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07/04/2023

Açafrão insular

Crocus cambessedesii J. Gay


A Natureza não seria ridícula ao ponto
de se resumir a qualquer fórmula literária
ou matemática.
Coloca o livro mais brilhante de Goethe
ao lado de uma pedra: volta no outro dia,
e no dia seguinte. E na semana seguinte.
Verás: nada aconteceu à pedra,
enquanto o livro, por todo o lado, por todas as partes,
começou a perder qualidades.
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia (Editorial Caminho, 2010)

13/12/2021

Belas adormecidas

As plantas que sincronizam o seu ciclo de vida com o do pastoreio ou o da agricultura tendem a depender tanto dessa ajuda como de um clima sem grandes imprevistos. Essas tarefas, quando não intensivas nem regadas a herbicida, arejam o solo, erradicam saudavelmente plantas competidoras e impõem pousios que aliviam o desgaste natural da terra. Mas com a lavoura mecanizada, que revolve os torrões com a agilidade de uma colher na sopa, e com as mudanças no clima, as plantas precisam de maior cautela. A umbelífera que vos mostramos hoje, anual e pequena (não vai além dos 40 cm de altura), tem um truque adicional para lidar com as más notícias do seu habitat. As sementes formam-se antes das colheitas mas, se o tempo não está de feição, se há indícios de que o campo está sob ameaça ou se a competição entre as novas plantas e as já adultas se torna melindrosa para a espécie, então as sementes adormecem. Isso mesmo: enquanto a humanidade se afadiga em atrasar a morte e em promover a natalidade, estas plantas dominam um relógio formidável que adia o começo da germinação, tendo até em conta o benefício que isso possa trazer às plantas-mães.

Turgenia latifolia (L.) Hoffm.


Durante o sono, as sementes mantêm-se viáveis, até que (passados por vezes muitos anos) haja sinais, anunciados sabe-se lá por que meios, de que a probabilidade de um embrião sobreviver aumentou. Enquanto dormem, podem dispersar-se, colonizando depois novos locais, o que talvez justifique a maior incidência de novas espécies entre géneros que dominam este estratagema. Curiosamente, há quem afirme que esta é uma solução para as longas viagens interplanetárias, de mudança dos habitantes da Terra para outros mundos.

As espécies que afinam o seu ciclo com a evolução do ambiente não servem para jardins, por não se vergarem à impaciência dos que anseiam pela floração exuberante em vasos e canteiros. Mas é esta habilidade que favorece, por exemplo, a produção de cereais em grande escala. O banco de sementes que assim se cria assegura que os frutos não germinam todos num mesmo outono de temporais catastróficos, evento que condenaria futuras gerações de plantas.



Há outros indícios de que a Turgenia latifolia, que aprecia olivais em solo calcário, é medrosa mas sabe proteger-se. As flores de pétalas rosadas não têm sépalas mas as umbelas nascem num ninho de ganchos macios, que mais tarde endurecem e ajudam a disseminar os frutos. Percebe-se mal que, sendo assim talentosa e de distribuição vasta pelo centro e sul da Europa, Ásia e norte de África, seja afinal tão rara em Portugal, onde só há registo de uma população, e com escasso número de exemplares.

