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18/04/2021

Flor do Arlequim



Santa Maria é a ilha de duas cores: amarela a metade ocidental, sobrando para a outra metade o verde que é marca registada do arquipélago. É essa a imagem mais forte que, ainda o avião não aterrou, fica na retina dos turistas que acorrem à ilha nos meses do Verão. Quando em outros anos a visitámos em Maio ou Junho essa dupla personalidade era evidente, mas desta vez, visitando-a no final de Março após semanas de chuva copiosa, o verde era a única cor autorizada, com as vacas pastando felizes entre as ervas tenras. Contudo, se a cor não marca a diferença, já o relevo não depende da sazonalidade: em volta do aeroporto e da Vila do Porto, e até que a terra se empina anunciando o Pico Alto, desenrola-se uma área plana pontuada por habitações baixas e esparso arvoredo exótico. É aqui que se situa o bairro do aeroporto: casas amplas e brancas servidas por ruas rectilíneas, despojos dos tempos gloriosas de uma ilha que recebeu, ainda durante a 2.ª Guerra Mundial, a primeira base militar americana no Atlântico. Já sem militares, o tempo das vacas gordas prolongou-se até meados dos anos 70, quando os aviões deixaram de fazer aqui escala e o aeroporto da ilha perdeu quase toda a importância. Dessa época sobrou um cinema (obviamente chamado Cinema do Aeroporto) com capacidade para 800 lugares — o edifício, agora pintado de fresco, acaba de ser recuperado e terá nova vida como centro cultural.

Talvez os terrenos baldios rodeando as casas tenham sido jardins, mas o abandono até os fez mais interessantes. É esta a zona da ilha onde mais aparece a Serapias parviflora, orquídea que, nos Açores, apenas existe nesta ilha e talvez na Terceira. Herbáceas simpáticas como o Centaurium tenuiflorum, Centaurium maritimum, Mentha pulegium e Papaver somniferum são aqui muito frequentes. Nas valas e charcos, e tirando partido de uma capacidade de retenção de água como só existe nesta ilha (muito menos «porosa» do que as demais ilhas do arquipélago), abundam o Alisma lanceolatum e diversas ervas higrófilas. E até plantas exóticas como a Verbena rigida (que pouco se vê nas outras ilhas) parecem aqui ser mais mimosas e menos agressivas.

Sparaxis bulbifera (L.) Ker Gawl.


Sul-africana de origem, a Sparaxis bulbifera, ou flor-do-Arlequim, talvez caiba na categoria das exóticas invasoras que são apenas moderadamente nocivas. Não a havíamos notado em visitas anteriores a Santa Maria porque floresce cedo, entre Março e Abril, mas ela é abundante na metade plana da ilha, ocupando contudo habitats que já pouco têm de natural, como pastagens e terrenos baldios. Convive muito bem com o pastoreio e até é favorecida por essa actividade, já que as vacas, que não lhe apreciam o sabor, eliminam a concorrência e deixam-na tranquila. É uma planta vivaz, com hastes floríferas de 15 a 60 cm de altura renovadas anualmente a partir de bolbos subterrâneos. Além da reprodução normal por semente, e como aliás sugere o epíteto específico, é capaz de multiplicar-se vegetativamente através de bolbilhos formados nas axilas das folhas. As folhas, de 10 a 30 cm de comprimento, têm forma de espada e dispôe-se em leque, à semelhança das folhas de outras iridáceas. O nome comum Harlequin flower, usado por anglo-saxónicos, é aplicado indistintamente às diferentes espécies do género Sparaxis, todas elas endémicas da província do Cabo, na África do Sul, e talvez se ajuste melhor a plantas mais coloridas como a Sparaxis tricolor. Tanto quanto se sabe, nos Açores a S. bulbifera só está naturalizada em Santa Maria e em São Miguel; de resto, emigrou também para as antípodas e naturalizou-se com sucesso na Nova Zelândia e na Austrália.

