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03/07/2018

Ervas de Santa Maria


Tapete de Rostraria azorica na Praia Formosa, em Santa Maria
Com uma área de 97 km2, Santa Maria é a terceira menor ilha dos Açores, avantajando-se apenas ao Corvo e à Graciosa. É por isso surpreendente que, de todo o arquipélago, seja ela que detém o maior número de plantas endémicas exclusivas. São três as plantas que ocorrem em Santa Maria e em mais lado nenhum: Aichryson santamariensis, Euphorbia stygiana subsp. santamariae e Rostraria azorica. Apesar de ser oito vezes maior, São Miguel sai-se mal desta disputa, ficando-se por um único endemismo exclusivo: Leontodon rigens. De resto, os bons ofícios do vento e das aves e a proximidade entre as ilhas fizeram rarear no arquipélago o fenómeno da exclusividade: há ainda, no Pico, o duvidoso caso da Silene uniflora subsp. cratericola, e é tudo. As coisas seriam diferentes se as Flores e o Corvo, tão distantes do resto do arquipélago, contassem como uma ilha só, pois nada menos que quatro espécies exclusivas são partilhadas por essas duas ilhas.

Das três plantas endémicas de Santa Maria, a Rostraria azorica é decerto a menos conspícua: em Maio e em Junho, o Aichryson santamariensis enfeita profusamente as estradas da ilha com o amarelo radioso das suas flores; a Euphorbia, misteriosa no seu bosque, seduz-nos pela folhagem e pelos seus ramos serpenteantes; mas a R. azorica, uma gramínea anual reduzida a um caule e um penacho, com uns 10 a 15 cm de altura máxima, parece ter a modéstia como única qualidade.


Rostraria azorica S. Hend.


De um modo geral, as plantas não têm qualquer interesse em seduzir-nos, mas alguns dos engodos visuais ou olfactivos por elas usados para atrair insectos e outros polinizadores podem também apelar aos nossos sentidos. Contudo, as gramíneas, apesar de serem plantas evoluídas, confiam no vento para a polinização e dispersão das sementes -- e, por dispensarem toda a ajuda de terceiros, não entram em jogos de sedução. O que não quer dizer que um sentido estético mais refinado não seja capaz de encontrar uma beleza de tipo austero em certas gramíneas, merecedoras por isso de um protagonismo em jardinagem que ultrapasse o utilitarismo dos relvados. E, falando das gramíneas endémicas açorianas, é inegável o dramatismo cénico que o bracel-da-rocha (Festuca petraea) empresta às falésias negras das ilhas.

À escala a que o nossos olhos costumam funcionar, a R. azorica tem tudo para passar despercebida, confundindo-se com uma multidão de outras ervitas insignificantes. É nos detalhes das inflorescências que as gramíneas marcam pontos, valendo-se de uma simetria e regularidade inigualadas por plantas mais vistosas (exemplos: 1, 2). Aí a R. azorica é tão fotogénica como as melhores, e mostra suficiente personalidade para que possamos reconhecê-la entre as suas (quase) iguais. O género a que pertence, Rostraria, inclui cerca de uma dezena de espécies anuais típicas de lugares áridos, todas bastante semelhantes, distribuídas pela bacia mediterrânica e pelo Médio Oriente. Nos Açores ocorre uma segunda espécie, também presente em Portugal continental e em grande parte da Europa, que é a R. cristata (foto em baixo). A Rostraria de Santa Maria distingue-se bem desta por ser uma planta mais hirsuta, por ter a panícula mais estreita e alongada, e por as lemas (brácteas que protegem os florículos) terem aristas muito mais compridas.

O que há de mais notável na Rostraria azorica é ela ser endémica de uma ilha só. As sementes das gramíneas deixam-se transportar pelo vento a grandes distâncias, e os 80 km que separam Santa Maria de São Miguel não deveriam ser obstáculo de grande monta. Várias são as gramíneas endémicas presentes em todas as ilhas do arquipélago (Festuca petraea, Holcus rigidus, Gaudinia coarctata) ou em pelo menos oito ou sete delas (Festuca francoi, Deschampsia foliosa). Não seria inesperado se se descobrisse que a R. azorica aparece noutras ilhas -- mas antes de alguém se lançar na procura terá que saber reconhecer a planta, e lembrar-se de que ela só está visível por um período curto, entre Abril e Maio. O carácter efémero e discreto desta gramínea, afinal frequente nas zonas costeiras de Santa Maria, ajuda a explicar que só em 2003 tenha sido publicada a descrição formal da nova espécie (S. Henderson & H. Schäfer, Synopsis of the genus Rostraria (Poaceae) in the Azores, Bot. Journal of the Linnean Society, 141-1), embora já em 1969 a sua existência tivesse sido notada pelo botânico C. E. Hubbard.


