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14/10/2009

Aprendendo a ser pássaro


Castanheiros (Castanea sativa Mill.) vistos do Treetop Walkway - Kew Gardens

Uma das frustrações de quem vai à cata de castanhas, agora que é quase chegado o tempo delas, é a safra depender da boa vontade da árvore. Se ela não nos quiser presentear com os seus frutos, não há como demovê-la a deixá-los cair. Conformados com tais caprichos, voltamos uns dias depois - altura em que constatamos, com mal contida fúria, que alguém se nos antecipou, colhendo tudo aquilo que por direito de prioridade nos pertencia. É deplorável o ponto a que chegou a falta de civismo neste nosso desgraçado país.

Foi decerto para resolver este problema que, na esclarecida e cívica Inglaterra, se inaugurou em Maio de 2008, nos Kew Gardens, esta estrutura metálica com 18 metros de altura, que proporciona aos colectores de castanhas um circuito de 200 metros bem ao nível da copa das árvores. Árvores essas que são, quase todas elas, castanheiros carregadinhos com a promessa de deliciosos magustos. Basta o visitante esticar os braços - com as mãos de preferência protegidas por grossas luvas de cabedal - e ir enchendo com ouriços o balde que teve a previdência de trazer consigo.

Acontece que em Agosto, quando visitámos os Kew Gardens, ainda era cedo para a colheita. Voltarmos lá agora com esse único fito seria algo extravagante, mas fica a sugestão para quem puder aproveitá-la. Quanto a nós, estamos de olho nuns tantos castanheiros em várias localidades do norte do país; seria porém de uma generosidade inaudita, própria de uma santidade a que não aspiramos, revelar ao leitor o paradeiro dessas árvores.

04/08/2009

The prologue of the tree


Castanheiros na Mata da Margaraça (Serra do Açor, Arganil)

Mr. Walter Windrush, the eminent and eccentric painter and poet, lived in London and had a curious tree in his back-garden. This alone would not have provoked the preposterous events narrated here. Many persons, without the excuse of being poets, have planted peculiar vegetables in their back-gardens. The two curious facts about this curiosity were, first that he thought it quite remarkable enough to bring crowds from the ends of the earth to look at it; and, second, that if or when the crowds did come to look at it, he would not let them look.

To begin with, he had not planted it at all. Oddly enough, it looked very much as if he had tried to plant it and failed; or possibly tried to pull it up again, and failed again. Cold classical critics said they could understand the pulling up better than the putting in. For it was a grotesque object; a nondescript thing looking stunted or pollarded in the manner recalling Burnham Beeches,
but not easily classifiable as vegetation. It was so squat in the trunk that the boughs seemed to spring out of the roots and the roots out of the boughs. The roots also rose clear of the ground, so that light showed through them as through branches, the earth being washed away by a natural spring just behind. But the girth of the whole was very large; and the thing looked rather like a polyp or cuttle-fish radiating in all directions. Sometimes it looked as if some huge hand out of heaven, like the giant in Jack and the Beanstalk, had tried to haul the tree out of the earth by the hair of its head.

G.K.Chesterton, Four faultless felons (Dover, 1989)

30/06/2009

A culpa é das ovelhas

O momento mais pungente - ou pelo menos aquele que mais fundo me tocou - do seminário Árvores Monumentais: Importância e Conservação, que decorreu no Sabugal na quinta e sexta passadas (25 e 26 de Junho), aconteceu exactamente no final da palestra de Ted Green. Foi quando...

(Eis que a voz da consciência me interrompe em tom alarmado: «O quê?! Não me digas que vais falar daquilo! Francamente, não esperava isso de ti!»)

(Ignoro tanto quanto possível a interrupção e prossigo o meu relato.)

... foi quando o orador perguntou se alguém da audiência podia emprestar dois casacos, um para ele e outro para Jill Butler. É que já há dias que os dois, desprovidos de agasalhos eficazes, rapavam em Portugal um frio para o qual ninguém os tinha alertado. Na manhã seguinte, durante a excursão aos castanheiros monumentais, continuavam ambos de manga curta. O dia esteve sempre prazenteiro, o sol nunca se fez rogado, e os casacos não fizeram falta nenhuma, mas será que alguém lhos chegou a emprestar? Prefiro não saber. Seria terrível que ruíssem na mesma altura duas das certezas que mais arreigadas tinha: a primeira, que os povos do norte da Europa (e em particular os britânicos) são imunes ao frio; a segunda, que ninguém excede os portugueses em hospitalidade.



