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17/04/2020

Salsichas verdes



Euphorbia aphylla Brouss. ex Willd.


No aspecto geral, a Euphorbia aphylla, endémica de Tenerife, Grã-Canária e La Gomera, é um compromisso pela negativa entre as tabaibas (como a E. balsamifera e a E. atropupurea), que não têm espinhos, e os cardónes (E. canariensis), que não têm folhas. Sem espinhos nem folhas, é formada apenas pela ramagem verde, uma frágil construção de peças cilíndricas, lembrando salsichas, pacientemente articuladas. Na ponta dos raminhos jovens, mais curtos, surgem de Março a Julho as inflorescências sésseis, de um amarelo esverdeado, que pouco sobressaem do conjunto. É um arbusto delicado e rasteiro, de não mais que 80 cm de altura, adaptado a ambientes áridos, que vive em zonas rochosas perto do mar. Em Tenerife aparece sobretudo na zona do Teno, no noroeste da ilha; e na Grã-Canária é por vezes abundante ao longo das costa norte.

A Euphorbia aphylla não surgiu de geração espontânea, e espalhadas pelo continente africano há numerosas outras espécies que se lhe assemelham. Em períodos de estiagem, quase todas elas praticam um tipo de metabolismo, primeiramente identificado na família Crassulaceae, em que a planta limita as perdas de humidade fechando os estómatos durante o dia. De entre essas espécies, a Euphorbia tirucalli, abaixo ilustrada, é a que tem a distribuição mais ampla, abrangendo toda a África oriental desde a Etiópa até à África do Sul. Introduzida a amplamente cultivada na Ásia tropical e na América do Sul, é conhecida no Brasil como avelós.

Em contraste com a Euphorbia aphylla, a E. tirucalli é uma árvore que logra alcançar os sete ou oito metros de altura. Dotada de crescimento rápido, só num estádio prematuro de desenvolvimento se pode confundir com a sua irmã canarina. Às vezes o seu crescimento é tão exuberante que o tronco acaba por soçobrar ao peso da copa, e a queda de ramos é frequente. Daí que quem a cultive seja tentado a podá-la assiduamente, operação que exige as maiores cautelas, já que o látex, perigosamente cáustico, é exsudado à mais pequena lesão.

A Euphorbia aphylla, fazendo jus ao epíteto, é totalmente incapaz de produzir folhas, mas a E. tirucalli ainda vai fazendo uns ensaios tímidos e prontamente abortados. De um desses ensaios dá testemunho a última foto aí em baixo (tirada, como as outras duas, num jardim da ilha do Porto Santo): as folhas são esses apêndices vermelhos que parecem orelhas; caem sem que ninguém as puxe, e sem que se perceba que utilidade tiveram.


Euphorbia tirucalli L.

28/12/2019

Cacto leiteiro



Euphorbia canariensis L.



aqui falámos de um cacto que afinal não era cacto. Sem sair das Canárias, o mesmo fenómeno de um cacto que o não é pode ser testemunhado, a uma escala muito mais impressionante, um pouco por todo o arquipélago, sobretudo em zonas áridas perto do mar. A Euphorbia canariensis, assim se chama esta planta cactóide, é capaz de atingir três a quatro metros de altura, e as suas hastes arqueadas, desprovidas de folhas mas não de espinhos, formam grandes aglomerados que fazem lembrar candelabros gigantes. Cada haste tem geralmente cinco faces (às vezes quatro ou seis), com o picotado dos espinhos sublinhando as arestas de alto a baixo. O disfarce de cacto só deixa de ser convincente quando a planta está em flor, o que acontece entre Abril e Julho. Como é regra das eufórbias, as inflorescências são compostas por ciátios, estruturas em que as flores masculinas (reduzidas a estames) rodeiam uma única flor feminina (reduzida ao pistilo). Os ciátios da Euphorbia canariensis, de uma cor entre o vermelho e o castanho, são sésseis (sem pedúnculo) e surgem no topo das hastes, em grupos de três, acompanhando os espinhos. De todo desaconselhável é o manuseio destas plantas sem protecção dos olhos e das mãos, já que o látex leitoso que elas produzem é cáustico e venenoso. Claramente elas não têm a vocação de aplacar a sede a quem se perca no deserto, mas ao que parece a água dos genuínos cactos dos desertos americanos, embora muito menos tóxica, também não é bebida recomendável.