Rostraria cristata (L.) Tzvelev

19/06/2018

O trovisco-macho mais raro da Europa



Euphorbia stygiana subsp. santamariae H. Schaef.


A ilha açoriana de Santa Maria tem duas caras para mostrar aos visitantes. Na metade oeste, onde ficam o aeroporto, o porto de mar e, junto a ele, a principal povoação da ilha (apropriadamente chamada Vila do Porto), domina o amarelo das pastagens secas. Na metade leste, empinam-se os montes que captam o nevoeiro e a chuva, e a cor dominante passa a ser o mesmo verde a que nos habituámos nas outras ilhas do arquipélago. Somos levados a pensar que meia ilha de verdura não chega para compensar a aridez da outra metade, e que os cursos de água, se os houver, deverão ser raros e efémeros. Só que nada disso é verdade. Por um capricho da geologia, Santa Maria tem, na sua metade leste, muitas ribeiras permanentes; e algumas das que desaguam na metade oeste, nascidas na cadeia montanhosa do centro da ilha, também levam água todo o ano. Ilhas muito mais húmidas e verdes como o Pico e o Faial são também muito mais porosas, dispondo apenas de ribeiras temporárias, de regime torrencial.

Em Santa Maria, no vale encaixado de uma dessas ribeiras milagrosas, esconde-se, quase sufocada pela proliferação do incenso e da conteira, uma eufórbia arbórea (ou, na designação popular, um trovisco-macho) que é única no mundo. A população de poucas dezenas, todas no mesmo local, tem vindo a diminuir de forma alarmante, com os deslizamentos de terras provocando a perda de exemplares adultos e o cerco das invasoras impedindo que vinguem os exemplares jovens. O momento, porém, é de esperança, pois, em colaboração com os serviços do Parque Natural de Santa Maria, o Jardim do Botânico do Faial, que já salvou o não-me-esqueças e o teixo açoriano do limiar da extinção, comprometeu-se a intervir rapidamente.

Descoberta por Hanno Schaefer em 2001, e por ele descrita em 2002 na sua tese de doutoramento (intitulada Chorology and Diversity of the Azorean Flora), esta eufórbia foi então baptizada como Euphorbia stygiana subsp. santamariae. Segundo Schaefer, a diferença mais marcante é que os exemplares de Santa Maria são árvores capazes de atingir os dez metros de altura, enquanto que a E. stygiana das outras ilhas (ver fotos aqui) é um arbusto não excedendo os cinco metros. Esta dicotomia não é muito convincente, pois a subsp. stygiana às vezes também é uma árvore e no Pico há exemplares gigantescos. Mas todo o cepticismo foi varrido pelo espanto quando nos vimos perante o trovisco-macho de Santa Maria. O tipo de crescimento é muito diferente, as folhas são mais baças e com o veio central menos marcado, e as inflorescências cobertas de penugem, com os nectários alaranjados, não poderiam contrastar mais com as do trovisco-macho das outras ilhas (ver fotos aqui). E estas discrepâncias morfológicas tão óbvias são, segundo soubemos, corroboradas por diferenças genéticas. Assim, é provável que o trovisco-macho de Santa Maria represente uma espécie autónoma, não se justificando a sua subordinação, como subespécie, à E. stygiana do resto do arquipélago. De resto, a julgar pela aparência, a Euphorbia santamariae (como algum dia se há-de chamar) está mais próxima da madeirense E. mellifera do que da E. stygiana propriamente dita -- e pode, de facto, ser o elo de ligação entre as duas espécies, funcionando Santa Maria (a ilha açoriana mais antiga, e a mais próxima da Madeira) como primeira etapa na rota migratória da Madeira para os Açores.

