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21/10/2009

À sombra duma azinheira



Quercus rotundifolia Lam. - Santuário de Fátima

Duzentos quilómetros para sul na A1 e ainda estamos aquém Tejo, mas Fátima é terra de azinheiras, tanto como as planícies do além (Tejo). E muito mais gente se senta à sombra delas neste centro de peregrinação do que em Grândola, vila morena da cantiga revolucionária. A lição a reter é que a árvore não tem cor política nem credo religioso: comunista ou latifundiário, ateu ou devoto, a todos abriga a azinheira que já nem sabia a idade.

A azinheira grande, testemunha das aparições de 1917, ocupa, no recinto do santuário, o centro de um grande canteiro circular, delimitado por um muro com sebe e gradeamento. Não lhe falta terra viva para o sustento, e a impossibilidade de os peregrinos lhe tocarem salvou-a de ser depenada por caçadores de relíquias, como sucedeu à azinheira em que Nossa Senhora teria pousado. Essa distância de segurança talvez impeça que, em sentido estrito, as pessoas se sentem à sua sombra: é preciso escolher o lado certo e esperar que o sol esteja baixo. Mas a árvore, que foi classificada de interesse público em 2007, ressuma história, e a sua simples proximidade já é acolhedora.

Na envolvência do santuário há muitas mais azinheiras - e dessas, por não terem tido comércio com o sagrado, toda a gente pode chegar perto. É lá que famílias inteiras, desempacotando os farnéis, abancam para os piqueniques. As oliveiras, árvores de prestígio bíblico mas de mais escassa sombra, alinham-se em extensas plantações. Duas grandes alamedas de ciprestes-do-Buçaco ladeiam o recinto. Por todo o lado há lugares sentados protegidos pelas copas das árvores.

Mesmo para quem, como eu, não partilha a religiosidade que atrai multidões a Fátima, é impossível não reconhecer a grandiosidade e a excelência arquitectónica deste lugar. Uma grandiosidade onde a brancura da pedra é atenuada pelo verde, e que não é fria nem inóspita, pois foi pensada para confortar, e não apenas para impressionar, quem a ela se acolhe.

P.S. Pode ler aqui excertos dum texto de Fernando Catarino sobre a azinheira grande.

26/08/2009

A sombra que fica



Quercus robur L. - Paços de Ferreira

O concelho de Paços de Ferreira foi criado em 1836, resultante de uma cisão da comarca de Penafiel; em 1993, a até então vila foi promovida à categoria de cidade; em 1997, inauguraram-se os novos Paços do Concelho, ficando o anterior edifício camarário a servir de Museu Municipal. Anterior a estas datas marcantes, indiferente a todas elas, é o carvalho-alvarinho no Jardim Municipal, contíguo ao agora museu, que continua, como há cem ou duzentos anos, a fornecer sombra fresca a quem o procura nos tórridos dias de Verão. Distando o concelho apenas 25 quilómetros do Porto e da costa atlântica, o efeito temperador do oceano já lá não chega: os invernos são mais frios e os verões mais quentes do que à beira-mar.

Tirando as que existem no Jardim Municipal, onde, além deste carvalho, vegetam tílias, magnólias, lódãos e carvalhos-americanos, poucas são em Paços de Ferreira as sombras proporcionadas pelas árvores. À volta do centro, novos bairros com prédios de sete ou oito andares erguem-se nas colinas rasgadas por largas avenidas; mas não há o alívio de um jardim, e as árvores, em caldeiras minúsculas, são poucas e enfezadas. Apesar da impressão inóspita causada pela desproporção entre o verde e o betão, Paços de Ferreira parece orgulhar-se dessa cidade geométrica e recém-estreada: há restaurantes e bares da moda, assiste-se a um arremedo de vida nocturna.

De modo que, falando de árvores, o futuro em Paços de Ferreira confunde-se com o passado. Se este carvalho (classificado em 1940 e um dos primeiros no país a receber tal galardão) ainda cá estiver daqui a cinquenta anos, será dele ainda a única sombra que apetece em toda a cidade.

29/07/2009

Gigantes da Beira



É o rio Côa que se vislumbra entre as ramagens deste cedro. Mais acima, na mesma ladeira, ficam o Museu e o Auditório municipais da cidade do Sabugal. Foi lá que decorreu, a 25 de Junho, a primeira parte do seminário Árvores monumentais - importância e conservação, de que o Pedro Santos publicou há dias na Sombra Verde uma reportagem em três partes (confira aqui, aqui e aqui).

