Carvalho airoso




Quercus x airensis Franco & Vasconcellos [sinónimo: Quercus x auzandrii nothosubsp. airensis]
A azinheira de bolotas doces - Quercus ilex L. subsp. ballota (Desf.) Samp. para os que a consideram uma subspécie, ou Quercus rotundifolia Lam. para os taxionomistas que lhe conferem estatuto de espécie - é uma árvore perenifólia que pode atingir os 12 m de altura mas raramente ultrapassa o porte arbustivo. Tem ritidoma cinzento fendido e folhas elípticas de margens inteiras (as jovens dentadas e levemente espinhosas), contorno curvado, cor verde embaciada na face superior, penugem densa e branco-amarelada no verso. As bolotas têm carapuça curta de interior acetinado. É um endemismo da Península Ibérica e noroeste de África, abundante em montados e bosques. Floresce de Março a Junho e forma híbridos naturais com outros carvalhos. A combinação do Q. rotundifolia com o carrasqueiro, Q. coccifera L, é o carvalhinho da Serra de Aire (e da de Candeeiros) que Franco e Vasconcellos designaram, em 1954, por Q. x airensis. É um arbusto que não arrisca mais de 4 m de altura, com raminhos jovens cobertos de pêlos estrelados, folhas coriáceas, ovadas, dentado-espinhosas, cinzento-esverdeadas, com penugem em ambas as faces. A bolota é longa, a cúpula tem escamas imbrincadas mas pouco levantadas (não sai ao Q. coccifera) e interior acetinado (como no Q. rotundifolia).
Estão a interromper-nos com um resmungo em tom de barítono: se o Q. rotundifolia se classificar como subspécie Q. ilex L. subsp. ballota, então o misto dele com o carrasqueiro não pode ser designado por nome binário, tem de ser Quercus x auzandrii nothosubsp. airensis Gren & Godr.
Sssim, ssssenhor, mas de onde vem este auzandrii? Da azinheira, asseguram-nos. É que ela tem duas formas que, não admira, isto tem mesmo de ser difícil, quase se confundem: a Q. ilex subsp. ballota e a subspécie Q. ilex subsp. ilex (ou simplesmente Q. ilex L.). Esta é a azinheira comum no norte da Península e região mediterrânica, de folhas lanceoladas e pontiagudas, as jovens serradas mas não espinhosas, que pode chegar aos 27 m, aprecia bosques de clima temperado e húmido e solo calcário, e floresce de Abril a Junho. Contudo, a azinheira no monte é diferente da do herbário; lá encontramos não só muitos exemplares intermédios a estas duas versões, que se enlaçam sem transições bruscas, como indivíduos em que as duas morfologias estão presentes. Para complicar a história, também esta versão de azinheira se cruzou com o carrasqueiro, esse galaroz, e nasceu o Quercus x auzandrii Gren & Godr., que tem folhas e bolotas de morfologia e pilosidade que são, como seria de esperar, uma média das características dos progenitores.
E nothosubsp.? Vem do grego nothos, falso, e da abreviatura de subspécie. Percebemos-lhe a intenção: um híbrido não tem direito a ter como subespécie um outro resultante do cruzamento de diferentes progenitores. Este meio-irmão só seria uma verdadeira subespécie se resultasse de uma modificação evolutiva do próprio híbrido. Alguém discorda desta interpretação?
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