigilantes que cumprem ordens não adianta discutir. Além do mais, confiou-me ele cheio de misteriosa importância, o Parque estaria à espera de «projecto». Encolhi os ombros, pois já é hábito o Parque das Virtudes encerrar com razão ou sem ela durante meses ou anos. Quase ninguém lá vai, por isso o impedimento não é muito notado. Talvez entretanto já tenha reaberto, e deste «projecto», como de todos os outros «projectos» anteriores, só tenha sobrado uma vaga intenção sem data marcada.

Julgava pois que a verónica, morando do lado de lá dos portões trancados, me tinha fugido de vez. Mas não a haveria também noutros relvados mais acessíveis? Uma breve inspecção aos jardins das proximidades, desde o Palácio de Cristal à Praça da Galiza e aos palacetes do Campo Alegre, deu-me como resposta um enfático sim. A verónica-de-folhas-de-tomilho está firmemente estabelecida nos relvados dos jardins portuenses. Tem é uma vida intermitente, como todas plantas que colonizam relvados. De três em três semanas, lá vem a brigada dos cortadores de relva (seria descabido chamar-lhes jardineiros) apará-las à escovinha; nesse curto intervalo, as plantas têm que levantar o pescoço, florir e frutificar. Quem conseguir apanhá-las pouco antes de mais uma carecada, pode detectar as verónicas pelo contraste do verde da relva com as manchas azuis formadas pelas minúsculas flores (que têm cerca de 7 mm de diâmetro).

A Veronica serpyllifolia é uma planta vivaz, nativa de Portugal e de grande parte do hemisfério norte (Europa, Ásia e América). Além de frequentar relvados, também se encontra em certos ambientes naturais de montanha, como sejam bosques e margens de regatos.

03/01/2011

Memórias de um feto


Pteris vittata L.


FÉTOS, E LYCOPODIOS. Lindissima planta vivaz que a moda tem entroduzido para adorno das sallas, pela elegância e colorido de sua rica folhagem — a maior parte são entroduzidas dos paizes tropicaes, e carecem de resguardo nos nossos invernos. (in Catálogo n.º 1Estabelecimento de Horticultura de José Marques Loureiro, 1865)

Por que será que num jardim, lugar de eleição do exotismo vegetal, as plantas exóticas que se propagam sozinhas, ocupando recantos inesperados, nunca são bem vistas? Talvez seja efeito da moda, fraqueza a que a jardinagem pode ser tão susceptível como o pronto-a-vestir. Houve um tempo em que aquele arbusto, vendido em todos os hortos e viveiros, era uma peça de ostentação de que qualquer jardim se orgulharia. Agora, porém, há outras novidades holandesas que reclamam a sua vez nos canteiros, e ao velho e ultrapassado arbusto resta ser transformado em lenha. Nessas condições, é algo irritante que ele tenha criado descendência, proliferando caoticamente no jardim e fora dele. É como uma senhora ter envergado ao sair de casa um tailleur de corte impecável e descobrir-se de repente no meio da rua com o xaile da avó pelos ombros.

Há que reconhecer, no entanto, que episódios destes só são possíveis onde a jardinagem é levada mais a sério do que em Portugal. Por cá, e sobretudo na jardinagem pública, não há modas, mas apenas um alastrar do esquecimento. As plantas não são retiradas para darem lugar às últimas novidades: simplesmente desaparecem e são esquecidas. Nos canteiros renovam-se trimestralmente as plantas sazonais, sempre as mesmas ano após ano, e quanto a novidades estamos conversados.

O Pteris vittata, um feto que desponta ocasionalmente nos velhos muros dos jardins do Palácio e das ruas circundantes, é uma relíquia da época em que a jardinagem portuense era coisa séria. Foi um tempo que atingiu o seu auge com José Marques Loureiro (1830­-1898) e que teve o seu fim simbolicamente assinalado pela demolição do Palácio de Cristal em 1951. Um feto que não é espontâneo em Portugal (embora o seja nalguns países da Europa mediterrânica, incluindo o sul de Espanha), que não é vendido em nenhum garden center, que não é cultivado em nenhum jardim — um tal feto só pode ter surgido naqueles muros vindo de outra época. Uma época em que a curiosidade pelas plantas e o desejo de experimentar moldavam tanto a jardinagem pública como a privada.

E ele só se aguentou estes anos todos porque é prolífero e de esporulação precoce. Cada indivíduo tem três ou quatro meses de esperança de vida antes de os jardineiros o arrancarem do muro: nesse curto prazo, tem que garantir a perpetuação da espécie. O exemplar acima fotografado, por exemplo, já não existe. Se o tivessem deixado crescer, as suas frondes poderiam ter atingido um metro de comprimento; assim, ficaram-se pelos 20 ou 30 centímetros.

