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31/01/2007

O aceno das couves pela manhã

Mesmo sem a ajuda da SRU, a minha rua tem-se reabilitado. Não chegará a cem metros de extensão, e já foi uma humilde travessa; ascendeu a rua quando, pela mudança de nome, se quis homenagear um obscuro professor universitário. Um único prédio ocupa todo um lado da rua; do outro lado, casas de três ou quatro pisos, decrépitas quando as conheci, têm vindo a ser metodicamente reconstruídas. Numa delas, com a tinta amarela ainda brilhante, há no último piso uma varanda com floreiras, mas não são flores nem arbustos ornamentais que lá de cima nos acenam; são antes taludas couves que, além de fornecerem a sopa de cada dia, terão já guarnecido o bacalhau da última consoada. Ainda que eu seja também um praticante diário da sopa - mas não da sopa do vizinho, que não conheço e nunca me convidou para a sua mesa -, confesso que preferia, pela manhã, ver outra coisa a saudar-me da varanda em frente que não essas ramalhudas pencas. Ao lado das couves, a figura em cerâmica vermelha, de um puto rechonchudo carregando um peixe ao ombro, não é alegria que baste para os meus olhos.

As couves na varanda poderão ser uma reminiscência aldeã na cidade, o quintal possível de alguém que pôde outrora amanhar o seu quinhão de terreno. Fantasiando um pouco, poderiam também ser o resultado de uma prática já com vários anos mas cada vez mais em voga: refiro-me às hortas pedagógicas. Na Quinta do Covelo, por exemplo, e se forem por diante os projectos divulgados há quinze dias na imprensa, haverá hortas pedagógicas capazes de alimentar bairros inteiros. Não quero mal-entendidos: defendo a existência de tais hortas, e sei bem que a desgraciosa couve não é o único vegetal que as crianças cultivam nos seus talhões. O que contesto é que se queira despertar as crianças para o fascínio das plantas pela via única do utilitarismo alimentar, ignorando a estética e a beleza. Por que não se ensina jardinagem às crianças? Não seria, para grande parte delas, mais atraente, e até mais útil na vida adulta que vai ser a sua, compor um canteiro e ver brotar as flores do que cultivar tomates e rabanetes? Talvez falte só um nome chamativo para motivar políticos, professores e projectistas: que floresçam então muitos jardins didácticos para proveito de crianças e adultos.

Fotos: castanheiros da Quinta do Covelo em Dezembro de 2006; Narcissus tazetta

04/08/2006

Quinta do Covelo- Porto

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Japoneiras, palmeiras, magnólia, pinheiro manso, carvalhos.

Fotos © manueladlramos 2004
Mais fotografias do Parque do Covelo (por António Amen in O Porto em Fotografia )

O concurso público de ideias para a futura requalificação da Quinta do Covelo foi publicitado em Abril (ver). De acordo com uma notícia vinda a público em de 29 de Junho «A Câmara valorizará as propostas que contemplem a recuperação da casa de lavoura do final do século XVIII (que se encontra em ruína), criem uma entrada mais digna para a quinta (hoje, a entrada principal faz-se por uma grande escadaria na Rua de Faria de Guimarães, próximo do acesso à auto-estrada) e novas zonas de estadia e circuitos pedonais no jardim e na mata, sem danificar a vegetação. (ler texto completo no JN) »

Todavia, e lamentavelmente, o processo parece incorrer numa série de inconformidades segundo o Conselho Directivo Regional do Norte (CDRN) da Ordem dos Arquitectos. Ler Edgar Soares - "Concurso Quinta do Covelo, palavras para quê?" n ' A Baixa do Porto .

