O céu que nos aflige

Praça de Parada Leitão, Porto
Há usos que podem parecer convenções arbitrárias, mas que resultam de ajustes sucessivos à realidade. Dito de outro modo: já se fez de forma diferente, até se ter verificado que não funcionava. Aquilo que às vezes passa por inovação pode não ser mais do que ignorância da história e dos erros passados, que repetimos com alegre inconsciência. É por isso que a inteligência e o bom senso não progridem à mesma velocidade que a tecnologia, e chegam mesmo a registar retrocessos clamorosos.
Nesta época de discussões sobre as cidades e a sua função, em que os arquitectos de nomeada são escutados com a reverência devida aos oráculos ou aos deuses do Olimpo, a praça de Parada Leitão, transformada sucessivamente para pior ao abrigo das mais avançadas doutrinas, avulta como mostruário de inépcia urbanística. Até 2001, ano em que o título de capital europeia da cultura foi pretexto, no Porto, para operações mal-amanhadas de requalificação urbana, a praça tinha três alinhamentos de árvores: um central, formado por seis plátanos mais que cinquentenários, e dois nos passeios laterais, cada um deles com uma dezena de robínias. Com a supressão do trânsito na praça e na envolvente da Faculdade de Ciências (actual Reitoria da Universidade do Porto), abriu-se uma área pedonal que, alegou-se então, prolongaria o Jardim da Cordoaria até aos Leões. O que de facto se criou, uma vez arrancadas sem critério todas as árvores da praça, foi um amplo terreiro empedrado, desprovido de sombras, cenário dia e noite para o estacionamento caótico e ilegal. Com um preciosismo de escultor que doseia os seus efeitos, e uma pasmosa inconsciência do que é e para que serve uma árvore, o arquitecto fez plantar, no lado poente da praça, umas quantas tílias dispostas aos molhos de três em exíguas caldeiras rectangulares. Talvez não lhe tenha ocorrido que as árvores crescem, tão apertadas as deixou umas contra as outras; ou então espera que coalesçam, formando cada trio um monstro-árvore de três troncos e uma só cabeça.
Em qualquer caso, alguma sombra prometia ter esse canto quando as tílias, melhor ou pior, se desenvolvessem. E a companhia fresca da folhagem, mitigando o efeito do parque de estacionamento em que a praça se converteu, poderia tornar mais convidativas as esplanadas que lá acabaram por se instalar.
Embora as esplanadas com vista para ruas com trânsito nunca me tenham seduzido, entendo que quem se senta nelas goste de sentir a cidade à sua volta: em vez de se resguardar num salão, deixa-se impregnar pelas imagens, sons e cheiros que compõem a vida urbana; para lhe servir de tecto só precisa do céu, de um guarda-sol ou (melhor ainda) de uma árvore.
Incompreensível é gostar de esplanadas e temer o ar livre e o céu por cima da cabeça; é deixar-se ficar num contentor envidraçado, espécie de submarino para mergulhar na cidade sem por ela ser contaminado, acreditando estar numa esplanada; é substituir a proximidade das árvores pela frieza do vidro e do metal.
A esplanada-gaiola da praça de Parada Leitão, iniciativa privada autorizada pela Câmara do Porto, está a acabar de ser montada, e deve estrear ainda em Janeiro. Dizem os seus promotores que respeitaram as árvores, mas ainda assim aplicaram-lhes uma poda correctiva - para elas saberem que doravante, se não puderem evitar crescer, terão de fazê-lo só para cima. A tília aí em baixo está quase encostada às vigas de metal da estrutura: convém pois que o seu tronco delgado e juvenil não engrosse com a idade.
Imaginem, se puderem, como vai ficar a praça: metade estacionamento, e a outra metade ocupada com contentores por entre os quais acenam algumas copas enfezadas. Uma combinação tão indescritível que nem o mais assanhado pato bravo dos subúrbios se envergonharia dela. A diferença é que aqui, no coração do Porto, a dois passos da Torre dos Clérigos, houve arquitectos, urbanistas, comissários e planeadores que juntaram as suas (in)competências para chegarem a isto.


Tília engaiolada - Praça de Parada Leitão, Porto

















O que seria de esperar de qualquer pessoa com um mínimo de bom senso era que não plantasse árvores de grande porte e copa larga em passeios estreitos, a pouca distância de paredes ou outros obstáculos, neste caso 
«Face ao escandaloso abate levado a cabo pela CML/Espaços Verdes de cerca de 200 plátanos e jacarandás no Jardim do Campo Pequeno, árvores na sua maioria de grande porte, e em nosso entender, em bom estado fitossanitário (dado o levantamento fotográfico das árvores abatidas e dos cotos); vimos pelo presente dar VOZ AO NOSSO PROTESTO, EXIGIR que sejam apuradas RESPONSABILIDADES e que Lisboa e quem nela vive, trabalha e visita SEJAM RESSARCIDOS POR ESTE ABATE.»








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