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28/03/2021

Explicação da flor

Confinados na cidade, temos escrutinado os recantos dos jardins à porta de casa com um desvelo que poderá ser considerado imoderado mas tem efeito terapêutico. Por sorte, em alguns destes espaços finalmente reabertos resistem árvores antigas ainda saudáveis e de porte elegante. Depois dos meses de frio, estão quase todas com a copa ampla a reformosear-se, espreguiçando ramos longos e tortuosos, recheados de folhas viçosas e pequeninas da cor da alface. E os carvalhos estão em flor. Foi ao olharmos com vagar os amentilhos amarelados (espigas de flores masculinas) a pender das axilas das folhas de exemplares de Q. robur que nos apercebemos, não sem um certo embaraço, que afinal nunca tínhamos reparado nos detalhes das flores femininas dos carvalhos. Como desculpa, apenas o facto de elas serem minúsculas (menos de 2 milímetros de diâmetro), de nascerem ao mesmo tempo que as folhas novas, e de surgirem no ápice de uma haste fininha que se perde de vista entre a folhagem e os bugalhos.

Quercus robur L.


O Q. robur, espécie monóica e de folhagem caduca, aprecia o nosso clima atlântico e dá-se especialmente bem em locais frescos com humidade (como o Minho) e solos ricos em substratos ácidos (frequentes no noroeste de Portugal). Se por perto houver gaios, que dizem ser os melhores dispersores das bolotas, então não será surpresa que por ali nasça um bosque frondoso, com uma biodiversidade invejável. Estas são árvores de vida longa, que podem aguardar 40 ou 50 anos antes da primeira floração. Em cada flor feminina, notam-se (mais ou menos) bem os 3 estigmas e o invólucro escamoso e imbricado de cor avermelhada que, conjecturamos (e, tão logo seja possível, confirmaremos), formará o chapéu da bolota.



O autor do género Quercus é Joseph P. Tournefort, mas a nomenclatura é legalmente atribuída a Lineu uma vez que foi ele quem estabeleceu o uso de dois nomes (género e espécie) para se identificarem e distinguirem as plantas. O epíteto específico, robur, quer dizer robusto, de boa consistência, aludindo à qualidade invulgar da madeira destes carvalhos. Se o leitor quiser distinguir o Q. robur das outras espécies de Quercus (o que conseguirá sem esforço pela morfologia das folhas), encontra aqui fotos nítidas de (quase) todos os carvalhos que ocorrem por cá.

27/12/2016

Posfácio

Escrevi este texto, por convite, em Janeiro de 2015, para servir de posfácio a uma edição ilustrada do conto O homem que plantava árvores, de Jean Giono. Dois anos depois, é inevitável concluir que a edição encalhou de vez. Mesmo que alguma vez saia do prelo, não é certo que inclua o texto tal como está. Acho que ele merece ser lido, e aproveito a ocasião para o ilustrar a meu gosto. Mais do que um comentário ao conto de Jean Giono, trata-se de uma celebração dos carvalhos e dos carvalhais.

Plantar árvores: porquê, onde e quais?