Potenciando a confusão, nas Canárias a Euphorbia canariensis é conhecida como cardón, nome que na América Latina se dá também a várias espécies de grandes cactos como o Pachycereus pringlei e o Stenocereus stellatus. Os matos xerófilos em que a Euphorbia canariensis é preponderante chamam-se cardonales, e funcionam como o contraponto espinhento dos tabaibales, onde quem manda é a Euphorbia balsamifera, uma espécie arbustiva inerme. Quando as duas eufórbias convivem, o que até é frequente, estamos em presença de um cardonal-tabaibal.

O cardón, ou Euphorbia canariensis, tinha tudo para ser o símbolo vegetal das Canárias: exibe uma forma atraente e inconfundível, é endémico do arquipélago, e é suficientemente abundante para ser visto e admirado por todos quantos visitam essas ilhas. Por um capricho qualquer, está ausente de Lanzarote enquanto planta espontânea (embora apareça cultivado em jardins), e o facto de não fazer o pleno das ilhas terá inviabilizado a sua candidatura a esse posto honorífico. Quem ocupou o posto, por decreto-lei do Governo das Canárias datado de 1991, foi a palmeira Phoenix canariensis. Para o cardón sobrou um prémio de consolação: o decreto que oficializou os símbolos do arquipélago fez o mesmo para cada uma das ilhas, e a Euphorbia canariensis ficou a ser o símbolo vegetal da Grã-Canária. (As nossas fotos, contudo, foram tiradas no Puertito del Sauzal, na costa norte de Tenerife.)

17/11/2018

Nocturno com tabaibas



Euphorbia balsamifera Aiton
Embora haja esperança de que uma directiva europeia venha alterar a situação já em 2019, a verdade é que os dias de Inverno permanecem curtos. Mas, graças à diferença de latitude, são um bocadinho menos curtos nas Canárias, onde no final de Dezembro anoitece apenas às seis da tarde, uma hora depois de o sol se pôr pelas nossas bandas. Quando visitámos o Malpaís de Güimar, na costa leste de Tenerife, os relógios marcavam quatro da tarde. Não estando nós munidos de lanternas, tínhamos uma hora para avançar pelo trilho acidentado, rompendo pela pedra negra como carvão, e uma hora para regressar pelo mesmo caminho sem que a escuridão tornasse os nossos passos ainda mais inseguros. O sortilégio da paisagem fez-nos demorar além do previsto e o regresso fez-se já ao lusco-fusco - que não era assim tão tenebroso e combinava muito bem com o negrume das pedras envolventes, sublinhando a tons de doirado os troncos rastejantes das tabaibas.

"Malpaís" pode traduzir-se por "terra má", e (ensina a Wikipédia) é o nome que se dá nas Canárias, México e sul dos Estados Unidos a uma extensão de terreno inóspita e árida formada por rochas vulcânicas que sofreram pouca erosão. Não é que o episódio vulcânico que lhe deu origem tenha sido recente, mas a chuva e os ventos que, noutras paragens, contribuiriam para uma erosão mais acentuada estão aqui quase ausentes. Chamam-lhe terra má por ser imprestável para cultivo e nem para pastagem servir. Mas não significa que seja estéril: que o digam as tabaibas, os alecrins-do-mar e até certas alfaces.

Esta eufórbia arbustiva, conhecida no arquipélago como tabaiba-doce e eleita oficialmente como um dos símbolos naturais da ilha de Lanzarote, distribui-se por todas as ilhas Canárias e por muitas zonas semi-desérticas da metade norte do continente africano. Os povos nómadas consumiam as suas folhas em tempos de escassez alimentar, o que talvez explique o adjectivo doce. Certo é que o látex desta espécie, apesar de tóxico, não é tão abrasivo como o de outras eufórbias, e terá mesmo sido usado medicinalmente como anestésico.

Nem sempre a tabaiba-doce é tão prostrada como mostram as fotos: em condições mais favoráveis pode ultrapassar os dois metros de altura. O que a singulariza face a outras tabaibas é que cada inflorescência está reduzida ao mínimo, sendo composta por um único cíato (compare as fotos abaixo com as desta página).


