30.12.04

A Nossa Vida Piorou

Não falamos do défice ou da estagnação dos salários, pois essas coisas, dentro de limites razoáveis, não têm na verdade grande importância. Nem se trata de fazer o balanço do ano, computar o deve e o haver para que a aritmética nos esclareça se estamos hoje mais felizes do que em 1 de Janeiro de 2004: aquilo que faz os nossos dias amenos ou aziagos não é mensurável pela frieza autista da economia.

A nossa vida piorou porque arrancaram as jovens tílias na Rua D. Manuel II, frente ao Museu Soares dos Reis. O nosso trajecto diário a pé vai ter menos beleza; e, quando vier a Primavera, não nos irá regalar o perfume das tílias floridas.

No futuro, graças às novas acessibilidades (como o túnel rodoviário que obrigou ao sacrifício das tílias), gozaremos de uma mobilidade quase frenética: é pelo menos esse o sonho dos nossos governantes. Mas esse frenesim há-de ser como o dos ratos em laboratório: nestas placas contínuas de betão como cada vez mais são as nossas cidades, nada haverá que nos retenha ou apazigue os sentidos.

4 comentários :

Anónimo disse...

Triste, sem dúvida. ;(
Aqui deixo, a propósito, um poema de que gosto muito, com os votos de um melhor ano para a vida das árvores e de todos nós.
DK

The Trees Are Down

- and he cried with a loud voice: Hurt not the earth, neither the sea, nor the trees -
-Revelation


They are cutting down the great plane-trees at the end of
the gardens.
For days there has been the grate of the saw, the swish of
the branches as they fall,
The crash of the trunks, the rustle of trodden leaves,
With the 'Whoops' and the 'Whoa', the loud common talk,
the loud common laughs of the men, above it all.

I remember one evening of a long past Spring
Turning in at a gate, getting out of a cart, and finding
a large dead rat in the mud of the drive.
I remember thinking: alive or dead, a rat was a
god-forsaken thing,
But at least, in May, that even a rat should be alive.

The week's work here is as good as done. There is just
one bough
On the roped bole, in the fine grey rain,
Green and high
And lonely against the sky.
(Down now! -)
And but for that,
If an old dead rat
Did once, for a moment, unmake the Spring, I might never
have thought of him again.

It is not for a moment the Spring is unmade to-day;
These were great trees, it was in them from root to stem:
When the men with the 'Whoops' and the 'Whoas' have carted
the whole of the whispering loveliness away
Half the Spring, for me, will have gone with them.

It is going now, and my heart has been struck with the
hearts of the planes;
Half my life it has beat with these, in the sun, in the rains,
In the March wind, the May breeze,
In the great gales that came over to them across the roofs from the great seas.
There was only a quiet rain when they were dying;
They must have heard the sparrows flying,
And the small creeping creatures in the earth where they were lying -
But I, all day, I heard an angel crying:
'Hurt not the trees.'

(Charlotte Mew)

Paulo Araújo disse...

DK, obrigado pelo poema. Fico comovido: afinal não estamos sozinhos.

dbo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
dbo disse...

Afinal não existem apenas as tragédias, fruto do fatalismo, como o tsunami mortífero da Ásia, pois aqui, mas não fatalidade, existem os crimes sobre a natureza perpetrados pelo bicho-homem, de forma voluntária e inconsciente, apenas em nome de falso poder e interesses mesquinhos.
É bom que alguém denuncie tais práticas cometidas sobre a natureza. As árvores choram mas não gritam, pelo que temos que ser nós a gritar por elas, pois a surdez dos criminosos é demasiado evidente e desprovida de remédio eficaz.
Grato pelo vosso alerta...continuem a denunciar todos esses energúmenos que apenas têm sensibilidade para as próprias dores físicas, pois talvez nem a dor alheia os emocione.