Os dois sinais particulares que permitem identificar facilmente o Pteris vittata estão bem patentes nas fotos: o folíolo terminal muito mais comprido do que os restantes, e os esporângios dispostos linearmente e protegidos pelas margens dobradas. Esta última característica é partilhada pelos demais fetos do género Pteris, de que há 250 espécies mas apenas três europeias.

18/10/2009

Palácio de Cristal no Programa Biosfera

No dia 14 de Outubro, o programa televisivo Biosfera (RTP 2) incluiu uma desenvolvida reportagem sobre o centro de congressos para 6000 pessoas que a Câmara do Porto, em parceria com a AEP e outras entidades, pretende instalar nos jardins do Palácio de Cristal. Além de contemplar a remodelação do Pavilhão Rosa Mota (objectivo que ninguém contesta), o projecto prevê a construção de vários edifícios anexos que vão invadir o lago (convertido em «espelho de água» e amputado para metade) e ocasionar o derrube de várias árvores adultas. Mais do que a perda das árvores (aliás em número muito maior do que aquele admitido pela Câmara e pelo arquitecto), os opositores ao projecto lamentam o abastardamento do mais emblemático jardim histórico da cidade do Porto.


Se não viu o programa, pode aproveitar para fazê-lo agora. Foram entrevistados Rui Rio (Presidente da Câmara do Porto), o arquitecto José Carlos Loureiro, dois membros do Movimento em Defesa dos Jardins do Palácio, e eu próprio.

10/09/2009

Referendo pelo Palácio de Cristal

As obras de extensão do Pavilhão Rosa Mota que a Câmara do Porto quer realizar ameaçam destruir o lago e ferir de morte a harmonia e integridade dos jardins do Palácio de Cristal. O Movimento em Defesa dos Jardins do Palácio, que se opõe a esse atentado ao património, está a reunir assinaturas para requerer que a realização da obra seja sujeita a referendo local. Saiba neste endereço como assinar o requerimento e como ajudar na recolha de assinaturas.

26/07/2009

Em defesa dos jardins do Palácio


Cedrus deodara (Roxb.) G. Don [três dos cedros-dos-Himalaias que estão ameaçados pelas obras]

O projecto de remodelação do Pavilhão Rosa Mota, que prevê a construção de edifícios anexos que destruiriam o lago e a esplanada do Palácio de Cristal e ocasionariam a perda de duas a três dezenas de árvores, levou à constituição de um movimento em defesa dos jardins do Palácio. Em sessão realizada ontem no local, esse movimento lançou um manifesto que foi hoje notícia no JN e no Público. O mesmo movimento criou um sítio na internet para anunciar as iniciativas que forem sendo tomadas para travar o desastre, e para acolher todas as notícias e informações pertinentes para o caso.

Se prefere um jardim com lago a um centro de congressos; se acha que um jardim se faz com árvores e não com betão; se entende que o executivo camarário não pode adulterar a seu bel-prazer aquilo que a todos pertence - então informe-se e faça também ouvir o seu protesto. É preciso que a Câmara do Porto perceba o nosso intenso repúdio por tão insensato projecto. Não é este o momento de estarmos calados.

15/07/2009

Da Califórnia para o charco


Pinus radiata D. Don; à direita dois Cedrus deodara (Roxb.) G. Don

Imaginem uma Carmen de Miranda com uma vida às avessas: de Hollywood para o Marco de Canavezes. Pois é essa, sem tirar nem pôr, a biografia deste pinheiro: originário das alegres plagas por onde surfaram os Beach Boys, rumou à cauda da Europa e aí se radicou numa ilhota artificial rodeada por um charco (José Carlos Loureiro dixit). Que o charco vá ser convertido em espelho talvez conforte o machucado amor-próprio de estrela-que-não-chegou-a-brilhar, apanhada que foi em contramão pela vida; mas esse tributo à vaidade envolve uma operação do mais alto risco. Só se sobreviver a ela é que o pinheiro poderá mirar-se em águas finalmente límpidas, desacompanhadas pelo quá quá irritante dos patos. A vida em troca do espelho: valerá a pena?

[Este Pinus radiata, ou pinheiro-de-Monterey, é uma das dezassete árvores ameaçadas pelos edifícios anexos que, a pretexto da conversão do Pavilhão Rosa Mota em centro de congressos, irão ocupar a esplanada e reduzir o lago a menos de metade. E, à cota da entrada principal do pavilhão, há outras treze árvores garantidamente para abater. São trinta as árvores em risco de se perderem com esta requalificação, apesar de o arquitecto ter asseverado que nenhuma iria abaixo. Sobre este assunto a associação Campo Aberto emitiu um comunicado que pode ser lido aqui.]


