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10/12/2007

De saias


Limonium sinuatum

«Por causa das cantigas, dos poemas, dos fados ou do cor-de-rosa das colinas, Lisboa sempre foi mostrada como mulher. Como tal, maquilhou a imagem feminina que com o tempo foi poisando dentro de nós. (...) Apesar da cantoria, quando entrávamos no íntimo da cidade e percorríamos os bairros típicos, logo verificávamos que era o masculino que dominava. Nas Tabernas, nas Sociedades Recreativas, nas Casas Regionais, nos bares ou nos cafés, a cidade era dos homens. Os mais velhos gostavam de contar a surpresa que foi ver na Segunda Guerra as mulheres refugiadas sentarem-se na Suíça ou na Brasileira de perna cruzada a tomar café e puxar do seu cigarro...

Hoje Lisboa é muito mais feminina. Enquanto os homens recuaram até à maior ambiguidade. As mulheres estão muito mais bonitas e insinuantes. Fazem dos seus gestos, dos seus olhares e dos lábios pequenos fragmentos de arte. Não hesitam em dizer frontalmente que já não há homens e, o mais espantoso, é que lhes assiste uma comprovada razão. (...) As mulheres de Lisboa olham agora os homens com uma indisfarçável sobranceria. Rodeiam-nos com o seu sopro e os seus perfumes e sabem que eles tremem. E quanto maior é a copa, mais o arvoredo abana sob o vendaval. E elas sabem que com um pouco mais de sopro, até as mais altas árvores acabam por cair.»

Manuel Hermínio Monteiro, in K, nº 3 (1990)

14/10/2005

As palavras correctas parecem às avessas


Foto: pva 0510 - alameda de 85 plátanos em Ponte de Lima, na margem esquerda do rio, plantados
em 1901 e declarados de interesse público em 1940


«Há países cuja cultura se expande como uma árvore alta, enraizada em húmus próprio e elaborado pela criatividade e pela memória do povo que faz as suas terras. Noutros países, porém, entre a raiz e a copa parece ter havido uma ruptura. A enxertia, em vez de enriquecer e apurar o original, parece, pelo contrário, apostada em travar o trânsito da seiva. O aperto é tanto que as duas partes da mesma árvore chegam a uma mútua desconfiança, por mais que alguns jardineiros a tragam tão fanaticamente cuidada que chegam a pôr virtude no defeituoso corte. (...)

E porquê este relambório numa altura destas? (...) Porque seria bom que a cultura e a arte em geral se produzissem descomplexadamente e sem obcecadas imitações dos modelos que a aldeia global hoje reproduz até à exaustão, esvaziando-nos de nós mesmos e subtraindo-nos o espaço da criação e o fermento mais íntimo. Deveríamos respirar o nosso ar. Ter na memória quem cuidou dos frutos que ainda hoje estão disponíveis para a nossa sede, ou os grandes plátanos cuja sombra continua a separar o sol da frescura, por nossa causa.»

Manuel Hermínio Monteiro, in Ler / Livros & Leitores, nº 24, (1993)

01/10/2005

Dias em declive

Se o mar é buliçoso e falador, a floresta guarda melhor os seus e os outros segredos revestindo de calma a sua fúria. Mas ambos estão cheios de vozes. E se a profundidade do mar está preenchida de medos e tesouros, os enigmas e os espíritos adensam a obscuridade da floresta. (...) Ninguém pergunta se o direito que ainda temos a caminhos, a ar, à lua, ou ao adejar das ramagens não advirá do assumido martírio de uns quantos que nos deixaram, além da arquitectura e da beleza das suas palavras, um gesto radical e indicativo. (...) À humanidade, estes escritores entregaram as palavras de criação para depois regressarem por conta própria ao Jardim Terreal. Depois de passarem os «claros del Bosque» e as encruzilhadas várias, de se afundarem na silva escura, terem provado as bagas e experimentado o espinho. (...) Partem finalmente, directos à mão de Deus que, como reza o poeta suicida Antero de Quental, é onde repousa o coração dos que não se conformaram com o desleixo de um lugar que primeiro foi paraíso deleitoso de homens e árvores e do qual todos aceitámos, conformada e astuciosamente, ter sido definitivamente expulsos.

Manuel Hermínio Monteiro, Escritores que se suicidaram, in A Phala, nº 54 (1997)

06/06/2005

A selvajaria nos centros históricos

«A Primavera torna-nos buliçosos. Apetece-nos percorrer o país. Os campos estão verdes e floridos e a água transborda nos ribeiros.(...) Gostamos desta terra que desde sempre escolhemos para ser a nossa terra. Pelo caminho revisitamos velhas catedrais e saboreamos o seu silêncio de cera e pó antigo que as rosáceas alumiam.

Por isso nos irritamos com a selvajaria que vem tomando conta de alguns centros históricos. As nossas cidades estão a ser assaltadas por um bando de Hunos que a troco do vil metal vendem a alma ao diabo. Não é apocalíptico dizer que em Portugal se estão a cometer crimes de lesa-cultura de uma brutal insensibilidade.(...) As instituições públicas vão-se servindo de arquitectos mais desejosos de imporem o seu nome do que predispostos a interpretarem com responsabilidade e imaginação as sugestões urbanísticas, interrompendo o que a intuição e o bom gosto haviam combinado ao longo de séculos.(...)

É certo que as aldeias e as vilas precisam de crescer e modernizar-se, mas que tenham de o ser à custa da destruição do património é revelador da incivilidade e sugere interesses privados que o poder económico erradamente impõe como expressão de democracia. Caríssimos. Um país não é um jogo da Lego. Um país nao se faz e desfaz. E como estou zangado, tenho dito.»