Elzéard Bouffier, o protagonista do conto de Jean Giono, fez com que uma região árida se transfigurasse ao plantar centenas de milhares de árvores. A água regressou aos ribeiros e às fontes, os vales voltaram a ser férteis e a recompensar os cultivadores, voltaram as flores e os pássaros, aldeias outrora em ruínas foram reocupadas por uma nova e esperançosa geração. Se as árvores puderam fazer tudo isso; se sabemos, além do mais, como elas tornam respirável o ar que nos envolve, e como é agradável a sua sombra nos dias de estio — então plantar árvores, e quantas mais melhor, é indiscutivelmente uma boa ideia.
Contudo, uma boa ideia mal executada pode ser contraproducente. Nem todos os lugares são indicados para o plantio, nem todas as épocas do ano são ideais para essa tarefa, nem todas as árvores são igualmente desejáveis, nem toda a gente domina as competências úteis para uma operação bem sucedida. E, em muitas ocasiões, é mais acertado e valioso plantar árvores na cidade (seja para arborizar uma rua, um jardim ou um parque) do que em espaços naturais.
Portugal é um país bastamente arborizado, sobretudo no norte e centro do seu território. Só na extensa planície alentejana, onde os esparsos povoamentos de sobreiros e azinheiras se estendem sem fim à vista, é que nos domina a impressão de serem escassas as árvores para uma província tão vasta. E mesmo aí o cenário muda ao sermos confrontados com olivais intensivos em que as árvores se concentram aos milhares por hectare. No resto do país, vemos desfilar eucaliptais, pinhais e acaciais em formação cerrada ao longo de auto-estradas, vias rápidas e estradas nacionais. Todas essas árvores cumprem tarefas ambientais da maior importância, a começar pelo tão falado «sequestro do carbono». Só que, além da vertente global em que se joga a habitabilidade futura do planeta, as nossas preocupações com o ambiente devem atender a aspectos locais, em que a palavra-chave é «biodiversidade». Numa plantação de eucaliptos (ou de pinheiros, ou de choupos-negros) o ar pode ser puro e revigorante, as águas do ribeiro podem ainda correr frescas e cristalinas. De facto, se forem esses os únicos parâmetros de comparação usados, talvez o eucaliptal não seja assim tão inferior ao carvalhal. Mas um carvalhal maduro tem muita coisa além dos carvalhos: tem prímulas, anémonas, lírios, hipericões, morangueiros, gerânios, gilbardeiras, madressilvas, selos-de-Salomão, violetas, narcisos e jacintos; tem variadíssimos fetos, musgos, fungos e líquenes; tem medronheiros, azevinhos, padreiros, loureiros e azereiros; tem os vermes e insectos que se alimentam da profusão vegetal, e os pássaros e reptéis que fazem pasto dos insectos; tem esquilos, javalis e corços. Em contraste com a vida exuberante de uma genuína floresta, uma plantação florestal é um deserto verde.
Assim, se a nossa motivação for dar uma mãozinha à natureza, é preferível plantarmos carvalhos e outras árvores autóctones, mais capazes de interagir com a vida à nossa volta do que as árvores originárias de outros países ou continentes. Devemo-nos lembrar, porém, de que as árvores já existiam no planeta antes de surgir a espécie humana, e que elas sabem reproduzir-se sem a nossa ajuda. Em espaços onde a natureza foi preservada ou tem condições para se regenerar, é talvez preferível acarinhar aquele rebento de carvalho que nasceu espontaneamente em vez de insistirmos em plantar o nosso. Nesses lugares, a exemplo do que fez Elzéard Bouffier, é quase sempre melhor semear do que plantar, tendo o cuidado de fazer uso, sempre que possível, de sementes fornecidas pelas árvores que já lá existam.
E será que, se dispusermos (luxo improvável nos dias de hoje) de um terreno amplo, e formos capazes de igual paciência e sabedoria, podemos ao fim de muitos anos criar uma floresta tal como fez Elzéard Bouffier? As centenas de anos que leva um carvalhal maduro a estabelecer-se dificilmente podem condensar-se nas poucas décadas em que decorre uma vida humana. Mas talvez consigamos uma biodiversidade razoável se não sujeitarmos o nosso projecto de floresta à mesma limpeza cega e obsessiva com que nos jardins urbanos se aparam os relvados.
Se, em muitos lugares, a melhor ajuda que podemos dar à natureza é não a perturbar, abdicando com humildade de deixar a nossa marca, já na cidade o caso é outro, pois a maioria das árvores que lá existem tiveram mesmo que ser plantadas. E aí plantá-las é uma questão de saúde pública, tanto física como mental. Já não se trata de imitar a natureza, mas de dela tomar de empréstimo algo que amenize o artificialismo do meio urbano. Seleccionar a árvore adequada para cada local (em rua estreita ou jardim acanhado não cabem carvalhos nem plátanos); plantá-la na altura certa (quando caem as primeiras chuvas do Outono); não esquecer que, depois de plantada, a árvore vai precisar das nossas atenções durante dois ou três anos para não morrer à míngua de água: eis algumas das preocupações a ter em conta. E, se certas árvores exóticas (como a tília, o plátano, o ginkgo, o tulipeiro e as diversas magnólias) são excelentes para as cidades, tanto pela sua resistência à poluição como pelas suas virtudes ornamentais, não seria mau dar às nossas árvores autóctones, que têm sido tão ignoradas, algum protagonismo na arborização urbana. Além dos carvalhos, sobreiros, azinheiras, lódãos e padreiros (os dois últimos já plantados com alguma assiduidade em jardins e arruamentos), poder-se-iam usar loureiros, azevinhos, azereiros, bétulas, zelhas, cerejeiras, freixos, sanguinhos e pilriteiros: entre árvores de folha caduca ou de folha perene, de grande, médio ou pequeno porte, umas que resistem melhor ao frio e outras ao calor, são muitas as possibilidades de escolha.
Não sendo esta a ocasião para descrever todas essas árvores, não queremos deixar de falar do carvalho, esse construtor de florestas. Na verdade são várias as árvores designadas por esse nome, já que em geral o termo «carvalho» pode aplicar-se a todas as espécies arbóreas ou arbustivas do género Quercus, das quais se contam pelo menos oito em Portugal. O que todos os Quercus grandes ou pequenos têm em comum são as sementes em forma de bolota. Contudo, é mais corrente reservar-se o nome «carvalho» para as árvores de folhagem caduca ou marcescente, já que as espécies perenifólias como o Quercus suber (sobreiro), o Quercus rotundifolia (azinheira) e o Quercus coccifera (carrasco) são amplamente conhecidas por outros nomes. Usando essa terminologia mais estrita, são quatro as espécies arbóreas a que em Portugal chamamos carvalho. Um deles, o Quercus canariensis, só existe por cá na serra algarvia de Monchique, e daí o ser conhecido como carvalho-de-Monchique. Muito semelhante no porte e na folhagem é o Quercus faginea (carvalho-cerquinho ou carvalho-português), que é o carvalho mais comum no Algarve e no litoral centro, reaparecendo depois na Terra Quente transmontana. É especialmente frequente no Maciço Calcário Estremenho, onde é a principal árvore nos bosques naturais mais bem conservados. Árvore de médio porte, não ultrapassando os 20 metros de altura, de copa larga, as suas folhas são aproximadamente elípticas, com margens dentadas. Os dois restantes carvalhos portugueses têm folhas profundamente recortadas (ou lobadas), mais de acordo com a imagem tradicional que temos dessas árvores. O Quercus robur (carvalho-alvarinho ou carvalho-roble), capaz de exceder os 30 metros de altura e de viver várias centenas de anos, é tido em grande parte da Europa como o carvalho por excelência, tanto pelas históricas florestas em que era (e é) a árvore dominante como pela madeira que fornece, uma das mais estimadas em marcenaria. Era nestas árvores que o druida da aldeia de Astérix se empoleirava para colher o visco, ingrediente indispensável para a confecção da poção mágica; e foram estes os carvalhos com que Elzéard Bouffier criou de raiz a sua floresta. Em Portugal, o carvalho-alvarinho, que se distribui sobretudo pelo quadrante noroeste do país (Minho, Douro Litoral e Beira Litoral), pode ser apreciado como árvore isolada (vários são os exemplares multicentenários classificados como «árvores de interesse público») mas também formando bosques mais ou menos extensos. Os nossos melhores carvalhais encontram-se no Minho, e no Gerês é justamente famosa a Mata da Albergaria, que alberga uma biodiversidade ímpar. Se avançarmos para o interior do país, ultrapassando a linha do Gerês, Marão, Montemuro e Estrela, o carvalho-alvarinho vai sendo gradualmente destronado por um carvalho de menor porte e madeira menos nobre, o carvalho-negral, que tem o nome científico de Quercus pyrenaica e é também conhecido como carvalho-pardo-das-Beiras. As folhas do carvalho-negral são mais largas e recortadas que as do carvalho-alvarinho, mas o modo mais expedito de as reconhecer é pelo tacto, já que elas são macias, quase felpudas, ao passo que as do carvalho-alvarinho são glabras. Frequente no interior norte e centro do país, desde a serra de Montesinho, em Bragança, até à serra de São Mamede, em Portalegre, o carvalho-negral tem uma grande capacidade de regeneração após o fogo, formando matos baixos e densos em áreas recém-ardidas. Menos comuns são os carvalhais bem desenvolvidos, mas vão ocorrendo aqui e ali ao longo da área de distribuição da espécie, com os mais notáveis exemplos a concentrarem-se no nordeste transmontano, em especial nas serras de Montesinho, Nogueira e Bornes.
Resulta desta dissertação que, se o leitor quiser valorizar o seu jardim ou o seu terreno plantando ou semeando carvalhos, então deverá escolher aquele que melhor se adapte ao clima e às características do solo da sua região. Em Lisboa e em toda a faixa litoral daí até Coimbra, onde predominam os solos calcários e o clima é acentuadamente mediterrânico, a opção pelo carvalho-cerquinho é quase uma (agradável) necessidade. No entanto, há nichos que podem comportar excepções, como a serra de Sintra: pela abundância de sombra e frescura, trata-se de um autêntico enclave nortenho às portas de Lisboa, onde é sabido que o carvalho-alvarinho vegeta alegremente. Subindo de Coimbra até ao Minho, e mantendo-nos mais ou menos a oeste da linha recta que passa por Seia (na serra da Estrela) e Vila Real (nos contrafortes do Marão), encontramos as regiões mais pluviosas e fartamente arborizadas do país: é o território do carvalho-alvarinho, escolha indiscutível do carvalho-a-plantar para quem lá vive. Mas mesmo aí já começa a aparecer o carvalho-negral, e não apenas nas altitudes mais elevadas onde costuma ser preponderante. Na Beira interior e na Terra Fria transmontana o caravalho-negral é a escolha de eleição, mas quem more em Vila Real ou noutro ponto da difusa linha de fronteira entre as duas espécies pode dar-se ao luxo de plantar carvalhos-negrais e carvalhos-alvarinhos à mistura.
Porto, Janeiro de 2015
Paulo Ventura Araújo