Pinus radiata: tronco, ramagens e folhas

Embora os pinheiros sejam das árvores mais fáceis de reconhecer, a tarefa de distinguir as diferentes espécies pode ser problemática. Não precisamos de grande erudição botânica para identificar o pinheiro-bravo (Pinus pinaster) e o pinheiro-manso (P. pinea), muito abundantes no nosso país, mas a coisa complica-se quando deparamos com algum pinheiro que escapa ao figurino habitual. É que existem mais de cem espécies de Pinus; mas, felizmente para quem procura identificá-las, só cerca de dez são cultivadas por cá.

As folhas do pinheiro, compridas e finas, popularmente chamadas agulhas, são a chave mais segura para a identificação: organizando-se em molhos de duas a cinco, variam em comprimento, espessura e grau de flexibilidade. Tanto no pinheiro-manso como no pinheiro-bravo, por exemplo, as agulhas vêm aos pares e atingem os 20 cm de comprimento, mas as do segundo são mais espessas e rígidas. No caso do pinheiro-de-Monterey, as agulhas estão dispostas em trios, são finas e flexíveis, e não ultrapassam os 15 cm (as que pudemos medir andavam pelos 12); além disso, aglomeram-se na ponta dos galhos em conjuntos que fazem lembrar piaçabas (foto acima). Também característico deste pinheiro é o ritidoma profundamente sulcado, de um tom entre o cinzento e o castanho.

O Pinus radiata é originário de uma pequena faixa costeira na Califórnia. Apesar de as populações naturais da espécie estarem ameaçadas, é um pinheiro muito cultivado em regiões temperadas para produção de madeira e de resina. Na Nova Zelândia e na Austrália, por exemplo, ele forma extensíssimas monoculturas, e mesmo em Portugal surge nalgumas plantações florestais do norte e centro. De crescimento rápido, aos quarenta anos atingiu já a plena maturidade. O seu valor ornamental é sobejamente comprovado pelo exemplar cinquentenário no Palácio de Cristal, um dos raros que conhecemos em jardins portugueses.

09/07/2009

Tudo corre pelo melhor no melhor dos mundos possíveis

[Este texto, aqui em versão retocada, apareceu há dois dias no blogue A Baixa do Porto, em resposta a dois textos lá surgidos que defendiam, com argumentos sui generis, as obras de remodelação da Escola Secundária Filipa de Vilhena (e o abate de árvores por elas provocado) e a prevista requalificação do Pavilhão Rosa Mota (e a consequente destruição do lago e da esplanada dos jardins do Palácio de Cristal).]

Quem se bate por utopias pode ser perigoso; mas os anti-utopistas, ou discípulos de Pangloss (cuja filosofia se encontra resumida no título), são deprimentes. Os leitores da Baixa do Porto foram há pouco brindados com dois textos impregnados dessa filosofia ultra-optimista: o de Manuela Monteiro e o de José Paulo Andrade. E que nos dizem esses textos? Que certas obras realizadas no Porto foram excelentes, por duas razões óbvias: as obras foram de facto feitas, e por isso a sua existência é boa e indiscutível (tudo quanto foi feito e existe é bom e indiscutível); e o nosso mundo, com o estilo de vida que tanto prezamos, seria inimaginável sem elas. Donde se deduz que os que se opuseram a tais obras não passavam de velhos do Restelo (ou, pior ainda, de velhos da horta) incapazes de acertar o passo com as mudanças do mundo.

Cândido aprendeu à própria custa que a filosofia do seu mestre Pangloss tinha sérias limitações. Não desejo que estes novos discípulos do mestre passem por infortúnios semelhantes, mas gostava de contrapor, a esse entusiasmo obreirista, um outro modo de ver as coisas. E, de passagem, aproveito para corrigir o excesso de ligeireza de algumas afirmações nesses textos.

Manuela Monteiro dá três exemplos de coisas boas que felizmente não foram travadas pela ortodoxia paralisante. Abstenho-me de discutir o caso do Museu Gulbenkian, por desconhecer os pormenores da história, mas os outros dois casos são de bradar aos céus (um deles, o da horta de Serralves, destruída para se construir o Museu de Arte Contemporânea, também foi referido por José Paulo Andrade). A Manuela Monteiro acha mesmo que o Jardim do Marquês ficou muito melhor depois de construída a estação de metro no subsolo? Olhe que a minha opinião (e a de muitas outras pessoas) é bastante diferente, como pode conferir aqui. Mas a sua opinião é tão taxativa, e tão radicalmente oposta à minha, que me parece perda de tempo discutirmos o assunto.


Jardim de aromáticas - Serralves - Agosto de 2006 (em fundo um pinheiro-manso)

A propósito da horta de Serralves, José Paulo Andrade cita um parágrafo de quem na altura se opôs à construção do museu:

«Quando um museu de arte moderna destrói a horta de Serralves, destruindo assim a unidade de uma das últimas quintas de recreio do Porto (fazendo perder sentido ao todo que lá existia) o edifício pode ser a oitava maravilha do mundo e criar um espaço magnífico, admita-se em tese que seja melhor até que o relevo cultural de uma das últimas quintas de recreio do Porto, mas será sempre sobre um acto de destruição patrimonial que se terá erguido o novo património.»

