Mostrar mensagens com a etiqueta Quiaios. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Quiaios. Mostrar todas as mensagens

28/12/2011

Favas contadas

Orobanche foetida Poir.
Nome vulgar: erva-toira-denegrida
Ecologia: parasita de diversas plantas leguminosas, vive em matos, pastagens, zonas arenosas e lugares ruderalizados
Distribuição global: Península Ibérica, ilhas Baleares e norte de África (Argélia, Marrocos, Tunísia e Líbia)
Distribuição em Portugal: ainda que não seja comum, ocorre em todas as províncias do continente
Época de floração: Abril-Junho
Data e local das fotos: Maio de 2011, serra da Boa Viagem (Quiaios, Figueira da Foz)
Informações adicionais: planta com hastes robustas que podem ultrapassar os 70 cm de altura; semelhante à Orobanche sanguinea C. Presl. que, embora mais rara, também ocorre em Portugal

30/11/2011

A última da tribo

Cheirolophus sempervirens L. (Pomel)
Nomes vulgares: lavapé, viomal
Ecologia: clareiras de pinhais e de outras matas perenifólias, margens de cursos de água, taludes rochosos
Distribuição global: nativa da Penínula Ibérica (Portugal e Espanha) e talvez de Itália; introduzida em França
Distribuição em Portugal: centro e sul da faixa litoral no continente
Época de floração: Maio a Agosto
Data e local das fotos: Julho de 2008, Fórnea (foto 2); Julho de 2010, Mata Nacional das Dunas de Quiaios (fotos 1 e 3)
Informações adicionais: planta perene, algo pubescente, de base lenhosa, com caules até 1,5 m de altura, folhas alternadas simples e lanceoladas; capaz de formar moitas em sítios húmidos
Adenda: com esta planta completamos a série de sete fichas semanais que dedicámos à tribo Cardueae da família Asteraceae. Embora nem todos as plantas da tribo sejam espinhentas (a de hoje não é), ela inclui muitas das plantas vulgarmente conhecidas como cardos. As suas inflorescências não exibem as «pétalas» características de outras asteráceaas, pois são apenas constituídas por longos florículos tubulares.

10/11/2011

A nadar em seco

Delphinium pentagynum Lam.
Esta espécie é vivaz e natural do centro e sul da Península Ibérica, e do norte de África. Dá-se melhor em clareiras de bosques, terrenos em pousio e margens de riachos com solos bem drenados. A haste floral atinge os 70 cm de altura; tem na base uma roseta de folhas caducas, palmadas, muito divididas e com pecíolo longo, e outras mais acima, esparsas e alternadas. A floração decorre entre Maio e Agosto, mas a data certa depende do habitat.

Seria necessário desmembrar estas flores (de cerca de 25 mm de largura em azul violeta) para se ver que têm quatro pétalas e cinco sépalas (que parecem pétalas, com cerca de 12 mm de diâmetro), uma das quais, a do topo, termina numa espora. As duas pétalas de cima produzem néctar e esticam-se até ao bordo da espora para nela o depositarem. Os insectos beneficiados por este formato são, naturalmente, os que têm língua comprida e afiada, e são estes de facto (além dos colibris, onde os há) os polinizadores mais habituais das plantas deste género.