09/03/2016

Pseudocenoura de Sicó


Orlaya daucoides (L.) Greuter


As umbelíferas com inflorescências como as da cenoura (Daucus carota) são difíceis de destrinçar, e esse problema não deve ser só nosso. Decerto também os polinizadores se apercebem de que as umbelas são semelhantes, e hesitam na planta a escolher. A menos que o néctar (que, quando provámos, sabia a água com açúcar) tenha variações de sabor, aroma e nutrientes que os insectos detectem, ajudando-os a seleccionar as flores que mais apreciam. Na eventual falta destes pormenores que sinalizem as flores mais apetecíveis, e de cuja existência não conhecemos qualquer prova, há ainda as espécies que, além de investirem numa inflorescência repleta de flores, a aumentam alterando as pétalas das flores externas para que fiquem mais vistosas.

É precisamente esse o estratagema da planta que está hoje na montra, fotografada num bosque de azinheiras e carvalhos em Sicó: exibe airosas pétalas bilobadas no bordo da umbela, como orelhas de cachorro, que nenhum polinizador minimamente atento deixará de avistar, mesmo de longe. Trata-se da única espécie do género Orlaya nativa em Portugal, apesar de em Espanha ocorrer outra, a O. grandiflora. O nome do género homenageia Ivan Semenovych Orlay (1771-1829), médico e botânico ucraniano.

É uma planta anual, de distribuição ampla na região mediterrânica e na Ásia, que se distingue bem de alguns parentes pela folhagem. Sugerimos ao leitor que observe os talos estriados e as umbelas terminais, recheadas de flores masculinas além de umas poucas hermafroditas. (Pode tentar localizá-las na 3ª foto — onde também se vê emboscada uma ameaçadora aranha-caranguejo, Thomisus onustus — ou nesta imagem.) Os frutos têm uma forma bizarra, lembrando espigas verdes com ganchos no lugar dos grãos de milho.