13/04/2021

Tamujo das ilhas

O arquipélago dos Açores é feito de terra jovem de origem vulcânica. A ilha mais nova é o Pico, com cerca de 40 mil anos, sendo Santa Maria a mais antiga, não tendo, porém, mais do que 14 milhões de anos. Como medida de comparação podemos usar o arquipélago da Madeira, que terá nascido há uns 70 milhões de anos. As ilhas açorianas distam relativamente pouco dos continentes europeu e africano, e as plantas que hoje vegetam nestas ilhas resultaram da colonização de espécies continentais (possivelmente com uma passagem por outras ilhas da Macaronésia), que sobreviveram à viagem, se adaptaram ao solo poroso mas muito fértil, e cujo ciclo de vida se coordenou com o clima atlântico de temperaturas amenas e muita chuva. Passados milhões de anos, algumas das plantas açorianas têm já fraca lembrança dos progenitores, e são hoje espécies autónomas, que não existem em mais nenhum local do mundo. Por exemplo, o Cerastium azoricum, a Myosotis azorica e a Euphrasia azorica só ocorrem nas ilhas mais ocidentais, Flores e Corvo, embora os géneros correspondentes estejam representados na flora continental. Noutras espécies, porém, a herança genética foi mais resistente à erosão do tempo, ou a chegada às ilhas foi mais tardia, ou a colonização foi mais difícil — e as semelhanças morfológicas com as espécies continentais mantêm-se. Por isso, é ainda controverso que essas plantas açorianas constituam espécies distintas.

Myrsine retusa Aiton — flores femininas em cima; masculinas em baixo


É o caso da Myrsine retusa, cuja designação científica não é definitiva, havendo botânicos que preferem considerá-la uma subespécie ou variedade da Myrsine africana. A M. africana ocorre no centro, leste e sul de África e em grande parte da Ásia, preferindo aí locais pedregosos e bem drenados, em ambiente florestal. Uma ecologia, afinal, não muito diferente da açoriana. De qualquer modo, havendo actualmente meios de diferenciação genéticos bastante eficientes, é uma questão de tempo até que algum botânico se disponha a encetar tal estudo, dissipando de uma vez quaisquer dúvidas.

O tamujo tem, todavia, um perfil peculiar entre os cerca de 70 endemismos açorianos conhecidos: para além da Myrsine retusa, só duas espécies adicionais (Smilax azorica e Corema album subsp. azoricum) são dióicas. Supomos que, nesse pormenor, estas espécies tenham estado em desvantagem, pois são precisas plantas dos dois sexos para que a espécie se instale com sucesso num novo habitat.

Da família Primulaceae, o tamujo está presente em todas as ilhas açorianas, aprecia os bosques sombrios e frescos de cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), e forma arbustos baixos de folhagem perene muito ramificada, com folhas ovais arredondadas, alternadas, coriáceas e dentadas no ápice. A floração inicia-se no fim de Março, pelo menos na ilha de Santa Maria, onde pudemos finalmente ver este ano as flores: as masculinas com anteras vermelhas muito vistosas; as femininas diminutas (cerca de 2 mm), esbranquiçadas, com sépalas pintalgadas. O fruto é uma baga com uma semente.

Santa Maria: Picconia azorica (à esquerda); Pico Alto (à direita); Monte Gordo (em baixo)

03/07/2018

Ervas de Santa Maria


Tapete de Rostraria azorica na Praia Formosa, em Santa Maria
Com uma área de 97 km2, Santa Maria é a terceira menor ilha dos Açores, avantajando-se apenas ao Corvo e à Graciosa. É por isso surpreendente que, de todo o arquipélago, seja ela que detém o maior número de plantas endémicas exclusivas. São três as plantas que ocorrem em Santa Maria e em mais lado nenhum: Aichryson santamariensis, Euphorbia stygiana subsp. santamariae e Rostraria azorica. Apesar de ser oito vezes maior, São Miguel sai-se mal desta disputa, ficando-se por um único endemismo exclusivo: Leontodon rigens. De resto, os bons ofícios do vento e das aves e a proximidade entre as ilhas fizeram rarear no arquipélago o fenómeno da exclusividade: há ainda, no Pico, o duvidoso caso da Silene uniflora subsp. cratericola, e é tudo. As coisas seriam diferentes se as Flores e o Corvo, tão distantes do resto do arquipélago, contassem como uma ilha só, pois nada menos que quatro espécies exclusivas são partilhadas por essas duas ilhas.