18/04/2021

Flor do Arlequim



Santa Maria é a ilha de duas cores: amarela a metade ocidental, sobrando para a outra metade o verde que é marca registada do arquipélago. É essa a imagem mais forte que, ainda o avião não aterrou, fica na retina dos turistas que acorrem à ilha nos meses do Verão. Quando em outros anos a visitámos em Maio ou Junho essa dupla personalidade era evidente, mas desta vez, visitando-a no final de Março após semanas de chuva copiosa, o verde era a única cor autorizada, com as vacas pastando felizes entre as ervas tenras. Contudo, se a cor não marca a diferença, já o relevo não depende da sazonalidade: em volta do aeroporto e da Vila do Porto, e até que a terra se empina anunciando o Pico Alto, desenrola-se uma área plana pontuada por habitações baixas e esparso arvoredo exótico. É aqui que se situa o bairro do aeroporto: casas amplas e brancas servidas por ruas rectilíneas, despojos dos tempos gloriosas de uma ilha que recebeu, ainda durante a 2.ª Guerra Mundial, a primeira base militar americana no Atlântico. Já sem militares, o tempo das vacas gordas prolongou-se até meados dos anos 70, quando os aviões deixaram de fazer aqui escala e o aeroporto da ilha perdeu quase toda a importância. Dessa época sobrou um cinema (obviamente chamado Cinema do Aeroporto) com capacidade para 800 lugares — o edifício, agora pintado de fresco, acaba de ser recuperado e terá nova vida como centro cultural.

Talvez os terrenos baldios rodeando as casas tenham sido jardins, mas o abandono até os fez mais interessantes. É esta a zona da ilha onde mais aparece a Serapias parviflora, orquídea que, nos Açores, apenas existe nesta ilha e talvez na Terceira. Herbáceas simpáticas como o Centaurium tenuiflorum, Centaurium maritimum, Mentha pulegium e Papaver somniferum são aqui muito frequentes. Nas valas e charcos, e tirando partido de uma capacidade de retenção de água como só existe nesta ilha (muito menos «porosa» do que as demais ilhas do arquipélago), abundam o Alisma lanceolatum e diversas ervas higrófilas. E até plantas exóticas como a Verbena rigida (que pouco se vê nas outras ilhas) parecem aqui ser mais mimosas e menos agressivas.

Sparaxis bulbifera (L.) Ker Gawl.


Sul-africana de origem, a Sparaxis bulbifera, ou flor-do-Arlequim, talvez caiba na categoria das exóticas invasoras que são apenas moderadamente nocivas. Não a havíamos notado em visitas anteriores a Santa Maria porque floresce cedo, entre Março e Abril, mas ela é abundante na metade plana da ilha, ocupando contudo habitats que já pouco têm de natural, como pastagens e terrenos baldios. Convive muito bem com o pastoreio e até é favorecida por essa actividade, já que as vacas, que não lhe apreciam o sabor, eliminam a concorrência e deixam-na tranquila. É uma planta vivaz, com hastes floríferas de 15 a 60 cm de altura renovadas anualmente a partir de bolbos subterrâneos. Além da reprodução normal por semente, e como aliás sugere o epíteto específico, é capaz de multiplicar-se vegetativamente através de bolbilhos formados nas axilas das folhas. As folhas, de 10 a 30 cm de comprimento, têm forma de espada e dispôe-se em leque, à semelhança das folhas de outras iridáceas. O nome comum Harlequin flower, usado por anglo-saxónicos, é aplicado indistintamente às diferentes espécies do género Sparaxis, todas elas endémicas da província do Cabo, na África do Sul, e talvez se ajuste melhor a plantas mais coloridas como a Sparaxis tricolor. Tanto quanto se sabe, nos Açores a S. bulbifera só está naturalizada em Santa Maria e em São Miguel; de resto, emigrou também para as antípodas e naturalizou-se com sucesso na Nova Zelândia e na Austrália.

10/11/2015

Espadas rombudas


Iris latifolia (Mill.) Voss [= Xiphion latifolium Mill.]