José Paulo Andrade conclui, triunfante, que o museu é hoje uma realidade indiscutível, e que já ninguém chora a perda da horta. Mas o que me parece igualmente indiscutível é que a destruição do património para o qual o parágrafo alertava se concretizou, e que a unidade patrimonial da Quinta de Serralves foi destruída. Hoje a horta não existe, nem existe nada de semelhante (o jardim de aromáticas, apresentado na altura como uma compensação pela perda da horta, é de facto outra coisa, e em todo o caso está praticamente ao abandono). Claro, dirá José Paulo Andrade, mas existe o museu, que é coisa muito melhor do que a horta e muito mais visitada.

Estes casos parecem reduzir-se ao mesmo princípio: se queremos progresso (mais cultura, melhor mobilidade, escolas com melhores condições), temos de sacrificar outros valores menores (como sejam a horta, o jardim, as árvores). Acontece que esses valores menores só são assim considerados porque os poderes que nos governam, e a própria mentalidade nacional, não os valorizam devidamente. Os dilemas apresentados (ou museu ou horta; ou jardim ou metro; ou árvores ou escolas) só o são porque as alternativas nunca chegam a ser seriamente estudadas. E não são estudadas porque no outro prato da balança estão coisas que, no entender do senso comum, valem pouco mais que um chavo.

Um exemplo de âmbito mais geral para ilustrar isso mesmo. Lendo os jornais, folheando revistas, ouvindo opiniões e entrevistas dos agentes culturais, depressa ficamos a saber que o ministro da Cultura é um desastre, como aliás já tinha sido a sua antecessora. Que eu saiba, porém, nem este ministro nem a sua antecessora têm tido como objectivo central da sua política a destruição sistemática dos museus e de todo o património cultural do país. Aquele ministro que de facto é um coveiro do património que lhe cabe gerir é o actual ministro do Ambiente, certamente o pior ministro (juntando todos os ministérios de todos os governos) de que há memória desde o fim do PREC. No entanto, tal ministro não é um escândalo público e os jornais não se enchem de artigos de opinião a denunciá-lo. Porquê? Porque a conservação da natureza não é importante, ao passo que a cultura já é.

Admito que as pessoas até gostem de jardins, parques e árvores. Têm é dificuldade em conceber que tais coisas tenham um valor próprio que possa sobrepor-se a outros valores. As árvores e os jardins, entendem elas, podem ser a cereja em cima do bolo, e tanto melhor se o bolo for um edifício desenhado por Siza Vieira ou uma estação de metro por Souto Moura. O que faz falta é entender que as árvores, a horta e os jardins podem constituir, por si só, o bolo e a cereja.


Esplanada do Palácio de Cristal - Julho de 2009 (castanheiro-da-Índia à esquerda e liquidâmbar à direita)

Adenda. José Paulo Andrade escreve que o Palácio é um «pequeno jardim local, actualmente não muito utilizado». Isso não é verdade: os jardins do Palácio são os mais frequentados da cidade (muito mais do que os de Serralves, onde à semana pouca gente vai). Além dos muitos turistas e utentes habituais, quase diariamente há visitas de escolas. Muita gente vai para a esplanada, muitos outros participam em sessões de ioga, muitos pais levam as crianças ao parque infantil, e é comum os lugares de estudo na biblioteca estarem todos ocupados. Não é para servir melhor estes muitos utilizadores do jardim que a Câmara quer destruir o lago e acabar com a esplanada.

[Se o leitor quiser manter-se a par desta discussão, é à Baixa do Porto que se deve dirigir. Recomendo ainda a leitura deste comentário de José Rui Fernandes ao texto de Manuela Monteiro.]

02/07/2009

Palácio de Cristal - lago

Palácio de Cristal -  lago  - 2004/01

Porto Palácio de Cristal lago 0401 Porto Palácio de Cristal lago 0401

Palácio de Cristal -  lago  - 2000/11
Fotos antigas (Inverno 2004 e Outono 2000)
Carregar nas fotos para ver outras do mesmo espaço.

Notas:
1- Intervenção no Palácio de Cristal: Campo Aberto quer explicações da CMP
2- Recebido por mail: marcação de encontro no café Ceuta, amanhã dia 3, pelas 18.30 para se trocarem impressões sobre as projectadas obras de "requalificação" desta zona dos jardins do Palácio.
3- Petição on-line

23/06/2009

Os cedros da Biblioteca Almeida Garrett

Não tenho postado por aqui (falta de tempo e de disposição) mas os últimos dois posts do Paulo deram-me vontade de mostrar também, visto de cima, um projecto de arquitectura que respeitou o jardim do Palácio de Cristal. O oposto da intervenção agora anunciada que destruirá o tradicional lago, um "charco" nas palavras do projectista- e obrigará ao abate de muitas árvores (deduzimos nós até prova do contrário).