Sicó

26/01/2016

Segredos da Pipa (1)


Lamarosa, Coruche


Há tempos, a propósito de se fazer ou não um aeroporto num certo local, um ministro que já esquecemos dizia que o país a sul do Tejo era um deserto. Não se referia à presumível aridez mas sim à falta de gente, esquecendo por momentos o poder aglutinador que, para o bem e para o mal, costumam ter certas obras "estruturantes" tais como pontes, aeroportos e auto-estradas. É contudo verdade que o Tejo marca uma fronteira: para norte temos um país de montes e vales, verde e húmido, e para sul uma extensa planície onde a chuva raramente cai. Quando no nosso país falamos em sentido literal no "risco de desertificação" é nessa planície que estamos a pensar. Mas essa simplificação a traço grosso esquece que no limite nordeste do país a falta de chuva pode também ser um problema, e que no sul há enclaves frescos e ricamente arborizados como as serras de São Mamede e de Monchique. Há também muitos rios que, por estarem mais sujeitos a grandes variações do caudal do que os rios do norte, vivem na constante incerteza do futuro, e por isso são comoventes e preciosos.

As reservas de água, naturais ou artificiais, são um seguro de vida em regiões sujeitas à secura. Um velho montado de sobreiros rodeando uma represa, cercas de arame delimitando pastagens: eis uma paisagem que, sendo embora ribatejana de Coruche, poderia fornecer um dos mais típicos postais do Alentejo. A água atrai-nos como atrai todos os outros bichos, mas a nós, que bebemos água engarrafada, interessa sobretudo inspeccionar as plantas que encontram refúgio nas margens lodosas da represa. Entre dezenas de habitats semelhantes na região, calhou-nos visitar a represa da Pipa, e não ficámos desiludidos com o que vimos: Baldellia repens, Cicendia filiformis, Exaculum pusillum, Ludwigia palustris, etc. Enfim, um pequeno catálogo de plantas higrófilas miniaturais que, num raio de vários quilómetros, não poderiam sobreviver senão ali, no curto espaço de transição entre a fartura de água e a terra ressequida.


Juncus pygmaeus Rich. ex Thuill.
Típicos de terrenos encharcados são os juncos e as ciperáceas, de que na Pipa havia uma variada amostra. Deixando duas ciperáceas para o segundo fascículo, falamos agora do Juncus pygmaeus, obrigado a ser pequeno pelo nome que lhe deram. De facto, este junco não costuma ter mais que uns 5 cm de altura, muito embora possa quadruplicar essa marca; e as flores, que são essenciais à identificação e por isso convém observar à lupa, ficam-se pelos 5 mm de comprimento. Pelo tamanho, o Juncus pygmaeus facilmente se confunde com outros juncos anuais como o J. bufonius e o J. capitatus. Contudo, as flores do J. bufonius costumam ser solitárias, enquanto que no J. pygmaeus, como se vê acima, elas aparecem aglomeradas; e no J. capitatus, ao invés do que sucede com o J. pygmaeus, cada inflorescência tem uma bráctea que claramente a ultrapassa (veja aqui).

Amplamente distribuído pela Europa ocidental e norte de África, o Juncus pygmaeus, à semelhança de muitas plantas anuais que vivem em condições instáveis, não parece ter uma época de floração preferida. Trata de cumprir o seu ciclo de vida quando pode; e, se a água baixou e a temperatura ainda é amena, Dezembro é um mês tão bom como qualquer outro.

04/10/2014

Estrelas de haver


Nave de Haver
Cerca de oito quilómetros a sul de Vilar Formoso, Nave de Haver é um recanto no interior do país estranhamente plano e arenoso, não longe da ribeira de Tourões que desagua ali perto no rio Águeda. O espanto acentua-se quando avistamos uns morros cor de argila, umas formas de aluvião que parecem ter sido desenhadas por chuva intensa. O topónimo soa-nos bizarro até entendermos que nave significa, neste contexto, um lugar plano entre montanhas e que o de Haver é decerto uma variante oral de Daver, que alude a uma várzea junto a um rio. Cruzamo-nos com algum gado e cães de guarda que ladram enervados por ver gente: actualmente não moram no lugar mais do que 400 pessoas. Diz-se que por lá prossegue a exploração de volfrâmio por processo artesanal e que, estando tão perto de Espanha e sendo tão despovoado, é ainda propício ao contrabando.

É para a zona ondulada, e as famosas arcoses, que nos dirigimos em Maio. Mas a planície junto à estrada está arroxeada por tantas flores de Linaria incarnata e há lá tantas plantas que nunca vimos que a viagem se vai alongando em paragens. Quando chegamos finalmente aos arenitos, encontramos uma duna gigante feita de cascalho grosseiro e escorregadio, um enorme rochedo desfeito e depois sedimentado onde se notam veios de quartzo, xisto, granito e argila. E tudo o resto parece ter encolhido, até os carvalhos, como se ali o mundo fosse ainda jovem. No fundo dos aluviões há regatos estreitos e, dispersas, lagoas pouco fundas de margens recheadas de plantas preciosas e outras que não identificámos.


Quercus pyrenaica Willd.
No início de Setembro retornámos, desta vez para explorar essas "dunas" solidificadas, e aí ver uma pequena população desta asterácea rara que Miguel Porto e Ana Júlia Pereira encontraram meses antes e para a qual nos haviam alertado.