Foram exactamente dois, e separados por centena e meia de quilómetros, os lírios que avistámos na nossa viagem à Cantábria. O primeiro, equilibrado numa ladeira íngreme junto a uma ribeira, não oferecia condições de segurança para ser fotografado; o segundo, que nos apareceu já nas Astúrias entre duas das inúmeras curvas de uma estrada de montanha, ainda mais nos atrasou o almoço pelo qual os estômagos há muito clamavam. Dirá o leitor bem intencionado mas distraído que valeu a pena a paragem, pois pelas bandas de cá o lírio-do-Gerês não costuma oferecer-se aos preguiçosos que não se afastam das estradas. Mas não se tratava do lírio-do-Gerês, nem nós esperaríamos encontrá-lo tão longe da serra que lhe serve de berço. Observe o leitor atentamente as fotos no escaparate e diga se este lírio não lhe parece algo anafado, com a flor quase sufocada por um intumescido colarinho de brácteas. Compare-o depois com o genuíno e inimitável lírio-do-Gerês e não deixe de dar a merecida palmada na testa por tão facilmente se deixar iludir. Entre a elegância de um e o ar atarracado do outro não há confusão possível. Contudo, por deformação profissional, os botânicos não se contentam com aquilo que salta à vista, e tudo têm que traduzir por palavras esdrúxulas e números rigorosos. Descodificada a gíria, os leigos podem anotar estas diferenças adicionais entre as duas espécies: as flores do lírio-da-Cantábria são maiores, com cerca de uma vez e meia o tamanho das do lírio-de-Gerês, e, ao contrário destas, não exibem uma penugem amarela na face superior das tépalas externas; finalmente, fazendo jus ao epíteto latifolia, o lírio-da-Cantábria tem folhas duas vezes mais largas, ainda que também filiformes.

As flores dos lírios são das mais vistosas e complexas do reino vegetal. Aquilo que pode parecer um muito simétrico arranjo de três flores é na verdade uma única flor, que é formada por três tépalas externas, três tépalas internas fazendo de penachos, e três estiletes petalóides, cada um deles cobrindo um estame e parte de uma tépala externa. O modo como o estilete se cola à tépala ajuda, por exemplo, a diferenciar o I. xiphium destes seus dois congéneres mais nortenhos.

O lírio-da-Cantábria, a que poderíamos também chamar lírio-dos-Pirenéus se tivéssemos ido assim tão longe, vive em matos, prados húmidos e clareiras de bosques nas montanhas do extremo norte da Península Ibérica. Avança até à Galiza mas fica longe da fronteira com Portugal, e abdica de ser um endemismo ibérico ao surgir também nos Pirenéus franceses. A sua floração, algo tardia, decorre entre Junho e Agosto.

12/05/2015

A romúlea que faltava



Romulea columnae Sebast. & Mauri


Os nossos passeios pelo país, à procura de flora ou habitats que nunca vimos, têm uma propensão natural para locais com espécies mais raras. Em si, esse pormenor não acrescenta ânimo às caminhadas nem entusiasmo à pesquisa, mas não resistimos, sempre que a ocasião se proporciona, ao arrebatamento que se sente quando se fecha um capítulo de uma colecção. Pois bem: relativamente ao género Romulea, faltava-nos este cromo. Por isso, quando o João Lourenço gentilmente nos informou que vira esta espécie num pinhal em Amorosa, Viana do Castelo, corremos para a conhecer. Decerto o leitor quererá saber por que um tal achado é tão valioso, e aqui estamos para satisfazer a sua curiosidade.

Em Portugal ocorrem espontaneamente apenas quatro espécies de Romulea, e a folhagem desta, feita de tubos longos e fininhos, difere pouco da das outras três espécies. A flor, porém, é muito mais pequena, detalhe que nem sempre as fotos exibem com clareza: as tépalas medem cerca de 1 cm de comprimento. Dê agora, caro leitor, toda a sua atenção ao centro da flor: está lá uma coluna envolta em pólen amarelo-alaranjado que protege tão bem o estigma que este mal se nota. Apesar do receituário botânico mencionar mais características que ajudam à identificação, é precisamente esta particularidade que assegura que se trata da R. columnae.