Se a singularidade deste trovisco-macho tivesse tido o devido reconhecimento taxonómico, talvez a operação de salvamento que agora se prepara in extremis pudesse ter sido levada a cabo, com maior probabilidade de sucesso, há uma dúzia de anos. Haveria por certo o risco de o frenesim mediático (com títulos como "A eufórbia mais rara da Europa é dos Açores") poder atrair coleccionadores sem escrúpulos, depauperando ainda mais uma população escassíssima. Mas é muito mais sério o risco de uma morte silenciosa.

03/01/2015

O regresso dos limónios


Limonium vulgare Mill. [ou talvez não]


Dizem que os Açores hão-de ser dos destinos turísticos mais badalados em 2015. Para aumentar a atracção invocam-se chavões equivocados como «sustentabilidade» e «natureza em estado puro», tudo isto ilustrado com plantações de criptomérias, pastagens verdejantes onde ruminam vacas, estradas sublinhadas pelo azul das hortênsias, bordos de cratera invadidos por conteiras floridas. Promoção equivalente em Portugal continental seria celebrar a natureza pura e intocada dos eucaliptais e das matas de acácias. Por cá tal aldrabice ver-se-ia rapidamente desmascarada, mas os açorianos levam décadas de atraso no reconhecimento e valorização das suas plantas autóctones e da sua floresta ancestral. Que motivos haverá para mudar de atitude quando o status quo conquista prestigiosos galardões internacionais? E nós próprios, invariavelmente resmungões, havemos em 2015 de voltar, encantados, às mesmas ilhas que sabemos terem sido adulteradas além de qualquer esperança de recuperação. É como um casamento em que os defeitos do parceiro são cada vez mais evidentes sem que isso diminua o afecto recíproco.

Enquanto vamos contando os meses, ficamo-nos por um regresso virtual ao arquipélago, para mostrar uma das plantas de lá que ainda aqui não tinha marcado o ponto. Ou talvez já o tenha feito, mas através de exemplares fotografados nesta banda. O que se passa é que o limónio açoriano tem uma ecologia completamente distinta da dos limónios continentais que alegadamente pertencem à mesma espécie: nos Açores é uma planta de falésias costeiras, ao passo que por cá vive obrigatoriamente em sapais e prados halófilos periodicamente inundados pelas marés. Ou seja, nas ilhas, com tanto mar à volta, a planta recusa molhar o pé, admitindo apenas refrescar-se com uns salpicos de água salgada. Seria demasiado atrevimento para botânicos amadores como nós afirmar que as duas estirpes, a continental e a insular, se distinguem igualmente pela morfologia, mas vai sendo tempo de os especialistas tirarem o assunto a limpo. De facto, já houve uma tentativa de elevar o limónio açoriano à categoria de endemismo do arquipélago, sob o nome de Limonium eduardi-diasii, mas a dita combinação (referida na 2.ª edição, de 2005, do livro Flora of the Azores - A Field Guide de Hanno Schäffer, e também na Lista de Referência da Flora dos Açores, publicada em 2010 pelo Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores) não parece ter sido objecto de publicação válida.

O limónio açoriano tem folhas grandes, de uns 15 cm de comprimento, e floresce vistosamente de Maio a Setembro. Não o faz com igual intensidade em todas as ilhas, e só parece ser fácil de encontrar em Santa Maria, onde de facto é muito comum ao longo de todo o perímetro costeiro. Está contudo referenciado em quatro ilhas mais: São Miguel, Terceira, Pico e Corvo.

Para complicar o estudo dos limónios em território português, um estudo de 2012 (Estudio de los taxa afines a Limonium vulgare Miller de marismas de Portugal continental, tese de mestrado de Ana Cortinhas defendida na Universidade de Valência) estabeleceu que, além do Limonium vulgare propriamente dito, ocorrem por cá dois outros limónios de aspecto semelhante e com as mesmas apetências ecológicas: são eles o L. humile e o L. narbonense, o último não menos abundante que o L. vulgare e com ele coexistindo amiúde. Parece que nisto dos limónios a Flora Iberica (o volume em causa é de 1993) se esforçou por empobrecer a flora portuguesa, pois a existência por cá de pelo menos duas espécies de limónios de folhas grandes já tinha sido referida no 1.º volume (de 1971) da Nova Flora de Portugal (ainda que Franco tenha usado o nome L. serotinum, sinónimo de L. narbonense).