A mascote não oficial do encontro foi a sequóia-gigante centenária que arrebita a sua elegante flecha no jardim contíguo ao auditório. Trata-se de uma árvore admirável, e foi graças às diligências do Pedro que esse carácter de excepção lhe foi reconhecido em Agosto de 2008, quando a Autoridade Florestal Nacional a declarou árvore de interesse público. É a segunda árvore do concelho do Sabugal que ostenta esse galardão; antes dela, em 2004, tinha sido classificado um dos veneráveis castanheiros que visitámos no passeio de 26 de Junho.


Sequoiadendron giganteum (Lindl) J. Buchholz

Já antes explicámos ao leitor as razões para nos sentirmos pequeninos face a estas sequóias, que são, no seu habitat natural (Sierra Nevada, na Califórnia), as mais volumosas árvores do mundo, e também das mais longevas. Em lugar de nos repetirmos, convidamo-lo a recapitular aqui a matéria dada. A sequóia do Sabugal, ainda longe de atingir o porte das suas irmãs mais velhas, vale como promessa. E é à conta dessa promessa (que a seu tempo cumprirá, se a tratarem bem) que vai tendo o ego bem afagado, como presença já habitual na blogosfera lusa.


Sequoiadendron giganteum - Parque do Hospital da Guarda

Há uma segunda espécie de sequóia (Sequoia sempervirens), também nativa da Califórnia, que, por se ter adaptado melhor ao nosso clima, se encontra em parques e jardins um pouco por todo o país. A Sequoiadendron giganteum, porém, originária de uma zona de montanha (entre os 1500 e os 2000 metros de altitude), prefere climas mais secos e frios. Em Portugal, as condições ideiais para o seu desenvolvimento parecem concentrar-se na Beira Interior, num triângulo com vértices na Guarda, no Trancoso e no Sabugal. Na cerca do Hospital da Guarda, antigo sanatório, há um conjunto de mais de cinquenta sequóias-gigantes plantadas na primeira década do século XX, num parque inaugurado pelo rei D. Carlos em 1907; a mais alta supera actualmente os 47 metros de altura. O parque será uma miniatura quase infantil das famosas florestas de sequóias na Califórnia; mas, por muito pequenas e poucas que sejam essas árvores na Guarda quando medidas por tão exigente bitola, são senhoras bem capazes de nos suscitar respeito e admiração.

21/07/2009

Carvalho de Calvos


Quercus robur L. - Calvos, Póvoa de Lanhoso

Pode alguém ser dono da Grande Pirâmide? A arte é eterna e não se deixa possuir; nós é que somos possuídos por ela. Era isto que concluíam em uníssono o professor David Kapesh (ou seria Ben Kingsley?) e a jovem autora por ele entrevistada em programa radiofónico sobre literatura. Tratava-se de um filme (Elegia, de Isabel Coixet) ou, para quem prefira dar-se ares de erudito, de um livro (The Dying Animal, de Philip Roth), mas a ideia da perenidade da arte face à curteza da vida humana nada tem de original. O professor / entrevistador enunciava-a com a segurança de uma verdade há muito consabida; como quem recita uma oração, as palavras fluíam-lhe sem peso. Talvez nem as sentisse - elas apenas cumpriam uma função utilitária no jogo de sedução a que Kapesh, incorrigível sátiro, se entregava.

Em suma, a ideia é tão banal que até a publicidade se apropriou dela: o pai de família não é dono do valioso relógio suíço, apenas cuida dele para a geração seguinte, etc. etc. Mas um relógio, ou mesmo uma pintura, podem-se esconder da vista de todos. Se forem destruídos ou, como era hábito fazer com os tesouros dos faraós, sepultados com os donos, poucos lhes darão pela falta. O que nos impressiona são as coisas realmente grandes, impossíveis de ignorar ou de esconder, que estabelecem um elo entre gerações muito afastadas. As pirâmides, claro. Todos os nossos grandes monumentos em pedra. E por que não também as árvores?

O carvalho de Calvos já teve muitos proprietários; mas eles passaram, como passaremos nós, e o carvalho lá continua. Afinal talvez não tenha tido nenhum dono; teve, simplesmente, admiradores agradecidos, como nós somos hoje. Alguns tão agradecidos e admirados que lhe exageram a idade e engrandecem as medidas. No folheto que é fornecido no Centro Interpretativo do carvalho de Calvos atribuem-lhe um perímetro à altura do peito (PAP) de 10 metros; mais sóbria, a Autoridade Florestal Nacional, que o classificou em 1997 como árvore de interesse público, achou-lhe um PAP de apenas 7,4 m quando o mediu em 2006. E, enquanto os seus íntimos o dizem milenar, esses desmancha-prazeres de fita métrica em punho lhe dão quinhentos anos de vida.