Castanheiro (Castanea sativa) - Sabugal

São às centenas os anos que os velhos castanheiros do Sabugal transportam às costas. Alguns soçobram a tamanho peso e acabam por secar; outros há que suportam copas mais ou menos frondosas; e há ainda aqueles que, como quem usa peruca, disfarçam a decrepitude com cabeleiras de folhagem que afinal não lhes pertencem. É o caso do castanheiro acima: o tronco principal está morto, e dele não brota sequer uma folha; no entanto, os rebentos emitidos pelas raízes (chamados pôlas ou ladrões) conseguiram formar troncos secundários que agora prolongam a vida da árvore, fornecendo-lhe a copa verde que ela de outro modo não teria.

Por isso, como explica Ted Green, devem manter-se as ovelhas e outros animais de pastagem afastados destas árvores: as pôlas são um seguro de vida destes monumentos vegetais, e não são para cortar nem para comer. (É só por isso que as ovelhas são más. De resto, Ted Green é um ardente defensor de uma agricultura que combine, no mesmo espaço, a presença das árvores com o cultivo dos campos e o pastoreio.)

(Aqui chegado, é melhor o leitor ir espreitar à Quinta do Sargaçal para um relato mais circunstanciado do seminário e do passeio. O castanheiro-que-por-pôlas-valerosas-se-vai-da-lei-da-morte-libertando também lá aparece, mas a verdade é que, apesar de termos visto muitos castanheiros, poucos como este tinham tanto que contar e se puseram tão a jeito para a foto.)



(Para mostrar alguma coisa que o José Rui Fernandes não tenha ainda mostrado, termino com uma foto do rio que atravessa a cidade do Sabugal: o Côa, aqui marginado por amieiros e choupos.)

21/05/2008

Zero graus de longitude



Greenwich: Museu Marítimo com o Royal Naval College em fundo; edifício do Observatório

De todas as linhas (imaginárias, aprendemos nós na escola) que compõem a rede quadriculada em que o globo terrestre é geralmente dividido, só a posição do equador é ditada pela ciência e não pela convenção. Nenhum fenómeno geográfico ou astronómico obriga a que o norte apareça representado em cima e o sul seja relegado para baixo; e o meridiano de longitude zero poderia muito bem atravessar Pequim em vez de Londres.

Mas, como nos governamos por convenções, esses lugares que o arbítrio, o engenho ou o poder humanos elegeram como especiais acabam por exercer atracção inegável. Mesmo que o mundo já não acerte os ponteiros pela hora média de Greenwich, é emocionante entrar no observatório que alberga o deposto rei de todos os relógios. E, celebrando a ligação de Greenwich à história naval britânica, há a portentosa arquitectura neo-clássica dos edifícios do Museu Marítimo e do antigo Royal Naval College e a memória do veleiro Cutty Sark, ausente do seu cais para reconstrução desde que em 2007 um incêndio o destruiu.



Parque de Greenwich: bétula e castanheiros (Castanea sativa)

Talvez a melhor maneira de chegar a Greenwich, que fica na margem sul do Tamisa, alguns quilómetros a leste do centro do Londres, seja por um desses barcos turísticos que vi muitas vezes deslizar rio abaixo. Por um enguiço inexplicável, sempre que tentei, ao longo dos anos, usar a Docklands Light Railway (um serviço de metro inteiramente automatizado que serve Greenwich e a zona das docas), encontrei as estações fechadas e tive que me socorrer de outro transporte. De uma vez tomei um autocarro que me deixou em frente a Greenwich, mas na margem oposta; para completar a viagem, usei o túnel pedonal cavado sob o leito do rio. Desta feita, com a DLR fechada ao fim-de-semana para trabalhos de manutenção, optei pelo comboio. O regresso foi uma hora de autocarro pelos bairros mais inóspitos da margem sul.