Estas esporas chamam a atenção apesar de curtas por terem a ponta arrebitada para cima. Como cálice para néctar parece uma postura imprudente, o pitéu pode entornar-se. Mas o mais certo é que isso traga vantagem à planta, que corresponda a um estratagema para garantir uma polinização mais bem sucedida. Na verdade, desse modo os polinizadores têm de forçar o acesso ao néctar, e com isso roçar o corpo nas estruturas com o pólen (amarelo, logo à entrada) que é sua missão colectar e disseminar. Além disso, neste género é frequente que a distribuição de néctar pelas flores não seja equitativa, e que as populações organizem um esquema de recompensa. Funciona do seguinte modo: a maioria das flores não tem néctar (logo a inclinação da espora é irrelevante) e umas poucas têm muito néctar, estando quase ausentes flores com quantidades intermédias de néctar. E, portanto, como numa venda de rifas, os insectos têm maiores hipóteses de recompensa se visitarem mais flores à procura daquelas onde se concentra o alimento. Contudo, a parcimónia na distribuição da recompensa poderia levá-los a desistir demasiado cedo. Determinar a proporção ideal de flores com (muito) néctar entre as muitas flores vazias de modo a maximizar o número de visitas por insecto (e portanto optimizar a eficiência da polinização) é um problema matemático complicado de que estas plantas parecem ter descoberto a solução.

24/10/2011

Erva-loira da Boa Viagem

Senecio lusitanicus (Cout.) R. Pérez-Romero [= Senecio doronicum subsp. lusitanicus Cout.]

A serra da Boa Viagem, entre Quiaios e Figueira da Foz, é muito frequentada no Verão por famílias piquenicantes. Antes de se estenderem as toalhas e de se abrirem os cestos, e de toda a gente abancar para a refeição, há ainda que ir em romaria espreitar o miradouro da Bandeira. É de lá que se vê a serra descer abruptamente sobre a tira de areia que confronta a extensão azul do oceano. É um local de eleição para aqueles que, gostando da natureza, não se querem cansar a procurá-la. Estacionam o carro, sentam-se no muro do miradouro, respiram fundo, batem meia dúzia de fotos: está tudo visto, podem ir embora.

Quem tenha gosto em botanizar fará mal em ser tão displicente. Como noutras paragens do centro e sul do país, o solo calcário e pedregoso é promessa infalível de orquídeas à farta, mas as plantas que fazem deste um lugar ímpar são outras. Precisamente duas. A mais vistosa, no auge da floração em finais de Maio, é o lírio-amarelo-dos-montes, um endemismo ibérico que tem talvez aqui a sua maior população portuguesa. A outra, que começa a florir um mês antes, é uma erva-loira (género Senecio) que só parece existir na Boa Viagem, em Montejunto e nos arredores de Lisboa. Na capital a sua existência está por um fio, mas nas duas serras do centro-oeste do país, se não houver perturbações de monta, ela é numerosa quanto baste para ter o futuro assegurado. Isto apesar de Franco, no vol. II (de 1984) da Nova Flora de Portugal, ter afirmado que a planta é raríssima — o que, não sendo verdade, pode traduzir-se, num país onde o trabalho de campo é tão irregular, num prematuro atestado de óbito. Se Franco, na sua incontestável autoridade, escreve que algo está em risco de desaparecer, então é de esperar que, dez ou vinte anos depois, tenha mesmo desaparecido. E, se desapareceu, já não há que preocuparmo-nos com a sua conservação. Só que, sem que ninguém se dê ao trabalho de verificar, a planta continua a existir nos locais onde sempre existiu.

E a nossa erva-loira bem merece protecção, pois, embora o seu estatuto taxonómico tenha suscitado dúvidas e opiniões contraditórias, há algum consenso em que se trata de um endemismo lusitano de distribuição muito restrita. O primeiro registo é de 1913, na Flora de Portugal de António Xavier Pereira Coutinho, que lhe chamou Senecio doronicum subsp. lusitanicus. João do Amaral Franco acata a opinião de Coutinho, mas houve outros autores que consideraram o taxon como um sinónimo ou uma subespécie de Senecio lagascanus. Taxon esse que, em todo o caso, exibe claras diferenças tanto em relação ao S. lagascanus como ao S. doronicum, sobretudo na forma e na indumentação das folhas, que têm uma textura lanuda, como se tivessem sido polvilhadas com pó de talco. Muito recentemente, em 2009, um grupo de botânicos da Universidade de León encabeçado por Rafael Pérez-Romero publicou, no vol. 47 da revista Compositae Newsletter, um estudo comparativo em que conclui pela necessidade de separar as plantas portugueses numa espécie autónoma. O artigo, com o título "Senecio lusitanicus (Asteraceae, Senecioneae), a new combination for a species from Iberian Peninsula", pode ser lido aqui [PDF].