Limonium binervosum (G. E. Sm.) Salmon


O Limonium binervosum, de que já aqui falámos, fornece outro exemplo de como a Flora Iberica representou um retrocesso no conhecimento da distribuição deste género em Portugal. Excluído dessa obra de referência mas incluído, muito acertadamente, na Nova Flora de Portugal, o L. binervosum está de boa saúde no nosso país, ocorrendo em areias e falésias costeiras desde (pelo menos) São Jacinto (Aveiro) até Salir do Porto (Caldas da Rainha), como se verifica no mapa de distribuição que consta desta recente tese de doutoramento1 (PDF). As plantas das fotos viviam na Gafanha da Boa Hora, na ria de Aveiro, mas parte da população poderá entretanto ter sido destruída com a recente construção de uma "ecopista" no local.

1 Ana Sofia Róis - Strategies for Conservation of Rare and Endemic Species: Characterization of Genetic and Epigenetic Variation and Unusual Reproductive Biology of Coastal Species from Limonium ovalifolium and Limonium binervosum Complexes (Plumbaginaceae) - Instituto Superior de Agronomia, 2014

21/01/2014

Lírio de má fama


Iris foetidissima L.


Os lírios são, em geral, plantas perenes de cores vistosas e matizes surpreendentes, alguns de haste floral com meio metro de altura, e, por isso, há muito cultivados como ornamentais. A sua presença é assídua em jardins, adornos religiosos, pinturas, florilégios. Mas este não: o tom baço, um pouco sujo e trigueiro, da mistura de violeta e amarelo com que as flores se perdem entre a folhagem dá-lhe quando muito um lugar secundário nos canteiros, apesar das brilhantes bagas cor-de-coral que as cápsulas exibem no Outono e Inverno - e que, pouco apreciadas pelos pássaros, justificam o nome inglês scarlet berry iris.

Há alguns lírios famosos desde tempos medievais, outros usados em perfumaria, outros ainda tidos como indicados para cemitérios. Mas este não: estima o recato de uma mata sombria de sobreiros, azinheiras ou carvalhos, ou uma sebe discreta, ou o coberto de um olival; e, diz-se, as folhas, se esmagadas, exalam um odor forte e desagradável, como quem avisa o beliscador para não repetir tal impertinência.

Alguns dos lírios que aqui mostrámos têm uma barbicha (ou uma reprodução imperfeita dela) no centro das tépalas descaídas, que parece uma fita de veludo de cor arrojada, com que por certo julgam encorajar mais abelhas a visitá-los e dar maior conforto aos polinizadores. Mas este não: é um lírio sem barba, exibindo apenas uma venação nas tépalas cuja configuração lembra uma grande asa de insecto ou o interior de uma vasta orelha. O nome Iris alude à deusa grega do arco-íris, aquela que carrega consigo alegremente mensagens entre o céu e a terra. Nessa comunicação colorida, atmosférica e sem fios, há pelo menos um lírio que não participa.

12/08/2013

Pomba em pé




Ammi seubertianum (H. C. Watson) Trel.

Embora possam ser plantas vistosas e de grande tamanho, as umbelíferas padecem de uma uniformidade que as torna indistinguíveis aos olhos da maioria dos leigos. Mesmo os naturalistas e botânicos profissionais tardam por vezes em dar-lhes a merecida atenção. A história da Angelica lignescens, uma gigantesca umbelífera açoriana confundida durante mais de um século com o Melanoselinum decipiens, um endemismo madeirense que com ela pouco se parece, é ilustrativa dos equívocos a que a taxonomia das umbelíferas está sujeita.