Aster aragonensis Asso


Como floresce no Verão, quando quase tudo o resto já perdeu a cor, pensámos que não teríamos dificuldade em avistá-la, mas é planta tão delgada, de inflorescências em corimbo tão frouxo e, quando a vimos, de folhas secas e hastes de cor tão próxima da do solo, que quase nos passou despercebida. (Curiosamente, Brotero designou-a Aster fugax, aludindo desse modo à maturação rápida da planta.) Foram as lígulas violáceas, que contrastam com o amarelo das pétalas num arranjo admirável, que nos ajudaram a descobri-la. A estrela miúda, como a designam em castelhano, é um endemismo ibérico de que em Portugal só se conhecem núcleos nos arenitos de Nave de Haver, em afloramentos ultrabásicos, xistos verdes e leitos de cheia de Bragança e Vinhais, em fendas de rocha xistosa na serra do Açor e num urzal na Serra da Carregueira. Na Catalunha, consta do Livro Vermelho (das plantas endémicas ameaçadas) como espécie vulnerável.

Lemos que Ignacio Jordán de Asso y del Rio (1742-1814), naturalista espanhol que nomeou esta planta, foi autor de um inventário quase exaustivo da flora e fauna de Aragão.

26/11/2010

Relíquias

Quercus suber L. — Campo, Valongo
When you find a thick bush of marjoram or a well-filled nest of Spanish flies you are in direct communication with the natural world which the Lord created with undifferentiated possibilities of good and evil until man could exercise his own free will on it.

But the 'nobles' aren´t like that; all they live by has been handled by others. They find us ecclesiastics useful to reassure them about eternal life, just as you herbalists are here to procure them soothing or stimulating drinks. And by that I don't mean they're bad people; quite the contrary. They're just different; perhaps they appear so strange to us because they have reached a stage towards which all those who are not saints are moving, that of indifference to earthly goods through surfeit. Perhaps it's because of that they take so little notice of things that are of great importance to us; those on mountains don't worry about mosquitoes on plains, nor do the people in Egypt about umbrellas. Yet the former fear landslides, the latter crocodiles, which are no worry to us. For them new fears have appeared of which we're ignorant; I've seen Don Fabrizio get quite testy, wise and serious though he is, because of a badly ironed collar to his shirt; and I know for certain that the Prince of Làscari didn't sleep for a whole night from rage because he was wrongly placed at one of the Viceroy's dinners. Now don't you think that a human being who is put out only by bad washing or protocol must be happy, and thus superior?


Giuseppe Tomasi di Lampedusa, The Leopard (trad. Archibald Colquhoun, The Folio Society, 2000)

25/09/2010

Tempo de sobreiros


Valeira, Douro
     "And what wood are you made of, my son?"
     It wasn't a question. I could tell.
     All the same I wish he hadn't asked it.

     Neil Curry (At Samos: A question)

12/07/2010

O curral do paraíso



     Presently, the cow’s audience-appeal began to wane. It was a fine cow, as
cows go, but, like so many cows, it lacked sustained dramatic interest.

P. G. Wodehouse, The custody of the pumpkin
Achamos que as vacas são animais lerdos e quebradiços, sempre em risco de desabar sob o seu próprio peso. Os cumes rochosos do Gerês fizeram-se para corços, cabras e — vá lá — para cavalos, não para bovinos pachorrentos. Mas se, depois de três ou quatro horas a saltar de pedra em pedra em troços onde o equilíbrio e a agilidade são duramente testados, deparamos com um curral ocupado por um pacífico rebanho, ocorre-nos perguntar como é que os animais lá chegaram. Terão sido baixados de helicóptero? Não é porém crível que os pastores da serra disponham dos celebrados meios aéreos que são notícia todos os verões. Somos forçados a admitir que vacas, touros e vitelos se deslocaram para o local pelos seus próprios meios.

Aliás, não é preciso ser-se zoólogo para adivinhar a proveniência dos grossos poios que, aqui e ali, encontramos pelo caminho. Recomenda-se até que lhes prestemos tão grande atenção como às mariolas que nos indicam o rumo. E às provas indirectas vem juntar-se o testemunho dos sentidos, quando vemos uma vaca perseguida encosta acima, é verdade que a velocidade moderada, por um jovem touro. Encosta essa, diga-se, onde nós bípedes dificilmente arriscaríamos os ossos.

Esses quadrúpedes que se vêem a pisotear as intragáveis abróteas são pois acrobatas de respeito. Dominam a serra e merecem bem o descanso no curral a que, sem grande exagero, chamaríamos paradisíaco. Pois o paraíso — ou a terra prometida — não se faz só das suas qualidades intrínsecas, mas também do contraste com a envolvente e da maior ou menor dificuldade em lá chegarmos. Os cumes rochosos em volta não têm árvores nem abrigos, são impiedosamente agrestes na sua grandeza tingida pelo roxo das urzes. Mas bastam uma nascente de água e uma nesga de solo para que surja um prado verdejante à sombra de grandes carvalhos.