É de esperar que a subida de escalão seja ratificada pela Flora Ibérica quando for publicado o volume das asteráceas. Ficará então oficialmente estabelecido que a serra da Boa Viagem alberga uma das três únicas populações conhecidas de um precioso endemismo lusitano. Que medidas tomar para preservar tal tesouro? Talvez seja suficiente não estragar.

07/07/2011

Estranho pólen


Salix arenaria L.
[em baixo à esquerda, flores femininas; à direita, flores masculinas]


Os choupos (género Populus) e salgueiros (género Salix), por pertencerem à mesma família botânica, têm algumas características em comum. Uma delas é que, tal como os animais, as populações destas árvores estão organizadas por sexos. Há árvores masculinas e árvores femininas: só as primeiras é que produzem pólen e só as segundas é que produzem sementes. As flores masculinas dispõem-se em amentilhos flexíveis, largando o pólen quando o vento as agita; excepcionalmente, o transporte do pólen para as árvores femininas pode também ser feito por insectos devidamente recompensados com néctar. Depois de polinizadas, as flores femininas convertem-se em frutos que, abrindo-se, deixam ver os tufos de «algodão» que rodeiam as sementes. Esse «algodão» é o modo de as sementes criarem asas e serem dispersadas pelo vento a grandes distâncias. Entre fins de Abril e princípios de Maio, quando as sementes são libertadas, andam flocos brancos pelo ar como se caísse uma neve seca. Em muitas cidades de Portugal, onde o choupo híbrido (Populus x canadensis) foi plantado em larga escala, é essa a altura de as pessoas se queixarem das suas alergias, atribuindo as culpas àquilo a que chamam pólen dos choupos.

Há aqui, evidentemente, vários equívocos. Chamar pólen às sementes do choupo é tão disparatado como chamar pólen às pevides de uma laranja. E esse algodão que envolve as sementes, podendo ser motivo de algum incómodo, não é o responsável pelas alergias. São os pólenes invisíveis de que o ar está carregado — produzidos por gramíneas, por árvores de fruto, e até por ervas espontâneas como a Parietaria judaica — que provocam as reacções alérgicas. Mas como o que se vê é o «pólen dos choupos», toca de amaldiçoar a árvore e exigir o seu abate. Decorre no país, de norte a sul, uma caça ao choupo que parece uma caça às bruxas. É sempre mais fácil gratificar a ignorância (como se faz nesta vergonhosa notícia do JN, em que até uma «especialista» patenteia a sua incompetência) do que tentar corrigi-la.

São fotos do salgueiro-anão que encabeçam esta prosa; está pois na altura de falarmos dele. Trata-se de um arbusto em geral rasteiro, mas que por vezes atinge 1,5 m de altura. Em Portugal parece estar restrito ao litoral entre o Mindelo (Vila do Conde) e Peniche. A Mata Nacional das Dunas de Quiaios, local onde as fotos foram captadas, reúne das maiores e mais bem conservadas populações da espécie que conhecemos.

Há algumas dúvidas taxonómicas quanto a este salgueiro: há quem considere que Salix arenaria e Salix repens são sinónimos, outros opinam que o primeiro é subespécie do segundo, outros ainda que se trata de duas espécies autónomas. Em todo o caso, parece haver duas formas suficientemente distintas do salgueiro-anão: a que vive nas dunas do litoral (S. arenaria) e outra, em geral menos corpulenta, que se encontra nalgumas (poucas) turfeiras da serra do Gerês (S. repens).