(Para impor de vez a verdade subjectiva só ao alcance do amor deslumbrado, alguém fez cravar, num dos castanheiros que visitámos no Sabugal - nem sequer o de maior envergadura -, uma placa informando que ele foi ali plantado no ano de novecentos e tal. Mais de mil anos de vida bem contados é pois o que atesta a legenda. Quem se atreverá a negar ao castanheiro os anos gravados na pedra?)

Controvérsias à parte, o carvalho de Calvos é de longe o maior da sua espécie na Península Ibérica, e talvez o mais antigo. Ao contrário de outras árvores multisseculares, exibe uma copa frondosa e pujante (35,5 metros de diâmetro), e promete ultrapassar este vigésimo-primeiro século DC com a mesma facilidade com que atravessou os cinco (ou dez) anteriores. Observá-lo de perto é uma experiência incomparável, uma vertigem que nos deixa emudecidos. A Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, além de ter feito dele o centro de um projecto de educação ambiental, guardou-lhe um generoso perímetro de protecção, escorou-lhe as ramadas, e vigia-lhe ciosamente a saúde. Bem haja a Câmara pelo carinho com que protege este monumento vivo.

P.S. O Pedro Santos, da Sombra Verde, também se enamorou por este carvalho, e já por duas vezes escreveu sobre ele: confira aqui e aqui.

15/08/2007

A ler- "Descansar os olhos na azinheira"

no Público de hoje, por Fernando Catarino

«(...) * Nome científico: Quercus rotundifolia Lam, família Fagaceae. A história de Fátima está indelevelmente ligada a esta árvore, que, ao tempo das aparições, era muito abundante na Cova da Iria.
Em plena paisagem cársica, junto ao rebordo norte do planalto de São Mamede, há uma sucessão de afundamentos no relevo, pequenas depressões fechadas, de fundo abaulado, de onde veio o nome "cova". Estas covas opõem-se a estruturas semelhantes mas mais extensas e aplanadas, os "covões", que se encontram junto de diversas povoações com a mesma denominação.
Não faltavam, na Cova da Iria, penedos e locais para as brincadeiras, havendo pasto fresco todo o ano, pelo que os pastorinhos gostavam de lá levar o gado. Apesar da aridez da serra, a Cova da Iria tem um clima mais húmido do que o restante Maciço Calcário, devido às chuvas e à humidade dos ventos tocados de norte.
(...)
Do ponto de vista botânico, as azinheiras pertencem a um grupo de árvores com uma vastíssima distribuição biogeográfica e grande diversidade, agrupadas sob o nome comum de "carvalhos". Trata-se de vegetais com grande interesse científico que caracterizam bem as peculiaridades edafo-climáticas e a ecologia de muitas paisagens no hemisfério norte.
De grandes longevidade e dimensões, dada a excelência da sua forma arbórea, a riqueza de utilizações e o valor económico, estas árvores são marcas notáveis dos locais e das paisagens em que ocorrem. Não admira, por isso, que façam parte integrante da memória e da história cultural dos povos que sempre lhes votaram destacado lugar nas lendas e na literatura.
Ricas de simbolismo, a ponto de, em várias civilizações antigas, terem tido o estatuto de árvores sagradas, as quercus, o nome que os romanos davam aos carvalhos, merecem, só por si, ser protegidas e ter a sustentabilidade dos habitats em que ocorrem assegurada.

Foi, decerto, uma bênção que, nas repetidas e vultuosas obras de adaptação e modernização do recinto do santuário, tenha sido possível poupar a belíssima
"azinheira grande" , junto à Capelinha, recentemente considerada de "interesse público". Com ou sem peregrinos à volta , faça o tempo que fizer, é sempre reconfortante descansar os olhos em tão formoso padrão vivo, testemunha e memória da harmonia ambiental do sítio e do tempo dos pastorinhos.