O género Ammi, que inclui seis espécies de plantas anuais ou bienais nativas da região mediterrânica, Macaronésia e Médio Oriente, tem boa parte do seu contingente concentrado no arquipélago açoriano. Nada menos que três espécies endémicas dos Açores foram registadas, todas elas conhecidas como pé-de-pomba: A. trifoliatum, A. hunti e A. seubertianum. As três são listadas tanto no Portal da Biodiversidade dos Açores como na Checklist da Flora de Portugal. Sucede que as duas últimas, apesar de descritas originalmente pelo mesmo H. C. Watson, são consideradas por várias fontes como uma e a mesma espécie, tendo prioridade a designação A. hunti. Hanno Schäfer, na sua tese de 2003, defende igualmente que só existem duas espécies endémicas de Ammi nos Açores, mas que elas são A. trifoliatum e A. seubertianum. A mesma opinião é seguida numa listagem de endemismos açorianos publicada em 2006 por Carlos Aguiar, J. A. Fernández Prieto e Eduardo Dias. Finalmente, J. do Amaral Franco, no vol. 1 (de 1971) da Nova Flora de Portugal, reconhece uma única espécie açoriana, a que chama A. hunti.

A opinião mais recente dos estudiosos da flora açoriana inclina-se pois para a inexistência no arquipélago de um terceiro endemismo dentro do género Ammi. De facto, mesmo que o nome A. hunti persista, talvez por equívoco, em algumas listagens, não há fotos de plantas dessa espécie e ninguém parece saber onde encontrá-la. Por contraste, e apesar da opinião em contrário de Franco, há boas fotos e descrições inequívocas do A. trifoliatum e do A. seubertianum, e as duas espécies têm distribuição bem conhecida.

O Ammi seubertianum - dedicado ao botânico alemão Moritz August Seubert (1818–1878), que nunca visitou os Açores mas foi o autor, em 1844, da pioneira Flora Azorica - é bienal, atinge de 50 cm a 1 m de altura, floresce na Primavera e início do Verão, e apresenta folíolos grossos, quase suculentos; o A. trifoliatum, também bienal, é mais alto (pode chegar aos 2 m) e tem folhas basais mais divididas, com folíolos finos. O primeiro, com uma distribuição sobretudo costeira, é comum na metade oriental de Santa Maria; tirando essa ilha, só parece existir no Pico. O segundo, mais disseminado, ocorre no interior de sete ilhas (Flores, Corvo, Faial, Pico, Terceira, São Jorge e São Miguel) a altitudes entre os 400 e os 700 metros, mas só é comum nas Flores, e no Faial está no limiar da extinção.

06/08/2013

Ilha prometida




Tolpis succulenta (Dryand.) Lowe

Talvez a ilha de Santa Maria quisesse fazer parte de outro arquipélago, ou pelo menos, pelo seu carácter híbrido, servir de transição entre os Açores e a Madeira. A fronteira entre os dois arquipélagos cortaria a ilha de norte a sul. A metade ocidental, árida e plana, irmã gémea da ilha de Porto Santo, ficaria a pertencer à Madeira; o verde impenitente da outra metade permaneceria sob administração açoriana. É verdade que a geografia resultaria algo confusa, com a metade açoriana mais perto da Madeira do que a metade madeirense, mas a tradição europeia dos enclaves e das fronteiras em ziguezague permitiria ultrapassar todas as dificuldades. E é bom assinalar que a distância entre Santa Maria e a ilha açoriana mais distante, o Corvo, é de 600 Km, não muito inferior aos 850 que medeiam entre Santa Maria e a Madeira.

Essa transferência parcial de soberania justifica-se também por razões botânicas. O Aichryson villosum é exemplo de uma planta que só é açoriana por ter posto o pé em Santa Maria, caso contrário seria um endemismo madeirense. E Santa Maria é a única ilha do arquipélago onde o Lotus azoricus é fácil de encontrar: sendo certo que se trata de um endemismo açoriano, não é menos verdade que é na Madeira e no Porto Santo que vivem os seus primos mais chegados. Até na vegetação invasora das arribas litorais, dominada pela piteira (Agave americana), Santa Maria se assemelha mais à Madeira do que às restantes ilhas açorianas.