03/06/2011

De-lírio

Iris lusitanica Ker Gawl. [= Iris xiphium var. lusitanica (Ker Gawl.) Franco]


A serra da Boa Viagem, afamada pelos fósseis, parece ser, pelo nome, uma mão gigante que cumprimenta o viajante sem o convidar a deter-se. Sábia medida pois há ali redutos de flora – diversa porque em diferentes altitudes e exposta a doses distintas de maresia – que não dispensam protecção. A mata, de pinheiros, lentiscos, medronheiros, madressilvas, tojo e urze, tem áreas estragadas por acácias, mas as encostas de calcários e grés, recheadas de orquídeas em Abril e pintadas de amarelo em Maio, compensam largamente esta nódoa. Em dia de céu sem neblina, do miradouro da Bandeira, à cota mais alta da serra, avistam-se salinas, uma praia extensa de areia branquinha e, afiançam alguns, as Berlengas. Se não alongarmos tanto a vista, veremos agora, a nossos pés, centenas de exemplares deste lírio amarelo.

Não sabemos que idade têm as cores, mas é certo que, com o tempo, ganharam dezenas de matizes que os dinossauros da serra não conheceram. Em Março, o amarelo que pintava estas encostas era dourado, de Narcissus bulbocodium. Há cerca de um mês, foi a vez do amarelo-bico-de-melro do célebre Senecio doronicum. No fim de semana passado, encontrámos o amarelo-maduro deste lírio. Pela rama, parece uma versão noutro tom dos maios-roxos, mas notam-se algumas pequenas diferenças entre os dois: neste, as tépalas externas são mais arredondadas e têm uma nervação fina acastanhada; as folhas são igualmente estreitas mas mais compridas; as hastes aparentam ser mais baixas e uma vez por outra têm duas flores em vez de uma só. Serão estas razões suficientes para uma distinção taxonómica?

Em qualquer caso, o lírio-amarelo-dos-montes é um endemismo da Península Ibérica, que ocorre apenas no centro de Portugal e na Extremadura espanhola. Prefere solos ricos em argila e calcário de locais pedregosos, abertos e soalheiros. Tem interesse económico como planta ornamental, por isso é urgente que a sua colheita seja vigiada por leis que transponham para Portugal as directivas europeias que, acautelando os habitats naturais, regulamentam a sua exploração. Quem sabe, o novo ministro do Ambiente terá tempo para dar atenção a este assunto.

10/02/2011

Antes que chegue a Primavera

Erica erigena R. Ross


As urzes fazem parte daquela matéria vegetal indiferenciada mas perigosamente inflamável a que alguns chamam biomassa. Ao se amalgamar toda a riqueza do mundo vegetal num único substantivo de conotação claramente desdenhosa ocasionam-se atitudes como a daquele responsável militar que mandou cortar muitos hectares de pinhal em São Jacinto. Alegou ele que a operação mais não foi que uma limpeza rotineira da biomassa em excesso. De facto, a biomassa não tardará a recuperar, mas, em vez de ser composta por pinheiros, salgueiros e camarinhas, sê-lo-á exclusivamente por acácias. Para o general em guerra contra a natureza não fará qualquer diferença.

Os montes hoje em dia forrados a tojo e urze tiveram, noutras eras, uma cobertura arbórea que a ocupação humana reduziu a quase nada. Esses matos representam a primeira etapa do processo de regeneração natural; se cessarem a pastorícia com as suas queimadas periódicas, se regredirem todas as actividades humanas que intervêm activamente na paisagem, então as árvores regressarão pouco a pouco aos montes de onde foram expulsas. Como isso não acontecerá tão cedo, a vegetação pioneira acaba por assumir carácter permanente. No entanto, é já possível em certas zonas do interior do país testemunhar essa sucessão ecológica com o avanço progressivo dos bosques de carvalho-negral. Talvez seja consolador saber que, quando nós desaparecermos, desaparecerão também as urzes dos montes.