*Excertos da entrada "Azinheira", da Enciclopédia de Fátima, Ed. Principia; selecção de textos de António Marujo»
..................
Ler excertos de "Pastoral" (1º quadro) e "A Flor da Azinheira" (2º quadro) de O mistério de Fátima entrevisto, visionado e contado em alguns poemas por António Correia de Oliveira, 1954

22/05/2007

Sobreiro centenário classificado- Canhestros

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Este imponente sobreiro (Quercus suber), com a idade provável de cerca de 200 anos, classificado de interesse público em Outubro de 2001, fica localizado no lugar de Canhestros, freguesia e concelho de Silves.
Na altura da visita, em Agosto de 2004, existia um arremedo de placa > ,tombado por terra, evidenciando o despeito que alguém sentia por aquele estatuto, impeditivo do avanço de parte do projecto de construção (creio que o alargamento de um acesso ou algo que o valha como nos informaram então).
Tenho curiosidade em saber se quando foi visitado pelos nossos amigos do Sombra Verde, há cerca de um mês, o sobreiro dito de Canhestros estava identificado como árvore de interesse público. Realmente, é uma pena que o exemplo do Sobreiro de S. Geraldo não seja seguido pelas autarquias. Na minha opinião a lei de 1938 deveria ser actualizada de modo a incluir- entre outras coisas- a obrigatoriedade da sinalização das árvores classificadas.

21/05/2007

Sobreiro de S. Geraldo



Fotos de Eduardo Basto

«Não me estou a fazer à publicação no DcA, (...) mas achei que se calhar vos interessaria. A árvore, aparentemente mais acarinhada que o costume, fica em Veiros, que é uma terrinha mais ou menos entre Estarreja e a Murtosa -- até há uma placa na estrada a dizer "árvore monumental" ou algo parecido, já não me lembro bem. Não sei cá PAPs nem coisas nenhumas dessas, mas a árvore tem um aspecto invulgar, bastante curioso, com o tronco curto mas ainda assim muito irregular.»

Claro que nos interessa e muito, Eduardo. É um exemplo do que nós gostaríamos que fosse feito com todas as árvores de interesse público no país: divulgadas e acarinhadas. No Porto, onde nem uma só dessas árvores tem placa, quase ninguém repara nelas ou sabe da sua existência. Estão pois de parabéns a população de Veiros, a sua paróquia (que é proprietária da árvore) e ainda, por promoverem este sobreiro multi-centenário como património local digno de ser visitado, a Junta de Freguesia de Veiros e a Câmara de Estarreja.

04/05/2007

Senhoras árvores

Pinheiro Manso - Benagouro

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Pinheiro manso (Pinus pinea) em Benagouro freguesia de Vilarinho da Samardã.
Fica sobranceiro à estrada que liga Vila Real a Chaves e não passa despercebido à saída da curva mesmo ao pé do café Pinheiro. Visitámo-lo numa tarde quente de Setembro de 2003 -no mesmo dia em que também fomos conhecer o de Loivos. Com a provecta idade de 300 anos (de acordo com a documentação da DGF) foi classificado de interesse público em Janeiro de 2001.

09/04/2007

Rhododendron's season




Fotos tiradas em Abril de 2006 durante uma visita organizada pela Campo Aberto. Ver álbum de fotos aqui.
Rododendros e azáleas em flor num dos jardins da Quinta de Santo Inácio (Avintes,Vila-Nova de Gaia). Estes jardins e o bosque foram recentemente classificados de interesse público. Na foto da direita em baixo vê-se um Eucalyptus obliqua que deverá ser o maior de Portugal.

06/04/2007

Quedas de Fervença




Se as águas do rio Leça, aqui tão perto da nascente, soubessem das ignomínias que lhes estão reservadas nos mais de 40 quilómetros que lhes faltam percorrer até à foz, no porto de Leixões, por certo desistiriam do seu curso e, contrariando a gravidade, remontariam ao aconchego limpo de onde saíram. Mas ei-las vivas e fervilhantes de espuma, saltitando inocentemente de pedra em pedra, enquadradas pelos amieiros que já vão brotando folhagem nova neste começo de Abril, muito longe de imaginar que delas se vai fazer o rio mais poluído da Europa.

Para visitar as quedas de Fervença, esse infantário onde um rio Leça menino aprende a brincar, comece por estudar num mapa de estradas o trajecto até Monte Córdova, freguesia do concelho de Santo Tirso onde Camilo Castelo Branco quis que vivesse uma bruxa. É lá que fica o carvalhal de Valinhas, de onde parte um caminho pedestre, algo acidentado e declivoso, que se estende por algumas centenas de metros entre matas de eucaliptos. O rio Leça, atencioso com os caminhantes, faz-se ouvir quando o caminho se bifurca, apontando a direcção a tomar. E ei-lo ao fundo da ribanceira, intervalo inesperado de vida e frescura no monótono eucaliptal.