Nativa do bacia mediterrânica, do oeste europeu e da Macaronésia, e apreciadora de lugares arenosos e arejados, em geral pisoteados no Verão, a R. columnae costuma florir no final do Inverno. Isso é de alguma ajuda na detecção de planta tão esquiva, pois a vegetação herbácea tem ainda porte diminuto nessa altura do ano. A glória é, contudo, breve: logo depois a planta hiberna, ficando reduzida a um bolbo subterrâneo, e só volta a mostrar-se no ano seguinte.

29/11/2014

Dormir é viver


Romulea ramiflora Ten.


São muitas as plantas que ficam reduzidas a bolbos subterrâneos durante nove ou dez meses em cada ano. Vivas mas adormecidas, preparam-se para a glória breve que é o despontar anual para a luz do sol. As romúleas, florescendo logo nos primeiros meses do ano, quase nos passam despercebidas, ainda que sejam comuns de norte a sul do país. Saem da toca quando ainda estamos recolhidos, e regressam a ela quando nos preparamos para sair. Não é um desencontro infeliz, pois elas dispensam bem a nossa atenção, bastando-lhes que os insectos polinizadores para os quais se enfeitam respondam à convocatória.

Em Portugal ocorrem espontaneamente apenas quatro espécies de Romulea, o que é motivo de embaraço se compararmos com as 60 ou mais espécies que são nativas da África do Sul. Ainda assim, a nossa diversidade é suficiente para por vezes confundir botânicos tanto amadores como profissionais. A espécie mais comum, R. bulbocodium, tem uma ecologia muito variada e pode apresentar flores que vão de um roxo carregado a um lilás pálido, chegando mesmo a ser brancas. Ao longo do litoral norte, ocorre uma segunda espécie, a R. clusiana, que só se distingue da anterior (com a qual muitas vezes convive) pelas flores maiores e mais vistosas. Se atendêssemos apenas ao número de registos no portal Flora On, as duas restantes espécies — R. columnae e a que hoje apresentamos, R. ramiflora — seriam muito raras no nosso país. Conclusão algo precipitada, pois ao surgimento fugaz típico do género as romúleas juntam a dificuldade de identificação: pode haver quem as veja, mas não as reconheça; ou, por causa da grande variabilidade dentro de cada espécie, não esteja seguro do que vê. Arrumar o mundo vegetal em espécies estanques, com fronteiras bem definidas, é uma construção humana que nem sempre se ajusta à realidade.

Não é pela cor das flores nem pelo seu tamanho, em ambos os casos à roda dos 2 ou 3 cm, que a Romulea ramiflora se diferencia fiavelmente da R. bulbocodium. O carácter distintivo mais importante é que na primeira as anteras são mais altas do que o estilete, envolvendo-o e ocultando-o, e na segunda a relação inverte-se, com o estilete claramente destacado das anteras (como se vê nesta foto). Outra diferença assinalável, a confirmar à lupa, é que na R. bulbocodium a bractéola na base da flor é formada por uma membrana transparente (os botânicos dizem-na escariosa; pode vê-la aqui), enquanto que na R. ramiflora a bractéola é verde, podendo no entanto ter uma margem "escariosa" mais ou menos estreita (quarta foto em cima). Como tira-teimas, pode ainda notar-se que na R. ramiflora as três tépalas mais externas têm um verso de tonalidade esverdeada, e que na R. bulbocodium o tom é escuro, entre o roxo e o castanho.

Por muito cristalino que pareça este receituário, fica o leitor avisado de que são frequentes os casos em que ele se revela ineficaz, pois as romúleas são useiras e vezeiras em desobedecer às especificações dos manuais. Depois de muito falso alarme, só umas romúleas de Salir do Porto (não as que existem no local da foto abaixo), que visitámos no final de Fevereiro para ver um endemismo lusitano, é que passaram no teste para serem chamadas R. ramiflora com razoável grau de certeza.


São Martinho do Porto

21/01/2014

Lírio de má fama


Iris foetidissima L.


