15.2.05

"São bugalhinhos de fogo!"

«Serra de Aire, ladeirando para os píncaros. Prega de rechã, entre dois pequenos oiteiros... A Cova da Iria não está longe; não avista ainda a Terra escalavrada e pedregosa, austera e sofredora, mas trejeitando de primavera nos sarçais e rosmanos floridos. Aquém e além, lumieiras de giestas em pleno resplendor de oiro e neve.
Ali, os três pastorinhos foram descansar os seus rebanhos, embora não haja respiro de fonte e abanar de árvore à aragem. Calor de estio vivo, o Sol também a subir ao planalto da Montanha-Azul. No entanto, os três zagais brincam, riem, tagarelam, ora sentados entre as estevas mais altas, ora no galreado, saltado irrequietismo das crianças saudáveis e alegres.

JACINTA, na ribalta dum fraguedo cantando: O mundo pertence a Deus,/Como ao Sol pertence o dia,/Ao jardim pertence a flor/E o Mês de Maio a Maria.
LÚCIA, a mais velha e acomodada dos três, tentando medir as alturas da manhã:Vamos para o meio-dia.../Que sol bravo! Quem diria?
JACINTA, descendo: Parece que, lá por cima/ (Muita pressa, muita estima!) /Em lugar de ser em Junho,/Já começou o rascunho/Temporão/Das fogueiras/Saltadeiras/A Santo António e João.
FRANCISCO: A Serra, neste reconco,/Lembra-me o forno do pão,/Quando a Mãe, forquilha em punho,/Já tem desfeito em braseira,/Desde a rama até ao tronco,/Toda uma velha azinheira.
LÚCIA, pensativa: Sim! não vai para brinquedos/ Calma assim... Tenho na minha/Que o Sol também tem segredos.
FRANCISCO: Para os dizer à Noitinha?...
JACINTA: E a Noitinha, ao Rouxinol.
(...)
LÚCIA, muito séria: Olhai que já é desmando! (Tira dum bolsilho, sobre o peito, o seu Terço, passando-o pelos dedos. Logo, estremecendo): Coisa assim! Eis senão quando.../O Sol apegou-lhe o lume?! /Minhas contas de vidrilho/Jamais tiveram tal brilho:/São bugalhinhos de fogo!
JACINTA, também impressionada: O Terço fica para logo,/Ao bater do meio-dia,/Conforme ao nosso costume.
LÚCIA, erguendo-se: Pois vamos por aí fora, /Até à Cova da Iria,/ Segundo o Pai recomenda.
FRANCISCO: Vai levar um quase de hora, /E já me tarda a merenda.
(Ajuntam e afoutam as ovelhas).
(...)
OS CHASCOS, galrando e saltitando na pontinha dos tojos: - «Chás, chás!/Por aí bem vás, /Por aí bem vás. »
OS PISCOS, nos ramos dum carrasqueiro, falando aos chascos: - «Pis! pis! /Inda bem que não mentis,/Inda bem,/Como fizestes outrora/A pobre Nossa Senhora/Fugidinha Egipto além.»
(Para os pastores): -«Pis ! pis!/Por aqui bem is.»
(E, chascos e piscos, revolteando, cantando, tomam a dianteira, servindo de alados guias. Francisco, na sua avena pastoril, tenta uns arremessos de marcha heróica e triunfal).
JACINTA, cantando: A Iria dizem que foi. /Linda moirinha encantada./Vou pedir-lhe que se mostre.../Prometo não dizer nada! (...)»

"Pastoral" (1º quadro), Azinheira em Flor- O mistério de Fátima entrevisto, visionado e contado em alguns poemas por António Correia de Oliveira, ed. de C. d'Oliveira, Lda, 1954

Ler excerto de "A Flor da Azinheira" (2º quadro)

3 comentários :

DK disse...

Ó Manuela, não te sabia devota de Fátima e dos pastorinhos... ;o))))) (mas que raio de textos tu vais desencantar!)

manueladlramos disse...

Devota devota (no habitual sentido da palavra) dos pastorinhos, de Fátima, etc. não sou, nem muito nem pouco; e o que me faz acorrer à janela quando passa a procissão das velas na rua, e me leva até a pôr também uma vela acesa na janela, tem a ver com tudo menos com "fé": é assim como que uma empatia distanciada por aquela gente, unida nos cânticos e nessa tal fé...
Ontem ao fim da tarde numa sala da escola, em mais uma das intermináveis reuniões em que os professores passam o seu tempo, olhava lá para fora para a bandeira a meia haste, ao vento, um fundo de eucaliptos e de pinheiros, mais ao longe a torre da igreja, o ceú sossegado, os sinos...: foi um bocado do Portugal antigo que ontem foi a enterrar e bem, no dias com árvores, andamos mais ou menos sintonizados com o que se vai passando, não são dias fora do tempo (apenas).
O texto, o texto, imediatamente pensei nele como não podia deixar de ser e desenterrei-o como tu dizes da minha colecção (tu sabes bem que faço colecção de textos sobre árvores!)... Não podia ser mais apropriado, ou não fora o seu autor António Correia de Oliveira, poeta do regime, e/mas também um dos poetas que em língua portuguesa mais cantou as árvores. E repara como escreve bem! E que vocabulário rico: não conhecia pelo manos "rechã" e "galreado, galrando...". Para além disso acho muito interessante a ideia (gostava até de saber quem a terá já explorado eventualmente):de que -segundo a lenda q Correia de Oliveira aflora no texto- na Cova da chamada Iria já lá habitava uma moura encantada...e a nossa senhora para estas crianças era a reincarnação cristianizada dessa moura. Não é interessante? Mas voltanto às árvores e à flora, o texto está cheio de referências e o quadro seguinte, em que aparece a Nossa Senhora, chama-se até A Flor da Azinheira! ;-)))

DK disse...

Obrigada pelo eloquentíssimo esclarecimento, que daria bem assunto para uma outra entrada! ;o)