Jardim das Cidades Geminadas



Deslocarmo-nos de um lugar para outro, nestes dias em que o Verão anuncia de modo desnecessariamente enfático a sua chegada, é um exercício minucioso de cálculo de sombras. Interessa-nos minimizar D, a distância total percorrida, mas maximizando o quociente S/D, onde S é a parte do percurso não sujeita à incidência directa da inclemente luz solar. O que há mesmo a fazer é encontrarmos uma sombra que nos agrade - ou seja, de origem vegetal - e deixarmo-nos lá ficar quietinhos enquanto a situação não evoluir para melhor. No pior dos possíveis cenários, assim que se der o pôr-do-Sol (fenómeno celeste que nestes dias tem ocorrido com notório atraso) a razão S/D atingirá o valor óptimo de 1, e isto independentemente do trajecto escolhido para o regresso a casa.

É nos jardins do Palácio de Cristal que nos acolhem as melhores sombras do Porto, cruzadas pelo chilreio dos pássaros e pelo perfume das tílias e magnólias em flor. E agora, entre a Avenida das Tílias e a Biblioteca Almeida Garrett, novo motivo há para preitearmos a sombra enquanto homenageamos aqueles que, viajando, trouxeram novos mundos ao mundo nos tempos heróicos em que os pacotes da Agência Abreu não incluíam hotéis com ar condicionado. Aos sedentários, como nós, cabe arregalar o olho quando o regressado viajante dispõe à nossa frente as maravilhas que coligiu nas suas circum-navegações. E é uma admiração genuína a nossa, mesclada com gratidão puríssima, em que não entra nanograma de inveja. Quem diria que existiam tão exóticos povos e costumes tão de espantar em tão remotos lugares? E tu, com este calor, foste capaz de lá ir? Uau!

Verdadeiros embaixadores culturais, foram estes viajantes intrépidos a tecer os chamados laços de amizade entre os povos, que se exprimem modernamente pela geminação de cidades e pelos jantares e recepções que os respectivos autarcas se oferecem mutuamente. A geminação é uma espécie de Jardim dos Sentimentos à moda do festival de Ponte de Lima, com fitas garridas transportando amizade recíproca entre diversos pontos do mapa-múndi como antes os fios do telégrafo transmitiam mensagens em código morse. E como não ficarmos agradecidos à Câmara do Porto quando a amizade inter-urbes se materializa em mais árvores e mais sombras?



O Jardim das Cidades Geminadas foi inaugurado no princípio deste mês. Cada cidade geminada com o Porto ofereceu uma árvore ou arbusto que de algum modo a simboliza. Temos assim, em poucos metros quadrados, uma lição de geografia e de botânica que tomámos a previdência de anotar antes que as placas comecem a sumir-se, como é hábito delas. Assim, Vigo ofereceu uma oliveira; Léon, um carvalho-negral (Q. pyrenaica); Duruelo de la Sierra (também em Espanha), um azevinho; Roterdão já tinha dado em 2001 três carvalhos e uma faia; Bordéus deu um medronheiro; Liège, uma pereira; Bristol, uma tramazeira (Sorbus bristoliensis); Brno (República Checa), uma tília-de-folhas-pequenas (T. cordata); Xangai, uma magnólia (M. grandiflora); e Nagasáki fez-se representar por um diospireiro descendente de uma árvore que sobreviveu à bomba atómica. Um painel de azulejos azuis e brancos onde se entrelaçam ramagens floridas assinala do modo mais feliz o novo jardim: é obra de Jesper Andersen, artista dinamarquês que há dias inaugurou, no n.º 36 da rua da Picaria, no Porto, uma exposição de azulejos seus.

Antes o charco que tal espelho

Quem estraga a alegria, esse bem tão escasso, merece denúncia pública vigorosa. Desde que a gestão do Palácio de Cristal foi retirada à Porto Lazer e entregue ao Pelouro do Ambiente da Câmara, as melhorias têm sido evidentes. Não se repetiram as podas desastrosas na Avenida das Tílias, muitos novos arbustos e árvores têm sido plantados (magnólias, extremosas, tílias, camélias, criptomérias, freixos, cedros), e é visível que os novos responsáveis têm ideias sobre jardinagem que vão além da substituição das flores sazonais e do corte periódico da relva. Ainda não é Ponte de Lima, mas estamos no bom caminho. O recém-estreado Jardim das Cidades Geminadas é a melhor prova da criatividade e empenho desta nova gestão dos jardins dos Palácio.