Os lírios são, em geral, plantas perenes de cores vistosas e matizes surpreendentes, alguns de haste floral com meio metro de altura, e, por isso, há muito cultivados como ornamentais. A sua presença é assídua em jardins, adornos religiosos, pinturas, florilégios. Mas este não: o tom baço, um pouco sujo e trigueiro, da mistura de violeta e amarelo com que as flores se perdem entre a folhagem dá-lhe quando muito um lugar secundário nos canteiros, apesar das brilhantes bagas cor-de-coral que as cápsulas exibem no Outono e Inverno — e que, pouco apreciadas pelos pássaros, justificam o nome inglês scarlet berry iris.

Há alguns lírios famosos desde tempos medievais, outros usados em perfumaria, outros ainda tidos como indicados para cemitérios. Mas este não: estima o recato de uma mata sombria de sobreiros, azinheiras ou carvalhos, ou uma sebe discreta, ou o coberto de um olival; e, diz-se, as folhas, se esmagadas, exalam um odor forte e desagradável, como quem avisa o beliscador para não repetir tal impertinência.

Alguns dos lírios que aqui mostrámos têm uma barbicha (ou uma reprodução imperfeita dela) no centro das tépalas descaídas, que parece uma fita de veludo de cor arrojada, com que por certo julgam encorajar mais abelhas a visitá-los e dar maior conforto aos polinizadores. Mas este não: é um lírio sem barba, exibindo apenas uma venação nas tépalas cuja configuração lembra uma grande asa de insecto ou o interior de uma vasta orelha. O nome Iris alude à deusa grega do arco-íris, aquela que carrega consigo alegremente mensagens entre o céu e a terra. Nessa comunicação colorida, atmosférica e sem fios, há pelo menos um lírio que não participa.

13/05/2013

Cor de rosa quando foge

Romulea rosea (L.) Eckl.
A Romulea bulbocodium, que no fim do Inverno e início da Primavera faz brotar rasteiros tapetes roxos em montes e vales de todo o país, não mereceu, apesar disso, ser popularmente agraciada com algum nome de baptismo. Não é pois de esperar que o dito povo alguma vez tenha notado as suas congéneres, nem mesmo a muito vistosa e costeira Romulea clusiana. Quanto a nós, não foi ainda na temporada de 2013 que conseguimos avistar plantinhas tão esquivas como a R. columnae e a R. ramiflora. Trata-se, como é bom de ver, de puro coleccionismo botânico, pois essas espécies de modo nenhum suplantam em beleza aquelas que já conhecemos. Houve, porém, um momento em que acreditámos que uma única florzinha num prado junto ao rio Coura era um dos cromos que faltava à nossa colecção. Mas o cor-de-rosa intenso da flor, as pétalas lanceoladas e, sobretudo, o facto de se tratar de uma planta solitária fizeram-nos desconfiar da sorte. «Uma Romulea nunca vem só»: eis o que poderia ser um ditado popular num país mais versado em botânica.

Uma consulta ao portal da benemérita Pacific Bulb Society permitiu localizar a Romulea courense nas páginas ilustrativas das espécies sul-africanas. Ficámos a saber que a província do Cabo é um verdadeiro bazar espontâneo de Romuleas multicoloridas: amarelas, vermelhas, lilases, brancas, acobreadas, cor-de-rosa. Face a tamanha diversidade, a Península Ibérica e a Europa em geral fazem figura triste. Para restaurar algum amor-próprio, temos de recapitular mentalmente as coisas que são nossas e que os sul-africanos não têm: os narcisos, o Drosophyllum, o lírio-do-Gerês.

A Romulea rosea, nativa da África do Sul, é uma planta bolbosa com folhas filiformes e haste floral com 6 a 15 cm de altura; a cor das flores é muito variável, e a haste exibe uma intumescência característica logo abaixo do cálice. A sua aptidão ornamental valeu-lhe de passaporte para outros países e continentes, e hoje está naturalizada pelo menos nos E.U.A., na América do Sul (Chile), na Europa (França e Grã-Bretanha), na Austrália e na Nova Zelândia. É pouco provável que se torne numa invasora perigosa, mas a planta avistada em Paredes de Coura talvez anuncie que a espécie está em vias de se instalar em Portugal.

