8.1.05

Rainha de Sabá



Fotos: pva 0411/0412 - Porto - camélias no Jardim do Palácio de Cristal

«Há dias que gosto do vale, de estâncias mais amáveis. Outros dias em que o minuto mais grato é o da despedida para a serra. Em certas épocas a cidade é deliciosa e soberanamente feiticeira; o Porto por exemplo. Quando se toma aquele eléctrico 20, que sobe a Rua de Santo António para a Constituição e parece em seu rodeio ir dar volta ao mundo, tão vagaroso, como se fosse com medo de se meter pelas casas dentro ou esborrachar os paralelipípedos da calçada, oferece-nos no rosicler de Março as mais sedutoras iluminuras. Cada moradia, nesse circuito sem fim, tem o seu quintalinho, e cada quintalinho suas plantas floridas ou enfolhadas e seus relvados. Raro aquele que não ostente a sua japoneira, a qual é como uma rainha de Sabá postada a cada canto a dar as boas-vindas ao forasteiro e a encher-lhe a alma de jucundidade. O Porto é a cidade das camélias por excelência e elas realizam ali o milagre de tornar suportáveis e até amenos dias soturnos como os domingos a instilar ora chuva, ora sol, ora bruma, intencionalmente inglesados, dir-se-ia.»

Aquilino Ribeiro, Geografia Sentimental (1951)

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