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04/04/2010

Camélia pascal



Domingo de Páscoa, manhã alta, perpassava ao cabo da rua braçada rúbida de camélias. Uma, a mais vermelha, ia o juíz da igreja entalá-la na cruz de prata de guizeiras entre a aspa e o braço do justiçado. E, assim guarnecida, o senhor padre dava a beijar às famílias ajoelhadas Cristo e a Primavera.

Aquilino Ribeiro, Aldeia: Terras, gente e bichos (2010, Bertrand Editora)

12/10/2005

«O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso

...penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista !
Precipitado tão de alto do pinheiro solitário, balouçou-se um instante e ensaiou um voo oblíquo. A meio caminho volteou, rodopiou, viu as nuvens ao largo, a terra em baixo e, saracoteando a fralda, desceu em espiral. Poisou em cima duma fraga, ligeiro como um tira-olhos. Mas novo pé-de-vento atirou com ele para a banda, quase de escantilhão, e a aleta, tomando-se de imprevisto fôlego, arrebatou-o para mais longe. Foi cair numa mancheia de terra, removida de fresco pelos roçadores do mato, e ali permaneceu à espera que pancada de água ou calcanhar de homem o mergulhasse no solo, dado que um pombo bravo o não avistasse e engolisse. (...)


Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta. Acudiram os pássaros, os insectos, os roedores de toda a ordem a povoá-la. No seu solo abrigado e gordo nasceram as ervas, cuja semente bóia nos céus ou espera à tez dos pousios a vez de germinar. De permeio desabrocharam cardos, que são a flor da amargura, e a abrótea, a diabelha, o esfondílio, flores humildes, por isso mesmo troféus de vitória. Vieram os lobos, os javalis, os zagais com os gados, a infinita criação rusticana. Faltava o senhor, meio fidalgo, meio patriarca, à moda do tempo. Ora, certa manhã de Outono...»
Aquilino Ribeiro, A casa grande de Romarigães: crónica romanceada (1957). Lisboa : Bertrand, cop. 1985

24/01/2005

Enquanto há vida


Fotos: pva 0501 - Praça da República (Porto)

Das tílias diz Aquilino, na sua Geografia Sentimental, que chegam a parecer-lhe «mais tafuis do que esposas de marajás»; e acrescenta que, «se há planta que tenha o senso da simetria e das belas ordenanças, numa palavra, ponha garridice no seu amanho, é esta».

Face ao estado destas tílias na Praça da República, ocorreria perguntar quem foi o sádico e indigno marajá que ordenou tal serviço. Pergunta retórica, obviamente, e no caso um pouco injusta. A terra revolvida das caldeiras indica que as tílias foram para lá há bem pouco tempo; e é de supor que tenham sido transplantadas da rua D. Manuel II, de onde, como então noticiámos, foram expulsas pelas obras do enguiçado túnel rodoviário.

Embora lhes tenha sido irremediavelmente roubada a beleza que irradiavam quando primeiro as conhecemos, a sua vida não acabou ainda.

08/01/2005

Rainha de Sabá



Fotos: pva 0411/0412 - Porto - camélias no Jardim do Palácio de Cristal

«Há dias que gosto do vale, de estâncias mais amáveis. Outros dias em que o minuto mais grato é o da despedida para a serra. Em certas épocas a cidade é deliciosa e soberanamente feiticeira; o Porto por exemplo. Quando se toma aquele eléctrico 20, que sobe a Rua de Santo António para a Constituição e parece em seu rodeio ir dar volta ao mundo, tão vagaroso, como se fosse com medo de se meter pelas casas dentro ou esborrachar os paralelipípedos da calçada, oferece-nos no rosicler de Março as mais sedutoras iluminuras. Cada moradia, nesse circuito sem fim, tem o seu quintalinho, e cada quintalinho suas plantas floridas ou enfolhadas e seus relvados. Raro aquele que não ostente a sua japoneira, a qual é como uma rainha de Sabá postada a cada canto a dar as boas-vindas ao forasteiro e a encher-lhe a alma de jucundidade. O Porto é a cidade das camélias por excelência e elas realizam ali o milagre de tornar suportáveis e até amenos dias soturnos como os domingos a instilar ora chuva, ora sol, ora bruma, intencionalmente inglesados, dir-se-ia.»

Aquilino Ribeiro, Geografia Sentimental (1951)

24/10/2004

"Por uma tarde fosca de Outubro..."