04/04/2007

Castanheiro centenário- Pussos

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«Este pequeníssimo bosque de castanheiros, carvalhos, sobreiros, pinheiros e pilriteiros, no Carvalhal de Pussos, concelho de Alvaiázere (Leiria), nasceu de um abandono.
Todo o palmo de terra, nesta terra, tem dono, e a propriedade é condição exigente de rentabilidade, num povo que foi (é?!), sem demagógicos discursos, pobre e iletrado.
São três os destinos possíveis para um palmo desta terra: uma habitação, junto às rodovias que atravessam a localidade, ou uma horta, nos solos regados do vale ou no sopé das colinas suaves, ou um eucaliptal, monocultura maioritária que cobre os montes. Do abandono de uma horta, há cerca de 50 anos, e porque o processo de herança, após o falecimento da velha agricultora, havia ficado difuso, foi a Natureza quem, legitimamente, recuperou o que lhe pertencia. Com a mestria de uma artista criadora, ela desenhou um habitat selvagem, tornou-o de difícil acesso, e camuflou-o das atenções humanas.
Em 2006, aos 25 anos, um rapaz que morava a 300 metros da floresta, na colina contrária, arriscou seguir os trilhos dos animais, abrindo caminho pelos silvados densos. Na clareira do bosque ergue-se o coração protegido da floresta: um castanheiro centenário, da espécie comum Castanea sativa (Mill.), com um perímetro circunferencial máximo de 13 metros. De copa e altura comuns (entre 12-14 metros estimados de altura), a invulgar característica desta árvore é a sua forma: tem 9,50 metros de “anca” (junto ao solo), 7 metros de “cintura”, e cerca de 13 generosos metros de “peito” – em boa forma física, portanto. Acima do “peito” erguem-se, como serpentes na cabeça da Medusa, uma dúzia de troncos secundários que formam a copa.

Um simpático casal de esquilos comuns foi adoptado pelo velho ancião castanheiro e vivem todos felizes.

[O castanheiro centenário é desconhecido pela maioria dos habitantes da aldeia, e aguarda resposta para classificação de Património de Interesse Público, pela Direcção-Geral dos Recursos Florestais ] »


Texto de Alexandre Inácio e fotos de Catarina Mendes

03/04/2007

Um de vós será coroado rei




Alertados por um emissário madrugador, chegámos ao local antes de subir o pano, e por isso as fotos saíram com a cor errada: em vez de verde-alface ficaram pintadas de amarelo-torrado, tom da folhagem embrionária dos carvalhos de Valinhas. Tal precipitação impõe-nos o grato dever de, no papel de inspectores cromáticos, lá voltarmos daqui a duas ou três semanas. É importante mantermos vigilância assídua nas regiões demarcadas do verde-alvarinho, cor ameaçada pela omnipresença estéril dos eucaliptais. Não é só a cor que desfalece na paisagem ao transpormos, em Valinhas, a vereda que separa a pequena mata de carvalhos dos infindáveis hectares de eucaliptos: desaparecem as flores silvestres mas também se apagam os sons dos pássaros e da água a correr.

Um dos carvalhos de Valinhas, não sabemos se o mais forte ou o mais sábio, é por assim dizer o rei do carvalhal: foi declarado de interesse público em 1940, destacando-se dos seus companheiros pelo título nobiliárquico; mas, como não usa ceptro nem coroa, não é fácil distingui-lo dos seus súbditos. É um rei à feição daquelas monarquias avançadas como a Holanda ou a Dinamarca, onde príncipes e plebeus convivem igualitariamente em transportes públicos e filas de supermercado. Nem sequer sabemos se o carvalho-rei ainda vive ou se, por limite de idade, abdicou em favor de algum descendente. Mas o mais provável é que se mantenha no posto: 67 anos é pouco para um carvalho reinar, tanto mais que a sua colega de profissão, Isabel II de Inglaterra, pertencente à bem menos longeva espécie humana, há já 55 que ocupa o trono.