Das três plantas endémicas de Santa Maria, a Rostraria azorica é decerto a menos conspícua: em Maio e em Junho, o Aichryson santamariensis enfeita profusamente as estradas da ilha com o amarelo radioso das suas flores; a Euphorbia, misteriosa no seu bosque, seduz-nos pela folhagem e pelos seus ramos serpenteantes; mas a R. azorica, uma gramínea anual reduzida a um caule e um penacho, com uns 10 a 15 cm de altura máxima, parece ter a modéstia como única qualidade.


Rostraria azorica S. Hend.


De um modo geral, as plantas não têm qualquer interesse em seduzir-nos, mas alguns dos engodos visuais ou olfactivos por elas usados para atrair insectos e outros polinizadores podem também apelar aos nossos sentidos. Contudo, as gramíneas, apesar de serem plantas evoluídas, confiam no vento para a polinização e dispersão das sementes — e, por dispensarem toda a ajuda de terceiros, não entram em jogos de sedução. O que não quer dizer que um sentido estético mais refinado não seja capaz de encontrar uma beleza de tipo austero em certas gramíneas, merecedoras por isso de um protagonismo em jardinagem que ultrapasse o utilitarismo dos relvados. E, falando das gramíneas endémicas açorianas, é inegável o dramatismo cénico que o bracel-da-rocha (Festuca petraea) empresta às falésias negras das ilhas.

À escala a que o nossos olhos costumam funcionar, a R. azorica tem tudo para passar despercebida, confundindo-se com uma multidão de outras ervitas insignificantes. É nos detalhes das inflorescências que as gramíneas marcam pontos, valendo-se de uma simetria e regularidade inigualadas por plantas mais vistosas (exemplos: 1, 2). Aí a R. azorica é tão fotogénica como as melhores, e mostra suficiente personalidade para que possamos reconhecê-la entre as suas (quase) iguais. O género a que pertence, Rostraria, inclui cerca de uma dezena de espécies anuais típicas de lugares áridos, todas bastante semelhantes, distribuídas pela bacia mediterrânica e pelo Médio Oriente. Nos Açores ocorre uma segunda espécie, também presente em Portugal continental e em grande parte da Europa, que é a R. cristata (foto em baixo). A Rostraria de Santa Maria distingue-se bem desta por ser uma planta mais hirsuta, por ter a panícula mais estreita e alongada, e por as lemas (brácteas que protegem os florículos) terem aristas muito mais compridas.

O que há de mais notável na Rostraria azorica é ela ser endémica de uma ilha só. As sementes das gramíneas deixam-se transportar pelo vento a grandes distâncias, e os 80 km que separam Santa Maria de São Miguel não deveriam ser obstáculo de grande monta. Várias são as gramíneas endémicas presentes em todas as ilhas do arquipélago (Festuca petraea, Holcus rigidus, Gaudinia coarctata) ou em pelo menos oito ou sete delas (Festuca francoi, Deschampsia foliosa). Não seria inesperado se se descobrisse que a R. azorica aparece noutras ilhas — mas antes de alguém se lançar na procura terá que saber reconhecer a planta, e lembrar-se de que ela só está visível por um período curto, entre Abril e Maio. O carácter efémero e discreto desta gramínea, afinal frequente nas zonas costeiras de Santa Maria, ajuda a explicar que só em 2003 tenha sido publicada a descrição formal da nova espécie (S. Henderson & H. Schäfer, Synopsis of the genus Rostraria (Poaceae) in the Azores, Bot. Journal of the Linnean Society, 141-1), embora já em 1969 a sua existência tivesse sido notada pelo botânico C. E. Hubbard.


Rostraria cristata (L.) Tzvelev

19/06/2018

O trovisco-macho mais raro da Europa



Euphorbia stygiana subsp. santamariae H. Schaef.


