4.1.05

Inverno


Foto: pva 0412 - oliveiras, pinheiro, metrosídero e (despidas) nogueira-preta e robínia
Jardins do Palácio de Cristal, Porto

«O Outono já lá vai. E enquanto os seus ventos foram desprendendo as folhas das árvores, parece que a nossa alma ficou despenteada. Chegamos ao Inverno a tiritar. Moídos por dentro pelo escuro dos dias. Apetece dormir. Parece acolher-nos o mesmo torpor e obscuridade das cavernas primitivas.(...) No entanto, eu gosto do Inverno. Deste tempo caprichoso e húmido. Das casas com os seus mistérios e penumbras. O fiolho resguardado. Os retratos familiares atentos e observadores. Gosto das adegas, com as arcas e as pipas cheias. As alfaias agrícolas a repousarem. Das teias de aranha nos caibros que sustêm os velhos soalhos. Das tranças das cebolas e dos presuntos pendurados na parede. Gosto de ver a luz baça a descer das clarabóias. Gosto de ver a água a transbordar dos leitos. Do verde a explodir pelos lameiros. Dos néons abertos na brusquidão da noite das cidades. Gosto do cheiro a café à porta das pastelarias. E dos cafés das vilas da província barulhentos nos domingos à tarde. E de chegar cedo a casa e acender a lareira, deixar-me ir no encantamento do lume.(...) Gosto de calçar botas e caminhar por caminhos enlameados. Ver apanhar a azeitona e observar o esqueleto dos freixos e dos carvalhos dissolvidos nas neblinas espessas. E partir com uma pedra o gelo dos tanques. E ver os limos verdíssimos puxados pela força da água corrente. E gosto de entrar no novo ano.(...)

Devagarinho, o Inverno sucumbe à mornice dos primeiros sóis a sério. À floração das amendoeiras e dos pessegueiros. Depois às estevas, mimosas e rosmaninhos. Depois à rebentação das árvores. E quando finalmente o Inverno despe o seu vetusto e pesadíssimo sobretudo e tira o chapéu, percebemos que os seus bolsos estavam cheios de dádivas misteriosas. Como um avô muito antigo que tivesse guardado para nós, escondido no fundo de uma gaveta, uma prenda preciosa.»

Manuel Hermínio Monteiro, In Agenda Assírio & Alvim (1999)

2 comentários :

Anónimo disse...

como me sinto inteligente ao ler este texto e conseguir perceber/identificar tudo o que lá diz.
não sei como é com o resto dos vossos visitantes mas a mim acontece-me muitas vezes (e confesso a minha ignorancia) ler textos em que se fala de paisagens, flora, fauna, etc que eu, como cidadão quase 100% urbano ignoro completamente. seja a forma, sejam os cheiros, sejam os comportamentos....
mas isto, ah, isto é-me familiar :)
estou a imaginar a casa da minha avó com o fumeiro, depois claro da matança do porco (ritual se calhar comparável às touradas na sua crueldade?????) e o passear pelos lameiros a chapinar :D ou no mais modernaço passeio de moto4...

vitorsilva

Anónimo disse...

Descobri este blogue há muito pouco tempo, mas já não consigo viver sem ele!
Obrigada por todas as imagens, palavras, cheiros...