28/03/2007

Árvores Classificadas de Interesse Público- Novidades

post reeditado
  1. No site da Direcção-Geral dos Recursos Florestais já se pode pesquisar por distrito as árvores Classificadas de Interesse Público.
  2. «A Câmara Municipal de Lisboa, no âmbito da comemoração da Semana da Primavera (...), lançou no dia 25 de Março o primeiro roteiro online sobre árvores Classificadas de Interesse Público em Lisboa, fruto de um trabalho de pesquisa, actualização e georeferenciação, em coordenação com a entidade tutelar - Direcção-Geral de Recursos Florestais.»
    Na página Lisboa Verde (do site da CML) encontra-se um muito útil «mapa geral de localização da árvores Classificadas de Lisboa assim como vários percursos virtuais, organizados no tempo e no espaço, destinados à promoção de uma prática adequada à descoberta e exploração das mesmas.»
    (via jardinando sem parar )

Relativamente ao Porto, pode ver-se aqui e aqui a fotografia e a localização das árvores classificadas da cidade. Sabemos haver o propósito, por parte da autarquia, de também se publicar um roteiro dedicado a estes "monumentos vegetais". Enquanto isso não acontece, sugerimos o Mapa Verde (publicado pela Campo Aberto e que pode ser adquirido na sede da Associação ou via mail ), em que as árvores e conjuntos arbóreos classificados da cidade estão assinalados.

22/03/2007

A ler

UM DIAS DE MUITAS COISAS ... A PRIMAVERA É ASSIM
no jardinando sem parar

«(...)Como hoje, para além do dia da árvore, também é dia da infância, da poesia e do teatro, vou arriscar e, não sei bem se no papel de actor, de poeta, de criança ou de admirador de árvores monumentais, recitar a minha proposta (ou sonho, ou poema, ou ficção):

Lançar um programa de levantamento das árvores monumentais do País, solicitando o apoio das autarquias, de escolas, de empresas, de associações ambientalistas e outras com interesse e capacidade de colaborar nesta tarefa, com o objectivo de... em 2013 ter finalizado todo o processo de inventariação, selecção e classificação e editados materiais de divulgação, principalmente para utilização nas escolas e em promoção turística.


Porquê esta data? Por 3 motivos:

1º - 6 anos é um período de tempo razoável para uma missão que exigiria algum esforço de coordenação e mobilização, principalmente atendendo à óbvia necessidade de ser feita com custos reduzidos

2º - seria interessante que, passados 100 anos do decreto nº 682, de 1914, que mandava proceder ao inventário, classificação e divulgação das árvores notáveis, se tivesse conseguido concretizar os objectivos que aí foram definidos, apesar de em grande parte relativos já a outras árvores

3º - corresponderia ao final do mandato legislativo seguinte o que, tratando-se de um objectivo nacional, daria frutos à equipa actual, por ajudar a lançar o trabalho, e à seguinte, fosse ou não a mesma, por terminá-lo

Estou convencido que, de uma maneira ou de outra, vamos mesmo chegar a 2014 com as árvores “monumentais” bem identificadas, com publicações, sinalética e outra informação facilmente acessível, que ajudará a que a maior parte/uma parte maior da população tenha conhecimento do valor desse património, prazer em observá-lo e interesse na sua salvaguarda. (Ainda há optimistas não cépticos)

(...)» texto completo

APOIAMOS esta proposta!

(Por favor comentem no jardinando sem parar já que o texto foi tirado de lá ;-)

26/12/2006

Ginkgo - Virtudes

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Ginkgo biloba - Jardim das Virtudes, Dezembro 2006

Há pouco menos de uma semana era assim que se encontrava a "Rainha das Virtudes": nos derradeiros dias de doirada exuberância, como escreveu José Bandeira em Ginkgo, a biloba.
Os seus mais de 35 metros de altura e 4,3 m. de perímetro de tronco (a 1.30 m. do solo) dão-lhe direito a um lugar de destaque no ranking das maiores da Europa e, até prova em contrário, o título de recordista absoluta em Portugal, tendo sido classificada árvore de interesse público no início de 2005. Este ano, devido ao facto do Jardim das Virtudes se encontrar encerrado > , a cromoterapia exerceu-se à distância...


Dezembro 2005
Ver outras fotografias desta árvore junto a alguns outros (poucos) espécimes portugueses que figuram no album de fotos das Ginkgo pages .