A ilha açoriana de Santa Maria tem duas caras para mostrar aos visitantes. Na metade oeste, onde ficam o aeroporto, o porto de mar e, junto a ele, a principal povoação da ilha (apropriadamente chamada Vila do Porto), domina o amarelo das pastagens secas. Na metade leste, empinam-se os montes que captam o nevoeiro e a chuva, e a cor dominante passa a ser o mesmo verde a que nos habituámos nas outras ilhas do arquipélago. Somos levados a pensar que meia ilha de verdura não chega para compensar a aridez da outra metade, e que os cursos de água, se os houver, deverão ser raros e efémeros. Só que nada disso é verdade. Por um capricho da geologia, Santa Maria tem, na sua metade leste, muitas ribeiras permanentes; e algumas das que desaguam na metade oeste, nascidas na cadeia montanhosa do centro da ilha, também levam água todo o ano. Ilhas muito mais húmidas e verdes como o Pico e o Faial são também muito mais porosas, dispondo apenas de ribeiras temporárias, de regime torrencial.

Em Santa Maria, no vale encaixado de uma dessas ribeiras milagrosas, esconde-se, quase sufocada pela proliferação do incenso e da conteira, uma eufórbia arbórea (ou, na designação popular, um trovisco-macho) que é única no mundo. A população de poucas dezenas, todas no mesmo local, tem vindo a diminuir de forma alarmante, com os deslizamentos de terras provocando a perda de exemplares adultos e o cerco das invasoras impedindo que vinguem os exemplares jovens. O momento, porém, é de esperança, pois, em colaboração com os serviços do Parque Natural de Santa Maria, o Jardim do Botânico do Faial, que já salvou o não-me-esqueças e o teixo açoriano do limiar da extinção, comprometeu-se a intervir rapidamente.

Descoberta por Hanno Schaefer em 2001, e por ele descrita em 2002 na sua tese de doutoramento (intitulada Chorology and Diversity of the Azorean Flora), esta eufórbia foi então baptizada como Euphorbia stygiana subsp. santamariae. Segundo Schaefer, a diferença mais marcante é que os exemplares de Santa Maria são árvores capazes de atingir os dez metros de altura, enquanto que a E. stygiana das outras ilhas (ver fotos aqui) é um arbusto não excedendo os cinco metros. Esta dicotomia não é muito convincente, pois a subsp. stygiana às vezes também é uma árvore e no Pico há exemplares gigantescos. Mas todo o cepticismo foi varrido pelo espanto quando nos vimos perante o trovisco-macho de Santa Maria. O tipo de crescimento é muito diferente, as folhas são mais baças e com o veio central menos marcado, e as inflorescências cobertas de penugem, com os nectários alaranjados, não poderiam contrastar mais com as do trovisco-macho das outras ilhas (ver fotos aqui). E estas discrepâncias morfológicas tão óbvias são, segundo soubemos, corroboradas por diferenças genéticas. Assim, é provável que o trovisco-macho de Santa Maria represente uma espécie autónoma, não se justificando a sua subordinação, como subespécie, à E. stygiana do resto do arquipélago. De resto, a julgar pela aparência, a Euphorbia santamariae (como algum dia se há-de chamar) está mais próxima da madeirense E. mellifera do que da E. stygiana propriamente dita — e pode, de facto, ser o elo de ligação entre as duas espécies, funcionando Santa Maria (a ilha açoriana mais antiga, e a mais próxima da Madeira) como primeira etapa na rota migratória da Madeira para os Açores.

Se a singularidade deste trovisco-macho tivesse tido o devido reconhecimento taxonómico, talvez a operação de salvamento que agora se prepara in extremis pudesse ter sido levada a cabo, com maior probabilidade de sucesso, há uma dúzia de anos. Haveria por certo o risco de o frenesim mediático (com títulos como "A eufórbia mais rara da Europa é dos Açores") poder atrair coleccionadores sem escrúpulos, depauperando ainda mais uma população escassíssima. Mas é muito mais sério o risco de uma morte silenciosa.