Dos oito Royal Parks de Londres, o Parque de Greenwich, com os seus 74 hectares, será dos menos extensos, mas as vistas sobre o rio proporcionadas pelos seus dois morros mais do que compensam essa relativa pequenez. Não há, no Hyde Park ou no Regent's Park, nada que se compare a estes relvados vertiginosos rematados pela miscelânea urbanística da beira-rio, onde a regularidade da Greenwich histórica se confronta com os exuberantes arranha-céus de Canary Wharf, os sisudos edifícios de tijolo vermelho das docas e a futurista Millenium Dome.

Além das soberbas vistas, o Parque de Greenwich tem atracções intrínsecas de sobra. O maior destaque terá que ir para a dezena de castanheiros multicentenários dispostos em alameda: orgulhosos e de troncos possantes, prometem juntar muitos anos àqueles que já carregam. (Na foto ainda os vemos despidos, pois lá como cá os castanheiros são preguiçosos e as folhas só então começavam a despontar.) Há outras árvores muito bonitas, como as faias, tílias e carpas que acompanham, encosta acima, o formigueiro de visitantes do Observatório. Uma grande área ajardinada com rosas, azáleas e cedros conduz a um lago recatado. Mais adiante, para nosso repouso e sustento, funciona uma cafetaria com esplanada - onde, apesar da melhor das boas vontades, não fiz mais que debicar a medo um alegado quiche de legumes.

11/11/2007

Provérbio


Dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho...
(vai ser agora ao serãozinho...)

04/04/2007

Castanheiro centenário- Pussos

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«Este pequeníssimo bosque de castanheiros, carvalhos, sobreiros, pinheiros e pilriteiros, no Carvalhal de Pussos, concelho de Alvaiázere (Leiria), nasceu de um abandono.
Todo o palmo de terra, nesta terra, tem dono, e a propriedade é condição exigente de rentabilidade, num povo que foi (é?!), sem demagógicos discursos, pobre e iletrado.
São três os destinos possíveis para um palmo desta terra: uma habitação, junto às rodovias que atravessam a localidade, ou uma horta, nos solos regados do vale ou no sopé das colinas suaves, ou um eucaliptal, monocultura maioritária que cobre os montes. Do abandono de uma horta, há cerca de 50 anos, e porque o processo de herança, após o falecimento da velha agricultora, havia ficado difuso, foi a Natureza quem, legitimamente, recuperou o que lhe pertencia. Com a mestria de uma artista criadora, ela desenhou um habitat selvagem, tornou-o de difícil acesso, e camuflou-o das atenções humanas.
Em 2006, aos 25 anos, um rapaz que morava a 300 metros da floresta, na colina contrária, arriscou seguir os trilhos dos animais, abrindo caminho pelos silvados densos. Na clareira do bosque ergue-se o coração protegido da floresta: um castanheiro centenário, da espécie comum Castanea sativa (Mill.), com um perímetro circunferencial máximo de 13 metros. De copa e altura comuns (entre 12-14 metros estimados de altura), a invulgar característica desta árvore é a sua forma: tem 9,50 metros de “anca” (junto ao solo), 7 metros de “cintura”, e cerca de 13 generosos metros de “peito” – em boa forma física, portanto. Acima do “peito” erguem-se, como serpentes na cabeça da Medusa, uma dúzia de troncos secundários que formam a copa.

Um simpático casal de esquilos comuns foi adoptado pelo velho ancião castanheiro e vivem todos felizes.

[O castanheiro centenário é desconhecido pela maioria dos habitantes da aldeia, e aguarda resposta para classificação de Património de Interesse Público, pela Direcção-Geral dos Recursos Florestais ] »


Texto de Alexandre Inácio e fotos de Catarina Mendes

31/01/2007

O aceno das couves pela manhã

Mesmo sem a ajuda da SRU, a minha rua tem-se reabilitado. Não chegará a cem metros de extensão, e já foi uma humilde travessa; ascendeu a rua quando, pela mudança de nome, se quis homenagear um obscuro professor universitário. Um único prédio ocupa todo um lado da rua; do outro lado, casas de três ou quatro pisos, decrépitas quando as conheci, têm vindo a ser metodicamente reconstruídas. Numa delas, com a tinta amarela ainda brilhante, há no último piso uma varanda com floreiras, mas não são flores nem arbustos ornamentais que lá de cima nos acenam; são antes taludas couves que, além de fornecerem a sopa de cada dia, terão já guarnecido o bacalhau da última consoada. Ainda que eu seja também um praticante diário da sopa - mas não da sopa do vizinho, que não conheço e nunca me convidou para a sua mesa -, confesso que preferia, pela manhã, ver outra coisa a saudar-me da varanda em frente que não essas ramalhudas pencas. Ao lado das couves, a figura em cerâmica vermelha, de um puto rechonchudo carregando um peixe ao ombro, não é alegria que baste para os meus olhos.