Curral do Conho — Serra do Gerês

30/04/2010

Vestir a manta

Quercus faginea subsp. broteroi (Coutinho) A. Camus


Nas terras de Sicó é suave a ondulação dos montes, o que faz com que os carvalhais sejam bem diferentes daqueles que encontramos no noroeste do país. É também verdade que o carvalho é outro: num arroubo de nacionalismo até lhe chamamos carvalho-português, embora isso não o tenha impedido de se instalar igualmente em Espanha. O carvalho-roble nortenho (Quercus robur), por seu turno, é claramente internacional, sem que isso o faça menos português. Não serão pois razões patrióticas que nos farão preferir um carvalho ao outro. Ambos têm uma dignidade admirável que a idade só reforça. No que toca à beleza, o ponto forte do carvalho-roble é a cor luzidia da sua folhagem primaveril. Por contraste, as folhas do carvalho-português (ou carvalho-cerquinho) começam por ser pálidas e baças, ganhando vivacidade à medida que a Primavera amadurece. O primeiro estreia triunfalmente a sua manta nova; o segundo insinua-se devagarinho nos nossos sentidos. Digamos que o marcador regista um empate no final do prolongamento.

Os concelhos de Ansião e Alvaiázere albergam a maior mancha ibérica de carvalho-cerquinho. A rota do carvalho cerquinho, iniciativa da associação Terras de Sicó, estende-se por trinta quilómetros e permite caminhar um dia inteiro entre carvalhais quase ininterruptos. E, agora que é tempo de orquídeas, assinale-se que algumas delas (como a Neotinea maculata e a Cephalanthera longifolia) preferem a sombra protectora dos carvalhos à vegetação rala da crista dos montes.

O carvalhal que ilustra esta conversa, fotografado em Março e Abril deste ano, não está incluído na rota pedestre. Cercado por um olival e por campos de cultivo, terá uns quatro ou cinco hectares, e é uma amostra preciosa, fartamente sonorizada pelo canto dos pássaros, do muito que há de bom por terras de Sicó.

26/02/2010

Gigantes da montanha

Carvalha das éguas — Serra do Gerês
Há dois gigantes nesta história, um vegetal e outro de pedra. Poderia haver mais em ambas as categorias, mas história curta tem de ser avara em protagonistas, sob pena de se dispersar. Para visitarmos os gigantes no seu sono invernal, dirigimo-nos ao cruzamento da Pedra Bela, na Serra do Gerês. Primeiro vamos ao miradouro espreitar a albufeira dos três rios, duas pontes e muita névoa a preencher o fundo de um caldeirão de paredes verdejantes. Só depois nos metemos por um caminho florestal entre pinheiros-silvestres de folhagem tão delicada que parecem transplantados de um jardim japonês. Não falta sequer o riachinho meandroso a fazer de rio em miniatura. O caminho hesita, dobra-se sobre si mesmo, encavalita-se, encolhe-se para se esgueirar entre dois penedos. Dir-se-ia que perdeu o norte, mas lá o reencontra, e é mesmo para norte que ele nos conduz. Há um troço já tranquilo, rectilíneo, que acompanha, pelo lado nascente, uma cerca de arame delimitando um curral rectangular com algumas centenas de metros de extensão. Estamos a 930 metros de altitude, é Inverno, não há animais a pastar. Junto ao rústico abrigo onde pernoitavam pastores mora o primeiro gigante. Que, ao que parece, é do sexo feminino — chamam-lhe carvalha das éguas — e é afinal constituído por dois indivíduos autónomos, dois veneráveis carvalhos talvez unidos pelos laços do matrimónio para formarem uma só alma-árvore. Se aqui até os dias são gelados, como serão as noites? Dentro do curral não há mais árvores, e é natural que eles (ou elas?) busquem aconchego nos ramos um do outro.

Lomba do Vidoeiro — Serra do Gerês
O segundo gigante não mora longe, mas o resto do caminho até lá revela-se problemático, com descidas onde temos de saltitar de pedra em pedra para não metermos o pé na poça. Por fim, desembocamos num terreiro plano, amplo, com um pinhal à nossa esquerda, pastagens semeadas com rochas à nossa frente e, à direita, uma elevação coroada por um afloramento granítico. Coçamos a grenha para saber por onde continuar, pois não há qualquer trilho claramente marcado no chão. Vêem-se os montículos de pequenas pedras sobrepostas com que temos deparado amiúde no nosso caminho: chamam-se mariolas, e eram usadas pelos pastores para se orientarem. Se até aqui não nos enganaram, a solução é confiar nelas. E é para a direita — para nascente — que as mariolas nos puxam. Estamos na Lomba do Vidoeiro, cruzamos outro curral com um abrigo ainda mais mal-amanhado do que o anterior, e eis-nos a caminho do vale da Teixeira. Mas não vamos tão longe, pois o dia é curto e há que retroceder. Além disso, acabámos de encontrar o segundo gigante.

No caso dele não é muito apropriado falar de sono invernal. O sono ininterrupto que o acomete nesta estação não é assinalado por nenhuma descontinuidade em relação ao sono que já vem de tempos imemoriais. De cabeça enterrada nos ombros, imerso em sonhos que se materializam em brumas, tem pinheiros a crescer-lhe nos braços, nas costas e na nuca. Há também urzes sorrateiras que se aproveitam da sua macambúzia imobilidade para lhe subirem aos ombros. Ficamos a contemplá-lo de longe, com respeito, sem pretender imitar o atrevimento das plantas. Até que chega a altura de lhe virarmos as costas para nos irmos embora.

29/01/2010

Pedreiras devoradoras

Quercus rotundifolia Lam.