03/01/2015

O regresso dos limónios


Limonium vulgare Mill. [ou talvez não]


Dizem que os Açores hão-de ser dos destinos turísticos mais badalados em 2015. Para aumentar a atracção invocam-se chavões equivocados como «sustentabilidade» e «natureza em estado puro», tudo isto ilustrado com plantações de criptomérias, pastagens verdejantes onde ruminam vacas, estradas sublinhadas pelo azul das hortênsias, bordos de cratera invadidos por conteiras floridas. Promoção equivalente em Portugal continental seria celebrar a natureza pura e intocada dos eucaliptais e das matas de acácias. Por cá tal aldrabice ver-se-ia rapidamente desmascarada, mas os açorianos levam décadas de atraso no reconhecimento e valorização das suas plantas autóctones e da sua floresta ancestral. Que motivos haverá para mudar de atitude quando o status quo conquista prestigiosos galardões internacionais? E nós próprios, invariavelmente resmungões, havemos em 2015 de voltar, encantados, às mesmas ilhas que sabemos terem sido adulteradas além de qualquer esperança de recuperação. É como um casamento em que os defeitos do parceiro são cada vez mais evidentes sem que isso diminua o afecto recíproco.

Enquanto vamos contando os meses, ficamo-nos por um regresso virtual ao arquipélago, para mostrar uma das plantas de lá que ainda aqui não tinha marcado o ponto. Ou talvez já o tenha feito, mas através de exemplares fotografados nesta banda. O que se passa é que o limónio açoriano tem uma ecologia completamente distinta da dos limónios continentais que alegadamente pertencem à mesma espécie: nos Açores é uma planta de falésias costeiras, ao passo que por cá vive obrigatoriamente em sapais e prados halófilos periodicamente inundados pelas marés. Ou seja, nas ilhas, com tanto mar à volta, a planta recusa molhar o pé, admitindo apenas refrescar-se com uns salpicos de água salgada. Seria demasiado atrevimento para botânicos amadores como nós afirmar que as duas estirpes, a continental e a insular, se distinguem igualmente pela morfologia, mas vai sendo tempo de os especialistas tirarem o assunto a limpo. De facto, já houve uma tentativa de elevar o limónio açoriano à categoria de endemismo do arquipélago, sob o nome de Limonium eduardi-diasii, mas a dita combinação (referida na 2.ª edição, de 2005, do livro Flora of the Azores — A Field Guide de Hanno Schäffer, e também na Lista de Referência da Flora dos Açores, publicada em 2010 pelo Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores) não parece ter sido objecto de publicação válida.

O limónio açoriano tem folhas grandes, de uns 15 cm de comprimento, e floresce vistosamente de Maio a Setembro. Não o faz com igual intensidade em todas as ilhas, e só parece ser fácil de encontrar em Santa Maria, onde de facto é muito comum ao longo de todo o perímetro costeiro. Está contudo referenciado em quatro ilhas mais: São Miguel, Terceira, Pico e Corvo.

Para complicar o estudo dos limónios em território português, um estudo de 2012 (Estudio de los taxa afines a Limonium vulgare Miller de marismas de Portugal continental, tese de mestrado de Ana Cortinhas defendida na Universidade de Valência) estabeleceu que, além do Limonium vulgare propriamente dito, ocorrem por cá dois outros limónios de aspecto semelhante e com as mesmas apetências ecológicas: são eles o L. humile e o L. narbonense, o último não menos abundante que o L. vulgare e com ele coexistindo amiúde. Parece que nisto dos limónios a Flora Iberica (o volume em causa é de 1993) se esforçou por empobrecer a flora portuguesa, pois a existência por cá de pelo menos duas espécies de limónios de folhas grandes já tinha sido referida no 1.º volume (de 1971) da Nova Flora de Portugal (ainda que Franco tenha usado o nome L. serotinum, sinónimo de L. narbonense).



Limonium binervosum (G. E. Sm.) Salmon


O Limonium binervosum, de que já aqui falámos, fornece outro exemplo de como a Flora Iberica representou um retrocesso no conhecimento da distribuição deste género em Portugal. Excluído dessa obra de referência mas incluído, muito acertadamente, na Nova Flora de Portugal, o L. binervosum está de boa saúde no nosso país, ocorrendo em areias e falésias costeiras desde (pelo menos) São Jacinto (Aveiro) até Salir do Porto (Caldas da Rainha), como se verifica no mapa de distribuição que consta desta recente tese de doutoramento1 (PDF). As plantas das fotos viviam na Gafanha da Boa Hora, na ria de Aveiro, mas parte da população poderá entretanto ter sido destruída com a recente construção de uma "ecopista" no local.