Só que há urzes e urzes. Pelo porte avantajado (até 2 metros de altura) e pela coloração rosada das flores, a Erica erigena até se poderia confundir com a Erica australis. Acontece que as duas dificilmente se encontram lado a lado em ambiente natural: a E. australis coloniza encostas secas de norte a sul do país; a E. erigena, por contraste, carece de humidade quase permanente no solo, e em Portugal, onde se encontra só no litoral centro e numa pequena faixa entre o Alentejo e o Algarve, está restrita a margens de lagos e de cursos de água a baixa altitude. As plantas que fotografámos, e que vivem junto à lagoa da Vela, em Quiaios, são bem exemplificativas dessa preferência.

O habitat é pois um indicador importante quando se trata de identificar urzes. Convém, no entanto, realçar alguns detalhes morfológicos. As folhas da Erica erigena, que se agrupam em verticilos de quatro, têm as margens dobradas de tal modo que só deixam entrever uma estreita faixa da face inferior. E as flores, com cerca de 7 mm de comprimento, são também especiais: o cálice é formado por quatro sépalas rosadas, pontiagudas, e as anteras são escuras, emergindo timidamente do tubo da corola. Talvez seja proveitoso ao leitor comparar estas flores com as de outras urzes já aqui antes mostradas.

Refira-se, a concluir, que a Erica erigena, espontânea na Península Ibérica, França e Irlanda (erigena significa "irlandesa"), é quase sósia da Erica carnea, uma urze alpina e centro-europeia que não ocorre em Portugal nem em Espanha, mas que é por vezes vendida em centros de jardinagem. As duas urzes têm boas qualidades ornamentais e partilham a virtude de florir no Inverno.

18/01/2011

A pequena taça

Narcissus tazetta L.
My plentie makes me poore
Ovid, Metamorphoses (trad. Arthur Golding)

Há vários deuses na mitologia grega que, como nós, nunca entraram no Olimpo, indesejados por se contentarem com um destino humilde e terreno, ou ali mal recebidos porque associados ao mundo dos mortos, ou ainda afastados por castigo. Foi esse o caso de Eco, culpada de incessante tagarelice. E também Narciso, filho da ninfa azul Leiriope, de quem se vaticinou "Terá vida longa se não chegar a conhecer-se", não escapou à punição. Vaidoso da sua beleza, que nunca quis consumir em paixões, recusou todos os amores com que o assediaram. Um dia, sequioso, abeirou-se de uma nascente límpida, não perturbada por brisa ou sombra, e viu o seu reflexo. Enamorado por tão belo jovem, tentou abraçá-lo e, ao perdê-lo, reconheceu-se. Devastado, ali chorou a mágoa de desejar o inatingível, atormentado por saber-se para sempre fiel à sua imagem. Ao golpear-se com um punhal, a terra transformou-o numa flor.

Estranhamente, este mito incentivou o uso de um óleo perfumado obtido de algumas espécies de narciso e recomendado como vulnerário e bálsamo para as frieiras, mas que é também narcótico. Essa essência poderia ter sido extraída do Narcissus tazetta. Trata-se de um narciso originário do Mediterrâneo, abundante em relvados húmidos, solos rochosos, vinhas e campos de cultivo, que está naturalizado em Portugal e em muitos outros países. As suas folhas têm o tom verde-azulado característico do género, são estreitas, erectas e ligeiramente torcidas, e atingem 20 a 50 cm de comprimento. Ao contrário do N. calcicola, as hastes florais do narciso-de Inverno são altas (20 a 40 cm) e podem exibir uma dezena de flores, cada uma com cerca de 4 cm de diâmetro. E há ainda a subespécie aureus, que por ser toda amarela terá poderes medicinais suplementares. O epíteto tazetta é o nome vernáculo italiano para estas plantas, diminutivo de tazza (taça).