07/08/2006

Oliveiras multisseculares - Serpa

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Oliveiras (Olea europaea L. var. europaea) classificadas de interesse público em 2001
Ver
mais fotos das oliveiras ao pé do aqueduto (por Vitor Oliveira- via Serpa (wikipedia)

Sobre estas oliveiras de Serpa, Ernesto Goes no seu Árvores Monumentais de Portugal (1984)escreveu o seguinte: «... em frente ao jardim público de Serpa e junto à estátua do Abade Correia da Serra , célebre botânico que viveu nos fins do século XVIII e princípios do século XIX, e natural desta vila, foram transplantadas 3 oliveiras multisseculares (possivelmente milenárias) de grande porte.
Estas oliveiras foram transplantadas em 1958 pelo distinto eng.º Silvicultor Pulido Garcia, também natural desta vila, que vingaram devido a uma técnica apurada. A maior delas tem 6.9 m. de PAP e as outras cerca de 5.5 .
Também junto à muralha do Castelo foram transplantadas várias oliveiras multiseculares.»


Passados quase cinquenta anos após a transplantação, estas oliveiras continuam a vingar tendo sido classificadas como árvores de interesse público em 2001, como se fica a saber na página sobre Património Natural do site da Câmara Muncipal de Serpa.
....
PS: Há muito que queria publicar fotografias destas oliveiras de Serpa e decidi-me finalmente, ao ler ontem no JN uma pequena reportagem sobre três oliveiras emblemáticas do concelho de Mirandela (chamada a Cidade das Oliveiras devido aos cerca de 750 exemplares dos seus jardins, ruas e avenidas > ) . Muito interessante a ideia de «uma rota unindo todos estes "monumentos vivos"»: com efeito para o património arbóreo poder ser "chamariz de turistas" tem que estar devidamente identificado e sinalizado o que infelizmente é raro acontecer. Veja-se por exemplo o caso do Porto em que nenhuma das árvores classificadas da cidade está assinalada como tal.

03/08/2006

Jardim e mata protegidos


Santo Inácio: carvalho-alvarinho, rododendros e Eucalyptus obliqua

O arvoredo oitocentista da Quinta de Sto. Inácio, que inclui uma colecção notável de camélias portuguesas, rododendros e kalmias, além de majestosos carvalhos, pinheiros mansos (cujo registo de plantio data de 1800), eugénias, avelaneiras, azevinhos, azereiros e cuningamias - companhias de uma elegante araucária brasileira e um venerando tulipeiro - está finalmente classificado como de interese público. Uma distinção atribuída ao jardim romântico e à mata da Quinta pela Direcção-Geral de Recursos Florestais (Diário da República, 2ª Série - Nº 146 de 31 de Julho de 2006 - cópia aqui) que aguardávamos com expectativa dada a ameaça de construção de uma via rápida que iria truncar a ala nascente da propriedade.

Há na Quinta outro conjunto de árvores digno de nota: várias espécies de eucaliptos criados de sementes australianas recebidas por Roberto e Christiano Van-Zeller da Sociedade de Divulgação do Eucalipto por troca de sementes de couve galega, como documenta uma carta do Departamento de Agricultura de Victoria, de Dezembro de 1911, na posse dos herdeiros.

19/07/2006

Araucaria classificada - Vila Praia de Âncora

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Classificada de interesse público em 1995, esta araucária habita um pequeno jardim na rua de 5 de Outubro em Vila-Praia-de-Âncora (Concelho de Caminha). Media então 45 metros de altura, 3.40 m. de perímetro (a 1.30 m. do solo) , 13 a 14 m. de diâmetro de copa e -segundo a placa "identificativa" que se encontra ao seu lado- terá sido plantada em 1886. Trata-se de um dos mais altos exemplares da araucaria mais comum em Portugal, a Araucaria heterophylla -o que não confirma o que diz a referida placa...-vulgo araucária-de-Norfolk, espécie originária da pequena ilha australiana de onde deriva a sua designação vulgar, e em cuja bandeira aparece representada.
Tentando ajudar M. Simões -que muito gentilmente nos enviou as duas fotos panorâmicas que publicamos- a encontrar informações sobre araucárias-de-Norfolk de porte semelhante transcreve-se o que Ernesto Goes diz no seu livro de 1986 sobre as dimensões de duas das mais notáveis destas araucárias em solo português: «O maior exemplar que conhecemos desta espécie situa-se no Parque de Monserrate em Sintra, próximo do Palácio, que tem 6. 25 m. de PAP, 44 m. de altura e 22 m. de diâmetro. Esta árvore deve ter sido plantada em meados do século passado, pelo primitivo proprietário desta Quinta, Sr. Francisco Cook, de nacionalidade inglesa. (...)
O segundo exemplar em grossura de tronco situa-se no Jardim do Monteiro Mor (Jardim do Museu do Traje) no Lumiar, em Lisboa. Trata-se da araucária mais antiga do país; plantada por Jacome Ratton no final do séc. XVIII, e também a primeira plantada na Europa ao ar livre. Tem presentemente 5, 93 m. de perímetro (PAP), 43.5 m. de altura e 20.2 m. de diâmetro da copa. (...) » (nota: de acordo com o site do Instituto Português dos Museus a data de plantação terá sido 1842 > cf. )