15/03/2013

Lírio de Brotero

Iris subbiflora Brot.


Se vingar a opção da Flora Ibérica de agrupar no género Iris apenas as plantas de flores com uma franja nas tépalas e rizomas com numerosas raízes, das cerca de 110 espécies, europeias ou asiáticas, que comporão o minguado género só a I. subbiflora será espontânea em Portugal. Ainda assim, terá de mudar de nome, para Iris lutescens Lam., e com isso deixará de ser um endemismo ibérico. A proposta de mudança taxonómica é sustentada por estudos genéticos recentes, mas tem mais um efeito indesejável: a autoria do nome aceite passa do português Brotero para o francês Lamarck. O primeiro escolheu I. subbiflora em 1804, aludindo, crê-se, ao facto de as flores serem em geral solitárias, raramente duas em cada haste, e a planta parecer preguiçosa no florescer. Lamarck antecipou-se, e propôs em 1789 a designação I. lutescens, abrigando desse modo também plantas de fisionomia semelhante (ainda que menos altas e com flores que podem ser amarelas ou azuis mas sempre de barbicha amarela) que são nativas da região mediterrânica oeste e muito raras na Península Ibérica. São todos primos esses Iris, é certo, mas não se perdoa a desfeita.

Os caules desta herbácea são de um verde pálido que parece seco e rondam os 20 a 40 cm de altura. As folhas, ensiformes ou falciformes e de nervuras longas, juntam-se na base a formar um leque que é um suporte firme para a haste da flor. Esta é perfumada e azul-violeta, de tom mais ou menos intenso (por vezes com umas pinceladas de cor púrpura ou, excepcionalmente, brancas), penugem amarela, branca ou azulada nas tépalas externas (que não as cristas), e duas brácteas membranáceas.

Encontrámos umas centenas de exemplares desta planta na serra de Sicó, embora apenas uma vintena em flor. Estava em lugar soalheiro com solo calcário seco, e também em fissuras de rocha, aproveitando as pequenas clareiras do mato que por ali é rasteiro. Apesar de este tipo de habitat ser frequente na Beira Litoral, Estremadura e Ribatejo, os registos recentes de ocorrência deste lírio-roxo em Portugal situam-se todos em Sicó ou no Parque Natural de Sintra-Cascais.

18/01/2013

Alerta azul


Iris planifolia (Mill.) Fiori & Paol. [= Juno planifolia (Mill.) Asch.]



O dia prometia chuva com rajadas de vento, da que encharca montanheiros e pode prejudicar as fotos, mas como a floração desta planta atinge o auge no início do Inverno tivemos de desrespeitar o alerta amarelo. Na verdade, esteve uma tarde amena com poucas pingas, e afortunadamente o solo calcário ou argiloso, até pedregoso, que este lírio prefere é poroso e não forma os charcos lamacentos que noutros lugares nos costumam dificultar a passagem.

A flor lembra o lírio-do-Gerês, com certas diferenças: o lírio-azul-de-Inverno é maior, tem uma haste floral mais baixinha e as tépalas internas estão viradas para baixo; as folhas são largas e achatadas, com face superior de cor verde brilhante, margens onduladas e um arranjo que faz lembrar a planta do milho; e é muito mais fácil de encontrar.

A primeira população que avistámos estava no talude à beira de uma estrada de trânsito rápido a caminho de Penela. Pelo canto do olho apercebemo-nos de umas manchas roxas e, apesar do amuo dos condutores que nos seguiam, houve que parar na berma, fotografar calmamente e confirmar que as flores são perfumadas. O segundo local (primeira e segunda fotos) onde havia registo desta planta, num vale com prados entre os montes gémeos Jerumelo e Germanelo, superou largamente as expectativas (talvez porque o Verão foi relativamente seco e o Inverno continua chuvoso).