As couves na varanda poderão ser uma reminiscência aldeã na cidade, o quintal possível de alguém que pôde outrora amanhar o seu quinhão de terreno. Fantasiando um pouco, poderiam também ser o resultado de uma prática já com vários anos mas cada vez mais em voga: refiro-me às hortas pedagógicas. Na Quinta do Covelo, por exemplo, e se forem por diante os projectos divulgados há quinze dias na imprensa, haverá hortas pedagógicas capazes de alimentar bairros inteiros. Não quero mal-entendidos: defendo a existência de tais hortas, e sei bem que a desgraciosa couve não é o único vegetal que as crianças cultivam nos seus talhões. O que contesto é que se queira despertar as crianças para o fascínio das plantas pela via única do utilitarismo alimentar, ignorando a estética e a beleza. Por que não se ensina jardinagem às crianças? Não seria, para grande parte delas, mais atraente, e até mais útil na vida adulta que vai ser a sua, compor um canteiro e ver brotar as flores do que cultivar tomates e rabanetes? Talvez falte só um nome chamativo para motivar políticos, professores e projectistas: que floresçam então muitos jardins didácticos para proveito de crianças e adultos.

Fotos: castanheiros da Quinta do Covelo em Dezembro de 2006; Narcissus tazetta

15/11/2006

"o fruto dos frutos"

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Tibães- Novembro 2006
«[...] Mas o fruto dos frutos, o único que ao mesmo tempo alimenta e simboliza, cai dumas árvores altas, imensas, centenárias, que, puras como vestais, parecem encarnar a virgindade da própria paisagem. Só em Novembro as agita uma inquietação funda, dolorosa, que as faz lançar ao chão lágrimas que são ouriços. Abrindo-as, essas lágrimas eriçadas de espinhos deixam ver numa cama fofa a maravilha singular de que falo, tão desafectada que até no próprio nome é doce e modesta - a castanha.
Assada, no S. Martinho, serve de lastro à prova do vinho novo. Cozida, no Janeiro glacial, aquece as mãos e a boca de pobres e ricos. Crua, engorda os porcos, com a vossa licença.[...]»

Miguel Torga, Um reino Maravilhoso (1941)
Ler
texto completo (no Luminescências) com ilustrações de Graça Morais para a edição de 2002

11/11/2006

Expressões idiomáticas- castanha

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«-Quebrar ou estalar a castanha na bôcca a alguem, fazer alguma cousa que causa ferro ou inveja a alguem.

-Tirar as castanhas do lume com a mão do gato, ou tirar as castanhas do lume sem se escaldar, fazer servir habilmente uma pessoa d'instrumento para chegar a um fim em que a propria pessoa correria risco ou inconveniente.

-Estar assando castanhas na quinta do Pegas, não ter real.»
in VIEIRA, Domingos Frei - Grande diccionario português ou thesouro da lingua portuguesa. Porto : Ernesto Chardron e Bartolomeu H. de Moraes, 1871-1874

Apesar de já aqui terem sido trancritas estas expressões, trago-as de novo à baila não só por ser hoje S. Martinho, dia em que por todo o lado se vão fazer magustos, mas também por, graças à Alexandra, ter ficado a saber na Seta despedida a origem de pelo menos a segunda frase-"Tirar castanhas do lume com a mão do gato"- pelos vistos ainda em uso no Brasil, e deduzo que também em França, na sua versão original "Tirer les marrons du feu".
Provem esta locução de uma das sempre edificantes fábulas do Sieur de La Fontaine: a história de Bertrand, o macaco, que convence Raton, o gato, a tirar umas castanhas assadas do fogo.
Quanto à quinta do Pegas...