A asterácea de hoje, de seu nome Tolpis succulenta, um endemismo açórico-madeirense, fornece mais uma achega a esta discussão. Habitante de falésias costeiras, referenciada em todas as ilhas dos Açores, sobrevive com dificuldade em todas elas, incapaz de competir com plantas mais exuberantes que ocupam o mesmo habitat. Dá-se mal em todas as ilhas, com uma excepção importante: em Santa Maria, a ilha prometida, ela vê-se por todo o lado, não já limitada à linha de costa mas penetrando pelo interior da ilha até cerca dos 500 metros de altitude. Também na Madeira, onde é conhecida como visco, é uma planta comum em escarpas rochosas, muros e taludes, desde o litoral até às montanhas do interior. A conclusão é que, tanto na Madeira como em Santa Maria, a Tolpis succulenta encontra o tipo de clima mediterrânico a que melhor se adapta, e que a sua presença em oito das nove ilhas açorianas se deve a um equívoco da natureza. A somar a tudo isto, existe a leituga (Tolpis macrorhiza), endemismo madeirense que, a menos de poucos detalhes, é uma cópia da T. succulenta.

A T. succulenta é uma planta perene, quase glabra, lenhosa na base, com caules muito ramificados e mais ou menos prostrados, dotados de látex. As folhas, que podem medir uns 10 cm de comprimento, são carnudas, elípticas ou lanceoladas, com margens inteiras ou dentadas; os capítulos florais são em geral solitários e nascem entre Junho e Setembro.

Não sendo tão vistosa como a agigantada T. azorica, a T. succulenta é ainda mais peculiar. Foi com emoção que a vimos, em Santa Maria, pintalgando de alto a baixo com um amarelo vivo as negras falésias junto ao porto.


04/08/2013

Fitogeografia





Spergularia azorica (Kindb.) Lebel

Nos verões de 1894 e de 1896, o botânico norte-americano William Trelease (1857-1945), então director do Jardim Botânico do Missouri, visitou as ilhas açorianas numa expedição que também previa a colecta de sementes ou plantas para este jardim. A localização das ilhas era suficientemente remota para que as expectativas quanto a novidades botânicas fossem elevadas. Ali encontraria um habitat isolado, pensou, como a Madeira ou os Galápagos, com um clima favorável à coexistência de vegetação de montanha (nos picos, quase sempre escondidos por nevoeiro e chuva) e de beira-mar (com plantas adaptadas às falésias, ao farelo de pedra vulcânica e às praias de calhau rolado), com alguma flora tropical à mistura.

Trelease publica em 1897 as notas desta viagem, a que junta uma listagem pormenorizada da flora que encontrou nas nove ilhas (e da que, não tendo encontrado, foi descrita pelos seus antecessores). O tom geral é de desapontamento. As ilhas eram afinal frequentemente visitadas por navios da Europa e da América do Norte, e mesmo entre as ilhas mais a ocidente (Flores e Corvo) e as mais orientais (São Miguel e Santa Maria) circulavam demasiadas embarcações para haver diferenças nas respectivas floras. Além disso, a agricultura intensiva (com as vinhas destruídas por doenças, plantava-se milho, batata e batata doce, e cultivavam-se frutos como a banana e o já famoso ananás), os pastos com forragem europeia (por a julgarem melhor do que a nativa) e a invasão da flora exótica (já então o Hedichium gardnerianum liderava as hostes invasoras) pouco espaço deixavam para a flora endémica. Segundo Trelease, esta estaria refugiada em locais de difícil acesso, a salvo de coelhos e cabras mas desse modo também inacessível aos botânicos. Havia os líquenes, é certo, e muitas novas espécies de fungos para nomear, mas não eram esses os objectos do seu estudo. Seguindo a tendência de então, Trelease parecia empenhado em confirmar a teoria de Darwin e queria estudar a adaptação das plantas europeias ou americanas ao habitat açoriano, muito ventoso, extremamente húmido e de influência marítima. Todavia, em Botanical Observations of the Azores, Trelease informa que as ilhas eram demasiado jovens para se notarem indícios da selecção natural: só em Santa Maria eram conhecidos fósseis e só lá não havia vulcões com actividade recente.