1 Ana Sofia Róis — Strategies for Conservation of Rare and Endemic Species: Characterization of Genetic and Epigenetic Variation and Unusual Reproductive Biology of Coastal Species from Limonium ovalifolium and Limonium binervosum Complexes (Plumbaginaceae) — Instituto Superior de Agronomia, 2014

21/01/2014

Lírio de má fama


Iris foetidissima L.


Os lírios são, em geral, plantas perenes de cores vistosas e matizes surpreendentes, alguns de haste floral com meio metro de altura, e, por isso, há muito cultivados como ornamentais. A sua presença é assídua em jardins, adornos religiosos, pinturas, florilégios. Mas este não: o tom baço, um pouco sujo e trigueiro, da mistura de violeta e amarelo com que as flores se perdem entre a folhagem dá-lhe quando muito um lugar secundário nos canteiros, apesar das brilhantes bagas cor-de-coral que as cápsulas exibem no Outono e Inverno — e que, pouco apreciadas pelos pássaros, justificam o nome inglês scarlet berry iris.

Há alguns lírios famosos desde tempos medievais, outros usados em perfumaria, outros ainda tidos como indicados para cemitérios. Mas este não: estima o recato de uma mata sombria de sobreiros, azinheiras ou carvalhos, ou uma sebe discreta, ou o coberto de um olival; e, diz-se, as folhas, se esmagadas, exalam um odor forte e desagradável, como quem avisa o beliscador para não repetir tal impertinência.

Alguns dos lírios que aqui mostrámos têm uma barbicha (ou uma reprodução imperfeita dela) no centro das tépalas descaídas, que parece uma fita de veludo de cor arrojada, com que por certo julgam encorajar mais abelhas a visitá-los e dar maior conforto aos polinizadores. Mas este não: é um lírio sem barba, exibindo apenas uma venação nas tépalas cuja configuração lembra uma grande asa de insecto ou o interior de uma vasta orelha. O nome Iris alude à deusa grega do arco-íris, aquela que carrega consigo alegremente mensagens entre o céu e a terra. Nessa comunicação colorida, atmosférica e sem fios, há pelo menos um lírio que não participa.

12/08/2013

Pomba em pé

Ammi seubertianum (H. C. Watson) Trel.



Embora possam ser plantas vistosas e de grande tamanho, as umbelíferas padecem de uma uniformidade que as torna indistinguíveis aos olhos da maioria dos leigos. Mesmo os naturalistas e botânicos profissionais tardam por vezes em dar-lhes a merecida atenção. A história da Angelica lignescens, uma gigantesca umbelífera açoriana confundida durante mais de um século com o Melanoselinum decipiens, um endemismo madeirense que com ela pouco se parece, é ilustrativa dos equívocos a que a taxonomia das umbelíferas está sujeita.

O género Ammi, que inclui seis espécies de plantas anuais ou bienais nativas da região mediterrânica, Macaronésia e Médio Oriente, tem boa parte do seu contingente concentrado no arquipélago açoriano. Nada menos que três espécies endémicas dos Açores foram registadas, todas elas conhecidas como pé-de-pomba: A. trifoliatum, A. hunti e A. seubertianum. As três são listadas tanto no Portal da Biodiversidade dos Açores como na Checklist da Flora de Portugal. Sucede que as duas últimas, apesar de descritas originalmente pelo mesmo H. C. Watson, são consideradas por várias fontes como uma e a mesma espécie, tendo prioridade a designação A. hunti. Hanno Schäfer, na sua tese de 2003, defende igualmente que só existem duas espécies endémicas de Ammi nos Açores, mas que elas são A. trifoliatum e A. seubertianum. A mesma opinião é seguida numa listagem de endemismos açorianos publicada em 2006 por Carlos Aguiar, J. A. Fernández Prieto e Eduardo Dias. Finalmente, J. do Amaral Franco, no vol. 1 (de 1971) da Nova Flora de Portugal, reconhece uma única espécie açoriana, a que chama A. hunti.

A opinião mais recente dos estudiosos da flora açoriana inclina-se pois para a inexistência no arquipélago de um terceiro endemismo dentro do género Ammi. De facto, mesmo que o nome A. hunti persista, talvez por equívoco, em algumas listagens, não há fotos de plantas dessa espécie e ninguém parece saber onde encontrá-la. Por contraste, e apesar da opinião em contrário de Franco, há boas fotos e descrições inequívocas do A. trifoliatum e do A. seubertianum, e as duas espécies têm distribuição bem conhecida.