03/11/2018

Tabaiba cor de vinho



Euphorbia atropurpurea Brouss. ex Willd.


Tabaiba é o nome que se dá nas Canárias às eufórbias arbustivas desprovidas de espinhos e com folhas bem formadas; as demais eufórbias endémicas do arquipélago têm a aparência de grandes cactos (embora não sejam cactos) e são conhecidas como cardóns. As tabaibas são parentes próximas dos troviscos-machos açorianos (Euphorbia stygiana subsp. stygiana e E. stygiana subsp. santamariae) e das duas figueiras-do-inferno madeirenses (E. piscatoria e E. mellifera). Só em Tenerife são quatro as espécies de tabaibas, e cada uma das restantes ilhas Canárias apresenta uma diferente selecção destes arbustos, que assumem formas muito diversas, tanto na ecologia e no modo de crescimento como no aspecto da inflorescência. Há as espécies costeiras que se agacham e crescem rastejantes para se protegerem do vento, há as que vivem mais abrigadas em encostas secas e são capazes de atingir os dois metros de altura, e há finalmente as que fazem da laurissilva a sua casa e, competindo pela luz, têm de erguer mais alto os seus ramos. A única espécie neste último grupo é a E. mellifera, a mesma que existe na Madeira e que é muito mais comum nessa ilha do que nas Canárias. O segundo grupo de espécies (que não escapa a alguma sobreposição com o primeiro) é o mais numeroso, e inclui a Euphorbia atropurpurea, endémica de Tenerife, aqui fotografada na zona de Masca, onde é particularmente frequente.

Num concurso de beleza para tabaibas, esta tenerifenha, com o seu porte arrumadinho de árvore em miniatura, as suas inflorescências cor-de-vinho contrastando com as grandes folhas glaucas, convenceria qualquer júri a elegê-la Miss Tabaiba. Se fossem admitidas concorrentes de toda a Macaronésia, como parece justo, seria a E. piscatoria, na versão porto-santense, a escolhida como primeira Dama de Honor.

As inflorescências das eufórbias são complicadas: na 5.ª foto acima, o fruto já desenvolvido, cor de cereja madura, emerge de uma estrutura onde há quatro nectários amarelos e quatro flores masculinas, cada uma delas reduzida a um estame; essa estrutura (chamadas cíato) é envolvida por duas brácteas vermelhas, em forma de rim, fundidas uma com a outra; finalmente, os cíatos, sustentados por pedúnculos do mesmo vermelho tinto, dispõem-se em umbelas compostas por numerosos raios (entre 5 a 15 - ver 4.ª foto). É um conjunto que se singulariza não apenas pelo colorido mas também pela sua forma ampla e aberta. A floração decorre durante praticamente todo o ano (as fotos são do final de Dezembro), mas é mais intensa em Março e Abril.

19/06/2018

O trovisco-macho mais raro da Europa



Euphorbia stygiana subsp. santamariae H. Schaef.


A ilha açoriana de Santa Maria tem duas caras para mostrar aos visitantes. Na metade oeste, onde ficam o aeroporto, o porto de mar e, junto a ele, a principal povoação da ilha (apropriadamente chamada Vila do Porto), domina o amarelo das pastagens secas. Na metade leste, empinam-se os montes que captam o nevoeiro e a chuva, e a cor dominante passa a ser o mesmo verde a que nos habituámos nas outras ilhas do arquipélago. Somos levados a pensar que meia ilha de verdura não chega para compensar a aridez da outra metade, e que os cursos de água, se os houver, deverão ser raros e efémeros. Só que nada disso é verdade. Por um capricho da geologia, Santa Maria tem, na sua metade leste, muitas ribeiras permanentes; e algumas das que desaguam na metade oeste, nascidas na cadeia montanhosa do centro da ilha, também levam água todo o ano. Ilhas muito mais húmidas e verdes como o Pico e o Faial são também muito mais porosas, dispondo apenas de ribeiras temporárias, de regime torrencial.

