13.9.05

A linguagem dos postais


Postais do Porto antigo: avenida das tílias no Palácio de Cristal; Cordoaria e largo da cadeia da Relação

«Tudo isto se me desatou por causa de uma interessante série de reproduções de postais antigos de Lisboa (...). Muitos deles apresentam vistas de jardins e, entre estes, deparei com um que diz mais sobre o que era a cidade cosmopolita do início do século XX, do que muitos discursos sobre a decadência da capital. Reproduz (em coloração manual muito cuidada) um aspecto particularmente sugestivo do Jardim de S. Pedro de Alcântara, o verdadeiro, o que está fechado há muitos anos e se situa no plano mesmo abaixo do varandim de onde se avista a cidade inteira. A vegetação é luxuriante, o arranjo impecável. O que mais me chamou a atenção é um letreiro que diz: "Fornecem-se utensílios de jardinagem para recreio das crianças". O que é que este postal nos diz? Confirma-nos que, no meio século que vai da criação do Jardim da Estrela, inaugurado em 1852, até à implantação da República, Lisboa se enche de jardins públicos, que correspondem à inspiração do square, que se desenvolvera em Inglaterra e em França a partir do início do século XIX. Basta uma visita despreocupada ao magnífico Jardim do Príncipe Real (que é de 1869), para compreender como a concepção do jardim responde directamente a uma nova ideia de funções sociais caracteristicamente urbanas, que incluem o convívio, o lazer, a aprendizagem. O que é curioso, neste letreiro de S. Pedro de Alcântara, é que se pretende ensinar às crianças, não que o campo também existe, mas que há uma actividade tipicamente urbana (a jardinagem, o gardening) que faz parte da educação do urbanita do século XIX.

É este didactismo, que no caso de jardins temáticos, como o Botânico, é levado às suas últimas e mais exuberantes consequências, que permite ler os jardins de Lisboa (e todos os que podemos nomear de cor foram lançados, mais ano menos ano, entre as balizas temporais que dei acima) como formas de acrescentar em urbanidade à vivência e ao imaginário dos cidadãos. O jardim era um elemento estruturante da praça e esta, por sua vez, um elemento marcante do ritmo e das formas de desenvolvimento urbano. Os jardins que apareceram em Lisboa nos últimos cinquenta anos, pelo contrário, cumprem a função, digamos, paliativa de ocupar o espaço entre os edifícios construídos, mais do que a de contribuir para um discurso estruturado da cidade no seu crescimento. A função (meritória que seja) das actuais quintas pedagógicas visa suprir uma pretensa falta de ruralidade que, em alguns casos (os das crianças de ascendência imemorialmente urbana), só pode ser apreendida como uma espécie de exotismo.

Porque é que jardins como os dos postais já não existem (há excepções, raríssimas) na filosofia de desenvolvimento urbanístico dos nossos tempos? Provavelmente, porque uma leitura apressada do conceito de metrópole os substituiu pelos extensos parques urbanos, cuja função nem de longe tem que ver com a do jardim público. Na verdade, se nos dermos ao trabalho de percorrer as colecções de postais turísticos que hoje se editam em Lisboa talvez não encontremos nem um que nos mostre os jardins da cidade.»

António Mega Ferreira
in Visão, Dezembro de 2004

3 comentários :

Anónimo disse...

Belíssimo texto! Que interessante esta perspectiva histórica e verdadeiramente surpreendente. Será que me podem dizer o título de um livro que há sobre postais do Porto? Lembra-me de o ter visto uma vez na Biblioteca Municipal mas entretanto naõ me lembra como se chama.
S. (de Sementinha ;-)

Maria Carvalho disse...

Alguns exemplos:

Catálogo dos postais ilustrados antigos : Biblioteca Pública Municipal do Porto (org. por Marina de Morais Freitas de Matos, 1986)

O bilhete postal ilustrado e a história urbana do Porto / José Manuel da Silva Passos (Lisboa : Caminho; [Porto] : Campo das Letras, 1994)

Portugal no 1o quartel do sec. XX : documentado pelo bilhete postal ilustrado / Vicente de Sousa e Neto Jacob (Câmara Municipal de Bragança, 1985)

O Porto - memórias - o Porto na colecção Vitorino Ribeiro : gravura, litografia, cartografia, fotografia, postais (org. Câmara Municipal do Porto, Divisão de Museus e Património Histórico e Artístico ; coord. Maria da Luz Paula Marques, 1992)

Douro & Leixões : a vida portuária sob o signo dos bilhetes postais / Jorge Fernandes Alves, José Lima Torres (ASA, 2002)

Porto, Macau : cidades de cultura : postais, antigos e modernos (org. Instituto Politécnico do Porto ; coord. Maria Otília Pereira Lage, 2001)

manueladlramos disse...

Mais referências bibliográficas das páginas da Pró-Associação Portuguesa de Cartofilia -BPI Portugueses (sobretudo Porto e Norte de Portugal, c. 1894-1950).
Ver também Portugal em Postais antigos