22/04/2026

Cardos do sul

Serra Nevada, Granada, Espanha
Quem se inicia na observação botânica costuma ter pouco apreço por cardos: porque os seus espinhos repelem o tacto, porque aparecem em terrenos baldios e em entulhos, porque a sua abundância os torna demasiado fáceis de encontrar. Em suma: os cardos são agressivos, não têm eira nem beira, e ainda por cima são muitos. Contudo, à medida que avança a nossa (sempre incompleta) familiaridade com o mundo vegetal, tendemos a desculpar esses presumíveis defeitos — até que compreendemos que não são na verdade defeitos, ou nem sequer correspondem à realidade.

Certas plantas cobrem-se de espinhos porque têm boas razões para o fazer: se fossem pitéu apetecível para todo e qualquer herbívoro, não chegariam a formar sementes, o que poderia conduzi-las rapidamente à extinção. Assim, os cardos integram o grupo das plantas que, por compreensíveis razões de sobrevivência, preferem não ser comidas indiscriminadamente. Como podemos nós censurar quem apenas se defende?

Mas não é certo que os cardos são uns vadios incorrigíveis? Que, quanto menos recomendável for o lugar onde se instalam, mais em casa eles se sentem? A resposta certa é “depende”. Muitas espécies de cardos são ruderais ou nitrófilas, significando isso que preferem lugares perturbados ou ricos em matéria orgânica como baldios urbanos, jardins abandonados, pastagens, campos cultivados ou pousios. Os rebanhos que não mordem os cardos para não magoar as gengivas ainda fazem o favor de lhes preparar a cama adubando generosamente o terreno. Existindo por todo o lado esses habitats alterados, não espanta que as plantas a eles adaptadas tenham desenvolvido o dom da ubiquidade. Os cardos que vemos nesses lugares são quase sempre os mesmos — no norte do país, Cirsium vulgare, Galactites tomentosa e Carduus tenuiflorus são as espécies mais comuns —, mas há cardos com exigências ecológicas mais refinadas e que, por isso, encontramos menos vezes. Alguns até podem ser raros e converter-se em objectos de desejo, daquele desejo tão humano de ver o que poucos viram.

Mostramos hoje dois desses cardos mais recatados, ambos fotografados no sul de Espanha, e ambos pertencentes ao género Carduus. Cardos aparentados com esses, embora não propriamente iguais, ocorrem em várias regiões de Portugal.

Carduus platypus subsp. granatensis (Willk.) Nyman


O C. platypus, que amiúde ultrapassa um metro de altura, é uma planta espinhosa, ramificada, com capítulos grandes, solitários em cada haste, guarnecidos por brácteas involucrais pendentes e caracteristicamente curvadas. Vive sobretudo em orlas de bosques e clareiras de matos, e dele se reconhecem duas subespécies: a nominal, existente na metade norte de Portugal e no centro-oeste de Espanha; e a subespécie granatensis (nas fotos), que vive no sul de Espanha e encontrámos algures na serra Nevada, a uns 1800 metros de altitude. As duas subespécies distinguem-se tanto pela forma do invólucro (a subsp. granatensis tem brácteas involucrais menos proeminentes) como pela presença ou ausência de pilosidade (na subsp. platypus o invólucro é glabro, mas na subsp. granatensis ele é revestido por pêlos aracnóides).

Carduus meonanthus subsp. valentinus (Boiss. & Reut.) Devesa & Talavera


Do C. meonanthus consideram-se igualmente duas subespécies: a subsp. meonanthus, moradora de dunas litorais, presente na costa atlântica andaluza e no cento e sul de Portugal; e a subsp. valentinus (nas fotos), que encontrámos no Cabo de Gata, restrita a elevações costeiras do sul de Espanha. A dificuldade, neste caso, não está em assinalar diferenças mas sim em apontar semelhanças, bastando um curto relance pelas fotos para reconhecer a improbabilidade de confundir as duas subespécies. A subsp. valentinus é ramificada (a outra não costuma sê-lo), e apresenta capítulos grandes e amiúde solitários (na subspécie nomimal os capítulos são pequenos, sésseis, e surgem agrupados em conjuntos de dois ou três). Originalmente, este cardo foi descrito, em 1856, pelo suiço Pierre Boissier e pelo francês George Reuter, como espécie autónoma, sob o nome de Carduus valentinus. Em 1975, João do Amaral Franco considerou-o como subespécie do C. bourgeanus, mas os espanhóis Juan Devesa e Salvador Talavera tiveram opinião diferente; e, na monografia que em 1981 estes dois autores publicaram sobre o género Carduus na Península Ibérica, subordinaram o C. valentinus, como subespécie, ao C. meonanthus. Atendendo às claras diferenças tanto na morfologia como nas preferências ecológicas, não parece haver grande justificação para amalgamar as duas espécies. Esperemos que os estudos filogenéticos alguma vez tirem o assunto a limpo.

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