E não é justamente agora, no início de tão promissora nova vida do recinto, que um projecto impensável, sob a capa da inevitável requalificação, ameaça ferir de morte os jardins do Palácio? Em 1951, o arquitecto José Carlos Loureiro foi o projectista da bolha que veio substituir o genuíno Palácio de Cristal, datado de 1865. Inaugurado em 1956, o Pavilhão dos Desportos (mais tarde chamado Pavilhão Rosa Mota) consumou um atentado ao património de que a cidade nunca se recompôs. É certo que o Porto se habituou ao edifício, e hoje já o tolera; mas seria abusivo dizer que gosta dele. O jardim teve meio século para recuperar da afronta, e as árvores que entretanto cresceram em torno do lago (também refeito por essa altura) formam uma cortina que quase enobrece o edifício que deixam entrever.

Preocupada com o escasso uso que o Pavilhão Rosa Mota tem tido, a Câmara do Porto resolveu chamar novamente José Carlos Loureiro para remodelar o edifício. As obras previstas, orçamentadas em 18,5 milhões de euros, são financiadas pelo Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) e deverão decorrer de 2010 a 2011. Se se tratasse unicamente de modernizar o pavilhão, adaptando-o a novos usos, nada haveria a obstar ao projecto; mas a vaidade de um arquitecto, quando deixada à solta, tem consequências terríveis. A pretexto de se modernizar o antigo, acrescenta-se-lhe um edifício novinho em folha que vai destruir o lago («não passa de um charco», segundo o arquitecto, e será substituído por limpidíssmo e geométrico «espelho de água») e ocasionar uma razia insana no arvoredo.


O novo edifício estender-se-á do Pavilhão Rosa Mota até às traseiras da capela de Carlos Alberto (imagem do Público, 18/VI/2009)

O edifício terrorista justifica-se pela necessidade de auditórios para congressos, que - espera a Câmara - vão acorrer de todo o mundo ao Porto e ao Palácio logo que o renovado complexo esteja pronto. E o vasto auditório da Biblioteca Almeida Garrett, a cinquenta metros de distância, quase sempre desocupado, não serve para nada? Quem vai a um jardim como este quer encontrar árvores, pássaros, vida; prefere infinitamente ver patos a nadar num lago sombreado por vegetação a um estéril «espelho de água» sufocado por edifícios.

Durante a apresentação do projecto, feita a 17 de Junho em cerimónia no Pavilhão Rosa Mota, foram muitas as juras de amor e carinho pelo jardim, misturadas com incoerências várias que os jornalistas reproduziram com a ingenuidade habitual. Que «a intervenção será realizada com um respeito muito grande pela área envolvente, nomeadamente pelo jardim do Palácio de Cristal, com particular cuidado com as árvores classificadas e de grande interesse pelo porte ou espécie». Leio isto e fico tão tranquilo como se me dissessem que, tendo o canil camarário capturado um bando de gatos vadios num quintal, se comprometia a tratá-los com o maior carinho, nomeadamente não abatendo animais protegidos ou de grande porte. Ficava ciente de que não seria abatido nem um só lince da Malcata ou tigre da Malásia; mas ficava também a saber que, dos felinos capturados, nenhum sairia dali vivo. (Não há árvores classificadas nos jardins do Palácio; nenhuma das árvores em risco é rara ou tem porte especialmente notável, pois todas datam da época em que a bolha foi construída ou são mesmo posteriores.) Para compor o ramalhete de declarações absurdas, a notícia no JN termina com: «certo é que [nas palavras do arquitecto] "o novo equipamento não vai deitar abaixo nenhuma árvore"». Quer isto dizer que o edifício vai ser flutuante, pairando acima da copa das árvores, sustentado talvez por balões de hélio ou hidrogénio? E, se nenhuma árvore vai abaixo, para quê ressalvar as (inexistentes) árvores classificadas, raras ou de grande porte?

José Carlos Loureiro arrisca-se a ficar na história do Porto como o homem que destruiu o Palácio de Cristal duas vezes: a primeira, há mais de meio século, por encomenda; a segunda, hoje, por simples vaidade. Vaidade que os poderes públicos incitam, permitindo aos arquitectos adulterar a seu gosto, em prejuízo de quem nela vive, a cidade que deveria ser de todos.

22/02/2008

Balm-leaved figwort


Scrophularia scorodonia

Desde há cerca de um mês os jardins do Palácio de Cristal deixaram de ser (mal)tratados pela Porto Lazer, estando agora no regaço do Pelouro do Ambiente da Câmara do Porto. Descontentes com esta mudança ficaram a hera e a tradescância que revestiam gulosamente torrões e troncos. A respirar melhor estão magnólias, azereiros, caneleiras, aucubas, rododendros, áceres. Agradecido, o chão deste jardim estendeu um tapete vermelho, feito de centenas de camélias, a estes jardineiros zelosos, desejando, como nós, que a jardinagem incompetente seja assunto do passado.