O lírio-de-amor-perfeito é planta vivaz, com um bolbo tunicado e raízes tuberosas, que hiberna no Verão. Parece que cada flor tem nove pétalas, mas não é bem assim. Há três tépalas externas azuis (por vezes brancas), que exibem uma protuberância central amarela e um zebrado roxo; e mais três internas, de um azul pálido, menos enfeitadas e muito mais pequenas, que estão patentes na base da flor. Finalmente o estilete termina com três cristas bífidas que parecem mais três pétalas, arqueadas sobre os segmentos externos e quase do tamanho destes, na base dos quais se situam os estigmas. Será que o leitor consegue localizar nas fotos todos estes detalhes? Não havia ainda plantas com frutos, mas pode conhecê-los aqui. Como vê, as sementes, rugosas como limões velhos, nascem em cápsulas esbranquiçadas de textura papirácea que se adivinha nas brácteas da haste floral.

A Iris planifolia mudou recentemente de género: não estranhando um Juno que floresce em Janeiro, os taxonomistas chamam-lhe agora Juno planifolia. É a única espécie, entre as cerca de sessenta do género, que é nativa da Europa (ocorrendo também na região mediterrânica, incluindo o norte de África). Em Portugal continental distribui-se pelo Alto e Baixo Alentejo, Algarve e Beira Litoral.

03/06/2011

De-lírio

Iris lusitanica Ker Gawl. [= Iris xiphium var. lusitanica (Ker Gawl.) Franco]


A serra da Boa Viagem, afamada pelos fósseis, parece ser, pelo nome, uma mão gigante que cumprimenta o viajante sem o convidar a deter-se. Sábia medida pois há ali redutos de flora – diversa porque em diferentes altitudes e exposta a doses distintas de maresia – que não dispensam protecção. A mata, de pinheiros, lentiscos, medronheiros, madressilvas, tojo e urze, tem áreas estragadas por acácias, mas as encostas de calcários e grés, recheadas de orquídeas em Abril e pintadas de amarelo em Maio, compensam largamente esta nódoa. Em dia de céu sem neblina, do miradouro da Bandeira, à cota mais alta da serra, avistam-se salinas, uma praia extensa de areia branquinha e, afiançam alguns, as Berlengas. Se não alongarmos tanto a vista, veremos agora, a nossos pés, centenas de exemplares deste lírio amarelo.

Não sabemos que idade têm as cores, mas é certo que, com o tempo, ganharam dezenas de matizes que os dinossauros da serra não conheceram. Em Março, o amarelo que pintava estas encostas era dourado, de Narcissus bulbocodium. Há cerca de um mês, foi a vez do amarelo-bico-de-melro do célebre Senecio doronicum. No fim de semana passado, encontrámos o amarelo-maduro deste lírio. Pela rama, parece uma versão noutro tom dos maios-roxos, mas notam-se algumas pequenas diferenças entre os dois: neste, as tépalas externas são mais arredondadas e têm uma nervação fina acastanhada; as folhas são igualmente estreitas mas mais compridas; as hastes aparentam ser mais baixas e uma vez por outra têm duas flores em vez de uma só. Serão estas razões suficientes para uma distinção taxonómica?

Em qualquer caso, o lírio-amarelo-dos-montes é um endemismo da Península Ibérica, que ocorre apenas no centro de Portugal e na Extremadura espanhola. Prefere solos ricos em argila e calcário de locais pedregosos, abertos e soalheiros. Tem interesse económico como planta ornamental, por isso é urgente que a sua colheita seja vigiada por leis que transponham para Portugal as directivas europeias que, acautelando os habitats naturais, regulamentam a sua exploração. Quem sabe, o novo ministro do Ambiente terá tempo para dar atenção a este assunto.