O Ammi seubertianum — dedicado ao botânico alemão Moritz August Seubert (1818–1878), que nunca visitou os Açores mas foi o autor, em 1844, da pioneira Flora Azorica — é bienal, atinge de 50 cm a 1 m de altura, floresce na Primavera e início do Verão, e apresenta folíolos grossos, quase suculentos; o A. trifoliatum, também bienal, é mais alto (pode chegar aos 2 m) e tem folhas basais mais divididas, com folíolos finos. O primeiro, com uma distribuição sobretudo costeira, é comum na metade oriental de Santa Maria; tirando essa ilha, só parece existir no Pico. O segundo, mais disseminado, ocorre no interior de sete ilhas (Flores, Corvo, Faial, Pico, Terceira, São Jorge e São Miguel) a altitudes entre os 400 e os 700 metros, mas só é comum nas Flores, e no Faial está no limiar da extinção.

06/08/2013

Ilha prometida

Tolpis succulenta (Dryand.) Lowe



Talvez a ilha de Santa Maria quisesse fazer parte de outro arquipélago, ou pelo menos, pelo seu carácter híbrido, servir de transição entre os Açores e a Madeira. A fronteira entre os dois arquipélagos cortaria a ilha de norte a sul. A metade ocidental, árida e plana, irmã gémea da ilha de Porto Santo, ficaria a pertencer à Madeira; o verde impenitente da outra metade permaneceria sob administração açoriana. É verdade que a geografia resultaria algo confusa, com a metade açoriana mais perto da Madeira do que a metade madeirense, mas a tradição europeia dos enclaves e das fronteiras em ziguezague permitiria ultrapassar todas as dificuldades. E é bom assinalar que a distância entre Santa Maria e a ilha açoriana mais distante, o Corvo, é de 600 Km, não muito inferior aos 850 que medeiam entre Santa Maria e a Madeira.

Essa transferência parcial de soberania justifica-se também por razões botânicas. O Aichryson villosum é exemplo de uma planta que só é açoriana por ter posto o pé em Santa Maria, caso contrário seria um endemismo madeirense. E Santa Maria é a única ilha do arquipélago onde o Lotus azoricus é fácil de encontrar: sendo certo que se trata de um endemismo açoriano, não é menos verdade que é na Madeira e no Porto Santo que vivem os seus primos mais chegados. Até na vegetação invasora das arribas litorais, dominada pela piteira (Agave americana), Santa Maria se assemelha mais à Madeira do que às restantes ilhas açorianas.

A asterácea de hoje, de seu nome Tolpis succulenta, um endemismo açórico-madeirense, fornece mais uma achega a esta discussão. Habitante de falésias costeiras, referenciada em todas as ilhas dos Açores, sobrevive com dificuldade em todas elas, incapaz de competir com plantas mais exuberantes que ocupam o mesmo habitat. Dá-se mal em todas as ilhas, com uma excepção importante: em Santa Maria, a ilha prometida, ela vê-se por todo o lado, não já limitada à linha de costa mas penetrando pelo interior da ilha até cerca dos 500 metros de altitude. Também na Madeira, onde é conhecida como visco, é uma planta comum em escarpas rochosas, muros e taludes, desde o litoral até às montanhas do interior. A conclusão é que, tanto na Madeira como em Santa Maria, a Tolpis succulenta encontra o tipo de clima mediterrânico a que melhor se adapta, e que a sua presença em oito das nove ilhas açorianas se deve a um equívoco da natureza. A somar a tudo isto, existe a leituga (Tolpis macrorhiza), endemismo madeirense que, a menos de poucos detalhes, é uma cópia da T. succulenta.

A T. succulenta é uma planta perene, quase glabra, lenhosa na base, com caules muito ramificados e mais ou menos prostrados, dotados de látex. As folhas, que podem medir uns 10 cm de comprimento, são carnudas, elípticas ou lanceoladas, com margens inteiras ou dentadas; os capítulos florais são em geral solitários e nascem entre Junho e Setembro.