07/11/2005

Expressões idiomáticas - folha

(Para os folhinhas ;-)
Castanheiro (Castanea sativa) Parque de Serralves -03




A folhas tantas: a certa altura.
Ao cair da folha: no Outono.
De folha a folha: de ano a ano.
Dobrar folha: cessar a leitura; cessar de conversar, interromper o fio ao assunto, passando a outro diverso.
Estar novinho em folha: diz-se de algo que está a estrear
Folha de caça: pista ou rasto de caça.
Tremer como a folha: ter um grande medo; o m.q. tremer como varas verdes.
Virar folha, a fortuna a alguém: mudar

Muitas destas expressões caíram em desuso. Algumas foram até transcritas de um dicionário antigo. Gostaríamos de saber: qual a que conhecia e eventualmente ainda usa ou ouve utilizar? Conhece alguma outra expressão idiomática com "folha" ?

10/09/2005

O castanheiro da rua do pinheiro


Fotos: pva 0508 - castanheiro monumental na rua do Pinheiro Manso, Porto

Quando desta vez visitei o castanheiro o local apresentava ar de festa, enfeitado com tiras de cores garridas. Mesas e cadeiras de plástico - restos de alguma esplanada - distribuíam-se sem ordem visível. A ausência de guarda-sóis tem três explicações possíveis, não sei qual delas a correcta: 1) o dono da tal esplanada trocou de mobília mas não substituiu os guarda-sóis; 2) as árvores do local fornecem sombra que baste; 3) a(s) festa(s) realiza(m)-se à noite.

Prefiro a terceira explicação: a da festa nocturna, à semelhança dos velhos arraiais de província. Pois o castanheiro, com a capela dedicada a Santo António a fazer-lhe companhia, quase não pertence à cidade nem a esta época; e, quando a noite desce sobre ele, sairão da sombra como de uma fábula seres e cenas improváveis.

Como não assisti a essas festas - pois nos contos de fadas, ao inverso do que postula a mecânica quântica, as coisas interessantes só acontecem quando não estamos presentes -, apenas posso dar do castanheiro o prosaico retrato diurno. Primeiro a localização: à rua do Pinheiro Manso, no delapidado jardim de uma mansão convertida em sede partidária. A entrada faz-se por um portão, ao lado da esquadra da PSP, que abre para um terreiro usado como estacionamento; ao fundo uma rede de ferro delimita um talhão com couves e árvores de fruto; à esquerda um tabique separa parcialmente o terreiro do jardim.

Além do castanheiro - grande, alto, forte, portentoso -, há árvores ornamentais que falam da antiga opulência: um ácer japonês, canforeiras, palmeiras de várias espécies, camélias (incluindo uma reticulata). O castanheiro aproveitou a ausência de vigilância humana para criar prole, e há até uma estranha touceira com três troncos, formada por um castanheiro e duas palmeiras (Phoenix canariensis).

São estas árvores nos antigos jardins, ocultas por muros ou fachadas tantas vezes decrépitos, que ajudam a cidade a respirar. Como poucos as vêem, também poucos dão pela sua falta quando as obras de reconstrução lhes ditam a morte. Mas são cento e tantos anos de vida que se perdem - anos que nunca em nossa vida serão recuperados.

Outro castanheiro monumental a sul

23/08/2005

Castanheiro monumental - Fóia


Foto: castanheiro monumental (Castanea sativa) na Fóia, em Monchique no Verão de 2002

«Castanheiros
Os castanheiros, posto que só medrem nos arredores de Monchique, talvez, ou de certo antes, por não os semearem em outros sitios analogos, fornecem bastantes artigos não só para o consumo do Algarve, e baixo Alemtejo, mas para a exportação estrangeira; taes como barrotes, morilhos, pontas, couceiros, aduelas, arcos de tonel, pipa, e barril, ripa, e castanha verde e pelada. Da madeira destas arvores se fazem, álêm do vazilhame para adegas, algumas cadeiras, bancas, e caixas toscas e grosseiras. Póde haver em todos os corgos da serra; algumas há em outras freguezias, e por desmazelo e incuria não estão mais propagados; o que bem conviria pelo lucro que deixão, e certerza de consumo interno.»