No ano passado reparámos que a floração de muitas plantas se atrasou umas duas semanas relativamente ao previsto. Este ano, como compensação, parece que elas se estão a adiantar, pois já encontrámos muitos narcisos em flor (N. bulbocodium, N. calcicola e N. tazetta). Podemos enfim suspender a dieta de fetos e musgos.

04/01/2011

Erva de Sampaio

Verbascum litigiosum Samp.
Já aqui mostrámos círios como este, e o aspecto destas plantas, especialmente na época de floração, não deixa dúvidas quanto à identificação do género. Mas o Verbascum litigiosum é uma espécie que merece destaque: trata-se de um endemismo lusitano, dos areais marítimos do centro e sudoeste português (do Algarve à Serra da Boa Viagem), embora haja quem considere que ele se restringe à faixa costeira entre Leiria e Cascais, nascendo a discórdia da sua semelhança com o Verbascum thapsus L..

Essa parecença — no hábito de candelabro, nas folhas espatuladas, na penugem densa e amarelada e na ausência de manchas púrpura na garganta das flores — levou mesmo a que o V. litigiosum fosse tido como subespécie do V. thapsus. No V. litigiosum, porém, os filamentos dos cinco estames (no centro da flor) são glabros e as anteras (grãos de arroz castanhos no topo) estão dispostas transversalmente. Detalhes que, segundo os entendidos, bastam para lhe dar autonomia como espécie, sem contudo lhe alterar o epíteto (que significa controverso, duvidoso).

Todo este trabalho de destrinça pode, todavia, ter sido em vão. É que, de vulnerável nos anos noventa, o verbasco-de-folhas-grossas, que é bienal, passou a ter o estatuto de espécie ameaçada — e o risco de desaparecer deve ser elevado, a julgar pelos vários decretos-lei que o protegem. Apesar disso, persistem o pisoteio e a erosão das dunas e arribas onde habita, além da extracção de inertes a que a expansão urbana e turística perversamente obrigam.

Este exemplar é da praia de Quiaios. As folhas aveludadas basais são alternadas, com penugem nas duas faces e pecíolo longo; as caulinares, que abraçam o caule, escondendo-o, são sésseis e mais pequenas. Na parte terminal da haste dispõem-se, entre Abril e Maio (em Junho, quando foi fotografada, já eram raras as espigas cobertas de flores amarelas), as flores em fascículos, destacando-se em geral uma flor maior ao centro. Em cada flor, o cálice de sépalas lanosas, acuminadas e com cerca de 7 mm de comprimento, é fendido quase até à base, deixando entrever pétalas grandes de interior glabro. A cápsula avantajada de sementes mal cabe no que resta do cálice.

Chamou-se Verbascum lusitanicum ou V. crassifolium, mas o nome actualmente aceite foi-lhe atribuído em 1913 por Gonçalo Sampaio (1865-1937), botânico em cujo herbário encontramos uma amostra da flora que por cá vai tristemente rareando.

30/11/2010

Baleio

Levantámo-nos cedo, num rebuço de infância, ainda as estradas não estavam postas. Íamos ver orquídeas de Verão junto à Lagoa da Vela, em Quiaios, mas o atraso dos acompanhantes do passeio permitiu que vagássemos antes pelo pinhal. Ali a areia é fina, pronta a saltar para a bainha das calças ao menor gesto do pé, e o ar cheira a lavado. Em passadas curtas, com o embalo silencioso das caminhadas na neve, percorremos algumas dunas, de olhos ensonados no chão. O manto de estrelinhas amarelas pareceu-nos àquela hora um pouco baixo, mas não desconfiámos, afinal nas madrugadas acontecem coisas estranhas porque ninguém está acordado para as ver.

Odontitella virgata ( Link ) Rothm. — Mata Nacional das Dunas de Quiaios


Mas, ao contrário dos bafejados com encontros do terceiro grau, que raramente têm à mão uma oportuna máquina fotográfica, o nosso fotógrafo registou a aparição. Para mais tarde se confirmar que afinal se tratava apenas de espigas ligeiramente curvadas de flores e cápsulas de sementes ainda com o estilete longo, dispostas de lado como figuras egípcias.