Não sendo tão vistosa como a agigantada T. azorica, a T. succulenta é ainda mais peculiar. Foi com emoção que a vimos, em Santa Maria, pintalgando de alto a baixo com um amarelo vivo as negras falésias junto ao porto.


04/08/2013

Fitogeografia


Spergularia azorica (Kindb.) Lebel



Nos verões de 1894 e de 1896, o botânico norte-americano William Trelease (1857-1945), então director do Jardim Botânico do Missouri, visitou as ilhas açorianas numa expedição que também previa a colecta de sementes ou plantas para este jardim. A localização das ilhas era suficientemente remota para que as expectativas quanto a novidades botânicas fossem elevadas. Ali encontraria um habitat isolado, pensou, como a Madeira ou os Galápagos, com um clima favorável à coexistência de vegetação de montanha (nos picos, quase sempre escondidos por nevoeiro e chuva) e de beira-mar (com plantas adaptadas às falésias, ao farelo de pedra vulcânica e às praias de calhau rolado), com alguma flora tropical à mistura.

Trelease publica em 1897 as notas desta viagem, a que junta uma listagem pormenorizada da flora que encontrou nas nove ilhas (e da que, não tendo encontrado, foi descrita pelos seus antecessores). O tom geral é de desapontamento. As ilhas eram afinal frequentemente visitadas por navios da Europa e da América do Norte, e mesmo entre as ilhas mais a ocidente (Flores e Corvo) e as mais orientais (São Miguel e Santa Maria) circulavam demasiadas embarcações para haver diferenças nas respectivas floras. Além disso, a agricultura intensiva (com as vinhas destruídas por doenças, plantava-se milho, batata e batata doce, e cultivavam-se frutos como a banana e o já famoso ananás), os pastos com forragem europeia (por a julgarem melhor do que a nativa) e a invasão da flora exótica (já então o Hedichium gardnerianum liderava as hostes invasoras) pouco espaço deixavam para a flora endémica. Segundo Trelease, esta estaria refugiada em locais de difícil acesso, a salvo de coelhos e cabras mas desse modo também inacessível aos botânicos. Havia os líquenes, é certo, e muitas novas espécies de fungos para nomear, mas não eram esses os objectos do seu estudo. Seguindo a tendência de então, Trelease parecia empenhado em confirmar a teoria de Darwin e queria estudar a adaptação das plantas europeias ou americanas ao habitat açoriano, muito ventoso, extremamente húmido e de influência marítima. Todavia, em Botanical Observations of the Azores, Trelease informa que as ilhas eram demasiado jovens para se notarem indícios da selecção natural: só em Santa Maria eram conhecidos fósseis e só lá não havia vulcões com actividade recente.

A Spergularia azorica foi uma das plantas que Trelease viu floridas, e em todas as ilhas. Começou por se chamar Lepigonum azoricum, nome que o botânico sueco Nils Conrad Kindberg (1832-1910) lhe deu em 1863. Em 1868, o francês Jacques Eugène Lebel (1801-1878) colocou-a no género Spergularia e confirmou-lhe o estatuto de endemismo açoriano. Trelease prefere designá-la Spergularia macrorhiza, seguindo o botânico inglês H. C. Watson (1804-1881), que visitou os Açores em 1840 e a nomeara oficialmente em 1868 (depois de uma outra ida às ilhas em 1865 com o entomologista Frederick du Cane Godman (1834-1919)). Trelease nota como esta planta, exposta a derrocadas e vendavais, parece em harmonia com o ambiente: talos robustos, com que se agarra às arribas; hábito prostrado e aninhado nas reentrâncias rochosas de falésias ou escoadas de lava; uma penugem densa a agasalhá-la; flores grandes (muito maiores do que nas outras plantas do mesmo género) e bem abertas, com o néctar acessível aos polinizadores; e sementes, com uma asa rudimentar, que se disseminam pelo vento.

Santa Maria, onde vimos populações abundantes desta planta, pertence hoje à lista das Zonas Especiais de Conservação (ZEC), e a Spergularia azorica é uma das espécies da flora açoriana listadas no anexo II da Directiva Habitats, na companhia da Azorina vidalii e do Lotus azoricus.