A chuva acompanha-nos desde que de manhã nos metemos à estrada, e não dá sinais de acalmar mesmo depois do almoço na Mendiga, muitos quilómetros a sul. É para andar a pé que viemos à Serra dos Candeeiros, mas não é muito aprazível fazê-lo de guarda-chuva em punho. Resta-nos pôr em prática o plano de emergência preparado para estas ocasiões: se o céu se revela ingrato, substituímo-lo pelo tecto de uma gruta. E são muitas, ao que consta, as grutas visitáveis nestas paragens. Uma rápida consulta ao mapa esclarece-nos que a gruta mais à mão é o Algar do Pena, onde há até um centro interpretativo que, além de garantir uma descida sem aventuras (não temos vocação para espeleólogos), deverá enquadrar a visita com explicações enriquecedoras.

Dirigimo-nos pois ao Vale da Trave, mas algumas das tabuletas indicativas desapareceram, e só com ajuda é que acertamos no caminho para a gruta. São cinco ou seis quilómetros por um estradão de terra batida que se bifurca várias vezes e atravessa pedreiras de dimensões gigantescas. Diz o livro-guia dos percursos pedestres do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) que o bordo sul do planalto de Santo António é «caracterizado por intensa actividade extractiva». O que o livro deveria dizer é que esta porção do PNSAC no concelho de Santarém está a ser devorada por pedreiras, e corre o risco de desaparecer por completo num prazo de poucos anos. O novo Plano de Ordenamento do PNSAC, que esteve em discussão pública até Novembro de 2009, prevê aliás a expansão de tais explorações. Ainda assim, os autarcas da região, com o mediático presidente da Câmara de Santarém à cabeça, acham que esse plano foi engendrado pelos «beatos do fundamentalismo ambiental».

Entendamo-nos: o actual cenário é já dificilmente aceitável numa área com um estatuto de protecção mínimo. Se as coisas vão ainda mudar para pior (como permite o Ministério do Ambiente) ou para muito pior (como exigem os autarcas), então é melhor acabar com a farsa de que isto é um parque natural. Se só as pedreiras são importantes, se o esforço de preservação da natureza não traz qualquer proveito à região nem aos seus habitantes, então extinga-se o Parque Nacional das Serras de Aire e Candeeiros, e deixem de se atrair visitantes com o engodo de que esta é uma área protegida.

Mas regressemos ao caminho de que esta conversa nos desviou. Caminho esse que, aliás, não tarda terá ele próprio de ser desviado (quantas vezes já não o foi no passado?) por força do avanço das escavações. Os carrascos (Quercus coccifera) que aqui formavam densa cobertura vão sendo arrancados a golpes de escavadora, sobrando uma cabeleira rala à beira do precipício. Mais adiante, depois da gruta, na base de uma encosta que começou já, também ela, a ser retalhada pelas máquinas, desenvolve-se o mais bonito azinhal que alguma vez nos foi dado ver (primeira foto em cima): azinheiras pequeninas, de três ou quatro metros de altura, mas perfeitamente formadas, abrigando a seus pés inúmeras plantas herbáceas que dará gosto reencontrar esta Primavera. Azinheiras (Quercus rotundifolia) e carrascos são, recorde-se, os pais do Quercus x airensis, que aqui se encontra em abundância na zona de transição entre as duas espécies.

E a gruta? É que entretanto parou de chover e distraímo-nos com outras coisas, mas foi ela que aqui nos trouxe. O Centro de Interpretação Subterrâneo da Gruta Algar do Pena (CISGAP) é, segundo reza o livro-guia, o primeiro do seu género em todo o país e um dos «ex-libris deste Parque Natural». Nada se perde em espreitar, mas o CISGAP está fechado e a gruta, por isso, fica-nos vedada. Será que fecha aos sábados? Não há horário nem qualquer informação à porta. Por conversa com gente da terra, ficamos a saber que o CISGAP e a gruta estão em regra fechados e só são acessíveis por marcação prévia. Na Ecoteca de Porto de Mós, além de confirmarem essa informação, dizem-nos que apenas podemos visitar a gruta integrando um grupo mínimo de doze pessoas.

Não foi certamente para uma (não) utilização destas que se construiu um centro interpretativo com tão quilométrica designação. Este mini-roteiro do PNSAC deixa entender que a gruta teria um horário regular de funcionamento na altura em que o texto foi escrito (2001), e o mesmo aliás se depreende do livro-guia que temos usado, publicado cinco anos mais tarde.

O abandono e o descaso por parte da tutela, tão ostensivos neste episódio, são decerto responsáveis por boa parte da desilusão sentida pelas populações deste e de outros parques naturais do nosso país. Então «esses do ambiente» têm tamanha maravilha à sua guarda e fazem tudo para repelir visitantes? Realmente não se percebe.

P.S. Sobre o conflito (ou convivência) entre as pedreiras e a conservação da natureza no PNSAC, leia-se o longo comentário que Henrique Pereira dos Santos aqui escreveu a propósito do texto acima.

