Maios-pequenos


As palavras depõem / contra o coração, / que não quer dizer nada / nem ouvir nada. (...) / Como me calarei? Sem que palavras?
Manuel António Pina, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança (1999)
Os lírios, alguns exclusivamente ibéricos, já estão na forja e não tardarão a vir aqui exibir-se. Mas é preciso gastar a Primavera com parcimónia, por isso antes vamos conhecer este quase-lírio que floresce entre Abril e Maio e cujas flores duram apenas meio dia.
Dir-se-á que algumas fotos, ainda que esmeradas, a ilustrar um texto técnico não chegam para tanto. Realmente é mais elucidativo e entusiasmante encontrar as plantas (no limite sul da serra dos Candeeiros), medir-lhes o porte (não mais que 20 cm de altura), verificar a forma das folhas (em espada, com estrias), reconhecer o azul de lírio (por vezes pálido, quase cinzento) das flores e dar conta da mancha branca e amarela com que elas (que têm apenas 3 cm de diâmetro) sobressaem no campo. Contudo, a linguagem é complacente com a ciência, e poucas palavras bastarão para que o leitor consiga, quando a vir, reconhecer esta planta.
Do género Gynandriris, que já foi Iris e é essencialmente sul-africano, há duas espécies na Europa e só esta, a que algum povo chama pé-de-burrico, ocorre em Portugal. Da região mediterrânica, oeste da Ásia e metade sul da Península Ibérica, a Gynandriris sisyrinchium aprecia terrenos incultos, arribas no litoral e prados secos de montanha. As flores abrem ao fim da tarde para que, durante a noite, o contraste entre o azul e o branco ainda frescos atraia polinizadores que também optam pela lide nocturna, e a flor possa, de manhã, dar por encerrado o horário de expediente.
Como nos lírios, cada flor tem três pétalas exteriores descaídas — de base estreita, parte terminal reflexa e sem penugem — e três outras interiores (os estandartes) erectas e mais delgadas. Mas, apesar de unidas na base, não formam o tubo característico dos lírios; além disso, cada haste parece feita de papel de embrulho e tem duas a cinco flores, enquanto que as dos lírios são em geral solitárias. Há ainda diferenças no bolbo, mas dessas não guardámos registo porque não os havia desenterrados.
Gynandriris deriva de gyne, feminino e andros, masculino, em alusão à união dos estames com o pistilo numa só coluna, permitindo, caso Maio venha frio, que a flor não abra e opte pela auto-polinização.