in LOPES, João Baptista da Silva, Corografia ou memória económica, estatística e topográfica do reino do Algarve, Academia Real das Ciências de Lisboa, 1841 ( edição facsimilada da Algarve em Foco, 1988) , p. 150

Este ano ainda não fui à Serra na minha quase peregrinação anual! Quero andar arredada da tragédia, não vejo telejornais, salto as páginas dos incêndios... Mas apesar de todos os estratagemas não consigo fugir aos telefonemas da família nem às notícias de que também os pinhais e outras árvores da família da C** arderam, (em Vila Real). Ardeu quase tudo! Fogo posto! A mãe de mais de oitenta anos teve de ser evacuada e está agora na cidade...

Por isso (e ao contrário do ano passado) ainda não fui à Serra de Monchique e não sei se este belo castanheiro também ardeu. Este e outros, para além de uma jovem plantação levada a cabo pelos alunos e professores de algumas escolas algarvias, e que nesse Verão de há três anos tinha ido visitar com umas amigas.

10/11/2004

A propósito do S. Martinho - provérbios

Não há dia de S.Martinho que se preze sem um magusto ou, quanto mais não seja, umas castanhitas assadas no forno caseiro ou compradas a caminho de casa, ao homem das castanhas. Faz parte da tradição!
No entanto, a única e exclusiva razão da festa deste Santo andar associada a castanhas deve-se ao facto do seu dia coincidir com a altura do calendário rural em que terminam os trabalhos agrícolas e se começa a usufruir das colheitas, nomeadamente das castanhas e do vinho. .,

Eis, da lista de provérbios que conheço sobre o S. Martinho, os que referem as castanhas:
  • No dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho.
  • No dia de S. Martinho, come-se castanhas e bebe-se vinho.
  • No dia de S. Martinho, mata o teu porco, chega-te ao lume, assa castanhas e prova o teu vinho.
  • Pelo S. Martinho castanhas assadas, pão e vinho.

Castanheiros - Srª dos Remédios (Lamego)


Fotos: manueladlr amos 0401 Castanheiros monumentais (Castanea sativa) - Lamego
Estas árvores, onde já morou incontáveis vezes o espírito do Outono, são agora a expressão mais triste do Inverno. Há muito na minha lista de "peregrinações", em Janeiro último fui finalmente visitá-las.
Uma cabeleira inesperada de heras esconde a decrepitude do primeiro castanheiro a ser classificado de interesse público (em 1940) no nosso país; e não são muitos os castanheiros classificados: apenas mais quatro, segundo o documento Árvores isoladas, maciços e alamedas de Interesse Público*, onde se pode ler sobre este castanheiro, estar ele "totalmente decrépito" e ter "cerca de 700 anos".
Na árvore que conserva algumas pernadas, na extremidade de um dos ramos, viam-se ainda sinais do tempo cíclico: folhas carcomidas e ouriços!
Estas verdadeiras relíquias mereciam muito mais que estreitos canteiros e placa comemorativa!

Sobre estas árvores escreve Ernesto Goes o seguinte:
«Castanheiros do Parque de Nossa Senhora dos remédios, em Lamego.
Trata-se de dois castanheiros multiseculares, decrépitos, tendo o maior 9 m. de P.A.P, que segundo Taborda de Morais (1936) deve ter cerca de 900 anos, sendo um dos mais velhos do País. Esta árvore está considerada de interesse público, por Decreto publicado em 'Diário do Governo'. Foi assinalado por Sousa Pimentel no seu livro
Árvores giganteas de Portugal, publicado em 1894, tendo já nessa altura 9 m. de P.A.P. Este castanheiro pertence à irmandade de Nossa Senhora dos Remédios.»
in Árvores Monumentais de Portugal (1984)

*Árvores isoladas, maciços e alamedas de Interesse Público, 2003-Instituto Florestal; obra que pode ser pedida na Biblioteca da Direcção Geral dos Recursos Florestais.)