Aprendemos depois que esta hemiparasita anual é um endemismo ibérico, mais abundante na metade ocidental, nativa de quase todas as províncias portuguesas. É uma herbácea peludinha, de hábito desgrenhado (virgata), com caules que podem chegar aos 60 cm de altura e folhas opostas lineares. O nome dela vem mudando há dois séculos, desde a designação Euphrasia linifolia atribuída por Brotero em 1804 por pensar que seria a espécie assim nomeada por Lineu; mas essa é a que hoje se chama Odontites luteus (L.) Clairv. e, de facto, não ocorre em Portugal. Depois de ser Odontites virgata, emancipou-se em 1943 como espécie única do género Odontitella, com base em diferenças na corola e no pólen.

O cálice de cada flor, protegido por brácteas um pouco mais curtas (veja a imagem à direita), é tubular mas fendido até um terço — medida que ajudou à sua saída do género Odontites, onde tal sulco é mais cavado. A corola é bilabiada e tem cerca de 15 mm; amarelece laranja e mostra timidamente um lábio inferior dividido em três lóbulos pouco profundos — o detalhe que a distingue do género Euphrasia — e um superior como um capucho onde os estames se protegem.

O nome, que deriva de Odontites a que se juntou o sufixo diminutivo ella, alude às propriedades medicinais da Odontites vulgaris Moench, que serviu noutras eras para acalmar dores de dentes, ou para alindar os molares dos que riam casquinando, a sacudir o corpo como quem se livra do excesso de riso.

29/11/2010

Senhor das suas folhas

Halimium halimifolium (L.) Willk. — Mata Nacional das Dunas de Quiaios


A foto de uma flor não é uma flor; e, para os saudosistas do papel, aquilo que se vê no écran, e que se pode apagar carregando numa tecla, talvez não seja bem uma foto, mas uma ilusão. Dupla ilusão, portanto: a ilusão de uma foto onde está representada a ilusão de uma flor. Mas que fazer quando a realidade da flor já não está ao nosso alcance? Quando no pinhal onde floriu esta sargaça, e que não nos fica assim tão perto de casa, a vida está suspensa até à próxima temporada? Mostrar a flor, ou a ilusão da ilusão da flor, é marcar no calendário de 2011 um lembrete para o regresso.

O Halimium halimifolium, que no nosso país vive nos pinhais costeiros do centro e do sul, e de um modo geral se distribui pela metade oeste da bacia mediterrânica, é certamente o arbusto mais atraente de um género a que temos prestado atenção assídua (confira aqui, aqui e aqui). Com o seu porte empertigado (pode ultrapassar o metro e meio de altura) e a sua folhagem de um verde prateado, destaca-se pelas grandes flores amarelas, com ou sem pintas, que brotam profusamente entre Junho e Agosto. É nessa altura que os pinhais onde vive se transfiguram em jardins requintados, atravessados por uma mescla de perfumes onde sobressaem a caruma e a maresia.

A variabilidade das flores merece uma nota: o tamanho da mancha castanha na base das pétalas pode variar, mas é uniforme em cada arbusto. A mesma planta ou dá só flores sem pinta, ou as dá só com pinta, e sempre com a pinta do mesmo tamanho. Contudo, essas oscilações cromáticas não parecem ter qualquer significado taxonómico.