Adenda:
1-
"Ordem nas Ideias" por Luís de Sousa ( 04.08.06) n ' A Baixa do Porto .
2- Explicação da CMP no Público (05.08.06) « (...)
Álvaro Castello-Branco, em declarações ao PÚBLICO, insistiu no concurso aberto a toda a gente nesta fase, para definir com algum rigor os termos da intervenção na Quinta do Covelo. "Quando decidirmos o que queremos fazer, então lançamos um concurso para adjudicar a obra, ao qual, naturalmente, só poderão concorrer profissionais", esclareceu o vice-presidente da câmara. (...) mantendo que o que se pretendia era recolher ideias "de toda a gente".
O que, de resto, foi conseguido com êxito: 120 pessoas pagaram os cinco euros requeridos para levantarem os termos do concurso, podendo avançar com as "ideias" até 21 de Agosto.»
(
ler texto completo)
3-
"Projecto de pai incógnito" por Luís de Sousa (07.08.06)

10/12/2004

Redonda e lustrosa


Foto: pva 0412 - camélia na Quinta do Covelo

Enquanto ardem os últimos dourados do Outono e a nudez invernal se vai disseminando pelas árvores, as camélias, de copas cerradas e lustrosas, vão-se enfeitando com uma abundância espaventosa de flores dos mais variados tons e feitios. O Porto é a cidade das camélias: elas entranharam-se de tal forma nos nossos hábitos visuais que um jardim sem camélias - como quase é, para nossa tristeza, o actual Jardim da Cordoaria - nos parece sempre incompleto.

Esta jovem e elegante camélia, em nada diminuída pela simplicidade das suas flores, saúda-nos à entrada da Quinta do Covelo pela rua do Bolama. Uma segunda camélia adulta no passeio e numerosas outras num pequeno jardim quadrangular, cercado por um muro baixo, completam a amostra de camélias do local: é uma colecção modesta mas digna de se ver, atestando o legítimo carácter portuense da Quinta do Covelo.

A Quinta, situada na zona norte da cidade, confina a poente com a rua de Faria Guimarães, que nesse troço é uma via-rápida francamente desagradável para peões. A entrada na Quinta por essa rua, feita por uma escadaria íngreme e delapidada, espécie de Bom-Jesus de Braga em miniatura, dá acesso directo a um cerro coberto por vegetação autóctone de grande valor: carvalhos-alvarinhos, sobreiros, pinheiros-mansos e pinheiros-bravos. Desaconselhável aos corações frágeis, que devem optar pela entrada plana pela rua do Bolama, a escadaria pode ser encarada como a primeira etapa do circuito de manutenção que a Câmara fez espalhar pela mata.

Na zona baixa da Quinta, a nascente, situa-se a antiga casa senhorial e alonga-se um caminho calcetado e rectilíneo, com bancos e passeios arborizados. De um dos lados do caminho, e fazendo um suave declive, há um extenso relvado plantado com numerosas árvores jovens que compõem um bonito conjunto; do lado oposto, estufas e viveiros pertencentes à Câmara preenchem inteiramente os antigos campos agrícolas. Parece ter sido esta a única parte da Quinta que a Câmara cuidou de valorizar, pois em tudo o resto se nota algum abandono. É urgente completar o que tão bem se começou.

09/12/2004

Adeus ao triste pinheiro


Foto: pva 0412 - Porto - Quinta do Covelo

ESTES SÍTIOS!
Olha bem estes sítios queridos,
Vê-os bem neste olhar derradeiro...
Ai!, o negro dos montes erguidos,
Ai!, o verde do triste pinheiro!
Que saudades que deles teremos ...
Que saudade!, ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, neste ar que bebemos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inocência e vigor!
Oh!, aqui, aqui só se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o níveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inocência infantil do pudor.
E oh!, deixar tais delícias como esta!
E trocar este céu de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão à impostura,
Ir saudar a mentira em sua corte,
Ajoelhar em seu trono à vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade...
Ai!, não, não... nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou.
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Dize à sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sítios queridos
Desta ruda, feroz soledade,
Paraíso onde livres vivemos...
Oh!, saudades que dele teremos,
Que saudade!, ai, amor, que saudade!

Almeida Garrett, Folhas Caídas (1853)