Araucária de Vila-Praia de Âncora- Araucaria heterophylla classificada de interesse público em 1995
Fotos: © manueladlramos e Manuel Simões - clicar nas imagens para aumentar

21/06/2006

Os nomes das árvores - Metrosideros



Metrosideros excelsa- Av. Montevideu (Classificados de Interesse Público em Janeiro de 2005)

À semelhança das araucárias, das camélias e dos liquidâmbares, por exemplo, os metrosíderos são árvores cujo nome vulgar deriva directamente da designação científica do género, Metrosideros.
Este foi estabelecido por Joseph Banks (1743-1820) naturalista inglês e grande mecenas da ciência que participou na primeira viagem de James Cook ao Sul do Pacífico a bordo do Endeavour, considerada a primeira expedição dedicada a fins exclusivamente científicos. Organizada em 1768 sob os auspícios da Royal Society, passou primeiro pela América do Sul e seguiu depois para a Nova Zelândia e Austrália.

A equipa científica que J. Banks reuniu era constituída por voluntários possuidores de conhecimentos de botânica e zoologia e incluía dois pintores ilustradores que, segundo os relatos, não tinham mãos a medir, sem tempo sequer para colorir as ilustrações do material recolhido, deixando por vezes apenas as indicações das cores. (ver Ilustrações Botânicas da Expedição)
O herbário, constituído ao longo dos quase quatro anos que durou a viagem, constava de nada menos do que 1300 novas espécies e 110 novos géneros, número em que incluía o género Metrosideros. A designação alude a uma das principais características destas árvores (e arbustos): a dureza da sua madeira, semelhante ao ferro -sideros, em grego; com o primeiro elemento do nome- metro, do grego metra, útero- a transmitir a ideia de meio, interior.
Os metrosíderos pertencem à extensa família das Mirtáceas*, onde igualmente se incluem os eucaliptos, as melaleucas, os calistemon, as murtas, etc.. Há cerca de 20 espécies de metrosíderos, onze das quais são originárias da Nova Zelândia. Em Portugal os mais comuns são os Metrosideros excelsa, sendo este último termo, referente à espécie, indicativo do porte que a árvore pode atingir em plena maturidade: acima dos 20 metros de altura, com copas de mais de 30 metros de diâmetro. A designação sinónima de Metrosideros tomentosa que esta espécie ainda assume em alguma literatura, alude à característica lanugem branca que recobre a página inferior das folhas.

Na Nova Zelândia mantem-se o costume de também se chamarem as árvores pelo seu nome indígena, neste caso "pohutukawa", o que significa em linguagen maori, "salpicada pelo mar". Com efeito estes metrosíderos adaptam-se aos solos mais inóspitos e resistem ao sal dos ventos marítimos e da água do oceano, conseguindo crescer nas falésias rochosas, deixando então pender as suas características raizes aéreas sobre o mar. Em condições extremas não ultrapassam o estado arbustivo, com pouco mais de um metro de altura, não deixando no entanto de florir abundantemente.
Esta espectacular floração dá-se, no Sul do Pacífico, entre Novembro e Janeiro, o que levou os primeiros colonos ocidentais, nostálgicos das cores tradicionais do azevinho na época natalícia, a usarem os ramos floridos de vermelho destas árvores para enfeitarem as suas casas. Desde então, esta espécie, juntamente com mais três outras espécies de metrosíderos (M. robusta, M. umbellata e M. bartlettii), são, no seu país de origem, também chamadas simplesmente "árvore de Natal", sendo conhecidas nos outros países por "árvore de Natal da Nova Zelândia".
Estas árvores são actualmente consideradas invasoras, por exemplo na África do Sul, enquanto que, por ironia do destino, no seu país de origem estão ameaçadas em certas zonas por uns pequenos mamíferos marsupiais (Trichosurus vulpecula). (Ver a propósito o Project Crimson- "a charitable conservation Trust that aims to protect New Zealand's native Christmas trees - pohutukawa and rata").
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*Mirtáceas no Dias com Árvores