A Spergularia azorica foi uma das plantas que Trelease viu floridas, e em todas as ilhas. Começou por se chamar Lepigonum azoricum, nome que o botânico sueco Nils Conrad Kindberg (1832-1910) lhe deu em 1863. Em 1868, o francês Jacques Eugène Lebel (1801-1878) colocou-a no género Spergularia e confirmou-lhe o estatuto de endemismo açoriano. Trelease prefere designá-la Spergularia macrorhiza, seguindo o botânico inglês H. C. Watson (1804-1881), que visitou os Açores em 1840 e a nomeara oficialmente em 1868 (depois de uma outra ida às ilhas em 1865 com o entomologista Frederick du Cane Godman (1834-1919)). Trelease nota como esta planta, exposta a derrocadas e vendavais, parece em harmonia com o ambiente: talos robustos, com que se agarra às arribas; hábito prostrado e aninhado nas reentrâncias rochosas de falésias ou escoadas de lava; uma penugem densa a agasalhá-la; flores grandes (muito maiores do que nas outras plantas do mesmo género) e bem abertas, com o néctar acessível aos polinizadores; e sementes, com uma asa rudimentar, que se disseminam pelo vento.

Santa Maria, onde vimos populações abundantes desta planta, pertence hoje à lista das Zonas Especiais de Conservação (ZEC), e a Spergularia azorica é uma das espécies da flora açoriana listadas no anexo II da Directiva Habitats, na companhia da Azorina vidalii e do Lotus azoricus.

29/07/2013

Endemismos: achados & perdidos


Santa Maria, Açores

É consensual que a flora vascular dos Açores contém escasso número de endemismos, entre 70 e 80. É esse o total de plantas que são espontâneas no arquipélago e em nenhum outro lugar do mundo. Talvez algum leitor estranhe que não se forneça o número exacto: são 72, 75, 79? Serão os botânicos tão pouco dotados para a aritmética que, mesmo com números tão pequenos, não conseguem acertar na contagem? O problema são as diferenças de opinião, ou o modo como certos autores valorizam ou não certas características diferenciadoras. Um caso paradigmático é o do Centaurium scilloides: até um leigo sem bagagem técnica ou teórica reconhece que as plantas açorianas, por terem flores invariavelmente brancas, são diferentes das continentais, com flores cor-de-rosa. Mesmo tendo em conta outras pequenas diferenças morfológicas, a tese que prevaleceu até há pouco, e que foi acolhida pelo recente volume da Flora Ibérica dedicado à família Gentianaceae, é que se tratava de uma só espécie, e que a variante insular não era merecedora de qualquer reconhecimento taxonómico. Eis senão quando entram em cena os estudos genéticos, por uma vez em defesa do senso comum, estabelecendo que aquilo que é diferente a olho nu também o é a um nível mais profundo. Em Dezembro de 2012, saiu na revista científica Plant Systematics and Evolution um artigo com o título A new endemism for the Azores: the case of Centaurium scilloides (L. f.) Samp., da autoria dos botânicos espanhóis José Antonio Fernández Prieto, Eduardo Cires, René Pérez e Álvaro Bueno. Nele se conclui que o C. scilloides é exclusivo dos Açores, e que as plantas continentais, pertencendo a uma espécie diferente, devem ser designadas por Centaurum portense (Brot.) Buchner. Como prenda de Natal de 2012, o arquipélago ganhou um novo endemismo, o que é adequada compensação pela queda em desgraça da suposta Marsilea azorica, ocorrida no ano anterior.

Há assim plantas desde sempre conhecidas no arquipélago que, de um momento para o outro, ganham o selo de tesouro natural de primeiro quilate. Devemos chamar-lhes endémicas arrivistas? Porque há as endémicas clássicas, cuja singularidade nunca esteve em dúvida, como a Azorina vidalii, a Euphorbia stygiana, a Scabiosa nitens, a Bellis azorica e o Vaccinium cyilindraceum. E, finalmente, há aquelas endémicas de estatuto incerto que alguém, com pouco fundamento, proclamou como tal vai para muitos anos, mas em que na verdade já pouca gente acredita. São as endémicas cadentes, à espera do golpe de misericórdia de um estudo moderno para serem apeadas da fama espúria. Talvez este fluxo permanente entre entradas e saídas não permita que o número de endemismos açorianos alguma vez ultrapasse os 80.




Asplenium azoricum (Milde) Lovis, Rasbach & Reichst.

