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09/12/2004

Adeus ao triste pinheiro


Foto: pva 0412 - Porto - Quinta do Covelo

ESTES SÍTIOS!
Olha bem estes sítios queridos,
Vê-os bem neste olhar derradeiro...
Ai!, o negro dos montes erguidos,
Ai!, o verde do triste pinheiro!
Que saudades que deles teremos ...
Que saudade!, ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, neste ar que bebemos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inocência e vigor!
Oh!, aqui, aqui só se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o níveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inocência infantil do pudor.
E oh!, deixar tais delícias como esta!
E trocar este céu de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão à impostura,
Ir saudar a mentira em sua corte,
Ajoelhar em seu trono à vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade...
Ai!, não, não... nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou.
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Dize à sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sítios queridos
Desta ruda, feroz soledade,
Paraíso onde livres vivemos...
Oh!, saudades que dele teremos,
Que saudade!, ai, amor, que saudade!

Almeida Garrett, Folhas Caídas (1853)

04/11/2004

Lembrar Garrett

A cidade tem andado esquecida. Desculpar-se-á com o emaranhado de afazeres diários que lhe enevoam a sensibilidade, com os canónicos dissabores do Outono chuvoso, com as arrelias neste torrão de lágrimas. Mas não há perdão para o desinteresse oficial por efeméride de tanto relevo: Almeida Garrett faleceu há 150 anos e seria de todo pertinente que a cultura portuense sublinhasse a data com evocação especial da obra do escritor. Como registo dessa efeméride, só a carta de Manuel António Pina (in Visão, Agosto de 2004) ao poder camarário:

«Exmo. Sr. Presidente da Câmara do Porto:

Almeida Garrett morreu há 150 anos. Talvez V. Excia. não esteja, assim de repente, a ver de quem se trata, mas se tiver a maçada de olhar pela janela do gabinete há-de reparar numa estátua colocada na praça fronteira aos Paços do Concelho: Almeida Garrett é esse, como confirmará mandando alguém lá abaixo.
Estranhará V. Excia. que o venham tirar das fadigosas congeminações camarárias para lhe dizer que o tal Almeida Qualquer Coisa morreu há 150 anos, e perguntará justificadamente: "Que tenho eu com isso?" Na verdade, V. Excia. não tem nada com isso. Nem a circunstância de o homem ter nascido no Porto, cidade (às vezes chamada "cidade de Garrett") a cujos destinos V. Excia. preside, é decerto motivo bastante, já que todos os dias nasce gente no Porto. (...)
Ora para que não se comente que o "leal, paciente e bom povo" do Porto (...) não honra os seus filhos, talvez V. Excia. queira, tendo tempo, considerar uma qualquer evocação da efeméride antes do termo do ano, mesmo que a preço de alguns foguetes a menos na próxima sessão de fogo-de-artifício. (...)
Isto, apesar de já ter sido dito, (...) que "a maior honra que podem fazer ao eminente escriptor é ensinarem a gente do Porto a ler, e depois mais tarde darem-lhe para admirar os escriptos do seu patrício". Mas, se toda a gente do Porto lesse Garrett, quem sobraria para o fogo-de-artifício?»


Se, lendo Garrett, o homenageamos, saboreemos pois um excerto de Viagens na minha terra (1846):

«Este é que é o pinhal da Azambuja?
Não pode ser.
Esta, aquela antiga selva, temida quase religiosamente como um bosque druídico! (...) ...Oh! que ainda me faltava perder mais esta ilusão...


Por quantas maldições e infernos adornam o estilo dum verdadeiro escritor romântico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos fechados, os sítios medonhos desta espessura? Pois isto é possível, pois o pinhal da Azambuja é isto?... (...) Uns poucos de pinheiros raros e enfezados através dos quais se estão vendo as vinhas e olivedos circunstantes!... É o desapontamento mais chapado e solene que nunca tive na minha vida - uma verdadeira logração em boa e antiga frase portuguesa.

E contudo aqui é que devia ser, aqui é que é, geográfica e topograficamente falando, o bem conhecido e confrontado sítio do pinhal da Azambuja... Passaria por aqui algum Orfeu que, pelos mágicos poderes da sua lira, levasse atrás de si as árvores deste antigo e clássico Ménalo dos salteadores lusitanos? Eu não sou muito difícil em admitir prodígios quando não sei explicar os fenómenos por outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se.»