1.12.04

Os jardins abandonados


Foto: pva 0411 - Praça da República - Melia azedarach

Prédios herméticos como fortalezas, portões que se abrem por telecomando, carros com janelas cautelosamente fechadas, ginásios onde se cuida do físico pedalando sem sair do lugar, descompressão semanal nos shoppings entre neons e muzak: aqui está, a traço grosso, o modo de vida estatisticamente provável do nosso cidadão médio urbanizado. É claro que a estatística é redutora e caricatural, e o homem médio não existe propriamente: para o construir teríamos, como o Dr. Frankenstein, que coser retalhos desirmanados de muitos indivíduos; mas o que assusta é a abundância de material humano de que disporia entre nós o malévolo cientista para dar vida ao perfeito espécime do cidadão enclausurado.

Se um tal cidadão médio não existe, existe pelo menos uma percepção média, cumulativa, que emerge desse modo de vida e acaba por valer como senso comum. Por exemplo, a transformação recente, quase sempre para pior, de alguns jardins públicos no Porto foi justificada, em artigos de jornais e declarações de arquitectos, pelo estado de degradação de tais espaços: é que, tirando reformados e marginais, quase ninguém os frequentava. Certamente não passaria pela cabeça a quem subscrevia tais opiniões aventurar-se nesses antros sem que uma prévia requalificação os desinfectasse. Vieram e passaram as requalificações, esmoreceu a novidade, e o nosso cidadão enclausurado continua a não pôr os pés nos jardins da cidade. Se calhar o problema não estava na suposta degradação dos jardins: ao tratar-se a doença, confundiu-se o sintoma com a causa; e talvez a doença não tenha cura.

A foto em cima foi tirada no jardim da Praça da República e mostra uma Melia azedarach, pequena árvore asiática conhecida em Portugal como amargoseira ou conteira e no Brasil como cinamomo, e que, depois de perder as folhas, ainda fica coberta com pequenas bagas amarelas. Neste jardim há ainda numerosos Prunus cerasifera, algumas palmeiras-das-Canárias adultas e, ao longo do passeio circundante, um alinhamento de tílias muito desfalcado por sucessivas quedas e abates.

Não é um jardim frondoso nem aconchegante: faltam-lhe meandros, sombras, árvores de grande porte - porém, numa cidade onde eles são escassos, sempre é um jardim, e portanto infinitamente preferível às eiras de granito agora em voga. Mas é um jardim desqualificado pelo senso comum e pelo preconceito, que espreitam ao longe, medrosamente, por detrás da vidraça; é um jardim abandonado por quem parece recear que o céu lhe caia sobre a cabeça.

P.S. Veja aqui uma curiosa estátua da Praça da República.

4 comentários :

LFV disse...

Conheço bem este jardim. Nunca foi feliz, sempre foi remetido à condição de enjeitado, abandonado a ventos e temporais. Alguma frondosidade que tinha, morava-lhe à volta e foi sendo abatida pelo homem e pelo temporal. As mudanças, creio, têm-se aqui limitado ao nome, sendo que tinha outro encanto o eléctrico descer da Lapa e o revisor anunciar "Campo". Como os homens também os jardins não nascem todos iguais. Mas podiam dar-lhes mais e melhor atenção.

António Viriato disse...

O texto acima traça um quadro muito amargo da realidade dos espaços urbanos actuais, mas o trágico é que seja, não uma visão pessimista do seu autor, mas a tradução da aparente normalidade do nosso desencantado viver quotidiano. E dificilmente ele melhorará, se os cidadãos continuarem a não valorizar estes bens, tão encandeados andam, de roda das montras dos Centros Comerciais, pejados de artigos de consumo, importados e supérfluos, na sua maioria, e os outros, fora do alcance das suas depauperadas bolsas.
Como inverter a situação ? Talvez começando por relembrar o significado do dia feriado que hoje gozamos.

Anónimo disse...

Apesar de este não ser, como escreve P. A. , um jardim frondoso nem aconchegante, tenho por ele uma inexplicável simpatia protectora - desde logo porque é o espaço verde mais perto da zona onde moro. A minha filha e o meu cãozinho gostam bastante de lá dar uns passeios de vez em quando. :)
DK

Robson Freire disse...

Olá.
No Brasil, o "Cinamomo" (Melia azedarach - Meliaceae) também é conhecido como "Santa Bárbara", principalmente no interior do Estado de S. Paulo.
Já presenciei algumas espécies de pássaros frugívoros procurando os frutos da árvore para alimentação.
Na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (da USP em Piracicaba), existe um magnífico exemplar do Cinanomo situado no pátio interno (um jardim de inverno) do prédio da Engenharia.
Por ter crescido sob proteção, a árvore conta com porte admirável e formato impecável, estando hoje com, seguramente, mais de 16 metros de altura.