Em Santa Maria, no vale encaixado de uma dessas ribeiras milagrosas, esconde-se, quase sufocada pela proliferação do incenso e da conteira, uma eufórbia arbórea (ou, na designação popular, um trovisco-macho) que é única no mundo. A população de poucas dezenas, todas no mesmo local, tem vindo a diminuir de forma alarmante, com os deslizamentos de terras provocando a perda de exemplares adultos e o cerco das invasoras impedindo que vinguem os exemplares jovens. O momento, porém, é de esperança, pois, em colaboração com os serviços do Parque Natural de Santa Maria, o Jardim do Botânico do Faial, que já salvou o não-me-esqueças e o teixo açoriano do limiar da extinção, comprometeu-se a intervir rapidamente.

Descoberta por Hanno Schaefer em 2001, e por ele descrita em 2002 na sua tese de doutoramento (intitulada Chorology and Diversity of the Azorean Flora), esta eufórbia foi então baptizada como Euphorbia stygiana subsp. santamariae. Segundo Schaefer, a diferença mais marcante é que os exemplares de Santa Maria são árvores capazes de atingir os dez metros de altura, enquanto que a E. stygiana das outras ilhas (ver fotos aqui) é um arbusto não excedendo os cinco metros. Esta dicotomia não é muito convincente, pois a subsp. stygiana às vezes também é uma árvore e no Pico há exemplares gigantescos. Mas todo o cepticismo foi varrido pelo espanto quando nos vimos perante o trovisco-macho de Santa Maria. O tipo de crescimento é muito diferente, as folhas são mais baças e com o veio central menos marcado, e as inflorescências cobertas de penugem, com os nectários alaranjados, não poderiam contrastar mais com as do trovisco-macho das outras ilhas (ver fotos aqui). E estas discrepâncias morfológicas tão óbvias são, segundo soubemos, corroboradas por diferenças genéticas. Assim, é provável que o trovisco-macho de Santa Maria represente uma espécie autónoma, não se justificando a sua subordinação, como subespécie, à E. stygiana do resto do arquipélago. De resto, a julgar pela aparência, a Euphorbia santamariae (como algum dia se há-de chamar) está mais próxima da madeirense E. mellifera do que da E. stygiana propriamente dita -- e pode, de facto, ser o elo de ligação entre as duas espécies, funcionando Santa Maria (a ilha açoriana mais antiga, e a mais próxima da Madeira) como primeira etapa na rota migratória da Madeira para os Açores.

Se a singularidade deste trovisco-macho tivesse tido o devido reconhecimento taxonómico, talvez a operação de salvamento que agora se prepara in extremis pudesse ter sido levada a cabo, com maior probabilidade de sucesso, há uma dúzia de anos. Haveria por certo o risco de o frenesim mediático (com títulos como "A eufórbia mais rara da Europa é dos Açores") poder atrair coleccionadores sem escrúpulos, depauperando ainda mais uma população escassíssima. Mas é muito mais sério o risco de uma morte silenciosa.

21/06/2016

Pescando em seco



Euphorbia piscatoria Aiton



Quase todas as plantas do género Euphorbia que são espontâneas em Portugal continental e no arquipélago dos Açores são herbáceas vivazes. Uma excepção é a Euphorbia pedroi, um endemismo arbustivo das escarpas e fissuras de rocha do Cabo Espichel que deixa cair as folhas no Verão. Nas ilhas da Madeira, Porto Santo e Desertas, em penhascos do litoral e até em altitudes mais elevadas no interior da Madeira e nos picos do Porto Santo, há uma outra espécie arbustiva que também se despe de folhagem nos meses mais quentes do ano, que é um endemismo destas ilhas e que colocámos hoje na montra.

A Euphorbia piscatoria é um arbusto suculento e glabro, muito ramificado, de copa arredondada e folhas linear-lanceoladas, com ápice agudo e margens amareladas, que se aglomeram nas extremidades dos ramos. Floresce entre Janeiro e Agosto e pode atingir quase dois metros de altura. Não sabemos se, além da proximidade morfológica e de preferência de habitat entre a Euphorbia piscatoria e a Euphorbia pedroi, ou entre aquela e as eufórbias arbustivas das ilhas Canárias e de Marrocos, há indícios de uma origem comum, africana ou mediterrânica, para estas grandes eufórbias das falésias litorais do arquipélago da Madeira e do continente português.

