18.2.05

A Flor da Azinheira

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A propósito da função mediadora da árvore na comunicação com o divino -azinheira de Fátima, parte dois:
«(...) Bordejam a Cova algumas velhas, tamanhonas azinheiras; ao centro, outra mais afeitada e maneirinha, menina e moça ainda, mas tão ramejante, folhenta e enovelada, que lembrará, em verde hipérbole, um enorme manjericão de Santo António.
(...) Entretanto, Lúcia vai descendo, vagarinho, a suave rampa da Cova. Entra sob a redonda e espessa capa da pequena azinheira que está ao centro. Acaricia, abraça-lhe o tronco pouco mais alto do que ela. Olha para o chão, dando sinais de surpresa. Espreita, ao alto, a emaranhada rama. Observa ao derredor. Depois, chamando os companheiros:
LÚCIA: Eh! vinde ver... Coisa assim!.../ Isto não é dos meus olhos:/ Nunca lhes senti refolhos/ De abusão ou de cegueira./ Ora, se não é de mim,/ Será, então, da azinheira?
JACINTA, acorrendo: Lúcia, que foi? o que vai?
FRANCISCO : Viste bruxa? lobishomem?
LÚCIA: Eu não quero que me tomem /De tonta, nem por um ai. (Aponta a árvore)./ Ora olhai-me para a copa.
FRANCISCO: Tão cerrada, que nem opa/ De veludo!
LÚCIA: Olhai, agora,/ Para o chão.../ - Esta Senhora/ Não dá sombra... Nem pontinha!
FRANCISCO, pasmado: Ele é verdade que não!
(...)
(Novo clarão. Este, mais doce, qual imenso pálio de oiro, descendo sobre a Cova da Iria.
É então que na azinheira, - maravilhoso gladíolo a desabrochar dum tufo verdejante,-é então que Nossa Senhora aparece. Espiritualmente mil vezes mais bela do que a "formosa entre as formosas". Divina pomba, toda em arroubo, toda em arrolos de formas mulheris: virginal estátua viva. Parecem de alvíssima penugem seus vestidos e manto. O cordão à cintura deverá ser de fios de sol, torcidos pelos Anjos. As contas do Rosário que traz na mão fina como espadela de espadelar o linho, seriam estrelas que, no Oceano Azul, cristalizassem no tamanho de pérolas. Coroa-lhe a fronte o íris dum diadema, florescido nas mais raras e variegadas pedras dos tesoiros de Salomão.
Ao vê-la, os pastorinhos estremecem de espanto, confusão, temor, ânsia de fugir, encantamento e curiosidade de ficar nem que para sempre fosse).
LUCIA: Ai que Senhora tão linda!
JACINTA: Outra assim não vi ainda.
A APARIÇÃO, em acolhedor aceno: Achegai. Não tenhais medo./ Embora eu seja O Segredo,/ Não vos quero nenhum mal.
LÚCIA, adiantando-se confiadamente: Desculpará. Mas, a gente,/ Assim rústega e temente.../ - Primeiro: Vossemecê/ Donde nos vem? e quem é?/ E que nos manda, afinal?/ Talvez que seja a Rainha?/ Ó que tonta ideia minha!/ Já não há em Portugal... (...) »
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"A Flor da Azinheira" (2º quadro) in Azinheira em Flor, O mistério de Fátima entrevisto, visionado e contado em alguns poemas por António Correia de Oliveira, ed. de C. d'Oliveira, Lda, 1954
Ler excerto de "Pastoral" (1º quadro)
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