Rodízio de resedas
Na ementa temos apenas quatro espécies de Reseda, muito aquém da quantidade e variedade que dão fama aos melhores rodízios. Mas trata-se somente de comer com os olhos, e pelo preço ninguém se pode queixar. Antes de mais, impomo-nos a precaução de saber se as resedas são comestíveis, e felizmente a resposta é afirmativa, pelo menos em parte. Ainda que sejam qualificadas como amargas, as folhas tenras de uma das espécies que hoje servimos aos nossos clientes, Reseda alba, são tradicionalmente consumidas como salada em certas ilhas gregas. É certamente um gosto adquirido, um acepipe que só os iniciados estarão em condições de apreciar. Das outras três espécies não há testemunhos de que constituam parte habitual da dieta humana, mas é de presumir, no mínimo, que não sejam peçonhentas.
O que é uma reseda? Como reconhecê-la entre as demais plantas silvestres? As resedas são em regra plantas herbáceas, mas nas ilhas Canárias algumas delas cresceram tanto que se transformaram em arbustos. Distinguem-se pelas inflorescências em cachos alongados, compostas por inúmeras pequenas flores (de 5 a 10 mm de diâmetro) com anteras proeminentes e pétalas fimbriadas quase sempre brancas. Os frutos em forma de bolsa são a forma mais simples de as destrinçar das espécies de Sesamoides, um género aparentado com Reseda mas que apresenta frutos estrelados, rematados por protuberâncias mais ou menos esféricas (confira aqui).
Distribuídas desde o Mediterrâneo (incluindo sul da Europa, norte de África e Canárias) até ao sudoeste da Ásia, existem umas 40 espécies de reseda, 17 delas com presença confirmada na Península Ibérica. Das quatro que compõem o nosso rodízio, duas (R. virgata e R. complicata) são endemismos ibéricos, outra (R. lanceolata) reparte-se entre Marrocos e o sul de Espanha, e a última (R. alba) faz o pleno da bacia mediterrânica.

Reseda virgata Boiss. & Reut.

A R. virgata — que é uma herbácea tendencialmente perene, com hastes finas de uns 70 cm de altura, e folhas lineares com três a cinco pares de dentes brancos nas margens — aparenta ter duas áreas de distribuição bem disjuntas: a região central de Espanha (desde Toledo a Valladolid, passando por Madrid, Ávila e Salamanca) por um lado e, por outro, em Portugal, os afloramentos ultrabásicos transmontanos. Tais áreas parecem corresponder a ecologias distintas, pois no país vizinho a planta não revela especial apetência por substratos serpentinosos. Contudo, esse duplo comportamento pode não ser assim tão vincado, pois por cá a planta já foi vista em pelo menos dois lugares que nada têm de ultrabásico: na povoação raiana de Nave de Haver, no concelho de Almeida, onde predominam os arenitos; e numa berma de estrada em Valoura, Vila Pouca de Aguiar, região toda ela coroada por altos maciços graníticos. Foi neste segundo lugar que obtivemos as fotos (acima) com que ilustramos texto.
Reseda complicata Bory
A segunda reseda endémica da Península Ibérica, R. complicata, tem uma área de distribuição bem mais restrita: ocorre apenas na serra Nevada (no topo da qual a fotografámos), em altitudes superiores a 2000 metros. Se abstrairmos do hábito prostrado que a planta exibe nas fotos (efeito dos ventos agrestes que sopram àquelas altitudes, não observado em exemplares de sítios abrigados), ela não parece diferir muito da R. virgata. É por isso instrutivo apontarmos-lhe certas diferenças substanciais: as folhas da R. complicata são mais largas e curtas do que as da R. virgata, e têm no máximo dois pares de dentes brancos na base, também eles curtos; as flores da R. complicata são quase sésseis, encostadas à haste floral, enquanto que as da R. virgata têm pedúnculos bem salientes; a R. complicata é profusamente ramificada desde a base, e é o seu aspecto emaranhado que explica o epíteto complicata.
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Reseda lanceolata Lag.
Tanto em Espanha como em Marrocos, a R. lanceolata é uma apreciadora de sol que vive em lugares secos e expostos, por isso não espanta que seja fácil de encontrar no deserto de Tabernas. Não foi lá, mas mais a leste, no vale do rio Dúrcal (provincia de Granada), que com ela deparámos pela primeira vez. Apesar de ser uma planta anual ou bienal escassamente ramificada, tem um aspecto robusto, quase arbustivo. As suas folhas parecem simples, mas considera-se que são trifoliadas: os dois folíolos laterais, por vezes ausentes, são muito menores do que o folíolo central. Os frutos apresentam-se acentuadamente curvados.

Reseda alba L.

A espécie de distribuição mais ampla, R. alba, é, sem favor, a mais vistosa das quatro. A exuberância da sua floração e o seu perfume agradável valeram-lhe ser acolhida em jardins no norte da Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia, regiões onde acabou por se naturalizar. Em Menorca, vimo-la florida no cume do monte Toro, o mais alto da ilha (360 m de altitude), imune à afluência dos turistas que, embevecidos pelas vistas, não lhe prestavam qualquer atenção. Acaba por ser estranho que uma planta tão espalhada pelo mundo, e tão vulgar na sua região de origem, seja de tão extrema raridade em Portugal — onde, de facto, está no limite da sua área de distribuição. No nosso país ela apenas existe, ou existia, nas areias de Tróia, onde não é vista desde 2015.




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