Bastante frequente no Porto Santo, recebeu o epíteto piscatoria em alusão ao uso do látex destas plantas para atordoar os peixes em covas de rocha à beira-mar, enchidas de água e peixe pela maré alta e esvaziadas da água à chegada da maré baixa. Desse modo, a pesca seria facilitada, embora não saibamos se isso afectaria a qualidade do pescado. Esta prática foi entretanto abandonada, o que talvez justifique a dificuldade em encontrar peixe fresco nos restaurantes do Porto Santo. A planta é conhecida em língua inglesa como fish-stunning spurge; em português chamam-lhe figeira-do-inferno.

A descrição da espécie é do botânico escocês William Aiton (1731-1793), que a menciona, em 1789, no catálogo (Hortus Kewensis) das plantas cultivadas nos Kew Gardens, de que foi director por trinta anos. Não consta que tenha estado na Madeira, mas terá decerto recebido muitas amostras botânicas dos inúmeros naturalistas britânicos que visitaram o arquipélago ou nele viveram ao longo do século dezoito.


Pico do Castelo, Porto Santo

02/04/2016

Erva de espantar ratos


Euphorbia lathyris L.


Como todas as suas congéneres, esta eufórbia segrega um látex irritante quando lhe ferimos o caule. A prudência aconselha-nos a não lhe pôr a mão em cima, e talvez ratos e toupeiras, munidos de uma sabedoria instintiva, saibam igualmente manter-se à distância. Pois diz-se que a planta é tradicionalmente usada para afugentar esse bichos de hortas e jardins. Não sabemos se a sua eficácia é equiparável à do proverbial espantalho para pássaros, mas parece-nos que qualquer outra eufórbia de médio porte (como a E. characias e E. hyberna) faria o mesmo serviço. Impõe-se reconhecer, à revelia do botanicamente correcto, que há eufórbias mais bonitas do que outras, e que a Euphorbia lathyris, com as suas folhas glaucas dispostas aos pares numa simetria perfeita, é de uma elegância quase estatuesca. É provável que seja cultivada pela beleza, mas quem a semeia por gostar dela pode sempre usar o pretexto de espantar ratos para não dar parte de fraco.

Planta bienal, glabra, capaz de atingir 1,5 m de altura, de caule geralmente não ramificado, florescendo na Primavera e no Verão, a Euphorbia lathyris, que é originária da Europa mediterrânica (Córsega, Itália, Sardenha, Grécia), encontra-se hoje disseminada por quase todo o mundo, e é uma invasora confirmada em paragens longínquas como a Austrália e a América do Norte. Em Portugal é pouco comum (vimo-la apenas no Minho), mas noutros países europeus é presença assídua perto de povoações, em terrenos baldios e bermas de estrada.

19/05/2015

Rio obeso


Chamaesyce canescens (L.) Prokh. subsp. canescens [= Euphorbia chamaesyce L.]


Deslizando pela IC5 entre Alfândega da Fé e Mougadouro, os montes parecem-nos agora mais atarracados e os vales menos profundos, efeito do rio Sabor que começou a inchar doentiamente quando no final de 2014 as comportas da barragem foram fechadas. A alteração brutal da paisagem, o afogamento do vale, o arranque de centenas de milhares de árvores e o desaparecimento de habitats mediterrânicos únicos não podem ser descritos como melhorias, nem (santa ingenuidade!) como o preço a pagar por finalmente haver água à farta numa região onde ela costumava ser escassa. A água que ali está represada serve apenas para produzir energia eléctrica: nunca chegará à torneira de ninguém nem irá regar campos ou pomares ressequidos. Passada a euforia da construção, em que algumas centenas de operários poderão ter animado a economia local, o Nordeste Transmontano não tirará qualquer benefício desta forma destrutiva de progresso. Muito pelo contrário: albufeiras obesas e eutrofizadas há muitas pelo país fora; rios como o Sabor só havia um. Aqueles que procuram lugares genuínos e bem preservados terão menos motivos para visitar Trás-os-Montes. E, como quem espeta mais um prego no caixão, a mesma tragédia com os mesmos protagonistas prossegue inexorável no também transmontano vale do Tua.