25/01/2010

Carvalho airoso

Quercus x airensis Franco & Vasconcellos [= Quercus x auzandrii nothosubsp. airensis]


A azinheira de bolotas doces — Quercus ilex L. subsp. ballota (Desf.) Samp. para os que a consideram uma subspécie, ou Quercus rotundifolia Lam. para os taxionomistas que lhe conferem estatuto de espécie — é uma árvore perenifólia que pode atingir os 12 m de altura mas raramente ultrapassa o porte arbustivo. Tem ritidoma cinzento fendido e folhas elípticas de margens inteiras (as jovens dentadas e levemente espinhosas), contorno curvado, cor verde embaciada na face superior, penugem densa e branco-amarelada no verso. As bolotas têm carapuça curta de interior acetinado. É um endemismo da Península Ibérica e noroeste de África, abundante em montados e bosques. Floresce de Março a Junho e forma híbridos naturais com outros carvalhos. A combinação do Q. rotundifolia com o carrasqueiro, Q. coccifera L, é o carvalhinho da Serra de Aire (e da de Candeeiros) que Franco e Vasconcellos designaram, em 1954, por Q. x airensis. É um arbusto que não arrisca mais de 4 m de altura, com raminhos jovens cobertos de pêlos estrelados, folhas coriáceas, ovadas, dentado-espinhosas, cinzento-esverdeadas, com penugem em ambas as faces. A bolota é longa, a cúpula tem escamas imbrincadas mas pouco levantadas (não sai ao Q. coccifera) e interior acetinado (como no Q. rotundifolia).

Estão a interromper-nos com um resmungo em tom de barítono: se o Q. rotundifolia se classificar como subspécie Q. ilex L. subsp. ballota, então o misto dele com o carrasqueiro não pode ser designado por nome binário, tem de ser Quercus x auzandrii nothosubsp. airensis Gren & Godr.

Sssim, ssssenhor, mas de onde vem este auzandrii? Da azinheira, asseguram-nos. É que ela tem duas formas que, não admira, isto tem mesmo de ser difícil, quase se confundem: a Q. ilex subsp. ballota e a subspécie Q. ilex subsp. ilex (ou simplesmente Q. ilex L.). Esta é a azinheira comum no norte da Península e região mediterrânica, de folhas lanceoladas e pontiagudas, as jovens serradas mas não espinhosas, que pode chegar aos 27 m, aprecia bosques de clima temperado e húmido e solo calcário, e floresce de Abril a Junho. Contudo, a azinheira no monte é diferente da do herbário; lá encontramos não só muitos exemplares intermédios a estas duas versões, que se enlaçam sem transições bruscas, como indivíduos em que as duas morfologias estão presentes. Para complicar a história, também esta versão de azinheira se cruzou com o carrasqueiro, esse galaroz, e nasceu o Quercus x auzandrii Gren & Godr., que tem folhas e bolotas de morfologia e pilosidade que são, como seria de esperar, uma média das características dos progenitores.

E nothosubsp.? Vem do grego nothos, falso, e da abreviatura de subspécie. Percebemos-lhe a intenção: um híbrido não tem direito a ter como subespécie um outro resultante do cruzamento de diferentes progenitores. Este meio-irmão só seria uma verdadeira subespécie se resultasse de uma modificação evolutiva do próprio híbrido. Alguém discorda desta interpretação?

01/12/2009

Prenhe de cor



Quercus coccifera L.

Habituados aos carvalhos de grande porte, quase não reparámos neste, um arbusto que não ultrapassa em geral os 2m de altura. Valeram-nos as inflorescências (amentilhos masculinos, na foto à esquerda em baixo) com que identificámos o género e, há poucos dias, o bichinho da cor carmesim.

Este carvalho, conhecido popularmente como carrasco ou carrasqueiro, é monóico, de folha perene, glabra, verde brilhante com margens onduladas e espinhosas. Ramifica-se desde a base e os ramos entrelaçam-se numa copa quase impenetrável. O ritidoma é cinzento e, dizem, a madeira boa para lenha. O fruto é uma bolota lustrosa com uma carapuça coberta de escamitas com ápices recurvados. Floresce de Março a Maio, às vezes também em Setembro e Novembro, e as bolotas amadurecem no fim do Verão do ano seguinte. É frequente em matos xerófitos (com estios longos), escarpas secas e terrenos pedregosos da costa portuguesa no centro e sul, mas desenvolve-se melhor em solos calcários - e há de facto muitos exemplares nas serras de Aire e Candeeiros. Dá-se bem em azinhais e até hibrida com a azinheira de bolota doce (Q. rotundifolia Lam.), criando o Q. x auzandrii Gren. & Godr. (ou Q. x airensis Franco & Vasc.), de morfologia intermédia.

O nome científico da espécie deriva do latim coccum, o quermes, cujas fêmeas grávidas, entre Maio e Junho, confundem os amadores por parecerem bagas vermelhas.

P.S. Um(a) leitor(a) deixou-nos este comentário pertinente e elucidativo, que agradecemos.

Com desgosto para quem anda à procura dele há muito tempo, a foto do canto superior direito não é do bichinho da cor carmesim, Kermes vermilio, mas sim de um outro insecto: Plagiotrochus quercusilicis. Kermes vermilio é hoje em dia uma raridade no nosso país, o que não deixa de ser curioso dada a abundância do hospedeiro. As fêmeas de Kermes vermilio no final do ciclo de vida assemelham-se uma pequena esfera com pouco menos de 10mm de diâmetro de cor vermelho acastanhada, recobertas de uma ténue pruina esbranquiçada. Fixam-se nos ramos dos carrascos e dentro delas estão dezenas de larvas de cor carmim, que por esmagamento produziam a célebre tinta carmim. Se encontrarem algo assim não hesitem em noticiar. zg