O nome Halimium halimifolium, que traduzido à letra dá um lapalissiano halímio com folhas de halímio, pode suscitar alguma estranheza. A aparente idiotice deve-se a Lineu, por em 1751, no seu Species Plantarum, ter chamado à planta Cistus halimifolius; o alemão Wilkomm, quando em 1878 a transferiu para o género Halimium, foi obrigado a manter o epíteto específico. E, de facto, o halimifolium (ou halimifolius) não foi motivado pela semelhança do arbusto consigo mesmo, mas sim com a salgadeira (Atriplex halimus). Essa outra planta, a que os gregos chamavam hálimos, tem folhagem igualmente acinzentada e é característica dos sapais mediterrânicos, surgindo em Portugal da ria de Aveiro para sul.

16/09/2010

Dois passarinhos na mão

Kickxia cirrhosa (L.) Fritsch
Desconfiámos da folhagem porque parecia um cirro pouco abonado que tivesse despencado das nuvens e onde mal se distinguiam, como é usual nestas formações estratosféricas, uns pingos violeta. Quando fotografados, revelaram-se linárias minúsculas, com esporõezinhos a preceito. Não, não, disseram pouco depois os livros em casa: isso já lá vai, foram linárias entre 1789 e 1897. Com atenção, mesmo sem avaliar diferenças mais intrincadas, teríamos percebido porquê: estas flores são solitárias e as linárias nascem em inflorescências, em geral terminais ou axilares. Paciência, aprendamos então.

É uma herbácea anual de ramos delgados e pubescentes. As flores, de Primavera, medem cerca de 7 mm desde o lábio superior à ponta do esporão. Repare o leitor que as folhas são sagitadas e algumas têm gavinhas — ou cirros — que as podem erguer até 90 cm. Aprecia solos arenosos mas temporariamente encharcados, mais ainda se perto do mar, como as margens da Lagoa da Vela, em Quiaios. Segundo a Flora Ibérica, é nativa da região mediterrânica ocidental, Açores, Canárias, metade sul da Península Ibérica e ilhas Baleares. O nome do género homenageia um boticário e naturalista de Bruxelas, Jean Kickx (1775-1831), autor de uma obra sobre a flora dessa região.

Kickxia spuria (L.) Dumort.
Quando, semanas depois, encontrámos estes pardais amarelos de papo lilás — igualmente axilares mas comparativamente gigantes com os seus 15 mm de comprimento —, ouviu-se um sorridente «são quíquecias!». Também é uma planta anual, mas prefere solos cultivados e argilosos. A lã nas folhas pareceu suficiente para um casaco XS mas ao tocá-la, tão fofinha, revelou-se desagradavelmente pegajosa. O hábito rastejante e preguiçoso foi louvado pelo fotógrafo e é comum à espécie K. elatine, que difere desta essencialmente no esporão que não é curvo. Por falar nisso, spuria não deriva do inglês spur (espora) mas do latim spurius (que originou espúrio), por isso o povo sábio lhe chama linária-bastarda. Partilha o território com a K. cirrhosa, mas estende-se a quase toda a Península Ibérica, Mediterrâneo, sul e oeste da Europa e sudoeste da Ásia.

04/09/2010

Espiral de Verão

Spiranthes aestivalis (Poir.) Rich. [Lagoa da Vela, Quiaios]


Muito se tem escrito sobre O Meu Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes. É um road-movie que nos destapa: leva-nos os olhos por esse Portugal dentro, o Portugal que não é a West Coast of Europe da promoção, mas um país antioceânico, de minúsculas enseadas fluviais, uma paisagem pétrea, indiscernível, incessante, com florestas e matas ameaçadas, como se, de alguma maneira, elas (e não nós) se tivessem tornado ocorrências lesivas. É um filme que nos leva pelos cabelos a ver Portugal: um país a que se acede pela camioneta da carreira, ainda de ritos, de ofícios manuais, de jornais de província, de feiras, cabisbaixas ou não, e datas para assinalar... Um país arcaico, onde o desassossego da condição humana se exprime no tom estático e impávido que têm os autos ou que teve, um dia, o teatro grego.

José Tolentino Mendonça, O Hipopótamo de Deus e Outros Textos (Assírio & Alvim, 2010)