Face ao corte de zimbros e azinheiras, à obliteração das mais importantes populações portugueses de buxo silvestre, e ao desaparecimento de herbáceas raras como a Mentha cervina e a Bufonia macropetala, a perda por afogamento da planta que hoje ocupa o escaparate talvez não justifique muitas lágrimas. Pende sobre ela a suspeita antiga (reproduzida na Flora Ibérica) de não ser europeia de puro sangue, mas antes um «arqueófito» originário da Anatólia e do Irão. Como quase todas as suas congéneres, algumas delas (como a C. serpens e a C. maculata) frequentadoras de fendas de calçadas urbanas, a Chamaesyce canescens prefere solos pisoteados, no seu caso com um certo grau de humidade - lamacentos é talvez a palavra certa. O leito de cheia de um rio como o Sabor é, por comparação, um lugar de prestígio onde ela, longe de prever que um lago desabaria sobre a sua cabeça, teve a ousadia e a imprudência de se instalar.

A suspeita de que a C. canescens tenha origem exótica não foi ainda confirmada e talvez nunca venha a sê-lo, fazendo lembrar aqueles processos judiciais que se arrastam anos a fio até que prescrevam sem serem levados a julgamento. Nessa altura o arguido declara que foi reconhecida a sua inocência, mas o público em geral fica a pensar outra coisa. Contudo, se a C. canescens for mesmo nativa do nosso território, como é bem possível que seja, então a sua presença por cá tornou-se tão esporádica (quatro registos apenas no portal Flora On) que, se tal publicação existisse, a espécie teria lugar garantido no Livro Vermelho da Flora Vascular Portuguesa.

O género Chamaesyce aparenta estar bem caracterizado morfologicamente: são ervas rasteiras, anuais, de folhas assimétricas na base, com inflorescências como as das eufórbias, mas axilares em vez de terminais e sem ramificação dicotómica. Contudo, estudos genéticos recentes vieram questionar a sua independência, optando agora muitos autores por incluí-lo no género Euphorbia. Um verdadeiro regresso ao passado, pois Lineu, o pai da taxonomia moderna, baptizou esta planta em 1753 no seu Species Plantarum como Euphorbia chamaesyce.

09/05/2015

Barril de flores


Euphorbia terracina L.


Três meses decorridos sobre a nossa viagem ao Algarve, e folheado o álbum de fotos até à última página, está na hora de nos despedirmos. A última planta da série algarvia (nada inferior às suas antecessoras, convém ressalvar) empurra-nos já para outras latitudes. Anda longe de ser exclusiva das praias do sul, embora nos últimos anos pouco tenha sido vista a norte do Tejo. Dada a profusão de eufórbias que já por aqui desfilaram, não será ofensa dizer que esta de média dimensão (uns 40 cm de altura, por vezes bastante mais) não é das mais distintivas, apresentado vincadas semelhanças com a E. serrata e a E. segetalis. Da primeira distingue-se pela forma das folhas e pelos apêndices lineares dos nectários; da segunda pelo aspecto geral prostrado e muito ramificado, pelo serrilhado das folhas e das brácteas, e pela textura lisa das cápsulas (as da E. segetalis são rugosas). Em Portugal, a Euphorbia terracina ocorre (ou ocorria) do Minho ao Algarve em dunas e pinhais costeiros, mas noutros pontos da sua distribuição circum-mediterrânica afasta-se até 100 Km da costa. Vimo-la em maior profusão na ilha de Tavira, tanto na duna secundária como à sombra das casuarinas que ladeiam a miniatural linha férrea do Barril. Exibia uma floração ainda incipiente, e com a época mais adiantada teria sido possível apreciar melhor a arquitectura dicotómica da sua inflorescência.

É este lamento recorrente de termos chegado antes de inaugurada a festa das flores que, quem sabe, nos fará regressar ao Algarve em época mais propícia, porém já não em 2015 nem talvez a tempo de reportar no blogue o que por lá descobrirmos. Houve dois ou três mistérios botânicos que ficaram por desvendar, e como não somos egoístas damos ao leitor oportunidade de se debruçar sobre um deles. No cabo de São Vicente, nos interstícios das pedras calcárias que forram o chão a poucos metros das arribas, vimos uma Silene algo semelhante à vulgar S. littorea das dunas litorais. No entanto, e apesar de não vislumbrarmos outra candidata plausível entre as quarenta espécies do género descritas para Portugal, as diferenças na folhagem, no hábito e até no recorte das pétalas sugerem que esta silene vicentina não é a Silene littorea. Eis as fotos para o leitor entendido dizer de sua justiça.