«(...) Também ali perto, por uma tarde fosca de Outubro, chegou um gaio, voejando de chaparro em chaparro, a grasnar mal-humorado como é próprio da raça. No saiote desbotado, as duas pinceladas de azul, azul retinto, fulguravam para que se soubesse que um gaio também é gente dos ares. Trazia no bico uma bolota, um pouco menor que o bolo que o corvo costumava levar à cova de Daniel, mas para ele mais importante. Dispunha-se a comer a merenda bem amargada, quando deu com os olhos no mariolado vizinho com quem bulhara uma Primavera inteira por causa da gaia, depois sua mulher. Já esse tal, rancoroso e mau, dava jeitos de querer investir, penas riças, garras desembainhadas, a asa possuída de frenesim. Que remédio senão preparar-se para o receber condignamente!
E deixou cair a glande. Esta foi bater na face zenital dum velho toro, saltou de ricochete para o lado, e aninhou-se muito aninhada num monte de folhas secas e argalhos. Ninguém a via, nem ela via a mais pequena nesga do mundo.
Os dois gaios, depois de trocarem muitos gritos de cólera e darem a sua bicada, mas sem que corresse sangue, despediram. O mais rela e pundonoroso pulou ao chão a procurar a sua rica bolota. Procurou, tornou a procurar pincharolando dum lado para o outro e introduzindo por toda a parte, taladas e covilhas, o olho finório e matuto, mas nada descobriu. Soltou duas ou três vezes a sua voz ralhada a conjurar os deuses daquele desaforo, perdeu a paciência. E saraivando, batendo a asa, ainda meio atrida da rixa, lá foi para outro carvalhal onde havia que pilhar.
A bolota taluda ficara ali muito quieta, muito bem refastelada em virtude do próprio peso, enterrada que nem pelouro de batalha depois de passarem carros e carretas. Que fazer senão deitar-se a dormir?! Dormiu uma hora ou uma vida inteira, quem o sabe?! Um laparoto veio lá de cascos de rolha, rapou a terra, fez um toural, aliviou-se, e ela ficou por baixo, sufocada sem poder respirar, em plena escuridão. Estava no fim do fim?
Um belisco, e do seu flanco saiu como uma flecha. Era de luz ou de vida? Era uma fonte ou antes um cântico de ave, de água corrente, de vagem a estalar com o sol, dum insecto na sua primeira manhã, música trilada da terra ou das esferas? Era tudo isto, encarnado no fogo incomburente que lhe lavrava no flanco, verbo que acabou por irradiar do próprio mistério do seu ser.(...)
Ora, certa manhã de Outono... »


Aquilino Ribeiro -A casa grande de Romarigães: crónica romanceada (1957). Lisboa : Bertrand, cop. 1985
Anterior: O nascer do Sol

24/07/2004

O nascer do sol

«A casa em que nasci, Marianinha,
está voltada a Su-sueste
e tem à frente um cipreste
de atalaia à seara e vinha.   
(...)  
Manhã cedo, rompe a cantata,
nas árvores de fruto e pela mata.
- Sol, Sol !- trauteiam os pardais,
tordas, melros e verdiais.
- Sol, Sol!- pede o tuinho na balsa
e o auricu que apagou o candil na salsa.
 
E o Sol ergue-se por detrás dos montes,
e lá vem, sem olhar a vias nem pontes,
triunfal, contente como um ás,
com sua capa de arcebispo primaz.
 
Quem não ouve decerto sente
que vem salvando: --- Olá, boa gente,
pássaros a voar e no ninho
fonte, e tu a ladrar, cãozinho,
para que abram e nos deixem entrar.
 
Olá, meu amigo carvalho,
à minha espera no festo da colina,
e, no almarge, o carneiro do chocalho,
o cabrito, a cabrinha e até o chibo,
ronda-vos o lobo, mas sopro a neblina,
e vai mais longe buscar o cibo.
Salve, amigos, haja fartura e alegria!
 
Rompe logo um coro em tom maior:
---Viva lá o magnífico senhor
Bem haja quem nos traz tão bom dia!-
soltam pintassilgo, pisco, cotovia,
no seu voo alto corvo e açor,
na horta chasco, pisco e tralhão,
pelos restolhais o perdigão,
no pinhal rola e cavalinho,
e associa-se o mágico do cuquinho, 
cu-cu, cu-cu, cu-cu, cu-cu.
 
O mundo fica doirado como um pagode,
despem árvores e arbustos
os véus de noite mal justos,
e não soam mais de frios queixais.
  (...)»

Aquilino Ribeiro in O livro de Marianinha (1967)
Bertrand Editora, Lisboa, 1993 (2ª edição)