O Asplenium azoricum é um endemismo açoriano de indiscutível mérito que só foi entronizado em 1977, em artigo de J. D. Lovis et al. no American Fern Journal. A sua longa permanência no anonimato deve-se em boa parte à semelhança com duas espécies também presentes no arquipélago: o avencão (Asplenium trichomanes subsp. quadrivalens) e o feto-de-escoumas (A. monanthes). Que se trata de três espécies distintas prova-o a contagem dos cromossomas, em perfeita progressão aritmética: o A. azoricum é diplóide (72 cromossomas), o A. monanthes triplóide (108 cromossomas), e o A. trichomanes subsp. quadrivalens tetraplóide (144 cromossomas). A condição de triploidia do A. monanthes indica que a espécie tem origem híbrida, mas que, ao contrário do habitual nestes casos, não se deu duplicação de cromossomas; o resultado é que o feto só se reproduz por apomixia (os gametófitos dispensam a fecundação para darem origem a nova planta).

Como ainda não se inventaram aparelhos para contar cromossomas in situ, é útil ao amador de botânica anotar os detalhes morfológicos que diferenciam o A. azoricum do A. trichomanes: assim, as frondes do primeiro têm pecíolo de um negro brilhante ou de um castanho muito escuro, e as pinas, que têm um formato quase triangular (as do A. trichomanes são mais curtas e rectangulares), apresentam um recorte bem mais pronunciado nas margens. Tais detalhes são porém mais evidentes nas plantas bem desenvolvidas que se encontram em sítios húmidos e abrigados, e haverá casos de determinação incerta. Finalmente, é uma grande ajuda saber que nas Flores e em Santa Maria o A. trichomanes quase não existe, e que na segunda dessas ilhas o A. azoricum é muito comum, tanto em muros e taludes como em bosques de faia e incenso.

26/07/2013

Cinerária dos taludes




Pericallis malvifolia (L'Hér.) B. Nord.

A Pericallis malvifolia é uma asterácea endémica dos Açores, não se registando a sua presença apenas na Graciosa, nas Flores e no Corvo. Hanno Schafer propôs na sua tese de doutoramento (Dissertationes Botanicae, 374, 2003) a divisão desta espécie em duas subespécies: a P. malvifolia subsp. malvifolia, a mais frequente e que se vê nas fotos; e a P. mavifolia subsp. caldeirae, de que só se conhecem populações com poucos indivíduos no Faial e na Terceira, e que consta da lista vermelha, elaborada pela IUCN (International Union for Conservation of Nature), das espécies em perigo no planeta. Enquanto não há estudos genéticos decisivos, as duas subspécies distinguem-se, segundo H. Schafer, essencialmente pelo porte (a segunda é mais baixa), pela morfologia das folhas (sem e com aurículas) e pela cor das flores (sempre brancas na subespécie caldeirae).

Tal como sucede com a distribuição do Lotus azoricus, em Santa Maria, ao contrário das outras ilhas, é fácil encontrar a subespécie malvifolia em habitats ensombrados e húmidos, fendas em escarpas, ribeiras, crateras e arribas. É uma planta perene, com caules erectos que podem atingir os 150 cm de altura. As folhas são arredondadas, de página inferior ligeiramente tomentosa e cinzenta. Os capítulos de flores agrupam-se em corimbos densos de belo efeito e, curiosamente, numa mesma população podemos encontrar pés de flores brancas junto de outros com flores rosadas ou arroxeadas. Que vantagem retirará a planta desta dupla ou tripla coloração?

Quem teve a infeliz ideia de espalhar hortênsias pelas ilhas, e agora as faz exibir em postais ou campanhas de publicidade como o que há de genuíno nos Açores, bem pode envergonhar-se por não ter usado, para enfeitar as bermas de estrada, o malvavisco, igualmente vistoso e, mais importante, nativo das ilhas. O malvão-da-rocha é uma espécie protegida por lei, assim como o Parque Natural de Santa Maria, criado em 2008 por decreto em simultâneo com estruturas análogas nas outras ilhas. A teia legal é, em geral, estendida para limitar o acesso a habitats que exigem conservação; infelizmente não é suficientemente célere ou poderosa para impedir a perda da biodiversidade no arquipélago. Veja-se o exemplo da invasão catastrófica, mas impune, pela conteira (Hedychium gardnerianum), outra planta que o leitor certamente conhece dos postais turísticos dos Açores.