Neste cenário airoso, certamente a horta passará a receber tratamento regular para que a variedade de herbáceas que a preenchem não seja comprometida pelo descuido. E para que possamos, como na nossa última visita, ser agradavelmente surpreendidos. O que encontrámos? Uma erva alta, com caule avermelhado de secção quadrada (por isso desconfiámos tratar-se de uma Scrophularia), folhas emparelhadas e semelhantes às da erva-cidreira (Melissa officinalis), com espigas de flores de corola globosa amarelada e cinco lóbulos, dois deles de cor púrpura lembrando orelhitas espevitadas.

A Scrophularia scorodonia é espontânea no oeste europeu, até ao sul de Inglaterra, apreciando solos húmidos. Tem tradicionalmente usos medicinais, e outros mais misteriosos que justificam a designação popular erva-do-mau-olhado, a que decerto não é indiferente, tal como ao epíteto scorodonia, a semelhança dos frutos com cabeças-de-alho.

29/11/2007

Cedros monumentais- Palácio de Cristal



Cedros-do-Líbano (Cedrus libani ) ao pé da Biblioteca Municipal de Almeida Garrett (fotografados em Novembro de 2003 e Janeiro de 2004).
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«No Jardim do Palácio de Cristal da Cidade do Porto há dois exemplares com 4, 75 m. e 2, 02 m. de P.A.P.» (P.A.P. =perímetro à altura do peito -a cerca de 1,30 m. do solo) » Ernesto Goes na sua lista de cedros de grande porte in Árvores Monumentais de Portugal (1984)

21/04/2007

Marmelo, marmeleiro, marmelada



Cydonia oblonga - Palácio de Cristal, Porto

Se tudo correr bem, as flores destas árvores vão transformar-se em frutos - e é só para combater o desperdício que a seu tempo iremos apanhar marmelos a este recanto tão pouco visitado dos jardins do Palácio. A natureza é generosa mesmo com os sem terra da cidade.

O marmeleiro, originário do Médio Oriente mas há muitos séculos aclimatado na Península Ibérica, mantém com a nossa língua uma relação ambígua. Deu origem a uma palavra portuguesa que veio a ser adoptada por outras línguas, mas depois desinteressou-se dela; ou, mais exactamente, a árvore não quis mais conversa com as versões para exportação da palavra. A nossa marmelada (necessariamente de marmelo) deu marmalade em inglês (que é a compota de laranja amarga) e marmelade em francês (nome de qualquer compota com a consistência do puré, mas não da genuína marmelada - pois ao mais parecido com ela que por lá têm chamam os franceses cotignac d'Orléans). Prova acabada de que os estrangeiros não têm jeitinho nenhum para línguas.

23/03/2007

Jardins do Palácio de Cristal: um lamentável caso de má gestão

- comunicado da Campo Aberto à imprensa



A recente e violenta poda realizada na avenida das tílias do Palácio de Cristal, repetindo a asneira cometida há cerca de dois anos, deixou as árvores num estado tal que não pode deixar de chocar os frequentadores e visitantes do mais emblemático jardim portuense. A gestão do espaço tem sido assegurada por uma empresa municipal (a Porto Lazer) sem vocação nem competência para essa nobre tarefa. É urgente que a Câmara Municipal do Porto transfira essa gestão para os serviços do Pelouro do Ambiente – pois é inadmissível que as boas práticas que se observam nos restantes locais públicos da cidade não transponham os portões do Palácio.

Os jardins do Palácio de Cristal são dos locais mais frequentados da cidade e mais visitados por turistas. Um terreno acidentado, disposto em vários patamares, permitiu a criação, num espaço relativamente reduzido, de vários ambientes diferenciados: os jardins formais e geométricos logo à entrada do recinto, as alamedas de plátanos e tílias, o bosquete de camélias nas traseiras da biblioteca Almeida Garrett, o arboreto e a esplanada em redor do lago, os vários miradouros que deixam espreitar o curso do rio Douro desde Miragaia até à Foz.

Além do seu valor turístico, social e ambiental, os jardins do Palácio são importantes pelo seu valor histórico. Criados na década de 1860 por iniciativa de Alfredo Allen, com desenho do paisagista alemão Emílio David, são dos espaços ajardinados mais antigos do Porto: só o Jardim de S. Lázaro é mais antigo, sendo o Jardim da Cordoaria, também de Emílio David, alguns anos mais novo. Mas, enquanto S. Lázaro mantém o seu carácter original, o jardim de Emílio David na Cordoaria foi completamente obliterado pela Porto 2001. O Palácio de Cristal, de onde já desapareceu o edifício que lhe deu o nome, é pois o último espaço público do Porto a conservar alguma da herança dessa figura tão influente na arte dos jardins em Portugal.