Manuel Hermínio Monteiro, in K, Maio de 1991

04/01/2005

Inverno


Foto: pva 0412 - oliveiras, pinheiro, metrosídero e (despidas) nogueira-preta e robínia
Jardins do Palácio de Cristal, Porto

«O Outono já lá vai. E enquanto os seus ventos foram desprendendo as folhas das árvores, parece que a nossa alma ficou despenteada. Chegamos ao Inverno a tiritar. Moídos por dentro pelo escuro dos dias. Apetece dormir. Parece acolher-nos o mesmo torpor e obscuridade das cavernas primitivas.(...) No entanto, eu gosto do Inverno. Deste tempo caprichoso e húmido. Das casas com os seus mistérios e penumbras. O fiolho resguardado. Os retratos familiares atentos e observadores. Gosto das adegas, com as arcas e as pipas cheias. As alfaias agrícolas a repousarem. Das teias de aranha nos caibros que sustêm os velhos soalhos. Das tranças das cebolas e dos presuntos pendurados na parede. Gosto de ver a luz baça a descer das clarabóias. Gosto de ver a água a transbordar dos leitos. Do verde a explodir pelos lameiros. Dos néons abertos na brusquidão da noite das cidades. Gosto do cheiro a café à porta das pastelarias. E dos cafés das vilas da província barulhentos nos domingos à tarde. E de chegar cedo a casa e acender a lareira, deixar-me ir no encantamento do lume.(...) Gosto de calçar botas e caminhar por caminhos enlameados. Ver apanhar a azeitona e observar o esqueleto dos freixos e dos carvalhos dissolvidos nas neblinas espessas. E partir com uma pedra o gelo dos tanques. E ver os limos verdíssimos puxados pela força da água corrente. E gosto de entrar no novo ano.(...)

Devagarinho, o Inverno sucumbe à mornice dos primeiros sóis a sério. À floração das amendoeiras e dos pessegueiros. Depois às estevas, mimosas e rosmaninhos. Depois à rebentação das árvores. E quando finalmente o Inverno despe o seu vetusto e pesadíssimo sobretudo e tira o chapéu, percebemos que os seus bolsos estavam cheios de dádivas misteriosas. Como um avô muito antigo que tivesse guardado para nós, escondido no fundo de uma gaveta, uma prenda preciosa.»

Manuel Hermínio Monteiro, In Agenda Assírio & Alvim (1999)

14/11/2004

O espírito do lugar


Foto: pva 0411 - Vidago

«Há lugares que sabem expor com prodigiosa habilidade o seu espírito. Sentimos neles uma ternura, um afago de colo. Sem darmos conta, emaranhamo-nos nos seus capilares sediosos. E quanto mais nos tentamos afastar, mais os sentimos esponjados e a nós tomados. Se os víssemos ao contrário, descobriríamos nestes lugares o trabalho de aranha e no seu encantamento, uma injecção dos venenos.

Vidago é um desses lugares. Para lá chegar, indo do Sul, tem que se subir muito. Passar por Samardã. Por Camilo. Pelos lobos. Por pedregulhos, tojos e urzes. Depois vão surgindo os pinheirais, cada vez mais densos. De dentro do seu verde espesso elevam-se plátanos gigantescos. Nunca vi outros maiores. Um comboio fumegante, pequenino como nas histórias, chegava sempre atrasado, e quase piedoso, a este lugar. Uma pequena estação sufocada pelo arvoredo recolhia-o logo, abrindo-se depois para as alamedas dos grandes plátanos. Nas suas altas copas escorriam longamente os primeiros dias de Outono. A luz amarelada dos globos acendia-se antes do tempo. (...)

Mas também estes lugares são atacados pela morte. Primeiro, interrompeu-se o curso dos comboios. Os pinheirais arderam neste Verão. O Tâmega "apareceu" poluído. (...) O vento desce agora, impiedoso, da serra. Rodopiam pelo chão as folhas secas das tílias e dos plátanos. A fuligem recobre a estação abandonada. (...)

Com o tempo, resta aos lugares instalarem-se dentro de nós. E crescerem desmesuradamente com os dias. Nós é que os protegemos. Eles servem para representar a nossa história.»

Manuel Hermínio Monteiro, In O Independente (1990)

25/09/2004

Andam a destruir o silêncio

«Guardamos ainda como num baú de duplo ferro o silêncio antigo dos nossos campos e aldeias. Silêncio espesso e muito. E por dentro, o som de água a correr e a cair no tanque. Uma mãe a chamar o filho ao longe. Os chocalhos dos animais regressando ao fim do dia. Um homem que assobia enquanto rega. O toque dos sinos. Uma cotovia. Um melro no milheiral. Cantigas nas vindimas. E de noite o silêncio crescia mais esplendoroso, apontado por grilos, ralos e noitibós. As estrelas abriam-no por cima, e o interior das casas impregnava-se de visões. Na nossa província, o barulho arrecadava-se com juros para as festas e romarias: morteiros que viravam os vinhos. Altifalantes a chiar nos tímpanos. Bandos destemidos no fagote e no trompete. Zés-pereiras de estremecer o peito. Fanfarras e bombos. Logo de seguida o silêncio recompunha-se igual a um manto, juntando os dias e as estações como se a terra exigisse serenidade para produzir os frutos. Parece ficção mas não era. Parece um luxo e era natural.»

Manuel Hermínio Monteiro, Urzes (texto de 1992)