Outras árvores classificadas

19/09/2004

Castanheiro-da-Índia

Folhagem do castanheiro-da-Índia
Enquanto os ouriços ainda estão na árvore-mãe a aproveitar as suas últimas semanas de gestação, as castanhas-da-Índia já se espalham pelo chão e ontem, em Serralves, vimos mais uma vez pessoas a mordiscá-las (não sei se algumas as chegarão mesmo a comer). Claro que aproveitámos logo para dois dedos de conversa...
Todos os anos, no S. Martinho pelo menos, se fala de castanhas e não seria inoportuno aproveitar essa ocasião para ensinar aos mais pequenos, e por arrasto aos crescidos, que o "vulgar" castanheiro e o castanheiro da Índia, que deixam nesta altura do ano cair as suas grossas sementes semelhantes a gordas e luzidias castanhas, são espécies bem distintas.
E alertar também para o facto de que as castanhas-da-Índia não são comestíveis, sendo costume entre nós utilizá-las contra a traça, nos roupeiros e nas cómodas. Tradicionalmente (no médio Oriente) eram dadas ao gado, sobretudo equino, mas só depois de as submeterem a diversos tratamentos para lhes retirarem o amargor.
Castanhas-da-Índia ................................................Castanheiro-europeu
fotos: manueladlramos -0409
Ao passo que o castanheiro comum (Castanea sativa) pertence à família das Fagáceas, a designação de 'castanheiro-da-Índia' refere-se às árvores da família das Hipocastanáceas, e sobretudo à espécie mais comum na Europa: Aesculus hippocastanum.
Até ao fim do séc. XIX pensou-se que esta era originária das montanhas da Índia (razão de ser do seu nome vulgar), vindo a descobrir-se que afinal nascia nas zonas montanhosas da Grécia e Turquia.

18/09/2004

Crónica das águas novas



«Os ouriços estão mesmo, mesmo a abrir, amarelinhos e cerdosos como os seus irmãos cacheiros. Até à castanha a chuva ainda veio fazer bem!
Ouço cantar:

No alto daquela serra (oh meu bem!)
Tem meu pai um castanheiro,
Que dá castanhas em Maio (oh meu bem!)
Cravos roxos em Janeiro!


A poesia é isso: fazer com que os castanheiros dêem castanhas agora e cravos mais logo, sem transtorno do Mundo nem míngua do assador. E que chova! Chova do céu a água precisa, entre na terra a que baste, e empoce a restante até à evaporação. Com poças estreladas se fazem nuvens novas. Com nuvens novas se enchem as poças velhas, e assim por diante. Eterno retorno.»

Vitorino Nemésio, Viagens ao pé da porta (1949)

11/09/2004

Dois pontos de vista

«O castanheiro de que eu conheço melhor a história está no meu jardim, no Porto. É duas ou três vezes centenário e já lá estava quando todos aqueles terrenos eram demarcados por vinhateiros. (...) O castanheiro é duma beleza impressionante, pelo porte elevadíssimo e o frondoso dos ramos. Dantes, cantava lá, à noite, um rouxinol e um mocho também lá vivia. Eu nunca tinha ouvido um rouxinol cantar. Garanto-vos que é uma coisa deliciosa, que suspende o bater do nosso coração.
Quando se traçaram os acessos da ponte da Arrábida, a Rua do Gólgota, que é onde eu vivo, foi separada, ficando dividida em dois troços. E o castanheiro esteve ameaçado de ser abatido. Porém, ele impunha-se pela sua majestade e fazia mover os largos ramos como se dissesse que o ar era da sua responsabilidade. As rolas abrigavam-se nele e faziam ouvir o canto amistoso. Talvez isso comovesse os homens e, para surpresa do mundo, pouparam o castanheiro, mudando os planos que já tinham traçado. E o castanheiro continuou de pé, mais alto e peregrino nos ares da cidade cada vez mais turvos e pesados. A sombra dele é fresca como nenhuma outra e, mesmo quando despido de folhas, tem a grandeza dum universo.»

Agustina Bessa-Luís, Contemplação carinhosa da angústia (2000)

«Há que acompanhar a evolução natural das coisas. Uma obra não vai deixar de ser erguida por causa de meia dúzia de árvores. Há que ajustar e modernizar (...)»

Ricardo Figueiredo, Vereador do Urbanismo da Câmara do Porto, ao jornal Público de 7 de Setembro de 2004