Um património tão valioso como este, e um espaço tão marcante para a imagem do Porto (tanto aquela que a cidade tem de si própria como a que oferece aos visitantes), deveria merecer, por parte da Câmara Municipal, os mais desvelados esforços de manutenção e embelezamento. Infelizmente, por razões burocráticas que hoje mal se entendem, os jardins do Palácio de Cristal não estão na dependência nem do Pelouro do Ambiente, nem dos serviços municipais a ele subordinados que têm a missão de cuidar deste tipo de espaços. Tanto o Departamento Municipal de Espaços Verdes e Higiene Pública como a Divisão Municipal de Parques e Jardins não têm qualquer palavra a dizer sobre os jardins do Palácio: quem lá manda é a empresa municipal Porto Lazer, que os herdou do extinto Gabinete de Desporto. Tudo isto seria de somenos importância se os jardins e o seu património vegetal andassem bem tratados; como não andam, a comparação com outros espaços públicos da cidade leva-nos à conclusão inevitável: a Câmara do Porto abdica de usar as competências que tem (em jardinagem, no tratamento de árvores ornamentais, etc.) no mais emblemático jardim à sua guarda. O que se tem passado no Palácio de Cristal é uma combinação nefasta de incompetência e negligência.



O caso mais flagrante de incompetência é o estado em que ficou a avenida das tílias depois de uma série de podas insensatas, a primeira e mais radical feita há cerca de dois anos e a segunda há duas semanas. No extremo sul da avenida, junto à capela de Carlos Alberto, o que temos não são árvores, mas sim tocos: restos mutilados de árvores, sem utilidade e sem beleza. Não é plausível a justificação de que as árvores estariam doentes, pois a motosserra tanto atacou árvores jovens como adultas, e as feridas que ficaram expostas nos troncos mostram bem como elas estavam saudáveis. Terá sido por receio de as árvores caírem? É que, nos últimos anos, várias tílias têm lá caído empurradas pelo vento. Mas, por ironia, também tombaram árvores que tinham sido podadas preventivamente, o que mostra que tal remédio não é seguro. E se o preço para manter as árvores de pé é reduzi-las a tocos disformes, então mais vale desistirem das tílias e plantarem árvores mais resistentes às intempéries. Não tem sentido manter uma alameda de tílias – árvores ornamentais por excelência, admiradas pela harmonia e simetria das suas copas – neste estado miserável.

Em todo o caso, é importante que a Porto Lazer, E.M. responda às seguintes perguntas:

  1. Foi feito algum estudo fitossanitário que justificasse intervenções tão drásticas como as que foram feitas nas tílias da avenida?
  2. As podas foram acompanhadas por algum técnico de arboricultura credenciado?
  3. A empresa que as executou tem pessoal devidamente habilitado para estas intervenções?
Nas intervenções que os serviços da Câmara têm vindo a fazer em espaços públicos (árvores de arruamento, jardins, etc.), a resposta a perguntas análogas é afirmativa; é que, felizmente, já não é comum ver na cidade (fora do Palácio) árvores tão mal podadas como estas tílias. Que não são, no Palácio, as únicas vítimas deste tipo de tratamento: no final de 2004, os jovens choupos na encosta que desce para Massarelos sofreram um podão que apenas lhes deixou os troncos.

Outros casos mais ou menos recentes são indicativos de negligência. Em 2003, foi instalado um sistema automático de rega no jardim formal à entrada; na abertura dos regos usou-­se uma escavadora e não houve a precaução de não se cortarem raízes; em resultado disso – e talvez também do excesso de água – várias árvores e arbustos vieram posteriormente a perder­-se.

Os vários jardins temáticos estão ao abandono. O Jardim dos Sentimentos, construído num socalco voltado para a rua da Restauração e inaugurado em Janeiro de 2001, embora parta de uma ideia interessante (divulgar alguma da simbologia associada às plantas) e faça uso de um espaço antes desaproveitado, tem por base um mau projecto. Todo o jardim assenta numa placa de cimento; e, entre tanques de água estagnada e caminhos em zigue-zague, sobram uns canteiros estreitos, de pequeníssima profundidade. As plantas que têm morrido – e têm sido quase todas – não são substituídas, e as etiquetas também já desapareceram: o efeito geral é desolador. Melhor sorte poderia ter tido o Jardim dos Cheiros, pois aí as condições não são tão adversas para as plantas; mas o abandono a que foi votado transformou-o num matagal onde há mais vegetação daninha do que plantas aromáticas. Finalmente, há o caso caricato do Jardim de Roterdão: inaugurado em 2001, ano em que essa cidade holandesa partilhou com o Porto o título de Capital Europeia da Cultura, foi concebido como um jardim para flores sazonais, mas está hoje convertido num triste relvado.

A gestão dos jardins do Palácio de Cristal não tem estado à altura da importância patrimonial, histórica e social desse lugar único da cidade do Porto. E é à Câmara Municipal do Porto, através do seu Pelouro do Ambiente, que cabe resolver o problema.

Porto, 23 de Março de 2007

P.S. Veja fotos da poda de 2005 no blogue A Cidade Surpreendente